Vinicius Torres Freire

A política da economia

 

Empréstimo "de graça" no BNDES

A taxa de juros que o BNDES "cobra" em seus empréstimos para empresas grandonas vai ficar negativa, em termos reais, agora no segundo trimestre do ano. A taxa vai ficar em 6%, decidiu o CMN. A expectativa de inflação para os próximos 12 meses já está em 6%, e deve subir nos próximos meses, pelo menos até a metade do ano.

Ou seja, na prática, em parte dos empréstimos, os maiores, o BNDES não vai cobrar nada pelo serviço.

A TJLP

O Conselho Monetário Nacional (CMN) manteve em 6% ao ano a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) que vai valer entre 1º de abril a 30 de junho de 2011. A decisão foi tomada em reunião extraordinária do CMN, realizada hoje para que a medida pudesse valer já no início de abril.

A TJLP está em 6% ao ano desde o terceiro trimestre de 2009, no menor nível desde que foi criada, em 1994.

A TJLP serve de base para as taxas de juros cobradas em empréstimos do BNDES em financiamentos de longo prazo para grandes empresas.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h20

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Tá frio ou tá quente: há menos crédito novo

O ritmo de concessão de crédito caiu ou não depois das medidas de dezembro do Banco Central?

Caiu. As medidas "macroprudenciais" do BC parecem estar funcionando, até agora. E devem funcionar mais, dado o novo imposto sobre empréstimos tomados no exterior, que vai reduzir a quantidade de dinheiro disponível para o crédito aqui dentro.

Mas houve alguma controvérsia, digamos, na análise dos dados sobre crédito no país, divulgados ontem pelo Banco Central.

Medidas macroprudenciais: o que é isto?

As ‘medidas macroprudenciais‘ são decisões administrativas do BC que afetam a quantidade de dinheiro disponível para crédito nos bancos e, assim, a taxa de juros para o tomador final. Por meio delas, obriga-se a banca a deixar mais dinheiro parado no BC a deixar de reserva mais dinheiro para cada empréstimo concedido, a elevar tais exigências se o financiamento é de longo prazo (o que acaba por encurtar os prazos dos crediários) etc.

A princípio, tais medidas têm como objetivo evitar que o sistema financeiro se exceda, empreste demais a quem não tem como pagar.

Calotes em massa avariam bancos, e bancos avariados são um problema para a economia inteira. Mas tais medidas têm como efeito colateral óbvio a redução da oferta de crédito, do consumo e da inflação.

Os economistas mais ou menos ortodoxos dizem que medidas ‘macroprudenciais‘ colaboram no controle da inflação, mas têm defeitos: 1) afetam pouco as decisões de poupança e de investimento; 2) sua intensidade e o tempo de seu efeito são incertos ou ainda desconhecidos; 3) criam distorções e ineficiências no mercado de crédito.

A controvérsia sobre o crédito

Por exemplo, o aumento da quantidade de crédito em relação ao PIB, 46,3% em janeiro para 46,5% em fevereiro, provocou certa confusão. Este indicador, estoque de crédito, é a soma de todos os empréstimos concedidos e ainda por vencer. Não é um bom número para verificar como anda a concessão de novos créditos.

Além do mais, houve quem se apegasse demais ao número de fevereiro, que aparentemente indicava retomada na concessão de crédito. "Aparentemente", pois o número bruto e analisado isoladamente não permite que se notem o quanto as variações desse único mês se devem a fatores típicos de um período, mas que as distorcem, os ditos fatores sazonais.

Por fim, não é possível avaliar os dados, mesmo uma tendência de curtíssimo prazo, observando os dados de apenas um mês. É preciso considerar pelo menos um trimestre. E, assim fazendo, dá para ver que estava certo o técnico do BC que apresentou os dados de ontem sobre crédito, Túlio Maciel, chefe-adjunto do Departamento Econômico do Banco Central: "As medidas macroprudenciais tiveram êxito para conter as modalidades de crédito que estavam com crescimento mais acelerado [como automóveis e o consignado]... Estamos vendo uma acomodação no ritmo do crédito".

