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Na última coluna do ano na Folha (31/12, leia aqui), este blogueiro e colunista avalia as expectativas pessimistas dos empresários industriais para o ano que vem, mas procura manter algum otimismo.
Trechos:
"Os industriais brasileiros ficaram ainda mais pessimistas em dezembro, segundo pesquisa da FGV (Sondagem Conjuntural da Indústria). ... As informações sobre as expectativas dos industriais recolhidas pela sondagem da FGV costumam indicar com razoável precisão a tendência da indústria para um período de um a três meses adiante. As notícias da pesquisa divulgada ontem não são alentadoras, para não dizer nada de mais chocante num dia que é de renovação de esperanças, como reza a tradição. O Índice de Expectativas da FGV despenca desde a explosão catastrófica da crise americana, em setembro. Caiu 11% em outubro (contra o mês anterior), 17% em novembro e, agora, em dezembro, mais 11%, para chegar ao nível mais baixo da série da FGV, desde 1998.
O dado mais recente do IBGE sobre a indústria é de outubro: a produção industrial cresceu então apenas 0,8% sobre outubro de 2007 e encolheu 1,7% em relação a setembro. A previsão do Ipea para novembro é de queda de 6,7% em relação a novembro de 2007 e baixa de 7,2% em relação a outubro deste ano. A julgar pelos dados do Índice de Expectativas da FGV, tanto o último trimestre deste ano como o primeiro de 2009 serão muito negativos para a indústria. Literalmente: a produção industrial deve encolher.
...
De 1.086 empresas consultadas pela FGV, 24,7% projetam ampliar a produção de dezembro a fevereiro; 33,8% dizem que vão reduzi-la. É o pior resultado desde janeiro de 1991, nos horríveis anos Collor (naquele mês, 43,7% das empresas previam reduzir a produção).
Talvez o medo se dissipe um pouco no início do ano. Talvez não seja possível "virar o jogo" no primeiro trimestre de 2009. Mas a economia do Brasil está em sua melhor forma nos últimos 30 anos. E ainda dá tempo de ajeitar o resto do ano que vem.
Apesar de tudo, o colunista espera sinceramente descobrir em 2009 que seus piores temores não tinham enfim lá muito fundamento e que o ano que vem seja o melhor possível para todos nós, que temos filhos para criar e empregos para manter, os nossos ou os de nossas empresas."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h50
Apesar dos pesares, como a arrecadação de impostos crescendo bem mais que o PIB, o resultado fiscal de novembro foi muito bom. Até o mês passado, o superávit primário do setor público (governo federal, Estados, municípios e estatais) foi de 4,27% do PIB em 12 meses.
A dívida líquida do setor público caiu para 34,9% do PIB, o melhor resultado em uma década. Decerto que quase toda essa melhoria desde setembro se tenha devido à desvalorização do real (como o setor público é credor em dólares, quando a moeda americana se valoriza a dívida líquida cai. Por exemplo, o Brasil tem o equivalente a mais de US$ 200 bilhões em reservas, mais de 90% das quais efetivamente em ativos denominados em dólares). Se o câmbio tivesse ficado na mesma desde setembro, a relação dívida/PIB teria ficado em torno de 38%. Ainda assim, trata-se de boa coisa. Antes do governo Lula, a dívida brasileira explodia quando ocorriam grandes desvalorizações do real, intensificando a crise. Dessa desgraça, ao menos, nos livramos.
De negativo fica que não podemos depender de variações malucas e perigosas do dólar para reduzir nossa dívida. Se a dívida estivesse em 35% do PIB devido ao esforço fiscal, estaríamos mais próximos (ao menos em tese) de uma redução mais firme dos juros básicos _ao menos, o governo teria condições de estruturar melhor a dívida, de alongá-la a custos menores, de baixar os juros de curto prazo, enfim, de entrar com muito mais cacife numa briga com o mercado. Não há alternativa para a dívida a não ser pagá-la ou dar calote. Dar calote nos jogaria numa crise horrenda, por anos, talvez mais décadas. Resta pagá-la, pois é alta e carésima. Ainda nos custa 5,5% do PIB, ao ano, o equivalente a três vezes o déficit da Previdência, por exemplo.
Como as despesas públicas em dezembro são maiores (e o governo vai "gastar" para encher o cofrinho do Fundo Soberano), o superávit deve cair para a casa dos 3,8%. Poderia ter sido melhor, dado o enorme e imprevisto aumento da arrecadação. Mas, em si mesmo, não é nada ruim. Afinal, o ano foi de crise braba no mundo.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h39
Matéria na "Economist" que saiu hoje (30/12) dá uma rápida pincelada sobre as diferenças entre depressões e recessões. A matéria não vale lá grande coisa _seu segundo parágrafo começa com a seguinte observação, não muito animadora: "Uma pesquisa na internet [sic, grifo do blogueiro] indica dois critérios principais para distinguir uma depressão de uma recessão: um declínio do PIB superior a 10% ou que dure mais que três anos". Mas vale a pena dar uma olhada, dada a preocupação do mundo rico com a possibilidade de uma catástrofe maior do que a já conhecida
Pelo critério "guglado" da revista, obviamente a Grande Depressão americana é obviamente classificada como, de novo obviamente, depressão. O PIB americano caiu cerca de 30% entre 1929 e 1933, e 13% entre 1937 e 1938. No Japão dos anos 90, a "década perdida" deles, do pico ao poço o PIB caiu "apenas" 3,4% (de 1997 a 1999). Depois da Segunda Guerra Mundial, o único país que viu seu PIB cair mais de 10% foi a Finlândia (11%, de 1990 a 1993, devido ao colapso da União Soviética, então o maior parceiro comercial dos finlandeses).
Dos 25 países "emergentes" acompanhados pela revista, pelo menos 13 deles viveram depressões nos últimos 30 anos: Argentina e Polônia (duas vezes!), Indonésia, Malásia e Tailândia (na crise asiática, 1997-98) e Rússia, cujo produto encolheu 45% entre 1990 e 1998 (embora o PIB e a moeda soviéticos fossem meio de fantasia, o que a revista não lembra).
A "Economist" lembra que, depois da catástrofe dos anos 1930, as crises econômicas se tornaram menos violenta porque os governos aprenderam que tinham de conter o círculo vicioso de colapso econômico provocado pelo mercado e porque, enfim, tinham dado cabo do padrão ouro, que intensificava as crises.
A revista pondera que depressão e recessão talvez não possam ser distintas apenas com critérios como duração e intensidade da crise. Cita os critérios de Saul Eslake, economista-chefe do banco ANZ: a causa da redução atividade econômica importaria para a distinção, pois de resto determinaria quais as medidas mais eficientes para combater o declínio produtivos. Recessões, segundo Eslake, devem-se a apertos prolongados na política monetária (alta de juros), mas depressões são provocadas pelo estouro de bolhas de crédito e de ativos, por uma contração no crédito e seguidas de um declínio geral no nível de preços. Como na Grande Depressão americana nos anos 30. Talvez como no Japão dos anos 90. Ou talvez como na presente crise euroamericana.
Eslake diz que depressões, pois, não precisam ser catastróficas para merecer o nome. Pode ser mais ou menos intensas e duradouras, como recessões. A diferença seria qualitativa. As respostas da política econômica também deveriam ser diferentes. Recessões podem ser combatidas com baixas nos juros, mas políticas fiscais levam muito tempo para funcionar e, pois, não contribuem muito para conter a crise. Depressões, ao contrário, não reagem à política monetária, que não seria capaz de conter a queda do preço dos ativos, o "credit crunch" (seca geral de crédito) e a deflação.
A íntegra da matéria ("Diagnosing depression - What is the difference between a recession and a depression?"), em inglês, pode ser lida aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h56
"Governo quer arrombar o cofre"
Na coluna de hoje (30/12) na Folha, discuto a MP 452, malandragem com a qual o governo pretende colocar R$ 14,2 billhões no Fundo Soberano do Brasil. A íntegra da coluna pode ser lida aqui por assinantes.
Trechos:
"Lula disse ontem que anunciará mais medidas anticrise em janeiro. Por ora, sabe-se que deve vir um plano de construção de casas mais populares. Há o rumor, no governo, de que haverá um projeto de obras de infra-estrutura de conclusão mais rápida, o anúncio de concessões de infra-estrutura para a iniciativa privada e medidas "setoriais". Mas o primeiro dos planos anuais de 2009 foi mesmo o pacotinho de Natal, a MP 452, que alterou a lei do Fundo Soberano do Brasil (FSB) no mesmo momento em que ela era promulgada.
Ao editar a MP o governo disse mais do que "dane-se o Congresso". Na prática, subtraiu ao Parlamento o seu já escasso poder de decidir o que fazer dos impostos. Quanto ao varejo político-econômico, o governo afirma na prática que vai reduzir o superávit primário deste ano para gastar mais em 2009, evitando porém que o superávit do ano que vem caia muito abaixo da meta de 3,8%.
Em tese e em abstrato, um fundo de poupança pública faz sentido. Como dizem o ministro Guido Mantega e economistas, tal fundo permite ao governo executar "políticas anticíclicas". Isto é, economizar em anos bons para gastar em anos de crise econômica. O problema elementar é que o governo TEM DÉFICIT FISCAL -não economiza, está no vermelho, deve.
O déficit nominal do setor público deve ser de 1% do PIB este ano. E daí? Imagine-se o caso de um cidadão que tenha uma dívida no banco, a juros de uns 14% ao ano, e que gaste mais do que ganha num certo ano. Esse cidadão reserva então parte do seu salário para um "fundo" a ser gasto no ano seguinte. Isto é, o cidadão não abate sua dívida cara, ainda continua no vermelho e acha que está fazendo reservas para o ano seguinte. Isso não faz sentido. Comparar a economia doméstica à economia do setor público em geral dá em besteira demagógica. Mas, nesse caso, a bobagem do governo autoriza a tolice da comparação.
Se o governo, como promete, investir mais e, por milagre, reduzir gastos de custeio (pois já contratou despesas enormes), terá contribuído para atenuar a crise. Mas arrombar a porta do cofre não é nem o meio legal nem racional de fazê-lo."
Adendo:
Na malandragem, o Fundo Soberano de Lula parece o Fundo Social de Emergência (FSE) de 1994, criado por inspiração da equipe do então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso e primeiro passo do Plano Real. Como o próprio FHC ironizaria mais tarde, o FSE "não era fundo, não era social nem era de emergência" _era para durar. O FSE liberava o governo de gastar os impostos recolhidos de acordo com o determinado pela Constituição, desvinculando 20% da receita dos gastos obrigatórios. O FSE virou o Fundo de Estabilização Fiscal e foi transformado depois naa DRU, Desvinculação de Receitas da União. Mas o FSE foi aprovado no Congresso _FHC ameaçava se demitir da Fazenda, "os mercados" faziam sururu, "business as usual". Mas a malandragem tucana ao menos era prudente _e, repita-se, foi votada no Congresso, da maneira atropelada que conhecemos, mas o foi.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h54

Essa é do blog de Barry Ritholtz, de economia e finanças, "The Big Picture".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h29
Clounas, blog, de volta
O blogueiro está de volta, depois da folga de Natal. Vai estar por aqui nos dias de festas de Ano Novo, mas em ritmo de "subida de Brigadeiro" (a penúltima fase da corrida de São Silvestre, quando os corredores sobem a colina íngreme que vai dar na avenida Paulista, pela avenida Brigadeiro Luís Antônio). Isto é, um tanto mais devagar, de acordo com o espírito do tempo. Para retomar, seguem as duas últimas colunas na Folha, publicadas nos dois domingos passados: "Tiros no Natal de 1929" , uma crônica sobre o que se dizia na "Folha da Manhã" da semana de festas de dezembro de 1929, e "Os juros estão caindo e subindo", sobre o fato de os juros reais de mercado terem voltado ao nível de baixa recorde, apesar de os juros para o consumidor estarem subindo.
