Fogo grego queima o Brasil
Algumas grandes casas bancárias e megafundos americanos estavam a dizer entre o final de janeiro e o início deste mês que o real e os ativos (como ações) brasileiros tinham chegado ao "ponto de compra". Isto é, que estavam mais baratos depois da "correção" de janeiro _as Bolsa brasileira ficou 10% mais barata em dólares. Bem, esta semana a Bolsa brasileira ficou ainda mais barata. Se a aposta de alguns bancos e fundos americanos era para valer, e não lorota, perderam dinheiro. O Brasil desabou debaixo de fogo grego. O resumo da ópera do presente faniquito dos mercados é a "precificação" do risco de calote da Grécia, e talvez de Portugal, quiçá Espanha, todos com déficits públicos entre 9% e 12% do PIB e megadeficits externos (nas transações de bens e serviços com o exterior, na casa de 13% no caso grego). Isto é, o mercado refaz e altera suas apostas financeiras tendo em vista o novo cenário, de calote na Europa. Vai ter calote? Difícil acreditar que a União Europeia deixe tal coisa acontecer. Além de um grande fiasco para o euro, um calote grego abriria mais rombos nos bancos da eurozona, elevaria custos de financiamento para todos os países da região e, no mínimo, jogaria a recuperação europeia para as calendas. Em suma, seria um desastre geral. Mas apenas o risco de calote muda custos financeiros, como o de fazer seguro de crédito (para governos e empresas); isto mexe em taxas de juros. O blablablá sobre riscos cria volatilidades (mudanças rápidas e frequentes de preços), o que exige a mudança da composição das carteiras dos investidores (isto é, alterar a quantidade e tipo de papel que se detém). Vendem-se ativos de risco (empresas com menos nota de crédito, moedas de países "emergentes", commodities, ações etc). Enfim, ocorre uma dança das cadeiras nas aplicações financeiras. Esse o motivo do tumulto destes dias. Aos gregos foi imposto um pacote à moda do FMI, exigido pela União Europeia. Trata-se de um brutal corte de gastos, de 4% do PIB neste ano e mais 6% do PIB em 2011 e 2012. É uma hecatombe, ainda mais num país mais pobre, em que os colchões sociais e de riqueza são bem mais fininhos. A Grécia está em tumulto intermitente desde 2008. Para esta semana, estão marcadas greves do setor privado, público, dos coletores de impostos e uma greve geral, além de protestos de rua. O governo quer aprovar o arrocho no Parlamento até março. E se o pacote não passar? Haverá emoções gregas nas próximas semanas. Há um problema de fundo também, referente à administração da política econômica europeia. Com a crise, governos gastaram muito e o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra despejaram dinheiro nos bancos e na finança a fim de conter mais quebras e as baixas de valores no papelório, além de, assim, tentar ressuscitar o crédito e o crescimento econômico. Agora, autoridades monetárias e fiscais estavam começando a discutir (e implementar) medidas com o objetivo de fechar a torneira monetária. Isto é, trata-se do primeiro passo antes do aumento dos juros, que ainda está longe, para 2011. Mas a implementação de tal política desde já pode enxugar a oferta de dinheiro, tornando ainda mais difícil e caro o financiamento de países superendividados e da periferia europeia, Grécia e Portugal em particular. Obviamente, crédito mais caro e difícil aumenta a probabilidade de calote. Assim, os donos do dinheiro grosso encontraram possibilidades interessantes de especular e ganhar: de especular com o aumento do custo de seguro de crédito para papéis gregos e portugueses, com o risco de desvalorização adicional do euro, com a talvez impossibilidade de os europeus apertarem a política monetária tão cedo Trata-se de apostas financeiras que só aumentam a confusão. Os ativos brasileiros tinham subido de preço devido a uma onda de confiança na força da economia "real" brasileira, decerto. Mas também porque o crédito estava barato no mundo, porque havia pouca volatilidade (variação de preços de moedas e juros, por exemplo). Com aumento de risco, de volatilidade e de custos de seguros financeiros, ficou muito mais caro e arriscado colocar dinheiro aqui. E assim a Bovespa tombou _e o real também. Como o indicam as previsões furadas