Os dados

Um modo mais preciso de considerar os dados de ontem do BC podem ser vistos no relatório que o departamento de pesquisa econômica do Itaú soltou ontem, assinado pelo economista Adriano Lopes:

Trechos:

* "A efetividade das medidas adotadas fica evidente na manutenção de taxas de juros mais elevadas e interrupção da expansão do prazo médio das operações. Por sua vez, a manutenção do aperto nas condições de crédito se refletiu em um ritmo praticamente estável das novas concessões em termos reais dessazonalizados tanto a pessoa física quanto a pessoa jurídica em fevereiro com relação a janeiro";

"Em termos reais dessazonalizados, a média diária das novas concessões de crédito pessoa física ficou estável em fevereiro na comparação com janeiro. Desta forma, as concessões de crédito permaneceram 9% abaixo do patamar exibido em novembro de 2010, mês imediatamente anterior ao advento das medidas macroprudenciais de crédito."

"Em compensação, a concessão das modalidades de crédito mais afetadas pelas medidas subiu em fevereiro com relação a janeiro: a concessão de veículos cresceu 13,7% no mês enquanto que, na mesma base de comparação, a concessão de crédito pessoal aumentou em 5,0%. Mesmo com esta elevação na margem, o ritmo de concessão de veículos e crédito pessoal é, respectivamente, em termos dessazonalizados, 18% e 9% menor que os níveis de novembro do ano passado.

"A média diária das novas concessões pessoa jurídica (em termos reais dessazonalizados) caiu 1,0% de janeiro para fevereiro. Com esse resultado, a média móvel trimestral do ritmo de concessões pessoa jurídica passou de -0.8% em janeiro para -1,3% em fevereiro"

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h06

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Brasil: tá frio ou tá quente?

A economia brasileira começou a esfriar? Um pouco, parece. Quão pouco, é cedo para saber _quão pouco no que interessa à política monetária, no que diz respeito à inflação etc, entenda-se.

Os salários passaram a crescer menos, na média, embora a massa salarial continue a crescer bem e a taxa de desemprego, comparada anualmente, continue a baixar (segundo a pesquisa do IBGE).

As vendas no comércio dão sinais ainda indefinidos. Se excluídas as vendas de veículos, motos e autopelas, as vendas do varejo (pesquisa IBGE) deram uma acelerada de dezembro para janeiro, crescendo 1,2%. No total, com carros e motos etc, caíram 0,2%. Mas em janeiro houve um baque nas vendas de veículos devido às mudas nas taxas e prazos de financiamento, por sua vez derivadas das mudanças "macroprudenciais" no crédito, baixadas pelo Banco Central. Em fevereiro, porém, houve recuperação nesse mercado.

No entanto, em 12 meses o crescimento das vendas do comércio ainda é de 12,3% (conceito "ampliado", que inclui carros etc. Sem carros etc, 10,7%).

E o crédito?

Hoje, a Febraban disse em seu "Informativo Semanal de Economia Bancária" que sim, a concessão de crédito deu uma esfriada em fevereiro, em especial no caso das concessões à pessoa física, em especial na comparação com o resultado de janeiro de 2010. O motivo, outra vez, foi o impacto das "medidas macroprudenciais" do BC; em parte menor, a alta da Selic deve ter ajudado a afastar tomadores de crédito.

Ainda assim, fevereiro vai parecer melhor do que janeiro. O "Informativo" da Febraban procura antecipar o balanço mensal sobre o crédito, que será divulgado amanhã pelo BC. O pessoal da Febraban acredita que a quantidade de crédito em relação ao PIB "...deve voltar a subir e atingir o patamar recorde de 46,8%".

Qual o resumo da ópera do "Informativo" da Febraban? "Tudo considerado, os números não parecem indicar retração, mas um impacto pontual forte e uma desaceleração em 12 meses, mas diante de uma base elevada de 2010. Dessa forma, fica a dúvida se [a desaceleração] é suficiente para cumprir os objetivos do BC e não podemos descartar a adoção de novas medidas".

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h25

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Embolada de Japão com Arábia

A gente, em especial nós, jornalistas, presta atenção demais nos mercados financeiros. É preciso, ok. O dinheiro grosso, finanças em particular, faz o mundo girar, derrapar e capotar, de vez em quando. Mas a gente deveria ser capaz de também ignorar alguns paniquitos e as justificativas furadas que os "mercados" e seus porta-vozes dão para esses ataques momentâneos de loucura.

Considerem o caso do "choque do petróleo", devido ao tumulto nos países árabes, e do "risco de nova crise mundial", devido aos horrores no Japão.