"Tiros no Natal de 1929"
(coluna na Folha de 21/12)
"Na véspera do Natal de 1929, notícias de crise eram raras na "Folha da Manhã". "Lampeão" disputava o alto da primeira página com um editorial de apoio à candidatura de Julio Prestes à Presidência. Logo abaixo, o "assumpto" era a crise argentina. O jornal dava a impressão de que mais iminente era a crise política, que explodiria na Revolução de 30.
"Cada chuva que cae transforma-se numa acusação contra a Prefeitura" de São Paulo, dizia a página 5. As bocas de lobo estavam, "hontem, como sempre, entupidas". O aguaceiro descera a Consolação. "Um Ford, e dos novos", "encalhou". "No largo do Piques [entre a ladeira da Memória e a praça da Bandeira atuais] podia-se disputar uma partida de polo aquático".
A Argentina enfrentava uma fuga de capitais e mudava o regime cambial, para variar. Fechava sua "caixa de conversão" devido à "excessiva emigração do ouro", embora "essa sahida" não se devesse a "nenhum balanço desfavoravel ao paiz", "mas à especulação de certos bancos particulares". Isto é, a Argentina estabelecia controle de capitais devido a um ataque especulativo, pois os fundamentos econômicos eram sólidos, como diz o clichê de hoje.
O editorial a favor de Prestes elogiava um programa que parece quase de ontem: moeda estável, criação de um Banco Central, "reformas". "Saneada a nossa moeda e reajustada a vida ao seu valor, o Brasil entrará, desassombradamente, no largo caminho que conduz à tranqüilidade". Como? Com o "ouro verde": "A plataforma aconselha rumo ao campo", onde o "paiz pode produzir de tudo".
...
No dia 25 tentaram matar a tiros o presidente argentino. No dia 26, o deputado Simões Lopes matou a tiros seu colega Souza Filho, dentro da Câmara Federal. Na refrega, o filho de Lopes quebrou uma bengala na cabeça de Souza, que então tentou esfaquear o rapaz. A seguir, levou dois tiros de Lopes, na primeira fila da bancada. Lopes se entregou. Ao sair preso da Câmara, ouvia "populares a gritar "lyncha'".
No mesmo dia, a "escriptora" Sylvia Thibal, 27, vingava-se da notícia sobre seu desquite, que o jornal carioca "A Crítica" dera na primeira página: foi à redação, de chapéu, vestido de seda preto, e acertou um tiro no coração de Roberto Rodrigues, jornalista e caricaturista que a ela prometera que nada seria publicado. Sylvia se separava amigavelmente do marido, que repudiava a carreira literária da mulher."
"Os juros estão caindo e subindo"
(coluna de 28/12)
"Os juros "básicos" no mercado continuam a despencar. Trata-se, é claro, de taxas negociadas com base nos contratos entre instituições financeiras, que são o "piso" do mercado (DI). Como a diferença entre essas taxas e as cobradas de consumidores e empresas são gigantescas no Brasil, em geral o grande público não toma conhecimento delas -não sabe, não quer saber ou tem raiva quando sabe.
Mas, em teoria e em certas situações, os juros da praça dizem algo a respeito da meta da taxa de juros do Banco Central, a taxa "básica" da economia, aquela que o BC (Copom) define: a Selic. No mínimo, as taxas "básicas" da praça financeira dão uma dica do que o mercado espera ou "aceita" da parte do BC.
Pelo andar da carruagem, e desde que não surjam buracos na estrada, o mercado deve chegar a janeiro esperando que o BC baixe a Selic em meio ponto percentual. De resto, desde o início do mês as taxas nos contratos de juros futuros de vencimento mais longo estão menores que as dos juros mais "curtos", o que indica expectativa de baixa de juros.
Dado o contexto, tal expectativa pode basear uma estimativa razoável. Os juros futuros estão caindo; os dos contratos mais "curtos" (janeiro e fevereiro) estão entre 0,3 ponto e 0,4 ponto abaixo da Selic; a média das expectativas de inflação para os próximos 12 meses caiu de uns 5,5% para 5% no último mês; enfim, a economia deu uma desacelerada brusca no trimestre final de 2008. O risco maior fica por conta de desastres extras lá fora e da hipótese de um repique inflacionário, dentro de uns três meses, devido ao repasse da desvalorização do dólar, repasse de dimensão imprevisível, de costume.
A taxa "básica" real de juros já voltou ao patamar de baixa histórica, "acredite se quiser", perto de 7% (vide gráfico). Na praça, o custo médio de captação dos bancos caiu de outubro para novembro. Voltou ao nível de julho, antes da explosão da crise. Mas tal redução de custo não foi repassada ao tomador de empréstimos. Na interpretação mais benévola, os bancos se preparam para um baita aumento da inadimplência (que é custo), o que já começou entre pessoas físicas. No caso das empresas, a inadimplência ainda está comportadíssima, inferior à do início do ano. A diferença entre o custo do dinheiro para os bancos e o dos empréstimos (o "spread") subiu brutalmente para pessoas físicas e continua em alta para empresas.
Caso o BC chancele em janeiro a queda dos juros na praça haverá um refresco no custo do crédito (pode subir menos) -refresco muitíssimo marginal. Com mais desemprego e empresas lucrando menos ou nada, os bancos devem continuar tão ou mais seletivos quanto agora e ainda podem cobrar um preço maior devido ao aumento esperado da inadimplência. Na contenção da crise, o máximo que se pode esperar do crédito é que não atrapalhe muito."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h23
"O ciclo econômico da fraude"
A coluna de hoje (19/12) trata do envolvimento das maiores empresas de auditoria do mundo no escândalo de Bernie Maddoff, o homem da pirâmide de US$ 50 bilhões. Não há investigação nenhuma contra as empresas, mas quem perdeu dinheiro com Madoff quer processar os auditores. Assinante lê a íntegra da coluna aqui.
Trechos:
"PwC , KPMG e Ernst & Young prestavam serviços de auditoria para fundos que colocavam dinheiro nos negócios de Bernard Madoff. A coleção 2008 da crise americana imita, pois, a roupa velha e suja do tumulto de 2000/2, vestida por empresas como Enron e WorldCom e por auditorias como a Arthur Andersen. PwC, KPMG, E&Y dizem que não era responsabilidade delas descobrir se os negócios de Madoff eram legais ou se sequer existiam. Checavam apenas se o dinheiro fluía de certos fundos e bancos para os fundos de Madoff. Os clientes endinheirados desse ex-presidente da Nasdaq não querem saber da desculpa e vão à Justiça.
Parte do tumulto financeiro se deveu ao colapso do preço ou das garantias, em sentido amplo, de vários instrumentos financeiros chamados derivativos. Os derivativos, em si, são uma tecnologia brilhante. Mas o que interessa aqui é que nada restou intacto da discurseira sobre as competências alocativas e autoregulatórias do mercado. Senão, vejamos. Os preços dos imóveis foram superestimados. O risco de crédito dos compradores de casas foi freqüentemente ignorado. A estruturação dos derivativos imobiliários foi entre inepta e safada, assim como a avaliação de risco e preço de tais papéis. Para tanto, colaboraram agências de avaliação de risco, como Standard & Poor's e Moody's. Os bancos envolvidos mentiam, na prática, sobre a quantidade de capital de que dispunham para sustentar negócios com tais papéis, de resto escondidos em registros paralelos, legais, mas, no fundo, picaretas. A precificação dos ativos era fantasista. O mercado para tais papéis era muito raso e virou uma pocinha assim que os problemas começaram. As agências de regulação e supervisão levaram dribles, eram coniventes ou foram manietadas pelos próprios chefes. Muitos reguladores-chefes eram de Wall Street ou ligados à turma, "em espírito" ou materialmente, muito refratários até a normas muito sensatas e leves. O Fed (o BC norte-americano) deu corda tanto ao crédito como às pretensões e às bolhas do mercado. O Fed, em conluio com a cúpula econômica de Bush e de Clinton, abriu ainda mais as porteiras à manada. Para completar, descobre-se fraude sistemática -isto é, fraudes tipificadas nos códigos legais, caso de polícia, como o de Madoff. Enfim: o padrão dos ciclos financeiros não é o descrito nos manuais-padrão de economia. O padrão é alocação irracional de recursos, desordem no sistema de preços, subavaliação sistemática de riscos e fraude, modus operandi facilitado pela simbiose entre governo e finança e que não raro redundam em ciclos de aumento de desigualdade de renda.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h50
Este blogueiro está em viagem, com uma conexão wireless lentérrima e incerta. Está difícil de blogar. Volta logo, ou em "edição extraordinária", provavelmente amanhã, quando achar uma conexão melhor. Aos raros e bons leitores fiéis, desculpas.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h50
Este blogueiro está em viagem, com uma conexão wireless lentérrima e incerta. Está difícil de blogar. Volta logo, ou em "edição extraordinária", provavelmente amanhã, quando achar uma conexão melhor. Aos raros e bons leitores fiéis, desculpas.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h50
"Carro zero, ainda abaixo de zero"
Na coluna de hoje (18/12) na Folha, trato do péssimo resultado da venda de carros na primeira quinzena de dezembro, sintoma de que o choque de crédito e confiança continua na praça. Assinante lê a íntegra aqui.
Trechos:
"Venda de carros caiu 31% na primeira metade de dezembro, se o nível de negócios é comparado ao de dezembro de 2007. Os dados não incluem as vendas do final de semana do feirão do carro com imposto menor. Mas é provável que o corte do IPI apenas faça as vendas subirem um degrau, mas um degrau bem baixo na escada. O que o número diz de mais forte é que um mix de horrores continua a abater o ânimo de quem consome. A mistura, em proporção ainda incerta, de juros elevados, financiamentos mais curtos, maior seletividade dos bancos e choque de confiança impede que as fábricas desovem estoques. A bruxa está solta desde a catástrofe de setembro. Para piorar, não se viu efeito maior do pacote de crédito oferecido por bancos estatais, e o mercado de carros usados continua em baixa. Carro usado é um estoque importante de poupança do consumidor de carros novos. Mas a queda do IPI ajudou a derrubar ainda mais o preço dos usados, segundo relatos da praça. Os bancos pequenos, que fazem rodar o mercado de usados, ainda estão a seco. O governo soltou ontem medidas para incrementar os fundos dos bancos menores, como havia adiantado esta Folha. No entanto, a liberação de recursos do Fundo Garantidor de Crédito tem prazo de validade. Se as condições gerais de crédito não melhorarem, o efeito da injeção de adrenalina passa. Tudo depende da atitude dos bancões (e claro, do desenrolar do desastre mundial).