dos bancos citados acima, a respeito do real, é difícil dizer quanto tempo vai durar a marola. Mas há energia suficiente no rolo europeu para criar novas ressacas no mercado financeiro daqui. A Bovespa caiu 4,73%, uma das maiores baixas pelo mundo, menor apenas, entre as relevantes, que as quedas das Bolsas atingidas diretamente pelo fogo grego: Madri caiu 5,94%, Lisboa perdeu 4,86%. O dólar foi a R$ 1,90, mas fechou em R$ 1,88. Por último, não custa lembrar que dólar mais caro é mais um pouco de combustível para a inflação. Logo agora, em que se discute aqui a alta da taxa de juros, dada a força da recuperação econômica. Ficou muito mais provável a alta precoce da Selic. Em março ou abril.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h49
Juro e dólar, palpites de fora
"O aperto que está precificado na curva é superior ao que nós pensamos que vai ocorrer" (isto é, o mercado futuro de juros está projetando aumentos excessivamente altos da Selic, a "taxa básica" do Banco Central), segundo o pessoal da Pimco, a maior gestora de fundos de renda fixa do planeta; o pessoal do Bank of America que lida com mercados emergentes acha a mesma coisa. Deu na Bloomberg. Daniel Tenengauzer, do BofA: "Para um país como o Brasil, que tem uma história de inflação bem comportada, o juro nominal deveria ser mais baixo". O pessoal do Goldman Sachs diz, por sua vez, que a balançada recente da taxa de câmbio foi apenas isso, uma balançada. Brasileiros que trabalham com câmbio em Nova York e Londres dizem ao blogueiro que concordam com a avaliação _há gente estimando dólar em R$ 1,61 no meio do ano. Isso está certo? Sabe-se lá. Mas é o que diz o pessoal que mexe de fato com o dinheiro. O real foi a moeda que mais se desvalorizou em janeiro, entre as 16 mais importantes do planeta. Ou seja, se esse pessoal está certo, haveria uma preocupação a menos com a inflação. Dólar mais caro em geral significa mais inflação. Verdade que o dólar não vai contribuir para segurar os preços como nos últimos anos; de resto, os preços no comércio mundial se recuperam. Mas um dólar mais caro seria um problema a mais _para a inflação, ressalte-se, no curto prazo, ao menos. Quais os riscos? O pessoal ouvido pelo blog sempre trata do curto prazo. No caso, eles estão pensando em março, no máximo abril. Já é uma eternidade, em se tratando de câmbio. Ainda assim, há fantasmas soltos, o mais evidente sendo a situação crítica das finanças dos países da periferia europeia (Grécia, Portugal, Espanha etc). Mas um resultado ainda pior da balança comercial pode atiçar tropeços de curto prazo, embora o país esteja bem longe de ter problemas nas contas externas tão cedo. Apesar do tom otimista de analistas estrangeiros sobre juros, ao contrário dos rapazes dos mercados daqui, voltamos a pegar um trecho da estrada econômica sujeitas a queda de barreiras e buracos: há os problemas borbulhando nas contas públicas europeias, está chegando o momento em que o impulso do estímulo fiscal vai se desvanecer um pouco nos EUA e, enfim, justificadamente ou não, o mercado treme com qualquer notícia (ou rumor) sobre apertos monetários e bolhas na China.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h40
Bancos ainda na retranca
A retração do crédito nos bancos privados é notícia velha desde 2008. Mas a aparente retranca continua, mesmo a economia tendo saído da recessão faz algum tempo, de acordo com os dados divulgados hoje pelo Banco Central. Desde o início da crise as instituições privadas se recolheram, temendo calotes de tomadores de empréstimos em tempos recessivos. Os bancos estatais chegaram a responder por mais de 80% do aumento do estoque de crédito em alguns meses entre setembro de 2008 e junho de 2008. O saldo de crédito na banca privada chegou a encolher em janeiro e fevereiro. Ou seja, o valor dos empréstimos que concederam foi inferior ao dos empréstimos quitados.
Em meados do ano passado, parecia que a banca privada retomava aos poucos o caminho para a atividade normal. Em setembro e outubro, responderam por cerca de 44% do aumento do estoque de crédito desses meses (antes da crise, ficavam com dois terços). Em novembro e em dezembro, o número caiu de novo, para 27% e 31%, respectivamente.