Trata-se de dois casos sérios, sem dúvida, de preocupar de fato quem observa a economia, quem toca negócios e mesmo quem apenas pode sofrer os efeitos mais distantes desses problemas, da alta do preço de combustíveis até o emprego, passando por aplicações financeiras.

Mas o que sobrou do ataque de pânico inicial?

O preço do petróleo subiu. Subiu um pouco mais rápido que já vinha subindo desde o trimestre final do ano passado, alta devida ao reaquecimento da economia mundial e, em parte menor, ao efeito especulativo, ao fato de haver muito capital barato e baixo custo (juro quase zero) sobrando no mundo rico. Capital sobrando valoriza preço de ações, moedas de países emergentes e o preço de commodities (combustíveis, minérios, metais, comida).

O caso da revolta árabe

Mas note-se que se falava de "choque do petróleo". É um risco. É. Se a Arábia Saudita entrar em tumulto, a coisa fica feia. Mas nada se sabia da dimensão da alta de preços e sua duração. Havia incerteza (isto é, situação em que não dá para calcular os efeitos da crise). Incerteza é problema em qualquer mercado. Mas os cálculos do risco eram disparatados, e o dos efeitos da alta do petróleo também. Enfim, o assunto ia morrendo, assim como parecia morrer o impulso inicial das revoltas democráticas no mundo árabe.

O preço do petróleo ainda vai subir, de forma a avariar o crescimento mundial rapidamente? Quanto, em quanto tempo? Continua a pergunta. Apostas são feitas e desmanchadas a cada minuto. Crise na Líbia volta a esquentar? Petróleo sobe. Mas o Japão não vai baixar seu consumo nos próximos meses. Petróleo cai. Ou, para ser mais preciso, são montadas e desmontadas operações financeiras com base nessas apostas de preço futuro.

O caso do Japão

Da confusão do dia 14 de março nos mercados financeiros pode-se dizer não muito mais que se tratou apenas de uma confusão infernal.

A Bolsa japonesa caiu quase 18% em dois dias _até aí, paniquito quase normal de mercado financeiro em relação a um ativo de risco.

Uma crise séria no Japão poderia causar recessão mundial? Ou mesmo recessão no Japão. Naqueles dias, havia estimativas de queda de 6% a queda nenhuma do PIB do Japão. Ou seja, qualquer coisa poderia acontecer.

O Japão é mais ou menos 5%, 6% da economia mundial. Tem crescido pouco ou nada, faz duas décadas. Que efeito teria na economia mundial, em termos apenas quantitativos? Pouco, de novo. Poderia haver interrupção da "cadeia de suprimentos de insumos industriais de ponta"? Parece, dizem os entendidos. Mas o assunto morreu em dois, três dias.

O preço das commodities despencou. Aí o caldo entorna. Se o efeito da crise japonesa sobre o crescimento mundial seria muito pequeno, mesmo na pior das hipóteses, como então poderia haver queda tão significativa no consumo de commodities? Não poderia haver, ainda mais no caso de comida _os japoneses dificilmente deixariam de comer tanto assim. Metais e minérios? Pode ser, num primeiro momento. Mas o Japão teria de reconstruir o que foi arrasado pelo terremoto. Ou seja, pelo tamanho do movimento do mercado de commodities, deu para ver o quanto há de posição puramente especulativa.

O iene se valorizou brutalmente. Isto é, o dinheiro grosso passou a comprar muito iene. Por qual motivo? Por que, diz a tese ou a lenda, haveria repatriação em massa de investimento japonês. Seriam vendidos ativos em outras moedas, seriam comprados ienes, pois companhias de seguro teriam de dispor de fundos, pois bancos teriam de ter mais caixa, pois empresas recuperariam dinheiros a fim de fazer caixa também etc etc. E, pensando nisso, muita gente aproveitou a possível tendência de alta do iene para ganhar algum, se antecipando à compra.

Especulou-se que haveria uma balançada grande nos preços relativos das moedas mais negociadas no mundo, o real inclusive. Mas o Banco do Japão, o Banco Central deles, com apoio dos países do G7, jogaram um dinheiro na praça e esfriaram a especulação.

Resumo da ópera?

Não há. As crises no Oriente Médio, Norte da África e no Japão são sérias e ainda de desenvolvimento muito incerto. Mas se dá atenção demais ao momento sensacional. São esquecidos os problemas de base da economia mundial ou desenvolvimentos mais tediosos e incompreensíveis, talvez até mais importantes.