Projetos grandes de investimento em recursos naturais não estão sendo cancelados, mas em alguns casos têm sido cortados pela metade. É o caso de siderurgia, mineração e biocombustíveis. A desvalorização tremenda do real elevou custos, em especial os de grandes empresas. Aquelas que investem em concessões (estradas, hidrelétricas, por exemplo), dizem ao menos da boca para fora que estão com dificuldade obter financiamento. O nível de investimentos vinha muito bem, mas o novo parque industrial vem a ficar pronto num momento de queda aguda do crescimento. O nível de investimento é um dos indicadores mais voláteis do conjunto do PIB. Dados a parada brusca da economia, a seca do crédito e a alta do custo de investir, se restar algum desejo de fazê-lo, o investimento levará um tombo. Mesmo que o Banco Central comece a cortar os juros em janeiro, e com rapidez, isso não será o bastante para animar as empresas. O contra-ataque ao desânimo depende mais e mais do investimento público, que anda como sempre lerdo e encalacrado. Dar um jeito nessa lentidão parece se tornar agora um atitude de emergência."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h46
O mundo abaixo de zero: Brad Setser
Para quem se interessa, mais um artigo da série "o mundo abaixo de zero", sobre o acontecimento histórico, o ZIRP ("zero-interest-rate-policy"). Agora é a vez de Brad Setser, blogueiro economista de primeira: seu comentário sobre a decisão do Fed pode ser lido aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h22
Abaixo segue um gráfico que mostra por onde andaram os juros ditos "básicos" nos Estados Unidos, nos últimos dois meses. A linha vermelha mostra o nível da meta da taxa de juros do Fed, definidas nas reuniões do "Copom" deles, o Fomc. A azul, mostra a taxa efetiva dos Fed funds, o custo do dinheiro de curtíssimo prazo entre bancos.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h12
Como está na moda, Dani Rodrik, o ortodoxo heterodoxo professor de economia política da escola de governo de Harvard, faz um exercício elementar de aritmética macroeconômica para dar um palpite ponderado sobre o efeito do estímulo fiscal na atividade econômica. O exercício é mesmo muito rudimentar, mas levanta um debate interessante sobre o quanto pode se tornar atrativo, para governantes, recorrer a algum protecionismo como medida para ressuscitar a demanda doméstica. A quem interessar possa, segue o link para o texto do blog de Rodrik.
Os economistas Susan Woodward e Robert Hall (blog "Financial Crisis and Recession") mais ou menos detonam quem dá muita bola para estímulos fiscais (via aumento de gastos). Gregory Mankiw, professor de Harvard, ex-integrante do governo Bush e autor de um popular manual de introdução á macroeconomia, discute o texto deles, além de estudos da dupla Romer & Romer etc, em texto do seu blog.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h50
Quando ainda se imaginava que as economias periféricas poderiam se "descolar" da recessão no mundo rico, economistas de alguns bancos americanos faziam exercícios estatísticos sobre o impacto habitual da queda do PIB do G3 (EUA, Europa Japão) no desempenho dos países ditos emergentes. Os mais céticos quando ao descolamento estimavam uma queda de "um para um": menos um ponto do PIB no G3, menos um ponto no PIB dos "emergentes". Esses exercícios que usam dados do passado e colocam num mesmo saco todo o mundo "emergente" tem algo de birutice, se levados ao pé da letra (ou se levado mesmo só até o "joelho" da letra).
Porém, é cada vez mais comum a previsão de que o PIB americano pode encolher 5 pontos, contados entre o início da desaceleração e o fundo do poço. Isto é: num intervalo próximo de quatro trimestres, a economia americana pode marcar uma retração do PIB de 3%. Os mais pessimistas acreditam também que o crescimento chinês pode ir a desastrosos, para eles, 5% ao ano. E começam a pipocar estimativas de que o PIB brasileiro pode crescer apenas 1% no ano que vem.
Sim, são apenas novas estimativas num mar de erros de previsão e de desastres de administração financeira e econômica. A credibilidade de tais previsões anda pior do que sempre. Porém, os economistas mais catastrofistas, os que têm feito tais previsões, são os que mais têm acertado e eram tidos como birutas ainda em meados de 2007 _Nouriel Roubini é apenas o caso mais ilustre. O antigo e equivocado desdém em relação às afirmações dos economistas do desastre não faz com que possamos dizer que suas previsões sejam mais precisas, desnecessário dizer. De resto, a imensa névoa no cenário econômico, os choques gerais nos indicadores e a inexistência de uma série de dados mais longa ("longa" de um trimestre depois da crise) não permitem que se pense de maneira muito organizada o que está se passando. Mas envolvem num ar mais lúgubre as informações mais seguras e muito negativas sobre o clima econômico.
O que sabemos de mais preciso? O Fed, o BC americano, chegou à "ZIRP" ("zero-interest-rate-policy", política de taxa de juro zero), o que signfica, em resumo breve, um alto grau de desespero. O crédito no centro do mundo rico, que dava sinais de vida há um mês, parou de melhorar e ficou onde estava, ainda escasso, raro, na verdade. O BC dos Estados Unidos se tornou a grande forte de crédito direto para a economia. A volatilidade das principais moedas mundiais se parece com a de paisecos em crises cambiais. O desastre do mercado imobiliário americano continua. A Europa reage muito lentamente à recessão, reluta em cortar juros radicalmente e não tem planos organizados de estímulo fiscal (se é que eles vão funcionar. O problema é que não há alternativa). A demanda de petróleo anda tão baixa que mesmo um corte recorde de produção pela Opep nem mexeu nos preços.
Os sinais são mesmo muito assustadores. Para aliviar, um pouco de humor infantil: "Nana-nina"/"Desculpe, Winslow"/"Você não é grande demais para falir".

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h34
A coluna de Elio Gaspari hoje (17/12) na Folha trata do escândalo de Bernard Madoff, ex-presidente da Nasdaq e "senhor do universo" das finanças que deu uma versão sofisticada do golpe da pirâmide na praça, deixando um rombo de US$ 50 bilhões, segundo ele mesmo. Os americanos chamam o golpe da pirâmide de "esquema Ponzi", devido ao golpe de "Carlo Ponzi, que em 1920 lesou 30 mil pequenos investidores americanos oferecendo-lhes rendimento de 50% em 45 dias", como conta Gaspari. O mais divertido é que Ponzi acabou no Brasil, morrendo pobre no bairro do Engenho Novo, na zona norte do Rio. Assinante lê a coluna aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h32
"A receita começa a falhar"
A coluna de hoje (17/12) na Folha é um comentário sobre os resultados da arrecadação federal em novembro. Assinante lê a íntegra aqui.
Trechos:
"Foi ruim o resultado da arrecadação de impostos federais de novembro, divulgada ontem. A receita do governo caiu pela primeira vez desde o início da administração Lula (no acumulado de 12 meses). Não se trata apenas de resultado que suscita preocupações em relação ao equilíbrio das contas públicas no ano que vem. Mas receita de imposto também indica como anda a atividade econômica. Parte relevante do resultado de novembro se refere a impostos devidos em outubro, o mês em que a economia brasileira sentiu o impacto da catástrofe americana, que fez consumidores e empresas se encolherem como coelhos assustados, e assustados com bons motivos. Os dados econômicos relativos a outubro não são, porém, lá muito confiáveis nem indicadores de tendência, pois o ambiente estava excepcionalmente ruim -houve um choque estrutural, que estremeceu todas as séries estatísticas.
...
Decerto pode parecer esquisito queixar-se de que a arrecadação de impostos venha subindo "apenas" 8,5% ao ano, em termos reais (descontada a inflação). A receita federal de impostos ainda vem crescendo, pois, num ritmo maior que o do PIB (que deve ficar em torno de 5,8%). Isto é, a "carga tributária" federal ainda vai crescer em 2009. O problema, porém, é que várias despesas contratadas para 2009 devem crescer a um ritmo maior que o deste ano (salários e aposentadorias do INSS). Se tais e outros gastos correntes não forem contidos (e a receita crescer ainda menos em 2009), o governo terá de contradizer o que vem pregando e de recorrer a um ajuste de péssima qualidade (mas costumeiro na história fiscal do país): cortar investimento ou deixar a dívida crescer."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h26
O economista Bradford DeLong, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, democrata, comenta "a vida no mundo abaixo de zero" em seu blog:
"O Federal Reserve reage ao fato que o trem da economia chegou a Depression City"
...
"Para ir direto ao ponto: o Fed está agora assustado. Quero dizer, com muito medo mesmo. E eles vão fazer qualquer coisa que seja remotamente possível, e vão fazer logo [a respeito dessa situação]".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h02
"Chegou a política da taxa de juros zero. A América tornou-se japonesa. Trata-se de uma coisa que eu temia desde que percebi [1998] que o Japão estava realmente metido numa temível, possivelmente mítica, armadilha de liquidez... Falando sério, estamos com problemas muito graves. Nos tirar dessa vai exigir um monte de criatividade e alguma sorte também", diz Paul Krugman em seu blog (onde ele remente seus leitores para um paper a respeito do assunto).
Alguns outros posts deste blog (o do modesto Vinicius, não o do Krugman) sobre a política monetária americana:
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h55
A vida num mundo abaixo de zero
O agora exótico mundo da política monetária americana anda cada vez mais estranho. A meta da taxa de juros de referência do Fed (a dos "Fed funds"), o BC americano, estava oficialmente em 1%. Na última semana, porém, a taxa efetiva estava abaixo da meta, o que vem ocorrendo faz meses _mas na semana que passou estava MUITO abaixo da meta. Flutuava em torno de 0,14% (é como se a Selic estivesse em torno de 2%, sendo a meta 13,75%, mal comparando).
Ontem, o Fed não apenas deu enorme talho na meta da taxa de referência, como criou uma esquisita banda próxima de zero (de 0 a 0,25%). Ou seja, a taxa "básica" efetiva deve cair para zero mesmo. O pobre blogueiro pede desculpas aos leitores (e eventual auxílio), mas ainda está a pensar sobre como vão ficar as operações de mercado aberto e no mercado monetário com taxas próximas de zero.
Para tornar o ambiente ainda mais esquisito, o IPCA deles (o CPI, índice de preços ao consumidor) veio muito abaixo de zero outra vez, em novembro. A taxa anual caiu de 3,8% para 1,1%. Como, a taxa "básica" não pode cair abaixo de zero, quanto maior a deflação, maior a taxa real de juros. Isto é, não apenas o instrumento básico da política monetária (a taxa de curto prazo) foi para o vinagre. A política monetária baseada apenas na meta da taxa de juros fica fora do controle do Fed se houver de fato deflação: o Fed não tem mais como baixar os juros e, de resto, os juros reais sobem. Obviamente eles não vão ficar parados vendo o caldo entornar. Mas vai ser interessante de ver o que eles vão ter de inventar para trabalhar nesse cenário marciano-japonês de juros zero e deflação.
Num para variar excelente artigo de hoje a respeito da política monetária em ambiente deflacionário e com taxas de juros zeradas, Martin Wolf (o colunista do "Financial Times") elenca as alternativas para o Fed e, estranhamente, está otimista em relação aos perigos da deflação. Para Wolf, o problema mesmo será a grande inflação, daqui a alguns anos.
