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Um leitor de blogs, francês e economista, fez uma espécie de "introdução à microeconomia" dos comentaristas de blogs (o texto está num blog francês em inglês, acreditem, e tem ainda observações sobre os sites de jornais que recebem os piores comentários). "Meu argumento é que uma audiência maior automaticamente leva a um diálogo de menor qualidade, relativo ao número de participantes". O autor ressalta que seu modelo deixa de lado os comentaristas malucos, o que é um pressuposto que ele vai ter de relaxar em breve se quiser aperfeiçoar o seu modelo .
A dica do texto veio de uma leitora muito próxima do blog, a jornalista Ana Estela de Sousa Pinto, que dirige os programas de treinamento e de qualidade da Folha e o blog Novo em Folha.
Trecho do texto "A economia dos comentários" (tem até gráfico do custo marginal do comentário e tudo mais):
"If you tell a story to 5 of your friends in your living room, you’ll all have a nice chat until the subject of the conversation changes. Now, try to tell the same story to 5,000 persons in a shopping mall. Chances are that people will want to react, but you won’t have the time and possibility to chat with them all. The resulting free-for-all conversation is likely to be confusing - and I’m not even speaking of that crazy, half-drunk guy who started talking about his time serving in Afghanistan.
You can take steps to push the point non-conversation further right. For instance, a conference can bring 5,000 people together and keep the discussion under control - but that increases organization costs. Moreover, the value of a conference lies in great part in the informal discussions you have in corridors or bars, as opposed to the plenary sessions - thus fitting into my model."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 01h18
Ipea
O Ipea (o instituto federal de pesquisa econômica) estima que a indústria não deve ter crescido nada de setembro para outubro (de agosto para setembro, cresceu 1,7%). Em relação a outubro de 2007, a previsão é de crescimento de 3,3% (em setembro, o crescimento em relação a setembro de 2007 foi de 9,8%).
Santander
Os números dos economistas do Santander são ligeiramente mais alentadores: crescimento de 0,5% em relação ao mês passado (setembro).
O IBGE divulga na terça-feira o resultado oficial da sua PIM (Pesquisa Industrial Mensal). Porém, os indicadores de outubro vão estar bem estremecidos por causa dos efeitos da explosão da crise. Vamos ter de esperar novembro para checar uma reação mais organizada das empresas. Na verdade, apenas com os orçamentos novos e revisões de gastos é que vamos ver como as empresas reagiram. Número mais preciso, então, só a partir de janeiro. Para o bem ou para o mal.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h28
Empresas desgovernadas
A coluna de hoje na Folha trata da desmoralização da idéia, desde sempre algo marqueteira, de "governança corporativa" devido à sequência de fraudes e inépcias descobertas durante as crises da última década _e da presente inclusive. No Brasil, vimos o conceito ir à breca com a descoberta das perdas bilionárias de empresas como Aracruz, Sadia e Votorantim, provocadas por gerência calamitosa e irresponsável das finanças _o caso dos derivativos cambiais. Assinante lê mais aqui.
Trechos:
"Uma conversa que ficou bem desmoralizada nesta crise foi a da "governança corporativa". A conversa fiada é velha, assim como a da racionalidade do mercado, na qual até o bom economista-padrão não acredita mais faz duas décadas, embora não fale muito sobre o assunto quando discute política e esparge ideologia mercadista. Um exemplo velho e até ingênuo de fraude sistêmica é o da bolha dos anos 1990, que estourou em 2001 e escancarou a baderna da contabilidade de grandes conglomerados. Com o auxílio de bancos de investimento, de "analistas", de agências de risco e de auditores (Arthur Andersen), empresas fraudavam o público e contratos. O vexame maior foi o de Enron, WorldCom, Tyco, GlobalCrossing, Lucent, Adelphia, mas até empresas como a Xerox levaram multas de milhões e tiveram de reescrever seus balanços. A fraude inflou a bolha, que inflou a fraude. Não eram "casos isolados". Era "modus operandi". Era contumaz.
...
"Desde 2003, a Bovespa fez o bom trabalho de exigir mínimos de publicidade, de controle das diretorias e de respeito a acionistas. A Bolsa até começou a tomar jeito de mercado de capitais. Houve propaganda marqueteira vulgar, sim, na onda de IPOs e de commodities que inflou o Ibovespa. Mas era alguma coisa. Porém a crise revelou o quanto (muito) havia de impostura na "governança" brazuka também."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h52
Os sites da internet muita vez parecem portais do inferno. Não se trata apenas das agremiações virtuais mais pestilentas _nazistas ou pedófilos, anti-semitas ou terroristas, supremacistas brancos ou bandidos comuns, por exemplo. Dos portais do inferno a gente enxerga também a agregação da ignorância fanática, de seitas políticas, de personalidades autoritárias, de grupos de ódio ideológico. De gente que parece inclinada a se juntar a uma tropa de assalto (SA). Que parece à procura ou que encontrou um "duce", um líder, alguém para venerar, uma figura pública com quem se identificar e, assim, consolar seu ressentimento e as frustrações da mediocridade anônima, impotente _enfim, uma figura por meio da qual podem projetar seu ódio. Não são críticos, são ressentidos. Não são parte de um grupo político, mas da massa, de um cortejo de tochas e cantorias sentimentais.
Três posts deste blog (O racismo de Lula 1, 2 e 3) fizeram com que este blogueiro tivesse o desprazer de conhecer as tropas de assalto lulistas, que saltaram das profundas por meio dos comentários fanáticos enviados ao blog. Isto é, os "comentaristas" ao menos pareciam mais lulistas do que petistas (ou apenas lulistas), pois nem mencionavam o partido. Houve um tempo, aliás, em que havia adversários de Lula no PT. Desde o programa de acaudilhamento do partido, iniciado por Lula e José Dirceu em 1995, o PT foi orientado cada vez mais apenas pelos interesses do "líder". Depois da vitória em 2002, por interesse bajulatório, político ou pecuniário, ou mesmo por expulsão ou auto-exílio, parece que a oposição restante sumiu. Enfim, com a ruína moral de suas principais lideranças, muito mais não sobrou mesmo (caíram Dirceu, Palocci, Genoíno, Gushiken, Mercadante, para não falar de operadores menores como Delúbio e Sílvio Pereira).
A personalidade autoritária lulista não é diferente daquela de adeptos de outras cores políticas. Seu pensamento é binário, se é que se lhes pode conceder a homenagem de dizer que têm um "pensamento". Funcionam mentalmente, digamos, num registro de pretos e brancos, zero e um, sim e não, Lula e não-Lula, amigos e inimigos.
Para tais pessoas Lula não parece ser apenas uma autoridade republicana. É um líder, um salvador, um doador de benefícios, um taumaturgo, a redenção dos ressentidos. A crítica ao líder salvador soa, pois, como um ataque ao padrinho redentor e atinge ainda mais a auto-estima de quem se identifica com o "líder". A reação mais comum do fanatismo lulista aos posts do blog eram típicas de ressentidos tomados de ilusões ou mesmo delírios conspiratórios. O ressentimento, aliás, alimenta a ilusão persecutória ou paranóica, que por sua vez talvez sirva de consolo para o ressentimento da falta de poder, dinheiro ou outra frustração material, política ou espiritual _a ilusão paranóica ameniza a dor da frustração, e talvez também da opressão e da exclusão. Muitos dos lulistas que escreveram atacavam o blogueiro por ser "paulista", da "elite branca", do "partido da mídia golpista" (porém a mesma que golpeava FHC), da "Opus Dei", de pertencer ao "mundinho da minoria rica de São Paulo e Rio", de ter "ódio contra pobres", de ser "intelectual" etc.
No seu ressentimento paranóico, o fanatismo lulista tem semelhanças com a direita religiosa norte-americana. Os fundamentalistas que contaminam a política com sua intolerância religiosa costumam acusar seus críticos (e os críticos de seus "líderes". Duce?) de pertencerem a alguma facção que conspira contra "o povo", "a verdadeira América", "o líder de origem pobre", o que seja. Na recente campanha eleitoral americana, os fundamentalistas adeptos de Sarah Palin voltaram a acusar, por exemplo, "a mídia liberal [ie, de esquerda] da Costa Leste" ou "gente sofisticada e intelectual que come rúcula e veio de Harvard", de "cosmopolitas" e mesmo de "socialistas" (como seria o caso de Obama, diziam). Todos essas figuras expiatórias eram inimigas do "verdadeiro espirito do povo", o que de resto é uma manifestação de política identitária, tendência que costuma dar em massacres e perseguições. Sarah Palin incitou tais preconceitos e obscurantismos, com o que chegou a desencadear uma rápida onda de fanatismo populista, de adoração da mulher "que é como nós", adepta de religiosidade obscurantista e da ignorância. Lula faz coisa semelhante, embora de maneira muito mais esperta.
O mais deprimente de tudo, porém, nem é mesmo conhecer a turba de fanáticos. É ficar com a suspeita, talvez absurda mas difícil de afastar e ainda assim deprimente, de que talvez as pessoas que se interessem por política sejam mais inclinadas ao fanatismo.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h32
Os primeiros dados da crise no Brasil
Na coluna de hoje na Folha trato dos primeiros dados econômicos agregados e relevantes sobre os efeitos na crise no Brasil _saíram nesta semana os balanços das contas externas, das contas públicas e do crédito. Assinante pode ler aqui a coluna "Brasil: está frio, está quente?". Trecho:
"Para quem viveu como adulto ou quase isso o quarto de século da crise brasileira iniciada nos anos 1980, os primeiros indicadores sobre o efeito do tumulto mundial sobre o Brasil afinal não pareceram tão impressionantes. Dias piores estão à espreita, decerto, mas as muralhas resistiram à primeira grande carga dos cavaleiros do apocalipse da finança euroamericana.
(...)
Já fomos varridos pela maxidesvalorização do real e pela seca localizada de crédito, mas as ondas do maremoto da crise mundial ainda não chegaram todas. Haverá o risco de o saldo comercial cair demais (mas não sabemos se as importações vão cair também e se outras contas do balanço externo vão melhorar). O nível de emprego costuma reagir mais tarde tanto em recuperações como em declínios econômicos. É pois muito cedo para prever efeitos da queda na atividade sobre a arrecadação de impostos. Mas os amortecedores brasileiros contra a crise funcionaram e estão intactos: reservas, contas públicas, inflação ruim mas não descabelada e contas externas sem deterioração adicional. "
Escrito por Vinicius Torres Freire às 10h27
A respeito do comentário sobre o tipo de debate público que Lula promove, gostaria de lembrar uma crítica semelhante, feita logo no início do governo Lula. É breve, um comentário publicado em jornal, e de nenhum modo serve para justificar ou fundamentar o escrito nos posts "O racismo de Lula". É de Paulo Arantes, professor de filosofia da USP, que na campanha de 2002 fez parte de um grupo que se encontrava com Lula. Arantes depois se desencantou com o PT e passou a ficar mais próximo do PSOL. Logo, não é "tucano", "bushista", "paulista elitista", membro da Opus Dei etc etc, como tantos disseram, em comentários, a respeito do autor deste blog (que aliás é carioca, ateu, preferia Obama a McCain, não é tucano etc). Mas lamentou de modo semelhante um traço da discurseira de Lula.
De um trecho da reportagem publicada na Folha, em 08 de junho de 2003, a respeito do debate "O Pensamento Crítico no Brasil de Lula":
"O professor de filosofia criticou ainda a forma de discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que chamou de "espetáculo" das analogias e metáforas.
"Se eu fosse fazer uma crítica direta ao presidente, diria que isso é a coisa mais execrável que existe. Esse congelamento, essa imbecilização da opinião pública, tratada como débeis mentais, na base desses provérbios congeladores e imbecilizadores."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h40
Alguns leitores ficaram indignados com o post "O racismo de Lula". Alguns acusaram o blogueiro de preconceito contra Lula e sua origem pobre, sua mão sem um dedo (sic), sua indisposição para a leitura. Acusaram o blogueiro de coisas ainda piores, mas passemos. Mas poucos ficaram indignados que Lula tenha dito a seguinte tolice, um coquetel bem batido de racismo enraizado na ignorância com populismo malandro: "Por que o brasileiro tem mais criatividade? Esta mistura do europeu, índio, negro, sabe, permitiu que nascesse um povo mais criativo, mais esperto do que a média, daqueles que são tudo assim, tudo a mesma coisa...".
Lula ajuda a degradar o debate público. É a autoridade pública mais exposta em televisão, rádio e imprensa. Mas em quase todas aparições transforma discursos presidenciais em baixa falação de palanque. Na precariedade da sua palestra, nisso se assemelha a Bush. Não se importa em transmitir uma visão mais racional e elaborada sobre as questões públicas. Em parte, é incapaz de fazê-lo, como muitos de seus colegas de movimento sindical que subiram de vida na política. Trata-de uma desonra para a história e a memória do movimento operário, daqui e do resto do mundo.
Desonra para a memória da política operária
Na história do sindicalismo e dos partidos operários tantas vezes é possível encontrar exemplos de indivíduos que não combatiam as adversidades da vida apenas pela sua atuação social e política. Muitos e muitos superaram a ausência total de oportunidades de instrução na escola formal. Estudaram sozinhos, em escolas de sindicatos e partidos, ilustraram-se, buscaram compreender a história de seus países e os problemas de políticas públicas. Alguns se tornaram escritores.
Não se trata aqui de preconceito ou desconsideração pelas condições horrorosas e deploráveis em que Lula e a maioria dos brasileiros viveram suas infâncias e juventudes (quando não a vida inteira). Nem se trata de elogio de acadêmicos, universitários ou o que seja dessa natureza. Trata-se do elogio da superação pessoal, da curiosidade intelectual, do desejo de compreender melhor a política e as questões públicas do país, o que não requer necessariamente escola superior ou pós-graduação e quejandos. Requer apenas que o cidadão tenha inclinação pelo esclarecimento, pela conversa civil, pelas luzes, pelo debate informado.