O desempenho é notavelmente ruim nos bancos privados estrangeiros, que terminaram 2009 com um estoque de crédito menor que o do final de 2008. Alguns representantes de bancos estrangeiros dizem que a ordem de retração veio da matriz. Um grande banqueiro afirma que, na verdade, o dado está em parte distorcido pela variação do dólar _o volume de empréstimos em dólar parece menor, em reais, devido à valorização do real desde o final do ano passado. Pode ser. Mas é preciso mostrar as estatísticas, banco a banco, para verificar o efeito do câmbio em cada setor do mercado (público, privado e privado estrangeiro).
Abaixo, seguem as tabelas com os dados da participação de cada setor no aumento do estoque de crédito, em meses selecionados ("Públicos": bancos como BB, CEF e BNDES; "PrivadoBR": bancos privados nacionais; "PrivadoES": bancos privados estrangeiros). A outra tabela mostra a participação do BNDES no aumento do estoque de crédito dos bancos públicos. Em dezembro, o aumento do crédito do setor público foi quase todo devido ao BNDES).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h22
Previsões, previsões: 2010
As previsões mais atualizadas para o PIB de 2010, nas "melhores casas do ramo", começam a chegar ao consenso de crescimento de 6%. Ontem, a consultoria MB Associados mudou sua estimativa de 5% para 6%, por exemplo. As projeções para a balança comercial, claro, são revisadas para baixo, dada a expectativa de que a economia vá crescer mais. A MB estima que o superávit comercial do ano seja de US$ 5,2 bilhões. Os economistas do Itaú Unibanco já esperam déficit, de US$ 2 bilhões, e deficit em transações correntes de US$ 63 bilhões, ou 3,2% do PIB, já no limite do que pode ser considerado como prudente.
Deficit em conta corrente de 4% do PIB é zona de risco ou, ao menos, de risco aumentado em caso de chuvas e trovoadas na economia mundial. O Brasil não costumava conviver durante muito tempo e em paz com deficits em conta corrente desse tamanho. Decerto hoje a economia está mais arrumada e tem US$ 235 bilhões de reservas; como a expectativa de calote externo é, pois, menor, também fica mais fácil financiar o deficit brasileiro (isto é, investidores externos continuam a trazer capital para o país). Mas, como nunca dantes vivemos tal situação, é preciso ver para crer. De qualquer modo, em tese é difícil imaginar que o real volte a se valorizar com esse déficit externo rapidamente crescente.
Abaixo, segue uma tabela de previsões. As do Santander parecem mais díspares. Talvez o pessoal do banco esteja a ponto de rever suas previsões. Mas notável mesmo é a divergência sobre o que vai ser da taxa de juros (Selic) no final de 2010. Para um assunto tão "técnico", uma diferença de 1,5 ponto percentual é muito bruta (e implica também uma diferença brutal de gastos com juros).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h02
A cara de pau dos banqueiros
Os bancos querem derrubar na Justiça uma taxa que julgam inconstitucional. Brasil? Estados Unidos. O motivo da ameaça de disputa é a taxa proposta por Barack Obama a fim de recolher um dinheiro de instituições financeiras de modo a tapar parte do buraco do Tesouro americano, estropiado pela ajuda aos próprios bancos, eles mesmos, aliás, responsáveis diretos pela lambança financeira. Ao menos é o que deu no "New York Times": "Wall Street estuda um desafio à ideia de taxação", texto publicado hoje. A Associação do Mercado Financeiro e do Ramo de Títulos enviou na semana passada um e-mail aos departamentos jurídicos das instituições financeiras dizendo que a taxa pode ser inconstitucional (por discriminar grandes bancos), diz o "NYT". Esse lobby da finança diz na mensagem ter contratado um grande advogado, especialista em Suprema Corte, para estudar o caso. É extraordinário, pois nem há legislação formal alguma para se estudar.
Caso se confirme a iniciativa, a banca estaria desafiando abertamente Barack Obama, como lembra o "NYT". No lançamento do projeto, na semana passada, entre outros tapas nas instituições financeiras, Obama disse o seguinte: "Em vez de mandar uma falange de lobistas combater esta proposta ou de empregar um exército de advogados e contadores a fim de escapar da taxa, sugiro que vocês simplesmente considerem que devem cumprir com suas obrigações".