A quem interessar possa, segue um trecho traduzido e a íntegra do original, que de fato vale a pena ler (15 minutos de uma bela aula de política monetária em ambientes exóticos). É grátis: "'Helicopter Ben' confronts the challenge of a lifetime"
"Então, o que os bancos centrais podem fazer [diante da deflação e juros zero]? Eles podem baixar as taxas de longo prazo comprando à vontade títulos de longo prazo, ou prometer que as taxas de curto prazo permanecerão baixas por um longo período. Eles podem emprestar diretamente para o setor privado. Na verdade, eles podem comprar qualquer ativo do setor privado, no preço e na quantidade que eles desejarem. Podem comprar ativos estrangeiros. E podem financiar o governo na escala em que eles julgarem necessário.
Como alternativa, as autoridades fiscais podem permitir um déficit do tamanho que desejarem e, então, emitir títulos de curto prazo que o banco central terá de comprar, a fim de manter as taxas de juros baixas. No horizonte de uma taxa de juros zero, as políticas monetária e fiscal se tornam uma coisa só. Acaba o direito exclusivo do banco central de executar a política monetária [grifo deste blogueiro]. Mas o inverso também é verdade: o banco central pode mandar dinheiro para qualquer cidadão."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h37
Mea culpa maximizada
Escândalo da pirâmide de Madoff é menor do que o das agências de risco ou o da "falta de integridade" dos bancos? A entrada da "moral" nos debates sobre a crise e os escândalos financeiros são o tema da coluna de hoje (16/12) na Folha, que pode ser lida na íntegra aqui, pelos assinantes.
Trechos:
"O caso de Bernard Madoff talvez fique nos anais anedóticos desta crise como o episódio mais patético de mea-culpa, mea maxima culpa que se seguiu a uma tentativa gorda, gananciosa, gorada e gatuna de maximização de lucros. Madoff é o financista que disse a subordinados, a sócios e a clientes que mentiu, roubou e arrumou um rombo de US$ 50 bilhões. O homem já dirigiu a Nasdaq. Enganou alguns dos maiores bancos e figuras da finança mundial por meio de um engodo que ele mesmo chamou de "basicamente, um esquema Ponzi gigante", uma das patuscadas mais antigas e banais das finanças.
Ao longo da crise, como em todos os demais tumultos financeiros, descobrem-se malversações explícitas de dinheiro. A graça da coisa está em observar como o público e os grandes interessados discernem o que é caso de polícia, "falha de regulação" ou "crise de confiança". Em outubro, um comitê de investigação da crise do Congresso americano divulgou um caso típico de bolhas, visto numa troca de e-mails entre analistas da Standard & Poor's (a agência de cotação de risco) a respeito da qualidade de títulos lastreados em hipotecas (um desses papéis que ajudaram a detonar a crise). "Se esse negócio tivesse sido estruturado por vacas, a gente ainda o avaliaria [de maneira positiva]", dizia um deles. Vimos atitudes parecidas durante a bolha da internet e no escândalo da contabilidade (2001-2002). Bancos de investimento, analistas, agências de risco e auditores ajudaram empresas a fraudar contratos. Esses foram tidos como "casos de polícia". A atuação das agências de avaliação de risco nesta crise, porém, ficou no limbo. S&P, Moody's e Fitch laudaram o papelório imobiliário que, como se viu, era podre. A pena das três irmãs, porém, limitou-se a uma temporada no purgatório. "Moral", no entanto, foi uma palavra que voltou explícita ou subliminarmente nos discursos de mea-culpa a respeito da ruína financeira. Alan Greenspan disse coisas do gênero: "No último ano [2007/8], a falta de confiança na validade dos registros contábeis de bancos e outras instituições financeiras (...) provocou uma maciça relutância de emprestar a eles [aos bancos] (...). Alguns dos pilares críticos da competição de mercado falharam". Ao Congresso dos EUA, Greenspan diria que estavam abaladas algumas de suas crenças, pois "o auto-interesse", "a supervisão da contraparte [dos negócios]" e "falhas na precificação de ativos de risco" não haviam sido bastantes para manter o bom funcionamento dos mercados.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h19

Associated Press/APTN
O blog recebe sugestões. Sapatada no blogueiro não vale _é óbvio demais. Por favor, insultos, sim, mas insultos imaginativos.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h36
A paranóia mundial em relação ao risco está barateando o custo de financiamento da cada vez mais exuberante dívida americana, relatam Matthew Benjamin Liz Capo McCormick, da Bloomberg.
"Bill Clinton foi forçado a abandonar planos de incentivo à economia por meio do gasto público, no começo de seu governo, quando assessores lhe disseram que os empréstimos necessários para financiar os programas elevariam as taxas de juros. O presidente eleito Barack Obama pode não ter o mesmo problema.
Embora o total da dívida americana tenha subido de de US$ 9,15 trilhões (faz um ano) para US$10,7 trilhão, em novembro, o total de juros pagos nos últimos dois meses caiu US$ 10 bilhões, segundo o Departamento do Tesouro.
Investidores não se fartam dos títulos do Tesouro americano, em vez de evitar os EUA, onde as perdas com hipotecas subprime em 2007 detonaram uma contração global de crédito nos mercados a qual levou à queda do Bear Stearns e do Lehman Brothers" diz a reportagem. Mesmo com o aumento do déficit e o grande pacote de gastos de Obama, a demanda por papéis do governo americano contina a subir "enquanto investidores fogem de ativos de risco em todo mundo e colocam seu dinheiro em títulos que, em alguns casos, não rendem nada".
"Ainda há uma maciça paranóia no mercado, e também aquela mentalidade de 'fique seguro a qualquer custo'", disse Jay Mueller aos repórteres da Bloomberg _Mueller administra aplicações de US$ 3 bilhões em títulos no Wells Fargo Capital Management. "As pessoas não estão comprando títulos do Tesouro porque pensam que os rendimentos são atrativos. Estão comprando porque temem colocar o dinheiro em qualquer outro lugar".
O restante da reportagem pode ser lido aqui (em inglês).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h26
Garças e tucanos bicam a crise
Na coluna de domingo (14/12) na Folha trato de algumas de sugestões de política econômica contra a crise, elaboradas por economistas tucanos e/ou ligados à Casa das Garças. As sugestões foram recolhidas numa coletânea de 17 textos, de 21 economistas, um livro virtual a ser lançado em breve pela Casa das Garças. Assinante lê a íntegra aqui.
Trechos:
Do primeiro escalão do governo FHC escrevem Pedro Malan, Chico Lopes, Gustavo Franco, Edmar Bacha, Armínio Fraga e André Lara Resende. Os autores, menos um, trabalham no mercado financeiro ou são consultores financeiros. Para não baratear ainda mais os argumentos, citemos apenas sugestões de Franco, Bacha e Fraga. Franco é otimista. Não vê excessos no crédito, embora demasias nos IPOs e no mercado de capitais tenham causado exageros no setor imobiliário e de biocombustíveis. Empresas e bancos são pouco alavancados. O contágio deveu-se à seca de crédito externo. O excesso de compulsórios, porém, piorou a crise, pois já elevava o custo de captação de bancos. Para que o crédito volte a fluir, sugere: 1) reduzir compulsórios; 2) mudar a rolagem da dívida pública de curtíssimo prazo, "com alguma "punição" para o excesso de recursos de bancos repassados ao BC"; 3) reduzir impostos sobre empréstimos a fim de baixar o "spread" bancário; 4) criar um seguro para empréstimos interbancários. Para Franco, "não temos fraquezas fiscais". Mas rejeita ainda mais gasto público. Sugere, ao invés, menos imposto sobre o investimento privado. Critica a inabilidade da política de reservas e de câmbio, em especial a lenta reação do BC ao estouro dos derivativos cambiais. Bacha e Fraga observam que país caminhava para déficits externos insustentáveis, dados o excesso de consumo privado e de gasto público e a valorização do real, devida também a juros altos. Tal situação se sustentava apenas devido ao boom da exportação de commodities. A seca de crédito e o fim do boom deram cabo da bonança.
"Medidas de política creditícia compensatória atacam o mal pela raiz", diz Bacha. Fraga é mais refratário ao uso de bancos estatais contra a crise: se bancos privados limitam o crédito, é porque temem perder dinheiro. Há riscos nessa receita, diz Bacha: inflação, real ainda mais fraco, empréstimos ruins de bancos estatais. Além do mais, o risco de déficit externo alto persistirá se o crescimento seguir forte. Fraga diz o mesmo, de modo menos pessimista. "Quanto maior controle sobre o gasto corrente do governo, maior poderá ser a expansão creditícia compensatória sem afetar negativamente as contas externas", escreve Bacha. "Caso o governo exagere na dose anticíclica fiscal e creditícia, corre-se o risco de se desperdiçar uma possível, rara e não muito distante oportunidade de redução da taxa de juros", escreve Fraga.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h07
Cozinha Liberal: batatas na feira boliviana e na França
Primeira visita à feira dos bolivianos, no Pari, faz uns meses. No fundo de uma das barracas, há cestas com coisas semelhantes a trufas pretas muito grandes ou pedaços arredondados de carvão. Noutras estão empilhados o que parecem tocos cortados de ramos retorcidos de árvores, queimados e cobertos de cinza, de uma polegada de diâmetro, mais ou menos. Mais ao lado, tubérculos coloridos, alguns parecidos com batatas e mandioquinha, mas vermelhos, uns meio azuis, outros quase roxos ou amarelos.
- O que é isso, por favor?
-Papas.
As mandioquinhas coloridas eram batatas.

Batatas andinas
-E aquelas ali? São batatas também?
A menina boliviana ri muito de leve, olhando para baixo e para o lado, para uma senhora com ar entre meio entediado e emburrado, com cara de prima de Evo Morales. A menina responde:
- No. Sí. Son papas. Mas son chuños.
As trufas-carvão e os ramos calcinados eram os "chuños". Para dar outro ligeiro vexame, pergunto o que são "chuños". A menina continua a rir discretamente de mim, se enrola um pouco e me faz entender que "chuños" devem ser batatas secas.
Compro uns pacotinhos de "aji" (pimenta inteira, em vagem, como uma dedo de moça gigante). Mais tarde procuraria no Larousse ou, mais provável, no Google o que seriam exatamente "chuños" (mais sobre chuños e batatas nos posts abaixo) e as comidas da feira boliviana. Havia espigas de milho com grãos gigantes, brancos, havia "chuños", grande variedade de "ajis" e mais tubérculos diferentes. As espigas de milho, cozidas, são ótimas, doces, macias, versões alentadas das espigas de milho cozidas da "comfort food" norte-americana.
Os bolivianos da feira da praça Kantuta são reservados, tímidos, falam pouco e sorriem como que envergonhados, discretamente, como mulheres japonesas mais idosas. São milhares _em São Paulo, vivem uns 200 mil bolivianos. Os vendedores de comida pronta falam mais e explicam os pratos: várias empadas, empanadas, porco frito, cozido, sopas e "anticucho": churrasquinho de filés de coração de boi, servido com molho apimentado de amendoim. Bom: o coração de boi no espeto fica mais macio que coração de galinha, que se come nos churrascos daqui.