Lula não apenas é avesso a tais coisas como as despreza, com o que ajuda a degradar o ambiente do debate político: faz de modo subliminar (ou até direto) o elogio da ignorância. E ignorância não significa não saber tal ou qual coisa (sempre e para sempre vamos desconhecer esse ou aquele assunto). Ignorância significa não querer saber.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h06
Bancos enfiam a faca
Não houve "congelamento geral" de crédito em outubro, mostram os dados do Banco Central. As novas concessões de crédito caíram bastante para a compra de veículos e no financiamento externo, é verdade. Mas, de resto, não houve catástrofe _isto num mês de catástrofes mundiais. No entanto, os bancos enfiaram a faca, especialmente em empresas. As taxas de juros aumentaram muito mais que os custos de captação dos bancos (isto é, o "spread", o ganho bruto dos bancos no crédito, cresceu muito). Comento mais detalhes na coluna de hoje na Folha, que assinantes podem ler aqui.
Trecho:
"Para os bancos , o custo médio do dinheiro aumentou muito menos do que sua aversão a emprestá-lo. Isto é, o motivo mais importante da alta feia de juros em outubro não foi o aumento da taxa de juros média pela qual os bancos obtêm fundos -sua taxa de captação. Foi o aumento brutal do "spread" (o extra que os bancos somam à taxa de captação, grosso modo o seu ganho bruto no crédito). Desde que há registros disponíveis no Banco Central (junho de 2000), o aumento percentual do "spread" para empréstimos a empresas apenas não foi maior em agosto de 2002. A economia vivia o segundo ano seguido de crise, Lula arrancava para ser presidente e os mercados se torciam de pavor. Em outubro, o aumento dos juros médios para empresas perde apenas para os de novembro de 2002 (pânico da vitória de Lula), julho de 2001 (alta de juros do BC devida ao apagão e à crise argentina e mundial) e janeiro de 2003 (início do governo Lula, quando a Selic vinha de alta de 11 pontos em menos de um ano). A taxa média de juros para empresas aumentou 3,3 pontos percentuais de setembro para outubro. Segundo dados do BC, o custo médio de captação dos bancos em tais operações cresceu meio ponto percentual. O "spread", pois, cresceu 2,8 pontos percentuais. "
Escrito por Vinicius Torres Freire às 13h44
Lula, o boquirroto incontrolável, temperou sua logorréia com racismo num discurso de ontem, quando falava para jovens, entre outros. "Por que o brasileiro tem mais criatividade? Esta mistura do europeu, índio, negro, sabe, permitiu que nascesse um povo mais criativo, mais esperto do que a média, daqueles que são tudo assim, tudo a mesma coisa...".
Pois é. Os japoneses, que estão entre os povos mais "tudo assim, tudo a mesma coisa", devem ser menos criativos. Os alemães também. Assim como os chineses han, várias nações africanas, índios isolados etc, devem, pois, ser menos criativos do que os brasileiros e, também, que os americanos, segundo a ciência de Lula. Os americanos, apesar de suas discriminações negativas, misturaram italianos, judeus, alemães, irlandeses, suecos, gregos, ingleses, mexicanos, porto-riquenhos etc etc. Aliás, afora esses exemplos, sendo o brasileiro o mais "exemplar", a humanidade, segundo Lula, nunca se misturou desde o início dos tempos. Ou valem apenas misturas recentes?
Criatividade, aliás, tem tudo a ver com "raça", esse conceito tão "científico", é claro, nos diz o Gobineau do racismo criativo _Lula.
"Preguiça desgramada" de ler
Lula talvez devesse se impedir de falar diante de crianças e jovens, ao menos. Em 2004, discursando para crianças disse que ler é como começar a fazer exercícios: "dá uma preguiça ‘desgramada’". Um trecho de coluna deste blogueiro a respeito, também de 2004:
"Para as crianças, ler é tão desanimador como as caminhadas para os adultos sedentários: "dá uma preguiça 'desgramada'", disse o presidente Lula da Silva ao inaugurar a Bienal do Livro de São Paulo.
Lula não lê mais de duas páginas de relatórios, dizem assessores, gosta de piscina, churrasquinho, pelada e música sertaneja, samba, suor e cerveja. Não deixa, pois, de ter razão o realismo pedestre de Lula sobre a leitura. Preconceito? Não é o caso.
O presidente não é deus, como alertou, mas gosta de ser a voz do povo, um megafone de hábitos, trejeitos, preconceitos, utopias e até sabedorias populares. Tanto faz, a princípio, que Lula seja assim. O problema é que ele não consegue transcender seu realismo pedestre a fim de desempenhar o papel público de presidente, de transmitir uma visão mais racional e elaborada sobre as questões públicas. Limita-se às metáforas chãs, tem amor pelas mezinhas, pelas alegorias da vida de peão, sobre o companheiro que leva bronca da patroa por ter parado no botequim para a cervejinha.
Esse bestiário da vida operária não dá conta do debate democrático, o metaforismo popular não é capaz de traduzir questões de governo para o povo pobre. É apenas demagogia, talvez não intencional: Lula é o que parece ser. Transmite seus preconceitos sem pejo ou mesmo consciência do que faz, como no caso da gafe sobre a leitura e tantas outras."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h02
Governo estuda mexer no IR
O governo pensa em mexer nas alíquotas do IR e em reduzir o peso de impostos sobre a folha de pagamentos de empresas (antes da reforma tributária). Por ora, só estuda. Seria reduzida a alíquota menor (de 15%) e seriam criadas outras duas no lugar da aliquota de 27,5%. É o tema da coluna de hoje (assinate lê aqui).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h12
O homem do Tesouro de Obama
A coluna de ontem (domingo, 23/11) faz um breve perfil do novo secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, atual presidente do Fed de Nova York, o braço operacional do BC americano. Geithner foi o executivo, digamos, das operações de resgate de instituições financeiras, se não o principal incentivador desse tipo de medida, dentre os autoridades americanas. Assinante lê "O homem do Tesouro de Obama" aqui.
Obama confirmou ainda Lawrence Summers na direção do Conselho Nacional de Economia, grupo que reúne, óbvio, conselheiros do presidente americano. Em tese, a função de Summers é coordenar esse grupo e apresentar opções a Obama. Mas será que vai parar nisso? Quando surgiram rumores de sua nomeação para o Conselho, havia boatos simultâneos de que Summers ficaria na caderia apenas à espera do fim do mandato de Ben Bernanke no Fed (2010), para pular na hierarquia. Pode ser apenas boato infundado ou boato difundido para adocicar o prêmio de consolação _Summers era cotado para o Tesouro com Geithner. De qualquer modo, o boato não pega bem para Bernanke.
Quando secretário do Tesouro de Bill Clinton (1999-2001), Summers promoveu e chefiou Timothy Geithner. Summers tem muito mais peso intelectual e idade que Geithner (54 x 47). E conhecido como um trator opinionado, que comete gafes politicamente incorretas. Geithner é um executivo habilidoso e discreto.
Summers estará na Casa Branca, dando palpites. Geithner estará no Tesouro, ocupado em salvar bancos da falência, toureando as demais catástrofes e lobbies de Wall Street _e, agora também, gerenciando o "hospital" de grandes empresas e o gigantesco déficit fiscal que será produzido a fim de conter uma recessão ainda mais horrorosa nos EUA.
Summers, Geithners e outros integrantes da equipe econômica foram protegidos e apadrinhados por Robert Rubin, secretário do Tesouro de Clinton antes de Summers, um de seus subs. Rubin também é o homem de Wall Street na campanha de Obama (depois de ficar com Hillary Clinton quase até o final). E é da direção do Citibank, banco que acabou de ser salvo da breca por Geithner e cia.
Durante a gestão de Rubin-Summers, o governo americano teve enormes superávits fiscais. Rubin fazia campanha pela desregulamentação financeira e por mais abertura comercial. Summers, a julgar por artigos seus no "Financial Times", está meio mudado, mais "intervencionista", mais preocupado com a crescente desigualdade de renda nos EUA.
Geithner, apesar de nomeado pelo conselho do Fed de Nova York (dominado pela banca), há anos faz discursos, talvez um tanto genéricos, sobre a necessidade de maior controle sobre o sistema financeiro. Mas sabe-se pouco o que pensa além do convencional a respeito de independência de Banco Central, supervisão mais forte (mas não necessariaente mais regulação), da necessidade de mais transparência no balanço de bancos e de que seria recomendável criar ambientes mais regulados para registro e compensação de alguns derivativos.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h03
Cozinha Liberal: forfait
O blogueiro foi sequestrado por outras tarefas no final de semana e não conseguiu postar a "Cozinha Liberal" do final de semana passado. Tenta recuperar o furo o quanto antes.
Desculpas aos leitores que procuraram a seção e não a encontraram.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h59
A sexta-feira, 21, tende a ser um dia feio no mercadinho brasileiro. A não ser que Nova York viva uma onda de compras na xepa e que os "bargain hunters" saiam da toca, a Bolsa de SP vai descontar não só a desgraceira mundial de quinta-feira como também vai antecipar os dias piores que ainda virão. O real deve também apanhar, a julgar pelo que ocorreu como outras moedas periféricas, como o won coreano, que perdeu ontem 3,5% e voltou aos valores desgastados da crise asiática, de 1997.
Houve sangria em Wall Street, todo mundo viu, 5,56% de baixa no Dow Jones, 6,71% no S&P 500, que voltou aos níveis de 2002. Mas isso é a espuma sangrenta. Abaixo da superfície tem coisa pior. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de curto prazo foi a zero. As taxas de juros para empresas americanas e européias sobem, assim como o custo de fazer seguros de crédito ("credit default swaps", CDS). Os papéis americanos que embutem expectativas de inflação começam a embutir expectativas de deflação. O número de americanos na fila do seguro-desemprego é o maior em 16 anos. Etc. Voltamos a meados de setembro em termos de "choque e pavor" _a diferença é que os bancos não estão quebrando agora. Agora mesmo, quero dizer.
Citigroup acossado
Deu na Bloomberg: o Citibank quer que a SEC volte a proibir a venda de ações a descoberto. Os papéis do Citi caíram ontem 26% em Nova York. Caíram pelo quarto dia seguido. Mas quando uma empresa começa a pedir que segurem coisas como vendas a descoberto, isso soa mal. Enfim, por que tem tanta gente vendendo Citibank? A reportagem de Bloomberg pode ser lida aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h35
Clientes de hedge funds sacaram US$ 40 bilhões em outubro, maior sangria registrada desde 1990, quando a empresa Hedge Fund Research começou a compilar os dados. Outros US$ 115 bilhões evaporaram dos ativos devido a perdas, queda de 9% nos ativos, relata o "Financial Times".
No final deste trimestre as coisas serão piores, prevêem os entendidos. Em muitos fundos, a política é permitir apenas saques trimestrais. Para honrar os saques, os fundos têm de liquidar ativos. Quando os hedge funds vendem ativos, como por exemplo ações ou commodities (ou papéis derivados desses ativos), derrubam preços, o que causa perdas, o que leva a mais vendas por parte de outros investidores que precisam recompor carteiras ou cobrir perdas.
Como os mercados são interligados, isso chega também aos mercados de moedas. Como tais variações de preços pioram os indicadores de risco, os investidores também fogem de ativos mais arriscados ou denominados em moedas de países periféricos, como o Brasil. Dada tal tendência, investidores ou apenas detentores de moedas como real (ou de créditos nessa moeda), tendem a se proteger da desvalorização do real ou a especular nessa direção (comprando moeda no mercado futuro e operações conexas), dando mais impulso à desvalorização.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h28
As teles querem dar uma pendura no governo federal. Querem prazo para pagar as licenças que levaram no leilão de celular 3G (terceira geração), em dezembro do ano passado. Querem adiar o pagamento, sem juros nem correção monetária. Isso equivale a um calote parcial. Ou a um subsídio monumental do governo para as teles. Para piorar, tem empresa que já pagou em dia a licença. Pior ainda, adiar o pagamento significa obter redução do preço oferecido no leilão. Isso, pois, significa alterar as regras do leilão depois do jogo jogado, como diz o Elio Gaspari. Assinante pode ler a reportagem de Elvira Lobato, da Folha, sobre o assunto: "Tele pressiona por isenção de R$ 1 bi".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h40
José Serra vai colocar mais R$ 5,4 bilhões nos cofres do Estado. Está mais capitalizado do que muito banco. Aliás, com o dinheiro da Nossa Caixa, a preços de hoje do dólar poderia comprar até a General Motors americana pelo valor de mercado, digamos ironicamente. Mas sua administração ainda não tem uma marca, nem ao menos no que fica mais evidente da ação dos governos: obras. Nem ele nem seu partido têm discurso para 2010. Ainda estão esperando Lula e cia. cair de podres.
Mais estatais ou menos?
A ânsia luliana de recolocar o Banco do Brasil no topo do ranking dos bancos (para quê?) tende a produzir uma melhoria na gestão dos bancos e na redução do risco de bobagens estatais: o BB deve comprar ainda outros bancos estatais menores, sempre candidatos à ajuda oficial devido a rombos _rombos provocados por governos estaduais ineptos ou coisa pior. Reduzindo o número de bancos estatais, fica um pouco mais fácil controlá-los. Lula talvez provoque um "choque de gestão" inadvertido, digamos sarcasticamente.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h38
O governo ajudou, as empresas não escondem. Êta transparência _ou êta pátio lotado de carros sem comprador: a ajuda de crédito dos governos federal e de São Paulo para as montadoras é anunciada em propaganda. Está hoje num anúncio da Hyundai, em jornais de São Paulo: "A Hyundai Montadora, sediada em Anápolis (GO), já recebeu os subsídios de crédito do governo para o financiamento de toda a sua linha de veículos. Aproveite".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h37
O tiro do dólar a R$ 2,40
A coluna de hoje (20/11, "O tiro do dólar a R$ 2,40") trata do dólar no patamar de R$ 2,4. Trecho: "Estimativas sobre o repasse cambial para a inflação em geral apenas não são piores que previsões de câmbio. Basta lembrar a histeria da explosão inflacionária que não houve depois da desvalorização de 1999 e das teses furadas sobre o "IPA grávido" (IPA é um índice de preços de atacado, que infla rapidamente quando o dólar fica caro; a tese era a de que a alta dos preços registrada pelo IPA "grávido", inflado, em breve chegaria incontrolável aos preços do varejo). Ainda assim, não convém subestimar os estragos do câmbio."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h03
Bancos estatais na crise
A tentativa dos governos federal e paulista de compensar a seca de crédito é o tema da coluna de hoje na Folha (19/11, "Bancos estatais na crise"). Comento em especial o desejo do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, de levar para o banco o dinheiro do Fundo Soberano, uns R$ 14,2 bilhões, e emprestá-lo a empresas.