O "NYT" observa que o ataque direto a uma eventual taxação divide mesmo a grande banca (os bancos menores, isentos, não estão nem aí). Politicamente, pode ser contraproducente e provocar uma reação ainda maior contra os grandes bancos. Alguns dos maiores banqueiros prefeririam atuar no Congresso, de forma mais discreta, de modo a aprovar uma taxação mais amena.
Paul Krugman, o Nobel de economia e colunista do "New York Times", comentou o caso em seu blog: "Podemos fazer com que a cara de pau seja considerada crime?". Krugman na verdade usa o termo "chutzpah" para se referir à cara de pau da banca _depois de ter recebido ajuda do governo, quer levá-lo à Corte Suprema. "Chutzpah" é o termo iídiche para uma cara de pau especialmente audaciosa.
Krugman continua, respondendo a sua própria pergunta: "Pois, se nós podemos, é o caso de mandar uma monte de banqueiros para a cadeia imediatamente". E explica a "chutzpah", no contexto: "Ok, isto [a atitude da banca] não se adapta bem à clássica definição de ‘chutzpah’, que é quando você mata seus pais e pede clemência por ser um órfão. Parece mais com o motorista bêbado que, depois de matar alguns pedestres, tem sua vida salva no hospital mais próximo e, depois, processa o médico. Diria que é inacreditável, mas realmente deveria ser previsível".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h19
Fome em Nova York: deu na "Economist"
"De acordo com o Food Bank (Banco de Comida) da cidade de Nova York, cerca de 1,3 milhão de nova-iorquinos" dependem sopões e armazéns de comida grátis para se alimentar. Está em matéria da "Economist" publicada hoje: "The Big Apple is Hungry - Increasing numbers of New Yorkers need help getting enough to eat" ("A Big Apple está com fome - Cada vez mais nova-iorquinos precisam de ajuda para ter o suficiente para comer"). "Mais da metade dos domicílios com crianças em Nova York tem dificuldade de comprar comida suficiente. Chocante, uma em cada cinco crianças da cidade, 397 mil, dependem de sopões [para se alimentar] _um aumento de 48% desde 2004", diz o texto da revista. Uma entidade chamada "City Harvest" ("Colheita Urbana") recolhe comida que sobra de restaurantes, fazendas e atacadistas. Distribui sua "colheita" para 600 sopões, abrigos e outros fornecedores de comida grátis. Diz que, em 2009, o número de visitas a seus pontos de distribuição aumentou 62%. Cerca de 1,6 milhão de nova-iorquinos estão recebendo "food stamps" (os cupons do programa "Fome Zero" deles). Para quem quiser e puder ler a revista, a matéria está aqui. O blog e a coluna na Folha vão tentar investigar melhor essa história. Um espanto _isto é, o espanto é que a coisa tenha chegado a essas proporções, de centenas de milhares de pessoas à beira de passar fome na cidade mais rica do mundo.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h12
A tristeza do Haiti
Quem tem ou já teve alguma fé deve sentir um desespero assombrado diante do que aconteceu no Haiti, um dos lugares mais desgraçados da Terra. E quem tem ou teve alguma fé deve saber bem o que significa desesperança. O estupor é ainda maior quando se sabe que Zilda Arns, justo Zilda Arns, também morreu com outros ainda não se sabe quantos milhares de haitianos e com os pobres soldados brasileiros, que faziam um trabalho honrado e estavam para voltar para casa.
Sim, não faz sentido algum procurar sentido numa movimentação geológica que por acaso matou pessoas. Mas o sentimento de desconcerto permanece, até para descrentes. Jó continua a ser uma das histórias mais inacreditáveis da literatura.
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O Haiti é metáfora de desgraça. Como diz o clichê, dispensa apresentações. Mas, para quem quiser ter a dimensão da miséria dento da miséria, da sobrecatástrofe, pode examinar os números crus (e que no dia de hoje soam algo fora de lugar) sobre o país, dispostos nos gráficos e nas tabelas abaixo.