Não vi ninguém servindo porquinhos da índia assados ou fritos inteiros, como no Peru e, dizem, como o fazem também na Bolívia. Não comeria, uma rara restrição alimentar, pois convivo com uma porquinha da índia, e comer um bicho assim seria canibalismo. Ainda não sei nada de cozinha boliviana, mas a visita aos "chuños" me fez voltar aos velhos problemas da batata nacional, vulgo batata-inglesa, inglesa porém boliviana e peruana, aimará e quíchua.
Kantuta é uma flor linda dos altiplanos da Bolívia e do Peru. É a flor nacional da Bolívia, tem as cores da bandeira do país. A feira da praça Kantuta acontece todos os domingos, das 10h30 às 18h. A praça Kantuta fica na rua Pedro Vicente, em frente à Escola Técnica Federal de São Paulo. Basta descer na estação Armênia do Metrô, pegar a saída da rua Pedro Vicente e andar uns 600 metros.

Kantuta, flor do altiplano da Bolívia
Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h31
Cozinha Liberal: a grande viagem das batatas
O chuño era o pão do altiplano andino dominado pelos incas. É uma batata liofilizada, digamos, por um processo quase natural. Podia ser guardado por meses, anos. As batatas colhidas eram geladas nas noites muito frias de junho e de julho. Depois, passavam dias na água corrente fria. Inchadas d'água, eram pisadas (sic, com os pés) e expostas ao sol dos dias secos da montanha, pisadas de novo e secas até que toda a água fosse expulsa. Podiam então ser guardadas, como tal, ou transformados em farinha, como ainda se faz no Peru. Ao norte de Chile e Argentina, no Peru e na Bolívia ainda se fabrica chuño. Umidificado, o chuño infla de novo e pode ser preparado como sopa ou acompanhamento de carne cozida.

"Chuño": batatas secas na técnica andina
A técnica era usada em alguns outros parentes da batata, noutros tubérculos e nas batatas mais amargas. O chuño, que não sabia bem aos espanhóis invasores, e essas batatas amargas foram os tubérculos que os europeus conheceram quando destruíram os domínios incas, na década de 1530. Ou, pelo menos, as batatas que os europeus conheceram eram um tanto amargas, pois foi isso o que disseram delas por algumas décadas.
As primeiras notícias do emprego da batata na Europa são da década de 1540 e muito esporádicas _o tubérculo chegou à Espanha pelos portos de Baiona, na Galícia, norte, e de Sevilha, na Andaluzia, sul.
A batata, assim como o tomate, o fumo e a berinjela, é uma planta da mesma família da mandrágora e da beladona, que são venenos. Batata e tomate eram, pois, suspeitos e vítimas desses e doutros preconceitos (acreditava-se na Espanha e na França que a sujeira terrosa da batata causaria lepra). No oeste da Europa continental dos séculos 16 e 17 era em geral considerada comida de porcos ou fazia parte das sopas que ordens religiosas serviam aos pobres em seus hospitais (caldos ralos com ervas e um pedaço de toucinho ou porco salgado). Na Irlanda, em meados dos anos 1600 tornou-se comida básica da massa. Em meados do século 17, era conhecida no eixo que vai da Holanda ao norte da Itália, passando pela Alsácia-Lorena e pela Suíça.
No final do século 17, batata se torna mais comum em algumas regiões montanhosas, onde os pobres comiam castanhas (assim como seus eventuais porcos, também mais comuns em tais regiões), o que era objeto de comiserção e sinal de miséria. A certa altura, a batata se tornou um complemento ou substituto parcial das castanhas, sendo contaminada pelo mesmo preconceito. A batata e/ou o milho passaram, enfim, a ser cultivados de modo mais extensivo nas partes mais pobres da Europa, onde havia menos cereais nobres, trigo ou centeio _Galícia, Irlanda, centro-leste francês, Alpes. Não aparece nos cardápios de festas populares e era identificada com a pobreza até meados do século 19, comida de pessoas desvalidas demais até para comprar pão.
Mas os documentos sobre a alimentação popular da época são esporádicos e imprecisos. Fora dos registros mantidos por senhores de terra, governos locais, religiosos e literatos, que anotavam apenas o que lhes interessava, não se sabe muito da dieta dos pobres _apenas as rações e as comidas que eram objeto de registro burocrático (como livros de contas) ficaram para a história, afora as relatadas por escritores e noutros registros aleatórios. Não se sabe bem o que os pobres plantavam em quintais, hortas ou o que colhiam dos bosques. Porém, a comida básica tida como mais nobre entre os pobres era o pão de trigo.
As guerras, como a dos Trinta Anos (1618-1648, que devastou o centro da Europa), e o crescimento demográfico a partir de meados do século 18 parecem ter ajudado a batata a se expandir pela Europa, assim como o milho. Estados mais organizados e técnicos a serviços dos governos passaram a recomendar seu plantio em zonas de fome e para o abastecimento de exércitos, prisões, hospitais e asilos.

Variedades andinas de milho
O cultivo de batata e milhos melhorados reduziram a frequência e o alcance das fomes na Europa. O consumo do outro grande produto americano, o tomate, se tornou mais comum no século 19, em particular quando melhoraram as técnicas de conserva e produção de tomates em lata (os molhos do tomate, mais baratos, substituíam os ralos molhos de carne que temperavam as massas). A polenta (de milho), os "gnochi" e os molhos de tomate, que parecem ter a cara da Itália profunda, eram alimentos "de segunda", que foram enquadrados quase à força no padrão alimentar europeu.
Os "taratuffi" ou "taratufoli", como italianos chamavam as "pequenas trufas" que engordavam porcos no norte da Itália do século 17, na pronúncia estropiada francesa e alemã eram chamados então de "caretoufles" e "caratofeln", respectivamente. "Kartofeln" é até hoje batata em alemão. Os tipos mais comuns de batatas que comemos, ao menos no Brasil, são ou eram chamados de "batata inglesa", que são filhas das variedades melhoradas de batatas criadas na Irlanda e na Inglaterra do século 18, tipos que depois foram aperfeiçoados na Holanda, na França e, mais tarde, na Alemanha. A batata bintje, uma das mais consumidas no mundo, foi o ponto final, em 1905, de anos de experimento de um holandês.
As batatas andinas, levadas para a Europa, cultivadas e melhoradas por ingleses, irlandeses, franceses e holandeses, chegaram até Portugal e daí vieram ao Brasil. Até hoje, os melhoramentos nas batatas que consumimos, ainda poucos, aliás, são realizados a partir de variedades "européias", criadas para solos e climas europeus, para crescer em longos dias de verão, dias que eram muito mais curtos no solo natal das batatas, próximos da linha do Equador. A produtividade dos campos de batata brasileiros ainda é muito inferior à dos europeus. Mas nunca procuramos adaptar diretamente as batatas andinas ao nosso solo. E, para piorar, não conhecemos direito nem as batatas que temos, para que servem na cozinha. É o tema do próximo post.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h21
Cozinha Liberal: a personalidade das batatas
Nos últimos dois anos, alguns sacos de batatas passaram a indicar o uso mais apopriado para o tubérculo: se boas para purês ou para gratinar, por exemplo. Mas são raros e nem sempre a indicação é precisa, apesar de existir até lei sobre a rotulagem da batata. Em geral é preciso ir a um feirante que ainda entenda do riscado e perguntar sobre a utilidade da batata. A situação não mudou muito desde que este blogueiro escreveu uma pequena reportagem-comentário sobre batatas, nas páginas de Comida, na Folha, em maio de 2006. As recomendações, pois, seguem as mesmas. Qual batata comprar, para quê?
"A ágata, que faz de 50% a 60% da produção nacional fica bem se cozida, assada, ou gratinada. Mas não se transforma numa boa batata frita palito ou num bom purê. A bintje é boa para fritura, purê e sopa. No Brasil, é apenas 2% da produção. A asterix, rosada, é multiuso, mas quase privilégio dos gaúchos, que as plantam. Aquelas de pacotes, pré-fritas e congeladas, são asterix ou bintjes. "Grosso modo, existem dois tipos de batatas: as pouco úmidas, com mais amido, as ditas farinhentas, e as mais úmidas, de textura lisa, fina, e menos amido. As farinhentas são boas para assar, purês e fritura; na água ou no vapor, tendem a desmanchar. "As mais lisas ficam bem se cozidas, ensopadas ou gratinadas. Mas há tipos temperamentais, que a gente só conhece mesmo cozinhando. "O nhoque pede batatas algo farinhentas, mas não muito. O grande chef Alain Ducasse usa bintjes nas suas receitas de nhoque (dica: não trabalhe demais a massa, ou ela vai ficar borrachenta). "Há um teste simples para saber se a batata é farinhenta ou não. Faça uma salmoura com uma parte de sal para 11 partes de água. Mergulhe as batatas na salmoura: a farinhenta, mais densa, afunda; as lisas ficam mais perto da superfície da água.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h18
A seguir, nos posts abaixo, vão duas receitas básicas e tradicionais da cozinha francesa da batata: a sopa e o purê (amanhã, terça-feira, coloco as receitas de dois outros clássicos: o gratinado e as batatas "parmentier").
Parece banal, tanto de fazer, como de comer. Mas não é nada disso. Tente fazer tais receitas com cuidado e com os ingredientes certos e prove a diferença. Aliás, Joël Robuchon, um dos maiores cozinheiros franceses do século 20 (e agora do 21) fez parte de sua fama com um simples e excepcional purê de batatas.

Flor da batata
Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h17
Cozinha Liberal: sopa de batatas ("potage parmentier")
Ingredientes:
1 kg de batatas bintje (escolha as de tamanho semelhante)
3 talos de alho-poró (com uns 20 cm de comprimento, um dedo de diâmetro. Use apenas a parte branca)
1 cebola pequena
1 ½ de caldo de galinha (melhor se feito em casa, mas pode ser de cubinho: faça um litro de caldo como indicado na caixa do produto e o dilua com duas xícaras d'água)
100 ml de creme de leite (fresco)
150 g de manteiga sem sal
Para fazer:
Lave bem o alho-poró (a parte próxima do verde deve ter alguma terrinha, cuidado). Fatie cebola e alho-poró muito, muito, finamente. Descasque as batatas e as corte em quartos.
Coloque 50 g de manteiga na panela em que vai cozinhar a sopa. Junte a cebola e o alho-poró. Em fogo muito baixo, cozinhe os legumes, mexendo sempre, por cerca de 5 minutos, até que estejam tenros e um pouco translúcidos (é apenas para "suar", não para refogar). Não deixe escurecer, de modo algum. Junte as batatas e o caldo. Coloque uma pitada de sal e outra de pimenta. Cubra e cozinhe em fogo baixo por 30 minutos.
Amasse, na panela, as batatas com um espremedor de batatas ou um garfão. Passe o conteúdo, aos poucos, para um liquidificador. Bata até dissolver os pedaços de batatas (cuidado para não se queimar: se o copo do liquidificador estiver muito cheio, o líquido quente vai espirrar assim que você ligar o aparelho. Não encha muito o copo).