Trecho: "Um projeto do presidente do BNDES é, pois, obter parte do dinheiro do Orçamento (do FSB), dos impostos, a fim de emprestá-lo a empresas, o que no BNDES em geral ocorre a juros abaixo do mercado -ou seja, subsidiados. Outro projeto é ficar com o risco que os bancos privados ora relutam em correr. Em vez de financiar empresas, os bancos privados financiariam o BNDES, que repassaria o dinheiro ao mercado, em tese a taxas salgadas. Essa linha de financiamento que viria dos compulsórios seria de R$ 10 bilhões e dirigida a pequenas empresas. Um economista padrão criticaria tais medidas. Primeiro, por conceder subsídios com dinheiro dos impostos sem discuti-los no Orçamento. Segundo, o BNDES assumiria riscos que o mercado rejeita -atitude irracional. Terceiro, o governo quer estimular a produção num momento em que a crise mundial reduzirá a capacidade brasileira de consumir."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h25
Lula desconversou hoje (terça, 18/11) sobre a compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil. Mas, agora de noite, no governo de São Paulo davam como certo que o negócio será fechado até amanhã, quarta-feira. Lula discutiu o assunto na tarde de hoje com Guido Mantega e Henrique Meirelles. Pouco antes dessa reunião, dizia que o martelo não estava batido. No governo federal, no final da tarde, havia gente a dizer que "detalhes ainda estavam sendo discutidos" (isto é, preço exato e forma de pagamento).
Mas, ainda hoje, Lula dissera: "Nós queremos que ele [Banco do Brasil] seja muito maior do que qualquer outro banco no país". Ou seja, tem de comprar a Nossa Caixa, a metade do Votorantim e algo mais ainda.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h22
Lula, G20 e café com leite
Na coluna de hoje (terça, 18/11) na Folha ("Lula, G20 e café com leite") comento a carta de intenções do G20 e as opiniões esdrúxulas de Lula, entre a ingenuidade e o oportunismo, sobre o encontro. Trecho: "Saiu a regulação", disse Lula na saída da reunião do G20, talvez se referindo ao vago compromisso de "supervisão" sobre bancos inscrito na carta de intenções do G20, que se reuniu sábado, em Washington. Obviamente não "saiu regulação" alguma, nem Lula tem idéia do que seja o assunto.
"Lula acha que houve "um consenso para cuidar melhor" das finanças mundiais. Não houve. Antes da reunião do G20 já havia era consenso a respeito de não interferir na soberania nacional. Logo, o consenso, prévio, era de não fazer nada sobre "as finanças do mundo". Houve apenas um empurrão no sentido de estabelecer "consultas" sobre loucuras financeiras, que detonaram a crise no mundo rico. De resto, reuniões como as do G20 são programadas para que todo mundo siga o script.
Lula acha que a reunião foi "histórica". "Não é mais o G8 que manda", disse ontem no rádio. Bem, em reuniões do G7/G8 os países em geral concordam em não tomar decisões e se mandam recados, sem grande efeito prático desde o final dos anos 80. Ou mostram os dentes quando contrariados. Para não ser café com leite nesses "Gs" é preciso ter dentes: dinheiro e/ou canhão nuclear."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h11
Piorou. O Brasil deve crescer apenas 2,4% no ano que vem, segundo a nova fornada de previsões da Economist Intelligence Unit (EIU), na revisão publicada hoje de sua "Perspectiva Global". Sim, saem mais previsões econômicas do que pizza dos fornos nas noites de sábado em São Paulo. De resto, previsões econômicas andam mais desacreditadas do que de hábito. O mais importante é que, a cada estimativa, revistas cada vez mais rapidamente, as perspectiva pioram. Na previsão de 23 de outubro, o Brasil cresceria 2,7% em 2009, segundo a EIU. A pior notícia para nós e todo mundo, porém, é que a EIU faz as previsões mais sombrias a respeito do comércio mundial: encolheria 0,5% no ano que vem, o que seria ainda pior para nossas exportações (o FMI prevê ainda crescimento de 2,1% para o comércio mundial em 2009).
No texto de abertura da EIU: "A perspectiva econômica global continua a ficar mais sombria. Não apenas o jorro de dados ruins fornece mais evidências da gravidade da reversão econômica em curso na maior parte do mundo desenvolvido, mas também muitos mercados emergentes em regiões-chave agora mostram sinais tensão crescente ou estão em crise aberta".
Abaixo, segue uma tabela resumida de previsões da EIU e se republicam as tabelas com as estimativas mais recentes do FMI (6/11) e da OCDE (13/11) (a OCDE é a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).



Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h58
Cozinha Liberal: liberdades com os tomates
A "Cozinha Liberal" deste final de semana trata de tomates, um ingrediente de base da cozinha ítalo-paulista, porém muito maltratado e mal cultivado por aqui. Pelo menos já dá para comprar tomate San Marzano em São Paulo (vide post abaixo). A seguir, os tomates aparecem em duas receitas muito básicas, na versão de receituários supertradicionais em suas cozinhas, e numa terceira, uma simples salada de tomate para o verão, temperada com a mistura de uma idéia de Marcella Hazan com outra de Alain Ducasse:
- O "sugo di pomodoro" de Ada Boni, mestra da cozinha romana e autora da bíblia culinária que é o "Talismano della Felicità" (1929). "Simplezinho assim, "sugo di pomodoro"? É, de tão avacalhado que está o "sugo", ele merece um "back to basics";
- "Tomates recheados" à provençal, na receita de fato provençal de Jean-Baptiste Reboul, autor do "La Cuisinière Provençale" (1897), outro clássico da cozinha dirigido às donas-de-casa de classe média (ou nem tanto), como o de "zia" Ada Boni;
- Salada de tomates no vinagrete de tomate com um quê de alho.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h08
Cozinha Liberal: tomates San Marzano, DOP
Já dá para comprar em São Paulo um dos melhores tomates para molho, se não o melhor, o da variedade San Marzano, que de tão paparicado tornou-se marca, "Denominação de Origem Protegida (DOP). O San Marzano (foto abaixo) é produzido nas províncias de Nápoles, Salerno e Avellino, cultivados em terreno de origem vulcânica (e alguns em Pompéia mesmo).

Um bom tomate para molho tem pouca semente, pouca fibra branco-esverdeada na polpa, é carnudo, tem a pele fina e o sabor agridoce. No Sul da Itália há vários deles à disposição: qualquer dos comuns "perini" ou um fiaschetto (foto de baixo) ou uns redondinhos da Campânia, pouco maiores que os tomates-cereja, todos esses dão bons molhos se forem bem cultivados. Na Itália, há a enorme vantagem de se poder usá-los frescos. Aqui, em geral é melhor usar enlatados, combinando os com um pouco de tomates frescos (vide receita do "sugo" num post abaixo).

Nossos tomates são pouco melhorados e, em geral, cultivados e colhidos com os piores vícios comerciais. São fibrosos ou farinhentos. Têm pele grossa e polpa escassa. São aguados. De pior, são ácidos, um desastre para molhos. Para completar, são colhidos ainda pouco maduros, como se faz na produção comercial comum de qualquer parte do mundo, a fim de aumentar a resistência e a duração do fruto nas prateleiras dos mercados. O problema é que, fora do pé, o tomate amadurece mal: sem gosto.
De uns tempos para cá, em lojas e feiras mais caras, passaram a aparecer tomates de linhagens mais próprias para cozimento. São em geral mais compridos, alguns levam o nome de tomate "italiano"; outros são tomates em rama (vários frutos juntos num cabo). Alguns são até colhidos no ponto.
Mas mesmo os mercados mais caros têm o mau hábito de enfiá-los em bandejas cobertas de filme plástico. Problema: é impossível escolher um bom tomate sem cheirá-lo, sem saber se misturam o odor suave e doce com aquela ponta acre de seiva, típica dos tomateiros.
A Raiola importa os San Marzano sem pele, em vidros de meio quilo, vendidos na Casa Santa Luzia (alameda Lorena, 1471, Jardins). Custa carinho: R$ 13,50 o vidro. Latas de tomates inteiros sem pele, importados da Itália, custam entre R$ 3 a R$ 5 o recipiente de 400 g.
Resta saber se, com a alta do dólar, vão continuar a importar o San Marzano. Se algum leitor souber de outro ponto de venda ou de outro importador, por favor dê notícias.
Leitores que saibam de bons produtores e comerciantes de tomate brasileiros, por favor escrevam e compartilhem a dica com outros cozinheiros.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h06
Cozinha Liberal: o clássico "sugo"
"Sugo di pomodoro"
Receita de Ada Boni, com uma ligeira tradução deste blogueiro, pois a "zia" não dá as quantidades precisas dos ingredientes. Para fazer molho para 500 g de massa seca, que dá para quatro ou cinco pessoas:
1 kg de tomates frescos, cortados em cubos;
1 cebola média, talhada em cubos;
2/3 de xícara de cenoura talhada em cubos;
1/2 xícara de salsão cortado em cubos;
1/3 xícara de azeite _extra-virgem, de preferência.
Alguns ramos de salsa (retire os cabinhos);
Uma dúzia de folhas de manjericão rasgadas a mão;
Compre tomates maduros e cheirosos, bem vermelhos, nem moles nem duros. Para saber se estão cheirosos, é preciso comprá-los num mercado ou feira que não os embale em plástico, claro. Caso não encontre tantos tomates bons, procure tomates italianos em lata (inteiros, sem pele) ou, melhor ainda, tomates San Marzano (vide post acima). Use então duas xícaras de 250 ml (ou duas latas de 400 g) de tomates em conserva.
Nota: mesmo bons tomates em conserva dão molhos com um toque um tanto abafado, pouco vivaz, sem o "colorido" dos tomates frescos. Para compensar, adicione à conserva um ou dois tomates frescos, sem pele e sem sementes. Quanto menor o tempo de cozimento, mais conveniente é usar tomates frescos.
Para tirar a pele, no caso de usar tomates frescos (Ada Boni não tira a pele): corte fora aquela parte verde, onde se conecta o cabo do fruto. No fundo oposto do tomate, faça um corte em forma de cruz na pele do fruto. Deixe os tomates por 20 segundos em água fervente. Tire-os da fervura, ponha-os em água fria. Puxe a pele pelo meio da cruz que você fez no tomate: ela sai facilmente, em quatro partes. Corte o tomate em cubos.
Coloque tomate, cebola, cenoura, salsão, salsa, manjericão e azeite numa panela de fundo grosso, em fogo bem baixo, por cerca de meia hora. Tempere com sal. Deixe mais meia hora no fogo bem baixo: o molho deve ficar bem solto, mas sem líquido "empoçando".
Panela tampada ou destampada? Bem, há uma polêmica aqui. Ada Boni manda cozinhar a primeira meia hora do molho sob panela tampada. Muito grande cozinheiro (e este modestíssimo cozinheiro) prefere cozinhar o "sugo" por 45 minutos, por aí, com panela destampada.
Passe o molho pelo passaverdura (na verdade uma peneira com lâmina giratória, que empurra os alimentos pelos furos). Se não tiver o aparelho, não tem problema: amasse o molho com um garfão, na panela mesmo.
Teste o sal, ponha pimenta se quiser (do reino ou pimenta vermelha seca).
Está pronto.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h01
Cozinha Liberal: tomates provençais
Tomates recheados à maneira dos antigos provençais
Esta é uma receita de Jean-Baptiste Reboul, que fez a grande e mais tradicional coletânea de receitas provençais, em 1897 ("La Cuisinière Provençale"), volume que é vendido até hoje. O recheio leva carne de vaca, o restante de uma carne de panela, por exemplo (se você quiser fazer os tomates mas não tem restos de carne, segue uma receitinha rápida de carne no final). Como sempre, uma ou outra "tradução" foi necessária, pois os receituários antigos não são muito precisos sobre quantidades e procedimentos.

Ingredientes:
8 tomates maduros, mais para chatos do que redondos;
8 fatias de pão esfregadas com um dente de alho;
150 g (por aí) de carne de panela ou ensopada, picada na companhia de 2 dentes de alho e 1 colher de sopa de salsa;
2 cebolas médias picadas;
2 gemas de ovos cozidos;
½ pão francês dormido, mergulhado em água e espremido;
2 colheres de sopa de azeite;
sal, pimenta e noz-moscada (opcional);
Ligue o forno a 200º.
Corte os tomates na transversal (na "largura"), perto do "topo", como se você quisesse tirar a "tampa" do fruto, ou como você cortasse um "chapéu" para o tomate. Reserve essa tampa. Com uma colher ou com os dedos, retire o miolo do tomate. Retire o que puder de sementes e pique e reserve o equivalente a três colheres de sopa do miolo.
Passe sal no interior dos tomates esvaziados e os vire de cabeça para baixo sobre uma grade ou mesmo um prato: a idéia é fazer com que escorra água dos tomates. Cuidado com o sal, não exagere.
Esfregue um dente de alho em oito fatias de pão (pode ser pão francês, de campanha, italiano etc, não tem muito problema). Os tomates vão para o forno sobre essas fatias de pão: o suco e o azeite que escorrem ficam no pão:
Para o recheio:
Coloque as cebolas picadas e o azeite numa panela em fogo baixo. Cozinhe-a, mexendo, até que ela fique meio transparente e ligeiramente dourada.