As taxas de juros estão para subir no mundo rico. A União Europeia deve elevar os juros ainda em abril. O programa de despejo de dinheiro na economia americana, por parte do Fed (o BC deles) deve acabar em junho (esse despejo de dinheiro influencia toda a economia mundial, de Bolsas a commodities, passando pelo real, ressalte-se). O que vai acontecer com as moedas do mundo? Com a taxa de juros dos EUA?

Com alta de juros, como vão se virar os governos quase quebrados de países como Grécia, Portugal, Irlanda (note-se que a crise nesses países conteve retomada da economia do mundo rico em meados do ano passado).

O mundo anda mais devagar do que o noticiário, em especial do noticiário em tempo real. E é mais confuso. E incompreensível. E complicado demais.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h43

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Revoltas árabes: um monte de tolices

Líbia

Quase ninguém chama o que está acontecendo na Líbia de guerra civil. Não é mais "revolta", ação de "rebeldes" etc. É guerra civil. E, para variar, nós aqui no Ocidente não estamos entendendo nada do que se passa na Líbia. Era uma superditadura "estável", certo? Então, passa uma semana, há tropas armadas tomando o país do Gaddafi. Como assim? O que estava "pegando"? Quem desertou? Quem deu armas para a oposição? Por que o regime estava tão podre?

Estados Unidos

  • Faz quase 60 anos que a política americana para o Oriente Médio só dá em besteira _em particular, para os habitantes dos países do Oriente Médio. As vergonhas mais recentes são o Egito e a Líbia;
  • No caso do Egito, logo no início dos protestos de rua a atitude americana foi apoiar o regime do ditador e patrocinador de torturas, repressões e corrupções Hosni Mubarak. Obama e cia. baixaram um pano rápido diante dessa vergonheira quando perceberam que Mubarak não se aguentaria nas pernas. Ainda assim, a elite e os burocratas corruptos da autocracia egípcia e o establishment euroamericano estavam mesmo a fim é de se livrar apenas de Mubarak e tocar tudo como dantes. E a coisa está amainando por lá. Os militares podem ficar no poder. Como dantes;
  • Note-se que a França de Sarkozy também fez gracinha com Mubarak e, para piorar, vários membros do governo francês, a começar pela chanceler, eram amiguinhos de Ben Ali e sua turma, da Tunísia;
  • No caso da Líbia, os EUA e o Reino Unido começaram a fazer média com Gaddafi quando o ditador tresloucado disse que não aprontaria mais para o lado "Ocidental’. Tony Blair foi bajular Gaddafi (aliás, como Lula). Agora está aí o demente passando fogo no povo líbio;
  • A guerra no Iraque custou mais ou menos US$ 1 trilhão para os Estados Unidos, uma guerra justificada com uma fraude vulgar, por um governo de fanáticos negocistas (o de George W Bush). Caso os EUA financiassem a insurgência democrática pelo Norte da África e no Oriente Médio, qual seria o custo? Em dinheiro, vidas e liberdades?
  • A política americana para o Irã é um desastre desde 1953. Foi então que os serviços secretos americano e britânico ajudaram a derrubar o premiê Mossadegh, que havia estatizado o petróleo e tinha o apoio de comunistas e aiatolás. Sem Mossadegh, o xá Pahlevi tocou a sua ditadura com terrorismo de Estado, apoiada pelos EUA. Pahlavi foi tão longe que estimulou uma revolta, logo dominada pelos fanáticos religiosos. Uma sequência de inépcias e cinismo.

"Revolução das mídias sociais"

  • Enfim, vai aparecendo a voz de gente sensata (e minimamente politizada, com noção de história) para colocar no devido lugar essa história de que as revoltas árabes se devem às "mídias sociais", internet etc. Houve tanta falação deslumbrada a respeito de mais uma revolução "twittada" ou "facebookeada", agora essa do Egito. Todo mundo tão animado com essa modinha, esse clichê autocentrado, etnocêntrico e ignorante sobre revoluções digitais;
  • De acordo com jornalistas, comentaristas e observadores ocidentais do "mainstream" não seria possível haver Revolução Francesa, Russa, maio de 1968, Diretas-Já ou as revoluções que derrubaram as ditaduras comunistas, dado que na maioria dessas revoluções não havia nem telefones;
  • Imaginem Camille Desmoulins (1760-1794) comentando em seu "La France Libre" a Revolução Francesa e atribuindo a "revolta" às novas mídias, a imprensa e o papel;
  • Para piorar, apesar de tanta conversa mauricinha sobre ‘novas mídias‘, no fim das contas quem protesta contra a censura velada de a velha mídia da TV, a censura das transmissões da Al Jazeera, cassação político-comercial de um ponto de vista diferente, o árabe?