Transfira a sopa de volta para a panela. Ferva a sopa e retire as impurezas (a espuma que sobe) com uma escumadeira. Baixe o fogo, junte o creme e o restante da manteiga e misture até que se dissolvam bem na sopa. Bata de novo, levemente, no liquidificador ou com um mixer. Prove e corrija o sal. Está pronto.
A sopa pode ser servida com "croutons" (cubinhos de pão frito na manteiga) e algumas folhas de salsa. Dá para umas 5 pessoas
Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h16
Cozinha Liberal: purê de batatas à Robuchon
Procure comprar batatas do mesmo tamanho. Assim, elas cozinham no mesmo tempo. Essa é uma dica do maior especialista em purês, Joël Robuchon. Também procure terminar o purê numa panela pesada, de fundo grosso. Ou ele vai grudar e queimar, um desastre total.
Ingredientes:
1 kg de batatas para purê (pergunte ao feirante o tipo ideal)
250 g de manteiga e gelada, sem sal
250 ml de leite integral (tipo A)
Sal grosso
Para fazer:
Lave as batatas e coloque-as, com casca, na panela do cozimento. Cubra com água até que a altura d´água ultrapasse em uns dois dedos a altura das batatas na panela. Meça então o volume d'água (num vasilhame graduado). Coloque essa mesma água na panela do cozimento. Salgue a água na razão de 10 g de sal para cada litro d'água. Tampe a panela e cozinhe em fogo médio-baixo por 25/30 minutos. As batatas estarão prontas quando você conseguir atravessá-las facilmente com uma faca.
Escorra as batatas e as descasque assim que possível (assim que não estiverem mais pelando, mas ainda mornas). Esprema as batatas numa panela grande. Corte a manteiga em cubinhos (de 1 cm, mais ou menos). Coloque o leite para ferver.
Acenda o fogo da panela do purê (fogo muito baixo) e, com uma colher de pau, mexa com força e rapidamente a massa de batatas, por uns 5 minutos. Misture, aos poucos, os pedaços de manteiga, mexendo sempre e com vigor. Quando tiver misturado toda a manteiga, desligue o fogo. Comece a misturar o leite fervendo, aos poucos, em um fio, mexendo sempre o purê. Acabado o leite, prove o sal _o purê não deve precisar de mais sal, se você acertou a medida no início da receita. Se o purê ainda estiver meio grosso, acerte o ponto com uma colher de leite quente.
Dá para preparar o purê uma hora antes de servir. Guarde coberto, FORA da geladeira, em local fresco. Aqueça em banho-maria.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h15
O pacotinho do governo
Na coluna de sexta, analiso o pacote de medidas lançadas pelo governo: redução de IR, do IPI, do IOF e o auxílio ao refinanciamento da dívida externa de empresas privadas. Assinante lê a íntegra aqui.
Trechos:
À primeira vista, o pacotinho divulgado ontem pelo governo parece uma lista de pedidos natalinos de empresas, das montadoras e das endividadas em dólar em particular. Houve redução de impostos e auxílio para refinanciamento da dívida externa de empresas. Tal socorro talvez contenha a velocidade de desvalorização do real e reduza a disputa pela ora mais escassa oferta doméstica de crédito. Quanto aos efeitos de estímulos fiscais, há polêmica entre economistas, além de resultados práticos divergentes a depender de contextos. É ainda difícil estimar o sucesso do estímulo fiscal sem conhecer as demais linhas da política fiscal (gasto público), monetária (juros), o futuro do financiamento e do comércio externos (exportações menos importações) e o estado da confiança de consumidores e empresas diante das enormes incertezas.
...
O corte de impostos não é grande -uns R$ 5 bilhões de IR, R$ 1 bilhão de IPI para carros e R$ 2 bilhões de IOF. Por si, não teria efeito macroeconômico relevante, mas o governo já ofereceu outros alívios tributários, gastará mais com servidores, com o INSS e a arrecadação crescerá menos em 2009. Existe, pois, o risco de o governo conter gasto em investimento para compensar a receita menor e a despesa maior. Ou de reduzir o superávit primário. Como a dívida pública caiu muito, no curto prazo isso nada tem de desastroso. Mas melhorar as condições da oferta (menos impostos sobre investimento privado e mais investimento público) seria mais razoável. Mais relevante é o futuro do câmbio e a atitude dos bancos. A ajuda ao refinanciamento da dívida externa de empresas é uma medida sensata. O preço do dólar, porém, dependerá mais do tamanho do tumulto global e da redução do saldo comercial. Desvalorização ainda maior do real pode limitar a queda de juros, encarece o investimento e deteriora o ambiente por vários motivos, o que deixa os bancos na defensiva. As taxas "básicas" de juros no mercado caíram bem de um mês para cá, mas não se vê melhora equivalente na ponta do crédito. Juros ainda altos, as primeiras levas de demissões e outras notícias ruins não devem melhorar a confiança de consumidores e empresários. Enfim, sem uma expansão monetária, ainda que gradual, e sem corte de gastos de custeio do governo, o efeito do pacotinho tende a ser diluído. De resto, políticas fiscais de estímulo são mais eficazes via aumento produtivo de gastos (não via corte de impostos) e em caso de crise na demanda, o que não era bem o nosso caso."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 02h41
A conversa sobre nova bolha na praça voltou a ganhar força _a bolha dos títulos do Tesouro americano. O mundo correu para comprar títulos americanos durante esta grande epidemia de aversão ao risco. Na semana do grande pânico de setembro, os títulos de três meses chegaram a render quase zero _o grande investidor do planeta preferia deixar o dinheiro nesse "colchão", com rendimento real aliás negativo. Foi um espanto. Nesta semana, foram de fato a zero, e notas ("bills") chegaram a ser compradas com rendimento nominal negativo (quanto maior a procura pelos títulos, maior o seu preço; como são vendidos com desconto, quanto maior o preço, menor o desconto e, pois, o rendimento efetivo). Na terça-feira, o governo americano tomou US$ 30 bilhões em títulos de curto prazo (quatro semanas), com taxa zero. A procura foi mais de três vezes a oferta do governo. Literalmente, estão guardando dinheiro no colchão em vez de comprar ações, títulos de empresas ou qualquer outra coisa (abaixo, segue uma tabela com o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA em dezembro e por volta do dia 11 de cada mês passado deste ano).
Qual o rumor da "bolha"? Grosso modo e muito resumidamente, se começar uma fuga em massa de tais papéis, seu preço diminuiria rapidamente, derrubando o valor dos ativos de muita gente. Ninguém vê muita possibilidade de isso acontecer, mas o risco aventado é esse. Enfim, para onde iria o dinheiro? Para Marte?
O dólar também começou a perder valor, depois de chegar ao pico, faz pouco mais dois meses. A fuga do risco e a necessidade de liquidar operações em dólar provocou a alta da moeda americana. Desde julho, o dólar se valorizou 23% em relação a uma cesta de moedas (ponderada pelo peso que têm no comércio dos EUA). Desde o pico, perdeu quase 5%. Talvez pudesse se tratar de uma queda na aversão a risco. Mas o preço dos títulos americanos parece negar a hipótese. Ou, então, existiria já um medo de deflação, outro rumor exagerado (mas também parecia exagero quando se dizia, em julho do ano passado, que ocorreria um grande "credit crunch", com paralisia geral do crédito no centro do mundo, como de fato acabou acontecendo).
As estimativas cada vez piores para a economia americana não ajudam, decerto, embora não exista grande economia com perspectivas ao menos razoáveis, afora a China, que no entanto fica em outro planeta financeiro.
As previsões para o PIB deste quatro trimestre nos EUA estão entre declínio de 5% a 6,5% (em termos anualizados), tão ruim como na recessão do início dos anos 80. Para o primeiro trimestre de 2009, a previsão por ora mais comum anda em torno de queda de 4%.
Talvez a sossegada mundial do dólar tenha ajudado o real, que tem apanhado menos nos últimos dias. Claro, a perspectiva de queda da Selic ajudou um pouco também.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h22
A partir de janeiro, cai o imposto de renda para pessoas físicas, como adiantado na coluna e neste blog. A medida foi anunciada agora pouco por Guido Mantega, Henrique Meirelles e Miguel Jorge. O IR cai para todo mundo, mais para quem ganha menos. O IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) cai de 3% para 1,5%. O IPI sobre carros 1.0 cai de 7% para 0. De carros 1.0 a 2.0 cai de 13,5% para 6,5% (gasolina) e 11,5% para 5,5% (álcool e flex). Para carros de motores 2.0 ou maiores, o IPI fica como está, em 25% (gasolina) e 18% (álcool e flex). Para veículos comerciais leves 1.0, o IPI cai de 8% para 1% e de 8% para 4% para motores maiores. Para pickups, cai de 8% para 4%.
Afora o IR, as isenções entram em vigor amanhã, diz o governo. Os ministros disseram que as montadoras se comprometeram a repassar a redução de imposto para o preço. A ver.
O governo também anunciou que vai emprestar dinheiro das reservas internacionais para empresas que tenham financiamentos no exterior, no limite de 125% do que têm a pagar ou amortizar, a partir deste último trimestre do ano até o final de 2009. Isto é, vai emprestar via instituições financeiras, claro, a taxa de mercado, Libor mais alguma coisa, disse Meirelles.
Comentários, na coluna de amanhã na Folha. Mas a medida do IOF é importante e útil. A das reservas pode ser boa (vamos pensar) para câmbio e para o crédito doméstico (alivia a pressão sobre a demanda de crédito doméstico, que piorou devido à seca externa). Mas é preciso pensar melhor na eficácia da medida dos impostos e o seus efeitos negativos nas contas públicas.
As alíquotas do IR ficam assim, de acordo com as faixas de renda (segundo a entrevista dos ministros. Não há documento oficial ainda):
Até R$ 1434 = 0
De R$ 1434 a R$ 2150 = 7,5%
De R$ 2150 a R$ 2866 = 15%
De R$ 2866 a R$ 3582 = 22,5%
Mais de R$ 3582 = 27,5%
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h20
A cirandinha de Lula, DEM e PSDB
Apesar dos mais "altos protestos de falta de estima" e "consideração" pelo equilíbrio fiscal, governo e oposição concordaram em aumentar os gastos públicos, concedendo mais reajustes salariais ao funcionalismo. É o assunto da coluna de hoje na Folha, que o assinante pode ler na íntegra aqui.
Trechos:
"Em uma semana, governo e oposição aprovaram dois aumentos para os servidores públicos federais. A despesa com salários em relação ao PIB deve voltar ao nível de 1995 ou 1996 -com certeza será a maior em mais de uma década. A bancada do governo Lula e o que se concede, por hábito, o nome de oposição rodam na cirandinha da cara-de-pau. Se chancelar as liberalidades do Congresso, Lula desmente o que dizia faz menos de uma semana. A charanga de desfaçatez que são o PSDB e o PFL, porém, não tem mais remédio. Votaram à matroca e na maciota mais um aumento de despesa, "gastança" que é, nestes termos, objeto freqüente de seus discursos contra o governo Lula."
...
"No dia 2 de dezembro, Lula discursava a governadores, em Recife: "Precisamos economizar o máximo que a gente puder em custeio e gastar o máximo que a gente puder em investimentos públicos, em obras públicas". Economizar em custeio: despesa com salários, por exemplo. Há anos a oposição pratica a fraudulência de negar nos abscônditos escurinhos do Congresso o que prega em discursos e artigos de jornal.