Misture então na panela o pão e a carne picada com alho e salsa. Tempere com sal, pimenta-do-reino e noz moscada (duas ou três raspadinhas). Cozinhe, misturando, dois minutos. Tire do fogo, junte as gemas de ovos e misture bem. O recheio deve ficar firme mas cremoso.
Recheie os tomates, mas sem "forçar a barra": eles devem ficar cheios até o topo, mas não se deve pressionar a massa até "empanturrar" os tomates. Seja suave.
Finalizar:
"Tampe" os tomates com os "chapéus" que você cortou no início da receita. Coloque as fatias de pão numa assadeira untada de azeite (pouco), e coloque os tomates sobre as fatias de pão. As fatias e os tomates devem ficar bem próximos uns dos outros, grudados mesmo. Jogue um pouco de azeite nos tomates e leve ao forno por 20 a 25 minutos.
Está pronto.
Para quem quiser fazer a carne para o recheio, segue uma receita simplificadona de um "estoufado" provençal.
Corte em cubos grandes 500 g de acém ou músculo ou paleta ou ossobuco de boi. Corte em cubos 50 g de toucinho defumado (ou um tanto assim de carne de porco salgada e fervida). Pique 3 dentes de alho. Corte 1 cebola ao meio e enfie numa metade 1 cravo da índia. Corte uma cenoura e uma cebola em fatias grossas.
Coloque tudo isso numa panela de pressão e, sem tampar, doure a carne. Quando a carne estiver dourada, junte uma xícara de vinho branco. Deixe evaporar.
Junte então à panela o equivalente a um dedo de casca de laranja (bem fina), um tomate cortado ao meio, um "bouquet garni" (um amarradinho de louro, ramos de tomilho e de verde de alho-poró) e uma xícara de caldo de carne (ou mesmo de água). Tampe a panela de pressão e cozinhe por 40 minutos. Jogue fora os legumes. Desfie a carne. Veja se falta sal e pimenta. Pronto.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h00
Cozinha Liberal: salada de tomate com tomate
Salada de tomate com vinagrete de tomate e um quê de alho
1 kg de tomates para salada;
4 dentes de alho;
15 folhas de manjericão;
2 colheres de sopa de vinagre (de xerez é melhor, mas pode ser de vinho tinto);
3 colheres de azeite extra-virgem.
Pelo menos oito horas antes de servir, corte um grande tomate ao meio e, sobre uma tábua de corte, esmague as metades com a palma da mão. Não deixe o suco escorrer e recolha tudo numa vasilha qualquer. Junte 3 colheres de azeite, umas gotas de vinagre e uma pitada de sal ao tomate esmagado. Deixe repousar ao menos 6 horas, fora da geladeira.
Passe a mistura de tomate, azeite e vinagre numa peneira, pressionando bem com uma colher para tirar o suco que você puder. Descasque e esmague os dentes de alho com a lateral da lâmina de uma faca. Misture o suco do tomate, os dentes de alho e 2 colheres de vinagre. Deixe repousar por 30 minutos.
Passe o vinagrete numa peneira e jogue o alho fora. Rasgue com a mão as folhas de manjericão. Corte os tomates restantes em fatias de 1 cm. Tempere-os com pimenta, sal, manjericão e com o vinagrete. É só isso, mas é uma delícia.
Tenha bastante pão italiano para raspar a tigela do molho.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h59
A gasolina no Brasil está 35% mais cara que no mercado internacional (preço na boca das refinarias da Petrobras). Se a estatal zerasse a diferença, o preço para o consumidor poderia cair 22%. As estimativas são de economistas do Credit Suisse. O diesel poderia baixar em 12%. O impacto no IPCA seria de um ponto percentual, levando a inflação para perto da meta.
Porém, uma temporada de preço mais alto ajuda a compensar períodos de preços abaixo do mercado mundial. O que a gente não sabe muito bem é como a Petrobras administra esse equilíbrio instável _nem se a estatal produz gasolina de modo eficiente.
De qualquer maneira, mercadistas, viúvas do tucanato e outros propagandistas do liberalismo de quitanda fizeram a maior algazarra quando o preço do barril do petróleo explodia e o da gasolina brasieira ficava parado. E agora?
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h13
A coluna de hoje (sexta, 14/11) na Folha trata da inviabilidade de qualquer coisa parecida com uma "nova arquitetura financeira mundial" e das expectativas bisonhas sobre essa reunião do G20, a "nova regulação". Trecho da coluna "Arquitetura de fachada":
"Outro entrave político maior é a desigualdade de poder político-econômico entre as nações e os desequilíbrios e crises que provoca. Países que não emitem as moedas fortes (dólar, euro-libra, iene) estão mais perigosamente sujeitos às ressacas dos fluxos e influxos de capital. Tornam-se rapidamente vítimas de "fugas do risco" quando seus déficits externos crescem, quando apresentam instabilidade política, quando mudam políticas econômicas ou, quando está "tudo bem", apenas por não serem "risco zero". Essas ameaças fazem com que tais países adotem políticas como a do acúmulo enorme de reservas em moeda forte, estoque alimentado por políticas comerciais agressivas, as quais se baseiam em políticas industriais ditas "distorcivas" e, ainda, em repressão do consumo doméstico, desprezo por direitos trabalhistas e pela saúde ambiental etc. Os países centrais, que promovem a abertura financeira e comercial, administram e multiplicam em papelório os recursos resultantes de tal desequilíbrio (os "capitais sobrantes" das reservas) -e o intensificam. Mas querem mais abertura: o fim das políticas que os "emergentes" adotam com a intenção, entre outras, de proteger suas economias das torrentes incertas de capital."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h03
A indústria paulista "perdeu" 10 mil empregos, diz a Fiesp. A queda foi de 0,41% em relação setembro. "A crise chegou, começaram as demissões?". Não é bem assim. Os dados ajustados mostram que o emprego caiu na verdade 0,13% ("com ajuste sazonal"). Em relação a outubro do ano passado, o nível de emprego cresceu 3,6%. Provavelmente, assustadas com o choque, as empresas pararam de contratar, algumas talvez temporariamente, e portanto a criação de vagas não foi suficiente para compensar as perdas "normais" de empregos. Mas ainda não há uma "onda de demissões".
Obviamente os dados são ruins. Uma queda assim não acontecia faz cinco anos. Mesmo que o susto de outubro passe para algumas empresas, quase todo mundo está colocando o pé no freio, se adiam projetos novos e, enfim, as vendas em muitos setores vão ficar pelo menos estagnadas no ano que vem (como prevêem as montadoras, por exemplo). Logo, as perspectivas para o emprego não são boas.
Mas os dados econômicos de setembro estão velhos e os de outubro estão muito estremecidos pelo tumulto financeiro. Está difícil ainda de saber o que se passa na economia brasileira.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h47
Lula disse que vai indicar Dilma Roussef ao PT como candidata a presidente em 2010. Foi na Itália, em entrevista publicada hoje por jornais do país. Todo mundo já sabia que a ministra da Casa Civil era a candidata de Lula, claro. Mas, que me lembre, foi a primeira vez que Lula "oficializou" Dilma.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h25
A OCDE também prevê recessão para os países ricos no ano que vem. Seus números, apresentados ontem, são tão ruins como aqueles que o FMI publicou na semana passada (vide tabelas abaixo). A OCDE, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, é um clubão dos países mais industrializados _inclui basicamente EUA, países europeus, Japão, Coréia do Sul, Canadá e México.
Ontem também a Alemanha anunciou "oficialmente" que entrou em recessão. O PIB da maior economia da Europa caiu 0,5% no terceiro trimestre (contra o trimestre anterior, quando caíra 0,4%).


Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h18
Controle de capitais e governo mundial
Um grupo de economistas propôs ao G20 medidas como o controle da livre movimentação de capitais e um FMI com mais poder e comandado por uma espécie de G20 bem diverso, no qual ninguém teria poder de veto. É o tema da minha coluna de hoje na Folha, "Controle de capitais e governo mundial", no caderno Dinheiro.
Trato das sugestões que economistas do portal Vox, do Centro para a Pesquisa de Política Econômica, reuniram numa coletânea de 17 textos chamada "O que os líderes do G20 devem fazer para estabilizar nossa economia e consertar o sistema financeiro". Entre os autores: o Nobel Michael Spence, o especialista em finanças Barry Eichengreen e o ex-economista-chefe do FMI Raghuram Rajan. O G20 começa uma reunião depois de amanhã, nos EUA. Num dos textos, Guillermo Calvo escreve que não adianta elevar as linhas de crédito de emergência para países da periferia mundial se não houver controle de fluxos financeiros a fim de evitar que tais capitais fujam de novo. Diz mais: "As instituições do novo Bretton Woods devem ser mais tolerantes com o controle da mobilidade de capitais, especialmente quando tais controles se concentram em limitar as ações do setor bancário". Há três meses, isso soaria como blasfêmia no mundo de Calvo, que dá aula em Columbia, foi economista-chefe do BID, alto assessor do FMI e conselheiro de "reformas" no Leste Europeu e na América Latina.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h05
Os posts mais recentes:
- O pior não passou, uma visão americana;
- Juro zero nos EUA (mais PS Krugman);
- Após copiar britânicos, EUA copiam Brasil;
- Bancões que lavam dinheiro de fortunas: EUA e Brasil;
- O besteirol do "pior já passou";
- Ajuda pública para quem fez besteira com dólar?;
- Carros: Lula lá, Serra aqui (coluna VTF na Folha)
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h02
Para quem se interessa pelas indas e vindas do mercado, aqui vai uma visão americana, de blogueiros do mercado de lá, sobre as indas e vindas das Bolsas. É de Kevin Depew, do divertido site Minyanville - Market Commentary. Tenta responder à ansiosa pergunta sobre o fundo do poço: "Já chegamos lá?". Para ler, clique aqui. É grátis.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h56
A taxa de juros "básica" nos Estados Unidos está em torno de 0,25% (é mais ou menos a Selic deles). Está por aí faz oito seções (do dia 29 de outubro até ontem, 11 de novembro). O Fed reduziu a meta para a taxa "básica" para 1% no dia 29 de outubro. Isto é, o Fed cortou os juros de 1,5% para 1%. Mas, quando os BCs decidem a respeito da "taxa básica", na verdade não estão, digamos, tabelando os juros. Definem uma meta que será perseguida por meio de operações de enxugamento ou oferta de dinheiro para os bancos. A Selic flutua todo dia, muito pouco, mais flutua, em torno da meta definida pelo BC. A taxa básica americana também. Mas está muito, muito abaixo da meta. Na prática, a política monetária americana está muito mais relaxada do que se pode imaginar pela meta definida pelo Fed. Na verdade, a taxa real (considerada a inflação) está muito mais negativa do que parece.
Na semana anterior ao corte da meta para os Fed Funds de 1,5% para 1%, a taxa efetiva flutuara em torno de 0,85%. Antes disso, estava abaixo da meta também. Mas vem ficando mais e mais baixa. Na verdade, a política monetária americana foi meio para o vinagre.
Post scriptum
Adendo adicionado às 21h45 de 12/11. Para quem se interessa por coisas como o novo e estranho mundo da política monetária americana, há um bom artigo no site Econbrower, de James Hamilton, professor de economia na Universidade da Califórnia (San Diego). Para dar um sabor do post de Hamilton: "... a meta [dos Fed Funds, a taxa "básica" do Fed] tornou-se ela mesma largamente irrelevante como instrumento de política monetária, e discussões sobre se ‘o Fed vai cortar mais’... estão deslocadas".
O Econbrowser é um bom site, mas este blogueiro chegou ao post de Hamilton por meio de uma citação de Paul Krugman, que escreveu artigo para estimular Barack Obama a fazer um pacotão de estímulo fiscal bem grande (para ler, clique aqui).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h59
Sim, sim, o título é uma ironia. Mas não tinha como evitar. O secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, o ministro da Fazenda deles, acaba de jogar no lixo os últimos pedaços do seu plano original de socorro financeiro, o pacotão de até US$ 700 bilhões. Disse hoje que o resto do dinheiro deve ser usado para facilitar o crédito para estudantes (negócio enorme nos EUA), compra de carros e para o cartão de crédito. Enfim, quer arrumar um dinheiro para financiar ou subsidiar a compra de títulos lastreados nos pagamentos daquelas dívidas, o que implica estimular o crédito para aqueles setores. Para o varejo. Paulson se rende a Guido Mantega!
"Nunca vou pedir desculpas por mudar uma estratégia ou abordagem se os fatos mudam", disse Paulson a jornalistas, no Tesouro.
Ok, a vida é dura, é grave a crise, tudo muda etc. Mas antes, no final de setembro, Paulson atropelava todo mundo e dizia que não havia alternativa a seu pacote. Paulson rabiscou seu primeiro plano de socorro à finança em três páginas. O quase decreto lhe dava poderes de sultão financeiro e, em suma, consistia em tabelar o preço dos papéis podres dos bancos a fim de comprá-los por um valor muito acima daquele dado pelo mercado. Ele e Bush diziam que iriam "à raiz dos problemas financeiros", os papéis podres. Agora, neca de papéis podres.
O pacote Paulson foi algo escanteado depois que apareceu o plano britânico, que estatizava parte dos bancos. No dia 14 de outubro, ele e Bush "lamentavam" dizer que teriam de comprar ações de bancos. "Lamentamos tomar essas medidas. Não são as que gostaríamos de tomar, mas são que devemos adotar para restaurar a confiança em nosso sistema financeiro", dizia então Paulson quando teve de admitir que estatizaria parte da finança americana.