No post abaixo, alguns textos alternativos à bobajada da mídia ocidental sobre algumas revoltas árabes:

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h56

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Revoltas árabes: um pouco de inteligência

Alguns textos alternativos à bobajada da mídia ocidental sobre algumas revoltas árabes:

"Pessoas, não coisas, são os instrumentos da revolução": uma crítica à patacoada sobre mídias sociais e revoltas populares, no mundo árabe e alhures: http://techcrunch.com/2011/02/11/tools-of-revolution/

Uma ótima descrição da reação política da ditadura egípcia à revolta popular, dos combates no Cairo e uma reflexão sobre as origens do tumulto, por um jornalista que vive no Cairo: http://www.lrb.co.uk/v33/n04/issandr-elamrani/why-tunis-why-cairo

Para entender um pouco melhor a revolta egípcia, um texto de Saba Mahmood, antropóloga, da Universidade da Califórnia (Berkeley), na ‘Nation‘. Saba mostra como a revolta esquentava faz meia década, na mistura de movimentos sindicais com jornalistas-cidadãos blogueiros, de revolta dos miseráveis com a de jovens sem futuro: http://www.thenation.com/article/158581/architects-egyptian-revolution

Olivier Roy, sobre as "revoluções pós-islâmicas": http://www.lemonde.fr/idees/article/2011/02/12/revolution-post-islamiste_1478858_3232.html

Como os "especialistas" erram, e erram de novo: Egito, Tunísia, crise financeira de 2007-09, bolha pontocom, crise asiática de 1997, louvação picareta, pamonha e liberalóide das maravilhas da Argentina de Menem, do México de Gortari, colapso da URSS etc etc: os especialistas erram uma vez, duas vezes etc e de novo: http://blogs.reuters.com/great-debate/2011/02/11/the-experts-were-wrong-again/

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h51

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O Brasil ainda está com tudo: na "Economist"

O Brasil continua muito queridinho na praça financeira global e entre seus principais porta-vozes midiáticos. É verdade que tem saído dinheiro da Bolsa brasileira, fuga impulsionada pelo aumento da inflação, pelas perspectivas de crescimento econômico um pouco menor em 2011-2012 e pelo fato de que o pessoal tinha mesmo comprado muita ação brasileira _tinha exagerado, já ganhou alguma grana e, agora, dados alguns riscos macroeconômicos, estão dando um fora temporário.

A "Economist" desta semana, publicada hoje, tem três matérias sobre o Brasil. Um editorial elogiando Dilma, uma reportagem sobre a disputa do salário mínimo e do ajuste fiscal, e uma terceira a respeito da animação das firmas de "private equity" e dos "hedge funds" em comprar empresas brasileiras.

Segundo a revista, o mercado financeiro do Brasil é bem regulado e algumas de suas normas serão imitadas pelo mundo rico. A economia vai bem, tem boas perspectivas de crescimento, a autorregulação privada é boa e incentiva a transparência etc. O Brasil, enfim, é um lugar para se estar.

Todos os textos são muito positivos.

Dilma

Um dos editorias da revista, que apoiava a aleição de José Serra, trata do início do governo Dilma. Dizia temer, como "alguns brasileiros", que Dilma fosse uma "esquerdista ideológica mais rígida do que Lula". Mas escreve que os primeiro sinais do governo são "tranquilizadores".

Por quê? Por que a presidente: 1) Mostrou que quer combater a inflação; 2) Diz que vai se dedicar a eliminar a miséria; 3) Prometeu reformas política e tributária; 4) Começou a mudar política externa de Lula, que apoiava ditadores bárbaros e coisas como Ahmadinehjad, e fez um voto de defesa dos direitos humanos; 5) Prometeu cortar gastos públicos, coisa ainda pouco crível, segundo a revista, mas Dilma luta o "bom combate"; 6) A presidente procura nomear gente de qualidade para os cargos públicos, peitando as piores demandas dos partidos de sua coalizão.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h45

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Deu no WSJ: novo iPad já em produção