"Em maio, era o que fazia Rodrigo Maia, deputado federal pelo DEM do Rio, presidente do partido e triste figura da obsolescência incipiente ou da renovação natimorta do conservadorismo. Escreveu nesta Folha: "Enquanto isso, remando contra a maré favorável, o que faz o governo Lula? Faz crescer os gastos correntes, exaurindo a capacidade de investimento do governo.""
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h02
O Banco Central publicou agora pouco um dos comunicados mais ridículos da história do regime de metas de inflação, se não o mais. Para fazer um salamaleque a contragosto para Lula e para a galera disse que "a maioria dos membros" do Copom "discutiu" a redução da taxa básica de juros. Ora, estão lá para isso mesmo, para discutir bastante, inclusive reduções de taxas de juros. O rapapé era totalmente dispensável e deveu-se apenas à falação de Lula, que subiu de tom nessa mais recente rodada de "tensão pré-Copom".
O salamaleque nem melhora a prestação de contas do BC nem vai ajudar a "manter a independência do Banco Central", como haverá bajuladores a dizer. Apenas mostra os efeitos contraproducentes da falação de Lula e relembra como é precário o sistema de prestação de contas do BC, uma instituição que precisa de reformas, assim como a lei do sistema financeiro velha de quase meio século, para não falar da atuação do Congresso nessa lambança, Congresso inepto e relapso na sua atividade de controle sobre agências do governo, como o BC e as reguladoras.
Abaixo, o texto divulgado pelo BC depois da reunião:
"Brasília - Tendo a maioria dos membros do Comitê discutido a possibilidade de reduzir a taxa básica de juros já nesta reunião, em ambiente macroeconômico que continua cercado por grande incerteza, o Copom decidiu por unanimidade, ainda manter a taxa Selic em 13,75% a a, sem viés, neste momento. O Comitê irá monitorar atentamente a evolução do cenário prospectivo para a inflação com vistas a definir tempestivamente os próximos passos de sua estratégia de política monetária.
10 de dezembro de 2008
Banco Central do Brasil"
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h04
A cúpula dos economistas do governo continua a dizer que vai baixar o imposto de renda para pessoas físicas, como adiantado na coluna e pela repórter Leandra Peres, ambas na Folha de 25 de novembro. Mas os técnicos fazem mágicas e milagres para não arrumar um buraco muito grande nas contas públicas, que por ora estimam em R$ 6 bilhões a R$ 8 bilhões, segundo a estimativa mais conservadora para a perda de receita com a redução do IR. Somado à provável redução do IOF (que subiu no ano passado para compensar parte da perda com a CPMF), aos gastos extras com o funcionalismo, mais outras isenções fiscais que vão pingando no rastro da crise, daqui a pouco bate em 0,5% do PIB (de 2008), o equivalente ao PPI, a despesa que poderia ser feita sacando contra o superávit primário, desde que fosse dirigida a investimentos.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h58
O PIB espantoso e Lula
A coluna de hoje na Folha comenta aspectos políticos da alta do PIB de 2008, a crise e 2010. Assinante lê a íntegra aqui.
Trechos:
"O Brasil dos seis primeiros anos do governo Lula terá crescido, na média anual, o dobro do registrado durante os anos FHC. O resultado decerto ajuda a explicar os 70% de popularidade do presidente, mas nem de longe esgota a explicação dos motivos do prestígio luliano. Nem permite prognósticos binários, preto ou branco, a respeito da influência do baque do ano que vem no projeto político do governismo. O muito provável tombo de 2009 terá reflexos econômicos diferentes nas diversas camadas sociais. De resto, a interpretação política que os diversos grupos sociais darão ao resfriamento do clima econômico também deve ser diferente.
...
O Brasil praticamente entrava em ritmo coreano de crescimento. Mas, na hipótese de não ter havido o desastre mundial de setembro, tal balada era claramente inviável. A demanda doméstica estava contribuindo com mais de oito pontos percentuais para um PIB que crescia a 6,3% anuais. Metade disso era investimento, decerto, mas o "déficit externo" parecia explosivo, com inflação no teto da meta (o setor externo "tirou" 2,6 pontos percentuais do PIB nos últimos quatro trimestres). Lula estava entre deixar a economia desembestar em direção a um tumulto de fabricação caseira ou teria de segurar o crescimento, o que o BC estava pronto para fazer. Se não vier catástrofe, Lula poderá tirar proveito da crise, pois, como tem feito. O "ajuste" será em parte imposto pela crise mundial, que de fato não é "nossa", e assim poderá ser faturada politicamente. Por fim, as condições de recuperação são boas. A fatia do investimento no PIB é recorde em décadas, assim como as condições financeiras (fiscal e dívida externa). A crise será dura em 2009, mas manejável, se o governo não for muito inepto, em especial na área fiscal."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h23
O avanço do PIB do terceiro trimestre foi um espanto. O crescimento acumulado no último ano (nos quatro trimestres encerrados em setembro de 2008) foi de 6,3%. Os erros de previsão no mercado foram brutais, mesmo considerando que o PIB é uma linguiça de dados por vezes surpreendente e, ainda, que a metodologia de medição mudou recentemente (e, por fim, o dado é sujeito a revisões). A economia, que parecia desacelerar até o segundo semestre, chegando a um pico, voltou a acelerar, mesmo com o mundo já em meio à crise (embora ainda sem sentir os efeitos do desastre de setembro nos Estados Unidos e Europa).
Mesmo que o PIB encolha 1% no último trimestre do ano (contra o trimestre anterior), a economia ainda deverá crescer 5,8% em 2008, resultado ainda melhor que o do ano passado. A se confirmar tal número, o crescimento médio nos anos Lula, até agora, ficaria em 4,3% (contra 4,5% da média mundial inflada por China e Índia), mas equivalente a 96% do crescimento médio mundial. Nos anos FHC, o crescimento médio ficou em 2,3% (contra 3,5% da média mundial. Isto é, o crescimento médio foi equivalente a 66% da média mundial). Vide tabelas completas abaixo.

Melhor que tenha sido espantoso o resultado do terceiro trimestre, embora a velocidade em que corria a atividade econômica fosse insustentável _já redundava em mais inflação e déficit externo crescente. No entanto, apesar de aparentemente estar no limite, os dados mostram que o potencial de crescimento brasileiro está bem além dos míticos 4% ao ano do PIB potencial estimado pelos nossos economistas padrão. Porém, com a recessão mundial, devido à estagnação provável do comércio mundial no ano que vem e à brutal contenção do crédito, será difícil sustentar mesmo os 4%, de modo responsável. Mas o jogo ainda está no meio _podemos ter dois trimestres ruins, mas talvez seja possível crescer além dos 2% estimados pelos economistas.
O melhor de tudo foi o resultado do investimento, que ultrapassou 20% do PIB. Porém, o bom desempenho do investimento (formação bruta de capital fixo) era um dos fatores a pressionar o aumento do déficit externo. Ou seja, para manter em alta o investimento em máquinas e instalações produtivas, seria necessário conter parte do consumo doméstico: ou o das famílias ou gasto do governo. Melhor conter o gasto do governo que não seja investimento, certo? Abaixo, segue também a tabela da composição do PIB. Isto é, dos "componentes da demanda": consumo privado ("das famílias"), consumo do governo, investimento (formação bruta de capital fixo), exportações e importações de bens e serviços.

Mais informações e comentário na coluna de amanhã (quarta, 10/12), na Folha.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h28
Lula fala demais
A pressão pública de Lula e de parte de seus ministros deixou a diretoria do Banco Central bem irritada ou acuada _chegou a haver ameaça de pedidos de demissão, não se sabe se para "inglês ver" ou à vera.
A coluna de hoje na Folha trata da tensão no BC, em parte derivada da falação demasiada de Lula, que poderia fazer mudanças mais produtivas se não fosse tão boquirroto. Isto é, se é que pretende mesmo fazer mudanças na política econômica. Nos últimos seis anos, Lula limitou-se a fingir que nada a tinha ver com a política monetária, criticando antecipadamente as decisões do BC apenas para lavar as mãos e livrar a cara diante da galera mais ignara. Basicamente, a política econômica de Lula é a de FHC 2, elaborada em parte por Armínio Fraga (política monetária) e cumprida mais à risca na parte fiscal, pois os aumentos de arrecadação foram brutais. Assinante lê a íntegra da coluna aqui.
Trechos:
"O pessoal do Planalto, pois, está animado com a possibilidade de dar um xeque no BC. Mas faz seis anos que Lula recorre ao truque de se fazer de vítima desentendida do BC, repetido a cada semana prévia às reuniões do Copom. Mas a chorumela luliana não foi de todo sem conseqüências e, desta vez, está em tom acima do queixume habitual. No início de Lula 2, Meirelles, político esperto, aproveitou saídas voluntárias da diretoria do BC para formar equipe um pouco menos divergente das idéias da Fazenda. A atual direção do BC é mais discreta e menos carne de pescoço que a de Lula 1. Ainda assim, é o que a cúpula do PT chama de "último bastião da ortodoxia" no governo, opinião reiterada e trombeteada na reunião da tendência majoritária do partido, encerrada domingo.
Nesta temporada pré-Copom, Lula fez mais pressão sobre bancos privados, via emissários, entre eles o próprio Meirelles. Coloca na parede os presidentes dos bancos estatais. Fez discursos cada vez mais irados contra juros. Sentiu o baque da crise próxima, os pátios cheios de carros, o tombo da indústria, as primeiras levas de demissões. Um assessor próximo diz que não via Lula tão irritado com a economia desde o tempo em que se frustrava o "espetáculo do crescimento".
Lula poderia ter apresentado um plano coerente e organizado para o período de crise, encaixando o BC no programa e cobrando a fatura da Selic, mas atrás do pano. Poderia cumprir a promessa de palanque de cortar custeio, tomar medidas para dificultar a festa cambial do mercado, organizar com Estados o deslanche de obras mal paradas etc. Mas Lula gosta de falar. "
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h44
A Bovespa viajou, em alta de 8,31%, no tapete voador das bolsas do centro do mundo, "animadas" com mais promessa de dinheiro público jorrando para empresas privadas. Barack Obama prometeu no domingo o maior pacote de obras públicas já visto em mais de meio século nos Estados Unidos. A Opep começou a espalhar que vai cortar produção (oficialmente, ao menos, pois governos desesperados com a queda da receita petrolífera podem vazar o acordo, como sempre fazem).
As ações de empresas ligadas a commodities explodiram. Petrobras, 11,28%, Vale 10,27%, Usiminas 16,71%, Gerdau 14,36%.
O IGP-DI veio magrinho, estagnado, sem inflação, a 0,07% em novembro (1,09% em outubro), sem ligar para o dólar, que ontem continuou a jornada para Marte, subindo para R$ 2,501. Ainda assim, os juros na praça continuam a despencar desde a alta histérica, faz um mês. Na BM&F, o DI que vence em janeiro de 2010, caiu para 13,13% _o DI é a taxa "básica" de juros na praça. Mas o BC deve deixar os juros onde estão, apesar da falação de Lula, que pretende fazer política macroeconômica no grito, no palanque.