Agora, veio a desmoralização derradeira de Paulson, grande inimigo até da regulamentação mais sensata e óbvia, Paulson, grande lobista dos bancos de investimento, ora desaparecidos da face da terra de Wall Street, Paulson, grande pregador da autodisciplina e da racionalidade dos mercados, Paulson, que ajudou a criar a barafunda que mal e mal administra.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h20
Um executivo do UBS suíço foi acusado formalmente nos EUA de ajudar até 20 mil americanos ricos a esconder dinheiro em paraísos fiscais _o Departamento de Justiça dos EUA suspeita que a evasão chega a US$ 20 bilhões. Deu no "New York Times" (leia aqui). Um outro gestor de contas gordas ("private banking") havia se declarado culpado em junho de ajudar clientes a sonegar impostos.
Aqui no Brasil pode ter coisa parecida. Uma série de reportagens de Mario Cesar Carvalho na Folha vem relatando desde 2005 as investigações sobre executivos de bancos suíços que agem no Brasil de maneira parecida. Não há ligações conhecidas desses suspeitos com as filiais dos bancos suíços que operam no Brasil. Mas o Ministério Público e a Polícia Federal investigam esses supostos "enviados especiais". Vários já foram presos.
A suspeita é de que tais gestores usavam doleiros para mandar ilegalmente dinheiro para o exterior e/ou mandar dinheiro ilegal (caixa dois de empresa) para fora. Em reuniões em Punta del Este (Uruguai), clientes brasileiros conheciam o esquema.
Mas os processos estão bem mal parados por aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h46
Desde pelo menos setembro do ano passado, semana sim, semana não a gente ouve a bobagem "o pior já passou". De uns dez dias para cá, voltou o besteirol. Bem, segue uma breve amostra do "pior do dia que não passou", o que será o caso de muitos dias durante meses, ainda.
A Bovespa, que abre mais cedo que Nova York, já antecipava as más notícias do dia e rolava a ladeira. A maior varejista de eletrônicos nos EUA, a Best Buy, avisou que vai lucrar menos _"em 42 anos de varejo, nunca vi tempos tão difíceis para o consumidor", disse o presidente da empresa, Brian Dunn. Ontem, outra grande varejista de eletrônicos chegou à breca _Circuit City, maior rival da Best Buy, entrou em concordata. A American Express virou banco para poder pedir dinheiro ao governo americano.
Isso tudo é sinal de "circuit breaker" no consumidor americano, que está pelo jeito fechando para balanço.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 13h10
O BNDES pode dar empréstimos de emergência para empresas "boas mas em dificuldades" devidas à crise _está no Valor Online (12/11, 11h49, assinante do Valor lê mais aqui). A ajuda também pode ir para as empresas que fizeram besteiras inaceitáveis apostando no videogame financeiro dos derivativos com dólar.
É o que disse o vice-presidente do banco, Armando Mariante, que está em Genebra. A ajuda pode ir para até 200 empresas e chegar a US$ 10 bilhões. Pode ser bom. Pode dar esquisitices. Os critérios de ajuda serão públicos? As taxas de juros dos créditos serão divulgadas? Como a gente vai saber se o BNDES não fará favores com dinheiro público?
De resto, as empresas "x" ou "y" ou "z" brincam com fogo cambial, se divertem (ganham dinheiro) e, quando se queimam em bilhões, vão ganhar crédito subsidiado? Não, não podemos deixar que empresas grandes e boas quebrem. Mas, se tiver ajuda pública na parada, os donos e/ou acionistas devem entregar os anéis: a propriedade da empresa ou de parte dela.
Caixa Econômica Federal
A CEF anunciou hoje também linha de crédito de mais R$ 2 bilhões para financiar a venda de bens de consumo duráveis de menor preço (móveis, eletrônicos, eletrodomésticos).
Sim, a situação está difícil. Mas essa disparada de "pacotinhos" vai ser bem administrada ou vamos acabar com um monte de créditos podres em bancos públicos, ainda mais num período em qua a inadimplência deve crescer?
Escrito por Vinicius Torres Freire às 12h41
Carros: Lula lá, Serra aqui
Lula e José Serra gostaram de partilhar mais que gentilmente a ajuda para a compra de carros, o que estava meio combinado já antes do final de outubro. É do que trato na coluna de hoje na Folha (para assinantes: "Carros: Lula lá, Serra aqui"). Até o valor foi o mesmo: R$ 4 bilhões da Nossa Caixa, outro tanto do Banco do Brasil. Em si mesmo, o auxílio de crédito não tem lá nada de excepcional. Os R$ 8 bilhões de crédito mal dão para dois meses do financiamento de veículos por meio de crédito direto ao consumidor -ou podem dar para mais tempo, se o consumo continuar a cair. Mas a maior parte da venda de carros para pessoas físicas se dá por meio de leasing. A indústria de veículos é mimada _conta com proteção tarifária grande. Mas é mais de 10% da produção industrial medida pela pesquisa mensal do IBGE. As vendas de automóveis caíram 11% de setembro para outubro, mas as fábricas não estavam morrendo de fome (vide post sobre a venda de veículos, "Montadoras no Brasil: recorde menor, mas recorde"). Porém, o ímpeto do consumo já vinha arrefecendo desde abril. O crédito emergencial deve segurar as pontas até dezembro -isso se o consumidor não fugir de compras grandes assim por temer desemprego, juros maiores e prazos menores. Janeiro volta a ser mês de a onça beber água.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 12h16
Os investidores de varejo, "pessoa física", procuram cada vez mais o Tesouro Direto. Em outubro, a procura pelos títulos públicos vendidos pelo Tesouro Direto bateram novo recorde. Em relação a outubro de 2007, o valor das vendas (investimentos) cresceu 345%.
O que é o Tesouro Direto? É a aplicação financeira mais segura e rentável que há para a pessoa física que não seja muito rica (e, por vezes, mesmo para estas). Trata-se do canal por meio do qual o governo vende títulos públicos federais diretamente para o cidadão comum. Isto é, empresta-se diretamente dinheiro para o governo em troca de, claro, juros. O rendimento para quem compra tais títulos e fica com eles até o vencimento é bem maior que o dos fundos de curto prazo, DI e de renda fixa oferecidos pelos bancos.
Quando aplicamos em fundos de investimentos oferecidos por bancos, frequentemente também estamos recebendo dinheiro dos juros da dívida do governo federal. Os fundos compram papéis do governo (emprestam ao governo) e recebem juros, com os quais remuneram os cotistas dos fundos (nós, os aplicadores, que somos donos de parcelas, quotas, desses fundos). As carteiras de fundos como os de curto prazo, DI ou de renda fixa costumam ter entre 45% e 100% de títulos do governo federal (a "carteira" é a composição dos investimentos do fundo). O restante da carteira é composto de papéis privados.
O banco presta o serviço de escolher os papéis em que investimos e o de gerenciar o fundo. Cobra por isso. É um intermediário. No caso do Tesouro Direto, como diz o nome, é o investidor que escolhe diretamente os papéis. Isso exige algum conhecimento e dá algum trabalho. Mas compensa.
Para dar um exemplo (isso NÃO É uma recomendação de investimento): hoje (11/11, terça, por volta das 16h), quem investia numa NTN-B Principal 150515 receberia juros anuais de 9,85% mais a correção da inflação (pelo IPCA). Isto é, 9,85% reais. O que quer dizer "NTN etc"?
NTN-B: trata-se uma Nota do Tesouro Nacional - série B, segundo o nome oficial. É um tipo de título da dívida do governo. Na NTN deste exemplo, o governo se comprometia a pagar 9,85% ao ano, além da correção monetária, se o investidor mantiver seu investimento até 15 de maio de 2015 (afora impostos, que também há nos fundos de investimento).
"Principal": quer dizer que o rendimento é acumulado e o investidor recebe sua aplicação de volta, com juros e correção, em 2015. Se o investidor quiser "sacar" o dinheiro antes terá de vender o título segundo o preço de mercado no dia _a rentabilidade não é garantida nesse caso.
Há títulos de vários tipos e prazos. Há NTNs que vencem de 2010 a 2045 (mas não há títulos com vencimentos em todos os anos entre 2010 e 2045). Há NTNs que pagam juros semestralmente (com "cupom") e o investidor resgata o que aplicou, com correção monetária, no vencimento do título.
Há títulos "prefixados": o rendimento do título não muda, mesmo se a inflação subir (se o título promete pagar 15% ao ano, caso a inflação suba para 15% seu rendimento é zero). Outros variam de acordo com a taxa Selic.
Para usar o Tesouro Direto é preciso ter um agente de custódia (a instituição financeira que "guarda" os títulos, que pode ser um banco ou uma corretora). A maioria dos bancos maiores cobra taxas altíssimas para fazer o serviço do Tesouro Direto (4%). Claro, não querem que os clientes saiam dos fundos e vão para o Tesouro Direto. Na página do Tesouro Direto na internet há a lista dos agentes de custódia e as taxas que cobram, na maior parte entre 0 (zero) e 0,4%.
Todas as informações necessárias para entender e usar o Tesouro Direto estão na página http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro_direto/ (ou clique aqui), da Secretaria do Tesouro Nacional, subordinada ao Ministério da Fazenda.
Qual o risco? Menor que o de um fundo de investimento _os títulos do governo são os de menor risco do mercado. O risco, em suma, é o de o governo dar calote e/ou quebrar e não pagar suas dívidas. Mas, nesse caso, também os fundos de investimento com papéis do governo iriam à breca (aliás, a economia toda iria à breca em caso de calote do governo federal).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h13
G20, G7, gemidos e mistificações
Os países ditos "emergentes" estão em campanha para conquistar mais influência nas decisões econômicas mundiais. Isto é, querem ter voz em reuniões como a do G7 (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá). Querem ter mais poder em organizações como o FMI. Querem influenciar a discussão, ainda muito descoordenada, sobre mudanças em normas financeiras internacionais. É o tema da minha coluna de hoje na Folha, "G20, G7, gemidos e mistificações", acessível para assinantes.
É muito difícil que os países realmente relevantes em termos financeiros permitam que os demais dêem palpites na regulação de suas instituições financeiras, nos acordos transnacionais entre os países mais ricos, nas decisões de coordenação de políticas econômicas e que os "emergentes" menores tenham mais poder de decisão em órgãos como o FMI. Esses países mais relevantes são os do G5 (antecessor do G7): EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Japão, além da China, que aliás tem se mantido distante dessa discussão toda. De resto, nem os países do G5 têm clareza do que pretendem fazer sobre a "arquitetura financeira mundial" (arquitetura bem frágil, aliás, pois formalmente o sistema é bem desregulamentado). Os "emergentes menores", em termos financeiros e econômicos, tendem a não conseguir mais poder.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h24
Nouriel Roubini, o economista que previu com precisão e bons e detalhados argumentos técnicos a imensa confusão financeira em que estamos metidos, acha que as Bolsas ainda vão cair pelo menos 20% até chegarem ao fundo do poço. Dá para acreditar? Previsões para Bolsa e câmbio valem pouco. Se o leitor pregar na parede uma folha de jornal com os nomes de empresas e brincar de cabra cega, espetando o nome das ações e assim escolhendo as que pretende comprar, é possível que faça uma carteira de investimentos mais rentável que a de muito analista.
Roubini parece meio doido e ficou um pouco mais agitado depois que se tornou estrela mundial, o "doctor Doom", o "senhor catástrofe". Mas é um ótimo economista. No final de 2006, veio ao Brasil fazer uma apresentação de seu "artigo-catástrofe". O artigo era impressionante e bem argumentado, embora talvez um pouco confuso. Este colunista o leu e, no que o entendeu, ficou perturbado. Perguntou então a Arminio Fraga o que achava dos argumentos de Roubini _o economista seria doido ou estávamos mesmo à beira de uma catástrofe? Fraga tinha assistido à apresentação de Roubini e, digamos, entende "um pouquinho mais" do assunto que a maioria de nós. Fraga: "acho que ele não está maluco não. Talvez seja um pouquinho exagerado. Mas só um pouquinho".
Mas previsões sobre Bolsas são outros quinhentos. Fica o registro, porém. Palpite por palpite, os de Roubini têm sido mais certeiros.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h40
Outra pergunta que fazem ao pobre colunista (vide post abaixo) é: "O Ibovespa não é um bom investimento no longo prazo?"
Tende a ser. Tende. De resto, quão longo é o seu prazo? Muitas ações estão absurdamente baratas. Mas o mercado está absurdamente caótico e ninguém sabe a duração do tumulto financeiro, da recessão, de coisa alguma. O Ibovespa vai estar "melhor" daqui a um ano? Pode ser. Pode ser daqui a seis semanas, seis meses. Pode ser daqui a dois anos. Quem acompanha "análises" sobre a Bolsa deve lembrar que, em meados deste ano, ainda havia gente a falar que o Ibovespa poderia ir a 70 mil, 80 mil pontos em dezembro _está em 36 mil e pouco, depois de ter decolado para 73 mil.
Mesmo quem faz recomendações de investimento (e este NÃO é o caso deste pobre colunista), gestores financeiros responsáveis, sérios e prudentes, não dão "dicas" genéricas do que fazer com aplicações financeiras. Investimentos são muito como roupa feita sob medida. Não se pode ir ao alfaiate e dizer "por favor me faça um paletó como todo mundo está fazendo". É um lugar comum, mas é verdade. Um gestor responsável do seu dinheiro vai querer saber de sua alocação de investimentos (quanto está investido em quê e até quando), seu estômago para enfrentar riscos, sua idade (jovens podem, em tese, correr mais riscos do que aqueles que estão à beira da aposentadoria), o prazo aceitável para você poder liquidar (sacar) sua aplicação, se você tem filhos, casa própria, quanto você ganha, quão seguro é seu emprego etc etc.