O "Wall Street Journal" diz que o novo iPad já está em produção. Iria para as lojas mais ou menos em dois meses. De novidade que o jornal conseguiu apurar, apenas um câmera embutida e, claro, um processador mais rápido, mais memória; o aparelho seria mais fino e leve _os óbvios de qualquer melhoramento na área. A faixa de preços seria a mesma (US$ 499 a US$ 829, nos Estados Unidos).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h02

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O salário mínimo no máximo

Dilma Rousseff vai bater o pé a fim de manter o reajuste do salário mínimo para, no máximo, R$ 545. Segundo a regra informal acertada no governo Lula (inflação mais o crescimento do PIB de dois anos antes), o reajuste levaria o mínimo para pouco mais de R$ 538 (apenas a inflação, pois em 2000 a economia não cresceu). O governo fixou, a princípio, R$ 540. As centrais sindicais querem R$ 580. Dizem que o governo Dilma quer voltar à política de "arrocho" do mínimo, o que não era o caso do governo Lula (e, é preciso lembrar, nem do governo de Fernando Henrique Cardoso). Nos governos FHC e Lula o mínimo cresceu mais do que o PIB. De resto, como Dilma poderia estar querendo "arrochar" se está apenas cumprindo a norma acertada no governo Lula _aliás, está até concedendo reajuste real, acima da inflação.

Lula disse ontem que a reivindicação das centrais é "oportunismo" _o ex-presidente está no Senegal, no Fórum Social Mundial.

Mas as centrais programa uma série de protestos, "rodadas de mobilização nacional" pelo reajuste do mínimo (que reajusta o piso do INSS), pelo reajuste dos benefícios de quem ganha mais do que o mínimo (vetado por Dilma, até agora, pelo menos) e pelo reajuste da tabela do Imposto de Renda (o que significa reduzir o imposto, na prática).

O reajuste do mínimo eleva a despesa da Previdência, do INSS, que, por esse e outros motivos, passou de 4,5% do PIB em 1995 para uns 7% do PIB agora. Ou seja, a despesa previdenciária cresce mais do que o PIB. A fim de cobrir o aumento da despesa, ou aumenta-se a arrecadação de impostos (a carga tributária) e/ou aumenta o deficit do governo. Se o deficit do governo aumenta, ou a dívida pública cresce ou cai devagar. O que é um empecilho para a queda dos juros (apenas um deles, é verdade).

Até onde é racional aumentar, pois, a despesa pública?

Por fim, a respeito do efeito social do aumento do salário mínimo, considere-se: quase 30% dos brasileiros (com renda) recebem menos do que mínimo; no Nordeste, são 49%. O valor do mínimo equivale a mais de o dobro da renda média dos 20% mais pobres do país.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h40

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Riqueza americana

A economia dos Estados Unidos cresceu 2,9% em 2010, segundo a primeira prévia do PIB. Vão sair ainda outras duas revisões, a próxima em 25 de fevereiro. Como o número costuma mudar muito, é bom não se aventurar muito no comentário. Mas não parece muito arriscado dizer:

1) O risco terrível de nova recessão nos EUA passou;

2) Apesar de ter crescido, o nível de produção nos EUA ainda é o equivalente ao final de 2007. Ou seja, a economia americana está mais ou menos estagnada faz três anos. Note-se que o crescimento de 2007 já havia sido baixo, 1,9%, inferior ao da "tendência" de mais ou menos 2,5% ao ano;

3) O resultado do último trimestre foi mais forte do que parece, ao menos segundo os primeiros números. Houve uma enorme redução no acúmulo de estoques. Ou seja, os americanos consumiram a uma velocidade muito maior que a do crescimento da produção. E, enfim, no último trimestre o setor externo contribui bem para o crescimento americano: será o dólar fraco?;

4) Apesar do ânimo do final do ano, as famílias continuam muito endividadas, e a dívida do governo deve passar de 100% do PIB por volta de 2015/2016, diz o FMI;

5) O desemprego continua altíssimo, por volta de 9,5%, quase o dobro da média de 5% da década anterior à crise de 2008;

6) As previsões para este ano são de crescimento de 2,7% (Economist Intelligence Unit) e 3% (FMI).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h27

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O massacre do Rio

Estamos horrorizados com o massacre do Rio, as mortes nas enxurradas, é inevitável, inegável e irresistível.

Ainda estamos. Quanto tempo haverá interesse pelos "recordes" e por "histórias humanas".