O Haiti não sai do lugar faz pelo menos 30 anos. Pode-se dizer que nem é um resultado ruim para um país que passou a maior parte de sua história em decadência, degradação e selvageria política. A economia haitiana cresceu apenas 5% desde 1990, contra 82% do crescimento de América Latina e Caribe, que já foi muito fraco. Segundo dados do historiador Victor Bulmer-Thomas, a economia haitiana encolheu pela metade entre 1980 e 2000 _lembre-se que o regime dos Duvalier caiu em 1989 (François Duvalier, Papa Doc, foi o ditador selvagem de 1957 a 1971. Jean-Claude Duvalier, seu filho, o Baby Doc, de 1971 a 1986. Seus aliados ficaram no poder até 1989).
A expectativa de vida ao nascer é de 60 anos (73 anos na América Latina). A mortalidade infantil é de 60 por mil nascidos vivos, três ou quatro vezes maior que a brasileira. Mais de um quarto das importações é comida. O país produz açúcar e café. Mas seu solo rico foi devastado por quase séculos de ignorância, ditaduras e guerra civil.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h26
Economistas mão-de-vaca
Pessoas que se formaram em economia costumam dar menos dinheiro para caridade do que formados em outras profissões, diz um estudo dos economistas Yoram Bauman e Elaina Rose, da Universidade de Washington. O trabalho, entre outros exemplos de "evidências empíricas" da mesquinharia da profissão está citado numa reportagem do "Wall Street Journal" que tem como gancho o encontro anual da Associação Americana de Economistas, que ocorre nos primeiros finais de semana depois da virada do ano, e trata do suposto pão-durismo dos economistas. Aliás, o encontro anual da associação ocorre nesta época do ano, diz a matéria, porque os hotéis estão mais vazios e baratos. "Você pode ser um economista se você se recusar a vender seus filhos porque eles podem valer mais no futuro" diz na reportagem um comediante que faria um show durante o encontro. O pão-durismo seria histórico. Num jantar oferecido por Keynes, os convidados tinham de escarafunchar os ossos das aves de caça servidas _havia apenas três para onze pessoas, comentou Virginia Woolf sobre a mesa do amigo, também citada na matéria. Mas talvez fosse apenas um hábito de Cambridge, de onde saiu Keynes. Na sua autobiografia, o filósofo Bertrand Russell volta e meia conta histórias sobre a mão de vaca de seus colegas da universidade, muitos deles aristocratas, como Russell. Russell estudara em Cambridge uma geração antes de Keynes. Conta, por exemplo, que ele e seus amigos tinham cada um de levar um ovo para tomar o café da manhã nos aposentos do futuro filósofo GE Moore, desjejum "famoso pela escassez de alimentos". Mas o americano Milton Friedman, conta também a matéria, ligava a cobrar para os repórteres que o haviam procurado.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h34
Os deprimidos de 2010
Previsões, previsões, eu sei, estão com prestígio menor que o de costume. Mas, para quem tem caderninho de apostas furadas: a "Economist Intelligence Unit" (EIU) diz que a Venezuela vai ser um dos dois países que menos vai crescer em 2010. A EIU é a unidade de pesquisas econômicas do grupo que edita a revista "Economist". O primeiro lugar na perda de PIB fica com a Lituânia, 3,5% nas contas da EIU. A Venezuela vem a seguir, com 3,4%. Porto Rico perderia 3%. Letônia, 2,9%. Irlanda, 2,5%. Em suma, os piores resultados do mundo virão do Leste Europeu. Os "tigres europeus", os bálticos e o tigre celta, a Irlanda, continuarão, na verdade, em depressão. A Espanha teria ainda recuo de 0,2% do PIB, Portugal "cresceria" 0,1%, e a Grécia 0,4%. Resumo da ópera, países com processos de liberalização rápida demais deram com os burros n’água. Países das bolhas imobiliárias também _como Irlanda e Espanha. Portugal, Espanha e Grécia (que com a Itália formam os assim chamados, pelo mercado, "PIGs") ainda padecem também do problema de superendividamento público. Outros destaques do relatório da "Economist":
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h38
Vales e picos do mercado americano