Isto posto, saber se "a Bovespa não é um bom investimento no longo prazo" é uma pergunta que não faz muito sentido se não se levar em conta onde mais o cidadão tem seu dinheiro, que idade tem etc etc. Momentos de grande baixa são aqueles em que se deve comprar, bidu. O problema é saber quando se está diante da "grande baixa". Para quem tem pouco ou nada na Bolsa e pode deixar seu dinheiro em ações por, pelo menos dois anos (PELO MENOS DOIS ANOS, ATENÇÃO), talvez agora seja um momento para comprar, de investir parte de suas aplicações financeiras em ações. Mas, para pessoas físicas que não são profissionais do mercado, colocar mais de um quarto de seu dinheiro em ações é uma atitude considerada arrojada por gestores financeiros prudentes.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h15
O Ibovespa subiu mais de 5%, caiu abaixo de zero e fechou nessas redondezas, em alta de 0,3%. Ninguém se espanta mais com as inversões demenciais do preço das ações. O que muita gente tem perguntado ao blog e ao colunista é quando haverá uma tendência, ainda que tênue, para o Ibovespa _seja de estagnação, alta ou baixa.
Bem, o pobre colunista não sabe para onde vai o Ibovespa _se soubesse, não seria um pobre colunista. Mas ainda estamos longe do momento em que vai diminuir o ritmo em que surgem surpresas negativas na economia, não só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo. Enquanto não houver ao menos uma "estabilidade na ruindade", os corcoveios da Bolsa devem continuar intensos.
Para citar de maneira ordenada alguns dos problemas possíveis:
1) Apenas agora começa a ficar mais evidente o impacto da crise financeira no mundo da economia dita "real" (vide o risco de concordata da GM americana, a concordata de uma varejista que os brasileiros que vão aos EUA devem conhecer, a Circuit City, de produtos eletrônicos etc, para ficar nuns poucos exemplos anedóticos).
Mais empresas, mesmo grandes, vão quebrar no mundo rico, nos EUA em particular. A quebra de uma empresa ou instituição financeira ecoa em vários mercados, também os financeiros, embora não só. São prejuízos que bancos e outros detentores de créditos e de títulos financeiros relacionados a tais empresas têm de reconhecer e cobrir;
2) Os fatos negativos e as perdas financeiras realimentam um círculo vicioso. Vendem-se ativos para cobrir perdas. Ou vendem-se e compram-se ativos a fim de se alterar a composição de uma carteira de investimentos. Isto é, deixa-se uma aplicação, se vai para outra, com o objetivo de reequilibrar o risco, a rentabilidade e a liquidez do conjunto desses investimentos. O risco, a rentabilidade e a liquidez dos ativos se alteram em reação a cada notícia econômica importante. Os mercados financeiros reavaliam tais fatores continuamente. Em tempos de crise, o fazem de maneira mais intensa, quando não caótica ou insana;
3) Tais movimentos ocorrem no mundo inteiro, com qualquer ativo. As vendas para cobertura de perdas e reorganização de carteiras provocam novas desvalorizações de ativos _e assim continua o rodamoinho de perdas que causam vendas, de vendas que causam perdas etc;
Tal processo começou com papéis lastreados em prestações imobiliárias nos EUA, afetou bancos e daí influenciou o preço de uma imensa variedade de ativos financeiros (que eram liquidados por instituições financeiras que precisavam fazer caixa, por exemplo). Para piorar, muitos dos investimentos que perderam muito valor eram financiados com muito dinheiro emprestado ("alavancagem"), o que multiplica o efeito de eventuais perdas;
4) Essas mudanças violentas vão continuar enquanto não baixarem os preços exagerados de muitos desses ativos, enquanto não forem enxutos excessos de endividamento, enquanto não chegar a um pico o processo (ou a expectativa) de quebra de empresas e/ou bancos. Isso pode demorar muitas semanas, vários meses, mais de ano. Ninguém sabe. Os mais experimentados, inteligentes e bem posicionados profissionais do mercado dizem que não sabem;
5) A economia brasileira é conectada ao resto do mundo. Não vai escapar desses terremotos. Fuga do risco implica também fuga de investimentos denominados em moedas de países mais arriscados _como o Brasil. Não importa se a notícia ruim ocorreu na Hungria, no Sudeste Asiático ou sabe-se lá onde. Para piorar, recessões redundam em consumo menor de matérias-primas. Matérias primas compõem parte muito importante de nossas exportações e as nossas grandes empresas são produtoras dessas commodities. Mesmo que a economia brasileira esteja muito mais bem organizada do que em outras crises, nossa moeda e nossos ativos financeiros vão apanhar e oscilar.
Em suma, estamos ainda no meio do rodamoinho. Numa semana melhorzinha, ouve-se gente do mercado e mesmo do governo a dizer que "o pior já passou". A gente tem ouvido esse tipo de coisa desde março de 2007. Era besteira, como se viu.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h50
Os posts mais recentes:
- O pacotão anticrise chinês;
- Fusões & aquisições bancárias;
- A geração de Obama no Brasil;
- Um convidado à mesa;
- Portugal, por Igor Gielow;
- Camarão no alho e o Alentejo, por Igor Gielow;
- Caracóis e língua de coelho, por Igor Gielow;
- Montadoras no Brasil: recorde menor, mas recorde;
- A GM americana diz que está na lona;
- Berlusconi, sempre um cretino fascista.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h27
A China anunciou seu pacotão de gastos públicos para estimular a economia. Se for para levar a sério o número anunciado, em termos proporcionais ao PIB trata-se de um pacote maior que o americano (isto é, se considerados apenas os US$ 700 bilhões do pacote Paulson e que o dinheiro chinês será gasto em dois anos e um trimestre).
Os chineses indicaram que não vão mais cortar os juros com rapidez (ou, ao menos, não pretendem fazê-lo). Em vez disso, o governo vai gastar mais. A economia chinesa cresceu 11,9% no ano passado, deve crescer 9,5% este ano e o FMI prevê 8,5% para 2010. Mas há quem diga que o PIB chinês possa avançar "apenas" 7% no ano que vem. Acadêmicos que dão chutes ainda mais audaciosos avaliam que 7% é o "limiar da tensão" para o crescimento chinês. Isto é, com a economia crescendo abaixo de 7%, os nativos começariam a ficar inquietos: pode ser que pipoquem revoltas políticas, diz a tese.
Quanto ao pacote em si, sabe-se por ora apenas que se trata de gastos em infra-estrutura e bem-estar social, no valor de 4 trilhões de iuanes (US$ 587 bilhões), dinheiro que seria desembolsado em 2009 e 2010. Mas o cálculo de tal valor pode parecer com o desses pacotes de governo brasileiro, que juntam um tanto (menor) de dinheiro novo com projetos já previstos no Orçamento. Logo, não se sabe se o pacote é mesmo de meio trilhão de dólares.
A idéia do pacote é gastar em habitação, água encanada, eletricidade e estradas de ferro. Basicamente, trata-se de levar o desenvolvimento chinês para paupérrimas áreas rurais e/ou distantes das grandes cidades, onde se concentrou o crescimento econômico. Dizem ainda que vão reconstruir as áreas devastadas por terremotos, também nos confins do país.
Desde o final do primeiro trimestre, na imprensa chinesa mais ou menos oficial (99,9%) e em língua inglesa, pipocam rumores, análises e comentários a respeito da necessidade de a China mudar seu padrão de crescimento: de "fora" para "dentro". Isto é, a China deveria poupar e investir menos e consumir mais (isto é, no fim das contas, no que interessa mais diretamente ao mundo, a China deveria reduzir seu enorme superávit comercial, importando mais produtos do resto do mundo e consumindo lá dentro parte do que exporta). Aliás, seria difícil mesmo impulsionar o crescimento exportando mais, pois o mundo não vai ter como comprar ainda mais produtos chineses (e nem manter o atual ritmo de consumo).
De qualquer modo, a notícia do pacote é muito importante. Primeiro, mostra o grau de preocupação chinesa com a desaceleração da economia deles. Segundo, sem a China a recessão mundial pode ser muito pior. Aliás, se o crescimento chinês cair muito, a crise econômica será pior para o Brasil, grande celeiro de comida e materiais para o mercado do leste asiático, o Complexo China. Também muito importante para o Brasil é a promessa chinesa de reduzir impostos para as empresas deles: seus produtos vão se tornar algo mais competitivos.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h19
O Banco do Brasil está para comprar quase metade do Banco Votorantim, informam Guilherme Barros, Sheila D'Amorim e Toni Sciarreta, colegas da Folha, em reportagem na edição deste domingo (09/11/08) do jornal. Fica mais e mais difícil para o Bradesco acompanhar Itaú-Unibanco e Banco do Brasil na liderança do ranking dos bancos brasileiros _se é mesmo isso que o Bradesco quer. Se quiser, só resta o Safra na lista dos bancos médio-grandes que poderiam aumentar rapidamente o tamanho do Bradesco numa aquisição. Mesmo assim, o Bradesco precisaria adquirir uns três bancos do tamanho do Safra para voltar a ficar perto da liderança (pelo ranking de ativos, veja lista abaixo). Vai ser uma história interessante de acompanhar, a reação do Bradesco.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h30
A geração de Obama no Brasil
Na coluna de hoje (domingo, 09/11/08) no caderno Dinheiro da Folha, escrevo sobre a geração de políticos que nasceram em torno de 1960, como Barack Obama, e sobre alguns de seus representantes no Brasil; sobre o período histórico em que iniciaram sua vida adulta: a primeira metade dos anos 1980, o da restauração conservadora no Ocidente. Trato da falta de substância política e intelectual dos políticos brasileiros que têm entre 45-55 anos, vazio que pretendem escamotear com a ideologia bocó do "choque de gestão. Assinante lê aqui a coluna "A geração de Obama no Brasil.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h16
Um convidado à mesa
Os "posts" da Cozinha Liberal desta semana são de um outro adepto das liberalidades à mesa e da comida sem frescura: meu colega Igor Gielow, Secretário de Redação da Sucursal de Brasília, um sujeito viajado, que já andou por buracos da Ásia e pelos interiores de vários continentes, a trabalho, para vadiar e para comer. Os três textos abaixo são dele.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 12h03
Portugal, por Igor Gielow
O Vinicius que me perdoe, mas gosto mais de comida do que de economia. Por isso, foi com grata surpresa que vi o nosso bravo colunista-blogueiro adentrar a seara da gastronomia sem frescuras, um lugar raro nos dias de hoje em que "foodies" e outros chatos não são bem vindos. Não se trata de espezinhar os entendidos: eles servem de baliza, para que nós bárbaros não tomemos uma Cristal com aquele bifão à Moraes (embora eu ache que champagne vá bem com qualquer coisa, mas vocês entenderam o espírito).
Dito isso, seus primeiros posts me estimularam duas lembranças. Portugal é uma espécie de Meca da boa comida sem frescura. E o Alentejo, a sua Caaba, o ponto focal para os fiéis. Nos dois posts abaixo, trato dessas memórias.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 12h02
Camarão no alho e o Alentejo em Lisboa
O melhor restaurante alentejano talvez não fique no Alentejo, e sim em Lisboa. Trata-se do Cantinho do Bem Estar, uma preciosidade que infelizmente é cada vez mais freqüente em guias para gringos: ou seja, as filas que já são enormes tenderão ao paroxismo. Lá, se você sobreviveu à espera e ao humor peculiar do seu Tiago, o dono, encontrará à disposição uma engenharia para assentar 20 pessoas onde cabem 10. Peça gambas ao alho, que é vendida como uma entrada _na verdade, dá para dois se fartarem. São camarões bem grandes num molho sensacional. A receita tradicional implica o salteamento dos camarões com azeite farto, pimentas vermelhas, sal e, lógico, muito alho. Mas em algum ponto acontece uma mutação, e um molho de mostarda (tipicamente, mostarda Dijon fervida com suco de limão e algo para dar liga, como gema de ovos) se mistura ao alho todo. Tente em casa, mas não pergunte a receita: nem Tiago nem sua fiel cozinheira dirão nada. Anote: rua do Norte, número 46, telefone 21-3464265. Não tem placa, é uma portinha na esquina. Chegue cedo (tipo 12h para o almoço, 19h para o jantar). Não é caro: por volta de 20 euros por cabeça, com vinho alentejano na jarra (por Igor Gielow).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 12h02
Caracóis, caracoletas e língua de coelho

Ir ao Alentejo e não comer é algum tipo de pecado imprescritível. Ano passado fui a Borba, perto da fronteira espanhola, e comi os melhores caracóis à portuguesa que já provei. Sim, caracóis: lesmas na casca. Mas devidamente temperadas com alho e coentro, mas um azeite da região, e você até esquece o fato de que tem de tirar o bicho de dentro da casca com um palito e que, às vezes, um líquido viscoso o atinge no processo. Mas o melhor do dia não havia chegado. Um pouco mais tarde, fui levado por amigos portugueses a um lugar chamado Tasca dos Coelhos, a cerca de 5 km de Borba, na entrada da vila de Alcaraviça. É quase um casebre, simples, com coelhinhos à Disney espalhados no gramado verde ao lado. Pule essa parte. Em breve, estará comendo um deles em um cozido alentejano e deixando suas condolências a vovô Walt para outro dia. Não lembro o nome da dona do local, mas por algum motivo ela simpatizou comigo e me ofereceu o "crème de la crème": as línguas dos dois coelhos cozidos que pedimos. E me ensinou o modus operandi, abrindo o crânio do bicho afastando os incisivos com os polegares. Com o cozimento, o osso se rompe facilmente e a língua salta. Não pense, coma.