Mas desde o começo, a reação emocional tem algo de farisaico, mesmo postiço, para não falar do fascínio pela catástrofe sublime ("o grau do terrível que, impassível, desdenha nos destruir", para parafrasear um certo senhor Rilke num de seus momentos quase kitsch).

Como este blogueiro escreveu em colunas na Folha a respeito do massacre: "Mortes mais rotineiras parecem fazer parte da ordem da natureza; parceladas em poucas dúzias, não provocam a sensação do ‘recorde‘, do ‘pior’ em ‘n’ décadas‘ e outros clichês midiáticos".

Cerca de 35 mil mortos no trânsito, por ano, não causam tamanha comoção (cerca de um sexto das vítimas morre atropelada. Outros tantos assassinados, também não. Mortos por diarreia, tuberculose, alcoolismo, malária etc etc, aos dezenas de milhares. Também não.

Nestes dias da mortandade do Rio, tornou-se indignação bem-pensante dizer que os cadáveres não podem ser colocados na conta da natureza, mas sim na das ‘autoridades‘ ineptas, que de fato são, na maioria dos casos, pode-se apostar às cegas. Mas o massacre fluminense não é uma espécie de "erro administrativo".

No Brasil o risco de morte estúpida é ‘sistêmico‘; a conivência com a morte é sistemática, pois toleramos sistematicamente o nosso modo de produção de crueldades (favelas, muquifos em barrancos ou flutuando em esgotos, pobres largados em insalubridades de qualquer espécie, violência física, pura e simples etc etc).

Para assinantes da Folha:

"Massacres naturais", coluna de 16 de janeiro

"Alerta de mortes estúpidas", coluna de 18 de janeiro

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h48

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O império chinês ataca, de mansinho

Nos últimos dois anos, a China emprestou mais dinheiro para países "em desenvolvimento" (pobres e remediados, Brasil inclusive) do que o Banco Mundial. O levantamento foi feito pelo diário econômico britânico "Financial Times".

O Banco de Desenvolvimento da China e o Eximbank da China (de apoio ao comércio exterior) emprestaram pelo menos US$ 110 bilhões para governos e empresas de países pobres em 2009-10.

O jornal não diz, mas esse valor não inclui um monte de outras operações de empréstimos de companhias chinesas, empréstimos governo a governo, atuação "dirigida" do Banco da China etc. Claro, muito menos inclui investimentos chineses, compras de empresas por múltis chinesas etc.

Muito empréstimo vai para empresa de energia _petróleo. E para países que não se dão lá muito bem com os EUA.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h46

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O BBB como "IPO" de mulheres

O Carnaval costumava ser a temporada de "IPOs" de mulheres. Não mais, ou não apenas no Carnaval. Agora, os lançamentos principais parecem acontecer no BBB (Big Brother, aquela coisa, vocês sabem).

Sim, de IPOs, de "Initial Public Offerings", a ocasião em que uma empresa lança pela primeira vez suas ações no mercado. Antes, era no Carnaval que se fazia o lançamento das moças de boa catadura, formato ISO 9000-6000-9000 e com disposição para enfrentar o escrutínio público e minucioso de suas partes. Bem lançada, subscrita por uma escola de samba que a colocasse na frente da bateria ou muito desnuda num destaque, por exemplo, a moça logo poderia estar numa das revistas ditas masculinas. Suficientemente nua mas ainda discreta e mais bem relacionada, poderia chegar a um papel "C" numa novela "B".

Indo para revistas, novelas ou até filmes, seu preço no mercado secundário então subiria. Enfim, nós sabemos como funciona esse negócio.

Agora, tanto o IPO quanto o "road show" das moças é o BBB. O escrutínio do mercado é mais longo e amplo, mais critérios são avaliados: "o prospecto" é mais completo. O que promove mais moças ao status de celebridade: principados e reinados em baterias de escolas de samba ou deboche no BBB? Deboche no BBB.

A seleção dos "papéis" é mais longa _o vestibular para o BBB é o mais disputado do Brasil. Não é por menos, visto que passar nesse vestibular rende muito mais que passar anos numa universidade "pró-uni".

O leitor, que é perspicaz, achou este comentário machista? Preconceituoso em relação aos praticantes de artes performáticas, tal como aparecer no BBB? Pode ser. Mas é mesmo?