No arroz com feijão das análises de expectativas de mercado nos EUA, a diferença de rendimento ("juros") entre títulos do Tesouro, da dívida pública, de 2 anos e 30 anos ("Treasuries" que vencem nesses prazos) serve como um indicador da tendência futura das taxas de juros. Uma diferença ("spread") muito grande tende a indicar que a economia acelera e que os investidores apostam que há risco crescente de inflação, em especial se o mercado acredita que o BC (o Fed, no caso) está sendo leniente com o risco de alta de preços e adiando uma alta da taxa "básica" de juros. Ou seja, nessa situação, os investidores vendem papéis de longo prazo (como os de 30 anos), o que puxa para baixo o preço de tais papéis e, assim, eleva o rendimento. Isto é, o rendimento dos títulos do Tesouro depende de decisões e preferências do mercado. Sim, o mundo é bem mais complicado do que isso; as reações de investidores e dos BCs podem ser mais ou menos rápidas, a depender de contextos etc. Certo é que curvas de juros muito inclinadas ("spreads" grandes) indicam que o mercado está pedindo mais taxa para financiar o governo. De qualquer modo, os "spreads" entre rendimentos de papéis longos e curtos contam bastante a respeito da história econômica recente dos EUA. O gráfico abaixo mostra a diferença entre o rendimento dos títulos de 2 anos e de 30 anos, de 1977 até esta semana. Os picos do gráfico são, claro, os momentos de grande diferença de rendimento entre os dois papéis, de abertura do "spread", quando a economia está em crescimento bom ou recuperação rápida. Os "vales" são os momentos em que diferença é zero ou quase isso, quando a "curva de juros" está "flat", plana, situação que, em geral, antecipa recessões _vide os "vales" nos anos em torno de 1979, 1989, 2000 e 2007. Pode-se notar que o "spread" entre o rendimento dos papéis de 2 anos e de 30 anos equivale agora ao dos picos das últimas três décadas. Obviamente, a taxa de juros "básica", a meta do Fed, não pode ficar abaixo da atual, entre 0 e 0,25%. Vai subir, é claro. E, claro também, os EUA ainda vão fazer muita dívida num ambiente cheio de gente escaldada pela crise recente e pelo endividamento forte de quase todos os países ricos. Ainda assim, o "spread" é grande, pois ainda se discute se a recessão americana pode ter um repique, em 2011. Ou, ao menos, se discutia tal coisa faz um, dois meses.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h55
Flamengo, pontos corridos e o "entrega Grêmio"
Este blog não trata de futebol _o tema deve provocar mais insultos do que fazer comentários sobre o Fla x Flu entre petistas e tucanos, entre "desenvolvimentistas" e "ortodoxos". Mas vai aqui uma tentativa contribuição ‘suprapartidária‘ para a melhoria do sistema de disputa do campeonato brasileiro. Este blogueiro é Flamengo, mas acha bem desagradável que o sexto título brasileiro do seu time possa vir num jogo malandro, com o Grêmio desfalcado e estimulado pela campanha "entrega Grêmio", lançada na rede por alguns gremistas (vide o escudo "rubro-grêmio" ou do "Flagrêmio", no final do post).
Nas últimas rodadas do campeonato, houve suspeitas de "mala branca" (um time ser pago para encrencar um jogo no qual não teria grande interesse), gritaria ainda maior sobre arbitragens parciais e, agora, há o "entrega Grêmio". Não se falou em "mala preta" (um time ser pago para entregar o jogo), mas, nesse ambiente, não seria coisa improvável de acontecer.
Muita gente acredita que o campeonato de pontos corridos indica de maneira simples o melhor time do campeonato _fez mais pontos, levou. Nos campeonatos em que o campeão é decidido num torneio entre os melhores, pode ser que o time que somou mais pontos não leve a taça.
Mas o campeonato de pontos corridos tem seus problemas:
1) Como estamos vendo, times que não têm mais interesse no campeonato podem jogar partidas decisivas, de corpo mole (isso pode acontecer na ponta de cima e na de baixo do campeonato, com candidatos ao título e ao rebaixamento);
2) No miolo da tabela, sobram times que não têm mais objetivos a atingir nas rodadas finais. Ficam desmotivados, assim como suas torcidas;
Um sistema híbrido, como já foi a fórmula da disputa do campeonato, poderia atenuar tais problemas e tornar o campeonato interessante para quase todos os times, até a última rodada. Um sistema híbrido melhorado de disputa do campeonato poderia prever:
SISTEMA DO NOVO CAMPEONATO
CAMPEÃO
O campeão seria decidido num torneio de quatro melhores: o campeão do primeiro turno, o campeão do segundo turno e os dois times que mais pontuaram (além dos campeões de turno, se houver coincidência). O torneio seria disputado em duas semifinais e uma final. O time que mais pontuou teria a vantagem do empate.