Se quiser repetir a brincadeira em casa, a idéia é refogar em bom azeite um coelho em pedaços com cebola e alho. Isso feito, cubra com vinho branco seco e adicione uns quatro tomates pelados e sem semente. Tempere com cheiro verde, pimenta e sal. Quando o vinho baixar, cubra com caldo de carne. Deixe o fogão fazer seu trabalho lentamente e, quando o coelho estiver macio, tire os pedaços. Una mais um ou dois tomates ao molho com um pouco de farinha de rosca. Engrossou, veja se está bom de tempero, volte o coelho e derrame tudo sobre uma caçarola forrada de pães torrados. Salpique salsa fresca por cima, dá para quatro famélicos. Não vai ficar como o da Tasca dos Coelhos, mas e daí? Tente repetir o vinho: um Syrah da casa Cortes de Cima, uma das pioneiras no uso dessa uva em Portugal (tanto que inicialmente seu rótulo trazia a denominação "incógnito", daí seu melhor vinho agora ter esse nome fantasia). Serviço: Tasca dos Coelhos, estrada de Monte Forte, Alcaraviça. Preços abaixo dos 10 euros por pessoa. Telefone: 26-8890066 (por Igor Gielow).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 12h01
As montadoras de veículos no Brasil mantiveram esta semana a projeção de aumentar as vendas em 24% este ano. Ficaram mais animadas com a promessa de o Banco do Brasil emprestar R$ 4 bilhões até o final do ano. O crédito murchou, encurtou de prazo e encareceu ainda mais desde setembro, derrubando as vendas em outubro, em especial a dos veículos mais baratos.
Mas, para atingir a meta, as fábricas vão ter de vender 302 mil veículos em novembro e dezembro, o que equivale a vender 24% a mais do que a média mensal do ano, até outubro. Mesmo com o auxílio do governo-BB, o crédito ainda vai estar mais caro, os prazos de financiamento estarão mais curtos e o consumidor menos animado. Seria uma façanha vender 302 mil. Porém, a indústria não vai exatamente mal, para dizer o mínimo. Sim, viveram quase uma década de estagnação: apenas em 2006 as vendas empataram com as de 1997, o melhor ano até então (1,9 milhão de veículos). Mas houve recorde em 2007 (crescimento de 27,8%) e, se as vendas de final de ano ficarem na média de 2008, ainda cresceriam 19,3% (para 2,937 milhões de veículos). Outro recorde, com velocidade reduzida, mas recorde.
O problema não está bem aí. Várias empresas vinham se preparando, investindo, para uma expansão maior e, de resto, as matrizes devem estar cobrando o possível e o impossível em melhora de resultados, pois a coisa está feia nos EUA (vide post abaixo) e bem feiinha na Europa.
O gráfico abaixo mostra a variação das vendas (emplacamentos de veículos novos) acumuladas em 12 meses (isto é, cada mês do gráfico pode ser considerado como o "final de um ano"; a variação das vendas, pois, seria equivalente ao crescimento porcentual nesse "ano"). O pico do crescimento em termos anualizados aconteceu entre fevereiro e abril deste ano (31%). Em outubro, a alta acumulada em 12 meses (contra os 12 meses anteriores) era de 23,4%.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h49
A GM americana avisou na sexta que seu cofre está ficando vazio. Mais precisamente: sua "liquidez" está próxima do nível mínimo para as necessidades operacionais da empresa ("liquidez": o dinheiro que tem à disposição ou o que pode obter no curtíssimo prazo; "operacional": o necessário para a empresa continuar a funcionar). A empresa diz que vai chegar a esse mínimo se a situação econômica não melhorar na primeira metade do ano que vem, se não vender ativos ou ou se não receber auxílio do governo. A Ford, um pouco menos baqueada, já vendeu suas marcas de luxo: Aston Martin, Jaguar e Land Rover.
Na quinta-feira, as montadoras de Detroit (GM, Ford, Chrysler) foram pedir dinheiro à liderança dos deputados do Partido Democrata. Estão pedindo ao governo Bush faz meses _Bush diz que não vai sair mais nada. Querem outros US$ 25 bilhões em empréstimos (já levaram US$ 25 bilhões este ano, do Departamento de Energia, "para desenvolvimento de veículos de maior eficiência energética).
Bem, a situação econômica não vai melhorar no primeiro semestre de 2009. Se a empresa não conseguir vender ativos, terá de obter dinheiro do governo. Barack Obama deixaria a empresa ir à breca? Parece que não. Aliás, pediu hoje que o governo Bush dê uma mão às montadoras. Deixar que GM ou Ford desapareçam seria um desastre econômico, social e humano. Ou algo como como erradicar da face da terra americana coisas como o hambúrguer, a pizza, o churrasco no jardim e os campeonatos de futebol americano ou de beisebol. E seria a desmoralização de Obama diante da ala sindicalista e da esquerda do Partido Democrata, diante dos trabalhadores das fábricas americanas restantes etc. Parece muito improvável que tal coisa ocorra. E, enfim, o que são US$ 25 bilhões perto das centenas de bilhões que a finança leva? Mas, depois das montadoras, quem mais vai fazer fila para pedir dinheiro ao governo?
A GM teve um enorme prejuízo no terceiro trimestre e desistiu praticamente de comprar a Chrysler. Não está com problemas apenas porque os americanos não estão comprando carros (e carros de montadoras americanas em particular). A GM tem um enorme braço financeiro (GMAC), avariado como grande parte da finança americana.
O diário britânico "Financial Times", em sua coluna "Lex" de hoje ("Socorrer Detroit", de sexta, 7 de novembro), diz que as montadoras americanas listadas em Bolsa poderiam ser compradas por cerca de US$ 7 bilhões (claro, o comprador leva também um pacote de bilhões de dólares de problemas e passivos).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h18
"Bonito, jovem e bronzeado" ("bello, giovane e abbronzato"), foi o que disse Silvio Berlusconi a respeito de Barack Obama, numa entrevista coletiva ao lado de Dmitri Medvedev, o presidente russo. Berlusconi está cada vez mais horroroso e, apesar de mais idoso, ainda mais cretino e sempre fascista.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h08
Barack Obama não disse nada em sua primeira entrevista coletiva como presidente eleito. Parecia um pouco tenso e disposto a responder algumas perguntas apenas para aplacar a ansiedade jornalística por frases. O tema a que dedicou explicações mais detalhadas foi canino: o cachorro que vai dar às filhas. Tem de ser um cão hipoalergênico (Malia, uma de suas filhas, é alérgica) e escolhido em um abrigo de animais abandonados. Será que existe cachorro hipoalergênico? Talvez um cão sem plumas.
De mais incisivo, disse que gostaria de ver aprovado logo um pacote de estímulo fiscal (gastos do governo e/ou redução de impostos). Caso tal pacote não venha antes de sua posse, será o primeiro assunto de que vai tratar. Mas não quer forçar a barra de medidas antes da posse porque os EUA "tem um presidente de cada vez". De resto, reafirmou de forma vaga compromissos de campanha: ampliar os benefícios do seguro-desemprego, cortar impostos para a maioria dos americanos e pequenas empresas, tratar da crise financeira, articular uma "resposta global" para os problemas econômicos bla-bla-bla.
Sim, o homem foi eleito faz apenas três dias e as perguntas dos repórteres americanos não ajudaram em nada. Mas Obama não precisava ser tão banal. E tinha até motivo para melhorar o discurso: hoje se soube que o desemprego nos EUA subiu para o maior nível em 14 anos e meio, de 6,1% em setembro para 6,5% em outubro.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h03
A economia das economias avançadas vai encolher pela primeira vez desde o final da Segunda Guerra Mundial, diz o FMI no documento em que apresenta a revisões, para baixo, de suas estimativas econômicas. O Fundo pede que os países ricos estimulem suas economias a fim de evitar o pior. O FMI previa crescimento de 1% para o conjunto das economias avançadas (vide lista abaixo). Agora, prevê contração de 0,25%. As previsões do FMI estão na tabela abaixo.
"Os mercados entraram em um ciclo vicioso de desalavancagem de ativos, baixa de preços e de saques e liquidações de investimentos", diz o FMI. Ou seja, quanto maior a redução dos investimentos baseados em dívidas, maiores as quedas dos preços dos ativos financeiros, o que leva a investidores a sacar seus dinheiro de suas aplicações (de fundos de renda fixa a hedge funds), o que exige mais desalavancagem etc etc.
O FMI diz também que o comportamento dos mercados indica que se espera um aumento grande na inadimplência de empresas, assim como mais perdas em derivativos e empréstimos. As condições financeiras devem, assim, continuar mais duras por um período mais longo do que o esperado (no caso do FMI, do que no final de setembro, quando o Fundo fechou a mais recente edição do seu "Perspectiva Econômica Mundial").
O Banco da Inglaterra (BC deles) cortou hoje (quinta, 06) sua taxa "básica" de juros de 4,5% para 3%, o maior talho em meio século. O BC Europeu foi de 3,75% para 3,25%. As Bolsas pararam mais de uma vez de achar que o "pior já passou" e descontam a perspectiva de prejuízos, despencando no mundo quase inteiro.

Economias avançadas (31 países): Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Chipre, Cingapura, Dinamarca, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hong Kong, Islândia, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Coréia, Luxemburgo, Malta, Nova Zelândia, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suécia, Suíça, Taiwan
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h10
O número de americanos desempregados e que recebem seguro-desemprego é o maior desde 1983. O dado foi divulgado hoje pelo Departamento ("ministério") do Trabalho dos EUA. O gráfico mostra a evolução do número de pessoas no seguro-desemprego (a partir de janeiro de 2006; dados semanais e com ajuste sazonal). O número semanal de novos pedidos de seguro-desemprego, 481 mil na semana passada, foi quase 60% superior ao de janeiro de 2006.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h17
Obama e a sombra de Clinton
Na coluna de hoje na Folha, escrevi sobre os nomes mais cotados para o comando da equipe econômica de Barack Obama (assinante lê aqui). Com a exceção de Paulo Volcker (presidente do Fed de 1979 a 1987), os nomes mais citados na imprensa americana são todos do grupo "clintoniano", economistas e burocratas ligados ao secretário do Tesouro de Clinton Robert Rubin (1995-1999), ora no conselho do Citi. É o caso, por exemplo, de Lawrence Summers, que substituiu Rubin no Tesouro (1999-2001). Ou de Timothy Geithner, presidente do Fed de Nova York, que trabalhou com Rubin e Summers no Tesouro. Vários economistas democratas ligados a Rubin e que participaram da campanha de Obama trabalham no Hamilton Project, programa de pesquisas sobre "crescimento econômico com inclusão", projeto hospedado pela Brookings Institution. No site do Hamilton Project há transcrições de debates realizados pelo projeto, artigos em jornais e revistas e "papers" sobre políticas públicas.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 13h00
Muita gente que se interessa pelo assunto tomou conhecimento da crise financeira nos EUA ouvindo a história da "crise do subprime". Isto é, da crise dos títulos de investimento cuja renda e valor depende do pagamento das prestações da casa própria, em particular das prestações daqueles consumidores que tinham histórico de crédito de "segunda linha" ("subprime"). O valor de tais títulos entrou em parafuso quando os cidadãos com crédito "subprime" começaram a ficar inadimplentes, o que levou instituições financeiras que detinham tais papéis a registrar perdas contábeis e, assim, e ver reduzido seu capital, a emprestarem menos, a falir etc etc.
Mas há problemas também com os títulos lastreados em pagamentos de cartão de crédito. A Bloomberg noticia que ninguém quis comprar tais papéis em outubro, coisa inédita em 15 anos. As companhias de cartão de crédito e bancos levantam fundos por meio da venda desses papéis. Sem tal fonte de financiamento (ou com o seu encarecimento), fica mais difícil ou caro financiar os consumidores e suas compras com cartão de crédito. Por que o mercado refuga os papéis lastreados em pagamentos do cartão de crédito? Medo de calote: o americano mais endividado e/ou desempregado pode não pagar as contas. Como, grosso modo, no caso dos "subprime".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h00
Os clintonianos e a esquerda de Obama
Robert Rubin foi secretário do Tesouro de Bill Clinton (1995-99). Está no conselho do Citigroup e é um dos líderes dos economistas "clintonianos", vários deles cotados para assumir postos de chefia no governo de Barack Obama, segundo especulações da imprensa americana. Jared Bernstein foi vice-economista chefe do departamento do Trabalho quando Robert Reich era secretário do Trabalho, também no governo Clinton. Trabalha no Economic Policy Institute (fundado por Reich e Lester Thurow, entre outros), dedicado a pesquisas sobre trabalho, claro. É da "ala esquerda" dos democratas e foi conselheiro da campanha de Obama. Nos últimos meses da campanha, os "clintonianos" ganharam espaço junto ao agora presidente eleito. Num artigo publicado no "New York Times" ("No More False Economic Choices"), Rubin e Bernstein discutem convergências e discordâncias entre as alas "centrista" e de "esquerda" do Partido Democrata _a julgar pelo texto, as diferenças não parecem grandes.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h32
Um Nobel critica a religião keynesiana
Edmund Phelps, Nobel de economia em 2006 e professor da Universidade Columbia, critica em termos quase leigos o culto acrítico das idéias de Keynes e as soluções da "prateleira keynesiana" para a crise atual. Dez ou quinze minutos de leitura, apenas. O artigo saiu no "Financial Times" de 4 de novembro ("Keynes had no cure for slumps").
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h53
Um homem de Obama e Milton Friedman
Lawrence Summers, 53, é supercotado para ser o secretário do Tesouro de Barack Obama, como se sabe (o cargo equivale mais ou menos ao de ministro da Fazenda). Summers foi secretário do Tesouro de Bill Clinton (julho de 1999 a janeiro de 2001) e era um dos conselheiros da campanha de Obama. Em sua ascensão no governo Clinton, foi meio apadrinhado por Robert Rubin, 70, ora no Conselho do Citigroup. Rubin, por motivos óbvios ("gato gordo de Wall Street), não parece ter chance de assumir o posto que também ocupou no governo Clinton (janeiro de 1995 a julho de 1999). De resto, Rubin se uniu a Alan Greenspan na campanha que derrubou tentativas de regulação do mercado financeiro.
O que pensa Summers? Coisa demais para caber num modesto blog. Mas, a título de introdução, vale ler um didático artigo que publicou em 2006 no "New York Times", um elogio a Milton Friedman, o decano moderno de quase todos os liberais ("The Great Liberator").
Summers conta que foi educado como "keynesiano" e começa assim o seu texto: "Se John Maynard Keynes foi o economista mais influente da primeira metade do século 20, Milton Friedman foi o economista mais influente da segunda metade. Não faz muito tempo, éramos todos keynesianos ("Sou um keynesiano", foi a frase famosa de Richard Nixon em 1971). Do mesmo modo, qualquer democrata [ie, adepto do Partido Democrata] honesto admitirá que agora somos todos friedmanianos."