O autor deste blog deu uma espiada nas audiências e repercussões dos BBs em "países comparáveis", como se diz nas introduções metodológicas. Não há nada comparável em termos de audiência e repercussão internética. O mais parecido com isso é o American Idol, que no entanto promove idioticamente outros talentos, por assim dizer.

O BB brasileiro chegou a um status semelhante ao de finais de novelas, aos de shows de Roberto Carlos nos Natais de antigamente, ao de finais de campeonatos de futebol.

Talvez a gente possa dizer, sarcasticamente, parafraseando antropólogos, que o BBB é um "fato social total", assim como a vaca o é para os nuer (povos do sul do Sudão, que viraram um grande "case" da antropologia. Para a cultura nuer, a vaca tem um papel central: econômico, linguístico, religioso, simbólico).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h13

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Classe média de mentirinha

Classe social sempre foi um conceito complicado, que varia muito a depender da freguesia sociológica. Mas qualquer sociólogo, até os da sociologia terminal de hoje, ficam bestas com o abestado emprego do termo ‘nova classe média‘, esse clichê em geral imbecil ou no máximo tautológico com o qual se descreve de modo inútil um grupo de pessoas que apenas passou a ganhar um dinheirinho a mais no Brasil, deixando o nível da simples sobrevivência.

Essa "nova classe média" é apenas um saco de gatos, uma descrição estatística de uma população que ganha renda acima de tal nível e inferior a qual. Trata-se apenas daqueles que estão mais ou menos no meião da distribuição. Não significa nada mais além disso. Nem mesmo significado econômico relevante tem, além daquele óbvio: quando mais pessoas ganham mais, o mercado cresce. Ponto. E daí? E daí, nada. Porém, é frequente na mídia a atribuição de traços sociais, psicológicos e políticos a esse monte de gente com nada em comum além estarem uma faixa de renda, aliás faixa tão ampla que torna esse grupo de pessoas ainda mais diverso.

Nem mesmo em termos grosseiramente economicistas a descrição é útil. Num estudo bobinho, OCDE observa algumas das características da "nova classe média" latino americana (o que é outra tolice, o "latino americana", pois esse é outro saco de gatos conceitual sem muito sentido). A OCDE é uma associação de três dúzias de países ricos e de alguns remediados, como o México.

Para resumir, leia-se o comentário do secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría: "Uma classe média vibrante é um sinal de boas perspectivas econômicas na América Latina... Entretanto, latino-americanos no meio da distribuição de renda [grifo meu] ainda enfrentam sérias barreiras em termos de poder de compra, educação e segurança no emprego. Esses grupos ainda tem caminho a percorrer para serem totalmente comparáveis às classes médias em economias mais avançadas".

O conceito de classe média da OCDE é quase tão bobinho quanto o da mídia local (brasileira), mas pelo menos é uma tolice mais qualificada. O que falta a essa "classe média" (isto é, a classe de alguém que não vai cair tão facilmente da escada da vida, trocando em miúdos)? Coisas como emprego formal, educação suficiente para ao menos impedir o movimento social descendente, proteção social providenciaria, serviços públicos de educação e saúde, creches educativas.

"No Chile, 39% da população desse grupo ["classe média"] não contribui para nenhum sistema de aposentadoria. Tal número sobe para 52% no Brasil, para 67% no México e para espantosos 95% na Bolívia".

Mas, cacilda, o que seria uma "classe média" que nem ao menos sistema de aposentadoria tem? Isto é, alguém que ficará na rua da amargura se adoecer ou quando envelhecer? Alguém que não pode esperar que ao menos o filho ascenda socialmente por meio de um sistema de educação bom e igualitário?

Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h48

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Paris em preços

Paris. Aluguel de dois quartos e sala em Saint-Germain (81 metros quadrados): 4.700 euros por mês. Menu em restaurante "popular" (no Polidor): 22 euros. Par de botas Berluti: 5.500 euros. Carro "popular" zero: 8 mil euros. Ver fotos e pinturas dos irmãos Caillebotte no museu Jacquemart-André: 12 euros. Jantar para dois no melhor bistrô "normal" da cidade (Chez Michel), sem vinho, mas com pratos de caça, foie gras e trufa: 100 euros. Andar no frio com sol e céu azul: graça de graça.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 07h11

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PERFIL

Vinicius Torres Vinicius Torres Freire é colunista do caderno Mercado. Está na Folha desde 1991. Foi Secretário de Redação, editor de Dinheiro, Opinião, Ciência, Educação e correspondente em Paris.

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