Tradicional? Sim. Mas tal fórmula ainda premia os melhores, evita o "entrega" e as malas brancas e pretas; permite que times que foram mal no início do campeonato se recuperem até para disputar o título. Enfim, haveria muito mais times em condições de disputar o título, nos dois turnos. Haveria menos chances de corpo mole.
Uma fórmula alternativa poderia prever um torneio final sob uma condição. Por exemplo: se um time terminar "x" pontos à frente do segundo colocado, leva o título direto (por exemplo, seis pontos, o equivalente a duas vitórias. O sistema já é empregado em certas modalidades, como nos esportes em que as partidas são decididas por vitórias em games e/ou sets, como no vôlei ou no tênis). De outro modo, haveria o torneio final.
Mas tal fórmula só funciona direito se for apimentada a disputa do rebaixamento. Como?
REBAIXAMENTO
Ninguém seria rebaixado automaticamente. Os seis últimos colocados disputariam um torneio eliminatório. Os quatro mais mal colocados disputariam as "semifinais do rebaixamento" (quem tivesse mais pontos, teria a vantagem do empate). Os outros dois times ficariam na espera dos vencedores dessas partidas. Isto é, os dois times melhores do "G6" do rebaixamento teriam o privilégio de esperar o adversário, jogando apenas uma partida para decidir se descem de divisão.
Complicado? Só na descrição. A fórmula não contém nenhuma complicação essencial.
EFEITOS
No presente campeonato, seis times ficaram na disputa do título até a antepenúltima rodada. No caso do campeonato de turnos, poderia ocorrer tal situação no primeiro e no segundo turnos (que, no atual campeonato, tiveram líderes bem diferentes).
Ainda na penúltima rodada, oito times estavam ameaçados de rebaixamento. Com a fórmula do "torneio da morte", em que a amaça de rebaixamento atingiria seis equipes, o número de equipes ameaçadas cresceria mais.
Ameaçar seis times como "o torneio da morte" faria com que quase todos os times que não estivessem na luta pelo título ou Libertadores ficassem ameaçados de rebaixamento. Mesmo os últimos colocados teriam o incentivo de jogar ao menos para conseguir a vantagem do empate no "torneio da morte".
Enfim, os incentivos de poder disputar o título até o final do campeonato (e também de correr mais riscos de rebaixamento) parecem mais poderosos do que a disputa da Sul Americana (ou mesmo da Libertadores).
Quase todo mundo ficaria ligado no campeonato até o final.
Cairia muito o risco de "entrega", de "malas pretas" ou "brancas".

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h50
Mensalão, mensalões
A nuvem de sujeira do mensalão do DEM obscureceu a fumaça imunda de outros escapamentos descobertos pelos jornais desde o final da semana passada. Está certo que o retorno do reprimido do PFL, aliás, DEM, é difícil de bater: bolos de notas, dinheiro na meia, fila da propina, dinheiro da corrupa sendo chamado de "panetone para pobres" etc. Mas é desoladora a dimensão do espraiamento de mais esta onda de bandalha:
1) Empreiteiras x tucanos: os dados do processo ainda não são todos claros, mas há fumaça nesse processo de "doações";
2) Parlamentares fraudam uso da "verba indenizatória";
3) UNE é acusada de fraudar prestação de contas de convênio com o governo federal;
4) Fraude no concurso da Polícia Civil de SP;
5) Fraude nas despesas de emplacamento do Detran de SP.