Summers encerra o artigo apontando suas diferenças com Friedman. O decano do liberalismo teria cometido alguns erros econômicos, "deu muito pouco peso a questões de justiça social e era excessivamente cínico a respeito da possibilidade de a ação coletiva fazer as pessoas melhorarem de vida". Mas Summers diz concordar com Friedman no essencial (no que concordaria quase qualquer economista padrão): "a política monetária pode direcionar ["shape"] a economia mais do que a política fiscal; alta e prolongada inflação não leva à prosperidade e pode levar a padrões de vida mais baixos; autoridades econômicas não têm a capacidade de controlar ["fine-tune"] as flutuações da economia com precisão".
Depois da crise, em artigo no "Financial Times", de outubro passado ("The pendulum swings towards regulation"), Summers dizia, entre outras coisas, que "o pêndulo agora vai _e deveria ir_ na direção de mais regulação, de uma atuação maior do governo no sentido de salvar o sistema de mercado de seus excessos e inadequações".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h33
A venda de "veículos leves" (carros de passeio etc) nos Estados Unidos caiu 34,5% em outubro de 2008 (contra outubro de 2007). No ano, de janeiro a outubro, a queda foi de 14,6% (contra o mesmo período do ano passado) _dá quase a produção brasileira inteira, até agora. As montadoras americanas perderam mais. No caso de veículos leves, a queda nas vendas foi de 26% na Chrysler, 18,3% na Ford e de 20,4% na GM. Nas estrangeiras maiores, a Honda perdeu 3,2% e a Hyundai 7,8%.
É o pior nível de vendas em 17 anos.
O índice que mede as encomendas das fábricas caiu para o menor nível desde 1982 _é uma medida indireta da intensidade da atividade manufatureira.
Os bancos continuaram a apertar a oferta de crédito, segundo levantamento trimestral do Fed.
O Citigroup estimou que suas perdas com títulos lastreados em dívidas de cartão de crédito vão chegar a um nível recorde em 2009.

Dia das Bruxas nos EUA: "Eu sou uma bruxa... O que você é? Um economista".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h50
A Comissão Européia (o "governo" europeu) soltou sua previsão trimestral para o PIB da eurolândia. "Crescimento" de 0,1% em 2009 e de 0,9% em 2010.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h47
A Itaúsa vai ter 61,5% das ações ON (isto é, do capital votante) do novo bancão brasileiro, aliás latino-americano, aliás, global. A família Moreira Salles, controladora do Unibanco, fica com 25,5%. No capital social total, a Itaúsa terá 35,2%, os Moreira Salles terão 8,6% e o Bank of America (acionista do Itaú) fica com 5,4%. O mercado fica com 51%.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h17
"Itau Agrees to Acquire Unibanco, Creating Brazil's Biggest Bank" é o título da reportagem da agência de notícias financeiras e econômicas Bloomberg para a "união" dos bancões brasileiros. O texto foi escrito por repórteres brasileiras.
O "Wall Street Journal" nem estava dando a notícia até 15h (de Brasília) e o "Financial Times" dava matéria da Reuters, que também falava em "aquisição".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h02
- O rumor no mercado sobre a venda do Unibanco vinha de anos. Na verdade, executivos do banco dizem que o Unibanco recebeu, sim, várias propostas de compra, de bancos estrangeiros;
- Outro rumor no mercado, mas que fervia faz semanas, era sobre as avarias que a crise provocara no Unibanco. Hoje, o Itaú e o Unibanco "se uniram". Qual rumor era verdadeiro? O mau estado do Unibanco no pós-crise ou as longas conversas a respeito da venda do banco?;
- Na nota que soltaram sobre a operação, os bancos dizem que as conversas sigilosas vinham de 15 meses. Mas a operação foi concluída durante a maior crise bancária mundial em 80 anos. Então "era tudo verdade" (os dois rumores, da venda do Unibanco e o de suas avarias)?
"Trata-se de uma instituição financeira com a capacidade de competir no cenário internacional com os grandes bancos mundiais", diz a nota dos bancos sobre a fusão. Enfim um banco brasileiro vai mesmo tentar ser internacional? Faz sentido, em tese. Agora, há bancos baratos para comprar pelo mundo todo. Mas, se o Itaú levou o Unibanco, tão cedo vai ter fôlego para levar mais alguém?
O Bradesco enfim ficou bem menor que o Itaú, coisa que deve causar algum ranger de dentes em Osasco. Aliás, os ativos do Itaú-Unibanco agora são maiores que os do Banco do Brasil.
Qual o alvo na mira nacional do Bradesco, entre os três bancos médios que sobraram? Lula queria que o Banco do Brasil levasse a Nossa Caixa, que José Serra quer vender. O governo até aproveitou uma das medidas provisórias da crise para facilitar a venda da Nossa Caixa para o BB. A medida já era bombardeada pelos parlamentares do lobby bancário. Agora, vai ter briga de foice para eliminar esse artigo da medida provisória;
O Bradesco vai fazer a rapa dos banco menores? Vai comprar banco estrangeiro?
Ontem, os banqueiros de Itaú e Unibanco foram contar a Lula da fusão. Quando os banqueiros do Bradesco irão ao Planalto pedir a Lula que deixe a Nossa Caixa para eles?
Abaixo, segue o ranking dos 50 maiores bancos do país, por ativos, segundo dados de junho de 2008 do BC _representam 86% dos ativos bancarios.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 12h16
Cozinha liberal
"Cozinha liberal", seção que estréia agora neste blog, não é uma cozinha econômica. Não se vai tratar do arrocho dietético. Não vai se preocupar com a otimização calórica ou com o ajuste da silhueta.
A "cozinha liberal" admira a abertura de espírito dos chineses, que comem quase de tudo. Não tem preconceito contra ingredientes. Vai se ocupar de coisas boas de comer, muitas do tempo dos avós ou de cozinhas ditas regionais, que foram esquecidas e obliteradas por comidas empacotadas ou pela mania exclusivista da "salada com grelhados", pela propaganda da magreza e pela ideologia do dietismo.
A "cozinha liberal" não defende porém a obesidade ou o infarto. Mas considera que o superávit de calorias pode ser reduzido se consumirmos menos porcarias de mau gosto, em geral industrializadas, plastificadas e químicas.
Ou seja, pode-se comer vez e outra um bucattini alla amatriciana de verdade (com banha de porco, guanciale e queijo pecorino) ou doces portugueses de ovos ou foie gras ou terrines de caça. Basta dispensar os porcaritos de pacotinho, biscoitos recheados de pasta química de açúcar, refrigerantes etc. Viva o "trade off".
Bem, o autor do blog não segue lá muito tal conselho (não gosta de porcaritos, mas não come apenas "vez e outra" aquelas maravilhas calóricas). Fica, porém, a oferta da alternativa para quem queira provar coisas boas e não pretenda estourar de gordo.
Não se trata de pregação moral. É apenas uma idiosincrasia culinária deste escriba, cozinheiro de mediano a medíocre, mas adepto da liberalidade à mesa.
A cada final de semana, de preferência aos sábados, o autor espera "postar" sugestões de comidas e ingredientes, receitas e dicas de cozinha (que copiou de cozinheiros melhores e testou).
Não haverá comentários sobre tralhas inúteis, apoio ao consumismo de "gadgets" de cozinha, manias de "foodies", gastroesnobismo ou frescuras do gênero. Para fazer boa cozinha é preciso conhecer bem os ingredientes, saber tratá-los, saber usar uma faca de bom fio, de uma panela pesada e, por vezes, de fogo. O resto se arranja.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 02h40
Essa burra é uma delícia
Parecem minilombinhos de porco, mas são muito mais macios e suculentos e doces e suaves. São as "burras" ou "surraburras", como em certas partes de Portugal se chamam as bochechas e por vezes a queixada do suíno.
A senhora aí já implicou com a idéia de comer carne da cara do porco? Mas talvez a senhora até já tenha comido um primo italiano da "burra" portuguesa, sem o saber _e achou bom. Já comeu "bucatini alla amatriciana em um restaurante romano autêntico? Pois então já comeu "guanciale", o corte triangular de carne curada da cara do porco, mas que vai da face (bochecha, "ganascia" em italiano) à papada. Bucatini é aquela massa seca tubular, comprida como um espaguete mas furada.
Se o leitor já comeu na França, pode ter pedido um guisado da macia "joue de boeuf" (cara de boi). Se é endinheirado o bastante, o leitor pode ter comido "joue de boeuf" cozida no vácuo por 36 horas num restaurante francês ou monegasco de Alain Ducasse.
Estes "posts" de "Cozinha Liberal" vão tratar, pois, de "Caras". Caras de porco, em particular dos alentejanos. Leiam nos "posts abaixo"
Escrito por Vinicius Torres Freire às 02h39
"Caras": de porcos e bois

O autor do blogue mesmo não sabia que existia um nome português para bochechas suínas até viajar pelo Alentejo _nem são muitos os portugueses das cidades maiores que sabem o que são burras e surraburras. Descobriu as burras em Monsaraz (foto), nos confins do Alentejo, na fronteira com a Espanha.
Monsaraz é talvez a mais bela das muitas minicidades alentejanas que são muradas como um forte e que ficam no alto de um morro. Tomada dos árabes no século 12, ainda perdida entre os séculos 16 ou 17, tem menos de mil habitantes, casas caiadas de branco, ruas desertas, calçadas de pedra, jardins com maravilhas coloridíssimas e perfume forte de figo maduro no verão. Além dos carros estacionados, não há sinal do século 20 ou mesmo do 19. Vai-se do litoral perto de Lisboa a Monsaraz em pouco mais de duas horas, quase em linha reta, em estradas excelentes e bem sinalizadas. Estando em Évora, vale ainda mais a esticada.
Em Monsaraz fica o "Alcaide", restaurante onde se pode comer "surraburra" olhando das alturas os campos do Alentejo (foto abaixo, de Ana Estela de Sousa Pinto).
A surraburra do "Alcaide" é temperada em duas fases. Primeiro, descansa envolta por uma pasta de alho, pimentão (sem pele nem sementes), louro, cravo, sal e pimenta (três horas). Depois, marina num pouco de vinho tinto (mais uma hora). É então assada sobre um leito de meias-luas finíssimas de cebola e regada de quando em quando com a marinada. Um quilo e pouco de carne pede uma hora de forno bem suave.
O prato é rústico, como quase toda a comida de Portugal, em particular a do Alentejo. Mas é uma delícia da terra e do "terroir". E baratinha, 6 a 8 euros o prato. Como um vinho alentejano de 8 euros já é uma simpatia, a festa está feita. Come-se com o que mais? Pode ser com batatas assadas. Pode ser com feijão branco cozido com paio. Pode ser até com um purê de peras.
Dizem que o prato fica melhor se a carne é do "porco preto". O porco preto, ou alentejano, é primo-irmão de outro porco ibérico famoso, o "pata negra", do qual se faz o presunto célebre _o melhor vem de Jabugo, na Espanha. Mas o sabor especial de tais porcos depende da criação: eles têm de comer bolotas de carvalho (são os únicos porcos que têm a capacidade de roer a casca e comer o interior da bolota). De outro modo, o sabor não compensa o preço.
O telefone do "Alcaide" é 26 655 7168 (jamais vá a um restaurante português, ainda mais do interior, sem checar se está aberto e se há lugares). Mas há "burras" também em Santiago do Escoural, Arraiolos, Évora e Setúbal. Dê uma checada nos guias.
Mais imagens de Monsaraz: http://www.monsaraz.com.pt

Escrito por Vinicius Torres Freire às 02h38
Onde achar burras, queixadas e papadas?
O autor do blog pede ajuda aos eventuais leitores que conheçam mais endereços onde achar as raras bochechas de porco e de bois. Por favor, "cartas para a redação".
Bochechas de porco ou de boi se tornaram carnes raras até em Portugal, França e Itália. A "Enciclopedia Pratica della Cucina" (ed. De Agostini) chega a observar, no verbete sobre "bucatini all’amatriciana", que a maior dificuldade do prato é achar o verdadeiro "guanciale" mesmo na região do Lazio (onde fica Roma). O guanciale é o corte de bochecha e papada de porco, curado mais ou menos como uma pancetta (toucinho magro da barriga do porco, curado com pimenta e sal, mas não defumado). Em Roma, hoje em dia é mais comum comer o prato com pancetta no lugar do guanciale e azeite no lugar da banha de porco.
A casa Santa Maria, em São Paulo, vendia guanciale, mas desistiu de importá-la faz alguns anos porque quase ninguém a comprava. No Mercado Municipal (o mercadão da Cantareira), há algumas lojas que vendem a papada de porco _crua, claro. Mas, às vezes, "tem, mas acabou", como se diz em Portugal. Praticamente apenas paulistanos de origem chinesa compram a carne _sem a demanda deles, a "burra" já teria sumido da praça.
Em açougues mais tradicionais de Paris ainda se vende cara de boi. Tal carne o autor deste blog jamais conseguiu comprar por aqui (em São Paulo. Em Minas e no interior, em alguns açougues o pessoal corta para você). Mesmo o corte da bochecha do porco que se encontra no Mercadão não é bem o corte para fazer "burra", pois falta carne (é mais para fazer "guanciale". Dá para fazer guanciale em casa _se alguém estiver interessado, na semana que vem "posto" receitas de guanciale e pancetta stesa caseiras).
Mas onde vão parar todas essas as bochechas? Abatemos milhões de porcos e bois. O que fazem da carne da cabeça? Por favor, escrevam sobre o destino das "burras".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 02h12
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PERFIL
Vinicius Torres Freire é colunista da Folha, onde está desde 1991. Foi Secretário de Redação do jornal, editor de Dinheiro, editor de Opinião, correspondente em Paris, editor de Ciência e editor de Educação
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