Esses são apenas os destaques de uma semana, apenas de coisas de que se sabe, nos jornais de SP.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h07
Moedas fracas, países fortes: EUA e China
Faz meses o banco central dos EUA, o Fed, mantém a conversa de que a taxa básica de juros permanecerá baixa por um "longo período" ("extended period"). Mais uma vez, hoje, Ben Bernanke, fez extensa palestra para dizer a mesma coisa, dizendo ainda que há fábricas ociosas e desemprego demais nos EUA para que se pense em aumentar juros. Logo, a cada vez que Bernanke renova sua falação sobre o "extended period", mais distante tende a ficar a elevação da meta dos "fed funds", dos juros básicos dos EUA. O divertido, porém, é que Bernanke agora se associou à lenga-lenga do "dólar forte", arenga rediviva a cada vez que o dólar fica fraco (desvalorizado) por um "extended period". Normalmente, a conversa sobre o dólar forte é de responsabilidade dos secretários do Tesouro (os ministros da Fazenda deles); a falação tem sido irrelevante pelo menos desde meados dos anos 1980. Mas a coisa não deve vai melhorar com o reforço de Bernanke. "Tudo mais constante", o dólar tende a ficar fraco durante o período em que os juros estiverem baixos, a quase zero, como agora. Isto é, enquanto o Fed continuar a despejar dinheiro na economia a fim de refinanciar financiamentos de casas, subsidiar bancos, enquanto os EUA precisarem exportar mais a fim de compensar a anemia econômica interna etc etc. Quanto a nós, os juros baixos nos EUA por um "extended period" e a decorrente fraqueza do dólar devem fazer com que a tendência do real, no curto prazo, seja ainda de valorização (ou de permanência nessa patamar "forte" de agora). Quanto ao resto do mundo, juros baixos nos EUA significam que ainda haverá enormes fundos, a custo zero, para financiar a compra de ativos no resto do planeta, nos emergentes em particular. Isto é, fundos para alimentar bolhas. Ou o risco delas. De resto, os chineses também vão deixar sua moeda rastejar enquanto o dólar estiver perto do rés do chão. Quer dizer, o yuan vai cair com o dólar, ou ficar baixo como o dólar, barateando também exportações chinesas e evitando uma queda ainda maior do comércio chinês. Logo, vai haver mais manufaturas chinesas batendo às nossas portas _ou melhor, portos. O G2 "rules". EUA e China cuidam do seus quintais, como de hábito, como no ambiente, como na ONU etc etc.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h31
"O Brasil decola", na "Economist"
A capa da "Economist" desta semana é "O Brasil decola - 14 páginas especiais sobre a maior história de sucesso da América Latina" (vide reprodução abaixo). São nove textos sobre economia e finanças brasileiras, extremamente simpáticos e positivos. O conjunto da obra é bastante convencional na abordagem e nos assuntos, mais ou menos o chavão liberal sobre problemas brasileiros, ao nível de "Brasil para principiantes", com largos elogios à estabilidade política e econômica, capacidade empreendedora, grandes recursos naturais etc etc.
Mas, para variar, os erros factuais são poucos e pouco significativos _ a maioria deles poderia ter sido resolvida com uma consulta a um manual escolar de história. O contraponto "Estado obstáculo" versus crescimento domina o texto, mas o trabalho pelo menos é feito de maneira bem completa e, no fim das contas, trata de problemas tão radicados aqui como as palmeiras: burocracia, impostos, Justiça ruim, crime, devastação ambiental etc etc. As novas do país são as sabidas: pré-sal, múltis brasileiras de recursos naturais, "nova classe média" etc etc.
Para brasileiros leitores de jornal, ao menos, o texto é em geral bastante tedioso, pois não há para nós novidade alguma, nem mesmo algum sabor de "livro de viagem" escrito por estrangeiro. Porém, apesar da constatação dos horrores de sempre, trata-se de publicidade certamente positiva para o país. Que está por demais na moda. Como já foi o caso da Argentina. Ou do México. Toc, toc, toc.
A capa é um Cristo Redentor decolando como um foguete. De resto, o parágrafo inicial do texto de abertura da revista consegue mencionar biquinis minúsculos, futebol e carnaval. Talvez, com a moda de tratar do Brasil, eles se cansem do lugar comum.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h21
IOF, dólar a R$ 1,69
O dólar deu uma passeada hoje pela casa do R$ 1,69. A Bovespa voltou a delirar. No momento, belisca os 66 mil pontos. E o IOF, hein? Todo mundo previu isso e aquilo. Mas, cmo diria Chacrinha, redivivo nestes dias, "roda, roda, roda e anima, um minuto pro comercial...". Ou "o programa só acaba, quando termina".
Como se diz mentira sobre dinheiro.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h42