Empresas cortam
A Vale, porém, suspendeu a produção de pelotas de ferro no Espírito Santo. A Sadia vai paralisar linhas de produção no primeiro trimestre de 2009. A Fiesp acha que a economia deve ficar estagnada neste trimestre final de 2008 e deve encolher no primeiro trimestre de 2009. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, acha que o comércio exterior deve ficar no zero a zero em 2009: "Neste ano, o superávit deve ficar um pouco acima dos US$ 20 bilhões. Garanto que será menor [em 2009], talvez até com déficit", disse, na entrevista de final de ano da entidade. Reclama que o principal problema da indústria é o crédito _custo e escassez.
"Joelhaços" nos bancos
O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse em entrevista à RBS que o governo deve "dar uns joelhaços" nos bancos, a fim de que eles emprestem mais. "Temos de criar condições para que funcione normalmente (o sistema bancário). Se não, talvez aplicar medidas restritivas. O governo tem de exercer, também, atividade regulatória. As cooperativas de crédito têm crescido muito, temos de prestigiá-las. Os bancos públicos não vão dar conta de tudo", disse Bernardo.
Acha que a crise vai ser muito ruim no primeiro semestre de 2009 no Brasil, mas que a recuperação começa no meio do ano. Bernardo acredita que o PIB cresça 3,5% em 2009. Guido Mantega, seu colega da Fazenda, acredita, ao menos da boca para fora, em 4%.
Os bancões todos, esses que podem levar "joelhaços", reduzem a previsão de crescimento para 2% em 2009. Como enfiaram ainda mais faca nos clientes, a partir de outubro, com altas recordes do "spread", devem saber do que estão falando. Mas já "aceitam" corte da Selic em janeiro. Devem mesmo saber do que estão falando _devem estar vendo crise braba a partir do início do ano.
Menos comida, mais gasolina
A safra de grãos 2008/09 deve cair 5% em relação a do ano anterior, disse hoje o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Os preços da agricultura, além de cadentes, estão doidos, voláteis, assustanto o agricultor, que também está com o crédito caro, quando tem crédito. Ainda assim, seria uma das maiores safras da história.
O consumo de comida tende a cair menos do que de outros bens mais caros, em épocas de crise. A comida vai encarecer de novo em 2009, apesar da crise?
O preço da gasolina nos mercados futuros caiu 75% desde seu pico, por volta de maio. Petróleo e combustíveis mais baratos em tese barateiam o custo de produção agrícola e abre mais espaço no orçamento das famílias para gastos com coisas como comida. A gasolina baixou e vai baixar mais nos EUA, assim como o preço dos fertilizantes vai cair um pouco. Mas aqui o preço dos combustíveis deve ficar na mesma.
"O pior já passou"
Enquanto isso, a Bolsa subia mais de 8%, como dizíamos. Os fundos de investimento ("money markets funds") dos EUA começaram a respirar, pararam de sangrar, compram um pouco mais de papéis de empresas (dão crédito, pois). Vamos ter, pois, mais alguns dias de "o pior já passou". Até o pior voltar.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h04
Enquanto o país está à beira de topar com a mais grave crise econômica mundial em oito décadas...
08/12/2008 - 18h45
Planalto nega ter censurado discurso de Lula para omitir termos de baixo calão
RENATA GIRALDI da Folha Online, em Brasília
A Secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto negou nesta segunda-feira que tenha censurado a divulgação do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada. No Rio, Lula usou o termo "sifu" -uma corruptela de uma expressão vulgar-- para ilustrar um raciocínio. Inicialmente, o termo apareceu na íntegra do discurso como inaudível. Só mais tarde é que o termo foi acrescentado.
Em cerimônia no Rio, Lula reproduziu um suposto diálogo entre um paciente e um médico. Segundo o presidente, o que se aconselha é que o profissional faça uma análise positiva sobre o quadro negativo do doente e não o contrário.
"Ou você diria ao paciente 'sifu'? Se você chega dizendo a gravidade da doença, você acaba matando o paciente", afirmou o presidente.
A Secretaria de Imprensa da Presidência da República informou hoje que a divulgação do discurso do presidente ocorreu por "erro", e não censura.
A orientação, segundo a secretaria, é divulgar na íntegra tudo o que for dito pelo presidente da República.
Oposição
A bancada tucana na Câmara dos Deputados criticou os termos usados pelo presidente Lula para falar da crise econômica mundial. Além do "sifu", Lula afirmou que mercado financeiro, ao pedir ajuda ao "Estado que eles negaram durante 20 anos", agia como um "adolescente" após sofrer uma "diarréia".
Segundo nota divulgada no site do PSDB, os tucanos consideraram de "baixo calão" o discurso de Lula.
O líder da bancada tucana, José Aníbal (SP), condenou o "comportamento inadequado do presidente". "A oposição registra um comportamento inadequado do presidente, que comete destempero verbal no trato de uma crise que não é imaginária, mas real", disse.
08/12/2008 - 19h14
Oposição critica PT por culpar FHC por crise e diz que governo Lula já representa o passado
da Folha Online
Em nota conjunta, o PSDB, o DEM e o PPS rebateram às críticas do PT à suposta responsabilidade do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) pelos efeitos da crise econômica mundial no Brasil. Reportagem da Folha informa que o tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, disse que o governo FHC e o DEM foram os patrocinadores da crise. z que o partido fará o debate eleitoral com o PSDB. "Foi a desregulamentação do Estado, da forma de trabalho, sem proteções, as privatizações. É esse modelo que está em crise", disse o petista.
Na nota, os presidentes do PSDB (Sérgio Guerra), do DEM (Rodrigo Maia) e do PPS (Roberto Freire) dizem que "os petistas partem para provocações mesquinhas e facilmente desmoralizadas".
"O PT esgotou seu prazo de carência para atribuir ao passado a culpa pelos efeitos da crise econômica. Depois de seis anos do governo Lula, a legenda do oficialismo surpreende o país com uma dupla incongruência: se o presidente oficializou a versão, evidentemente falsa, de que o Brasil não sofre os efeitos da crise econômica, como atribuir a onda de desemprego e de forte recesso das atividades produtivas ao "governo anterior"? Como governistas no poder podem culpar o 'passado' por uma 'realidade' que o seu Presidente nega peremptoriamente?", diz a nota.
Na nota, os partidos de oposição dizem que o "governo Lula já representa o próprio passado de que reclamam os petistas, que, portanto, atingem a si mesmos".
"Reconhecem a crescente incapacidade do governo para enfrentar a crise e indicam que escolheram um perigoso e débil álibi: queixam-se de um passado remoto --o qual denominam "governo anterior"-- a que já tiveram tempo suficiente não apenas para superar, mas para revogar e denunciar seus atos, o que jamais fizeram", dizem eles na nota.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h57
"Idiotia ruralista" é o título do artigo de Marcelo Leite, no Mais! (Folha, 7/11) de domingo, a respeito das atrocidades que Congresso e ruralistas preparam contra as leis ambientais, o que inclui a anistia para quem barbarizou áreas de preservação permanente, um tema tocado de passagem na coluna deste blogueiro também no domingo. Assinante lê mais aqui a coluna de Marcelo, craque do jornalismo de ciência e ambiente no Brasil.
Trechos:
"Idiotia é uma forma de retardo grave. Com alguma licença, o termo pode ser aplicado à mais recente manobra do Ministério da Agricultura, em conluio com a Frente Parlamentar da Agropecuária (vulgo bancada ruralista do Congresso Nacional), para desfigurar o Código Florestal. Por qualquer ângulo que se considere, ela é atrasada e retrógrada.
...
Propõe-se ali, por exemplo, uma anistia para todas as áreas de preservação permanente (APPs, coisas como margens de corpos d'água e topos de morro) ocupadas irregularmente antes de 31 de julho de 2007. Em outras palavras, a velha política brasileira de premiar quem descumpre a lei. Há mais, porém. A redução da reserva legal a até 50% (floresta amazônica) e até 20% (áreas de cerrado na Amazônia) reviveria à sombra do zoneamento ecológico-econômico."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h35
Anistias: me engana que eu gosto
Na coluna de domingo (7/12) na Folha trato do surto de anistias. Governo e Congresso distribuem ou pretendem distribuir favores fiscais e absolvem crimes à matroca. Assinante lê a íntegra do texto aqui.
Trecho:
"A reforma tributária subiu no telhado, entre outros motivos, porque o deputado federal que redigia seu texto tratou o projeto como se negociasse contrabandos na rabeira de uma medida provisória. Contrabando em medida provisória é atividade comum no Congresso, pois os parlamentares são na maioria relapsos, não desenvolvem nem aprovam seus projetos, toleram a torrente de MPs e, por fim, pegam carona nos decretos presidenciais para enfiar suas mumunhas e lobbies. Sandro Mabel (PR-GO), esse deputado, distribuiu o favor de chancelar reduções de impostos malandras que Estados dão a empresas para atraí-las para seu território -a guerra fiscal.
...
Há um surto de anistia na praça. O governo Lula cozinha a idéia estrambótica de anistiar os crimes envolvidos na remessa por baixo do pano de dinheiro para o exterior (quer que o dinheiro volte ao país). Lula também deu o vexame recente de tentar anistiar, via MP, entidades filantrópicas que apenas filavam o dinheiro que deixam de recolher para a Previdência sem oferecer serviço social algum, para nem mencionar as fraudes. Na quarta, a Câmara anistiou 62 municípios criados de modo inconstitucional. Já não bastam os Estados que inexistem, sem renda para se sustentar, ou a praga de criação de municípios fantasmas, apenas para que os capiaus-líderes do lugar abocanhem fundos federais.
O Ministério da Agricultura e, claro, a bancada ruralista outra vez querem anistiar desmatadores, que plantaram em área de preservação. É mais um projeto dos tantos que desmoralizam qualquer lei, autoridade ou fiscal de reservas ambientais. E que incentiva o "ruralista" a desmatar, à espera da próxima anistia.
A confusão permanente no crédito agrícola, a raridade de seguros rurais e do mercado de capital organizado para o campo criaram a figura do anistiado profissional, que já dá como certo que não pagará sua dívida. Em vez de projetos de longo prazo para dar cabo dessa precariedade que gera promiscuidade e incentiva o calote, a liberal senadora Kátia Abreu (DEM-TO), que preside a Confederação da Agricultura e Pecuária, quer que o setor encoste ainda mais nas liberalidades estatais."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h04
Nesta semana, as autoridades chinesas deram broncas vexaminosas no desmoralizado secretário do Tesouro dos EUA, Hank Paulson, que visitava o país para conversar, como sempre, sobre "desequilíbrios", iuane desvalorizado e fechar uns acordos de fachada. Nesta mesma semana, a China deixou sua moeda desvalorizar como não o fazia faz uns três anos. Não foi grande coisa, ainda mais para quem assiste à surra do real. Mas foi alguma coisa. Um iuane mais desvalorizado facilita exportações chinesas, mas uma desvalorização teria de ser grande para compensar o efeito da queda do comércio global. Desvalorizações grandes têm efeitos colaterais mesmo na China, onde o controle sobre a moeda e a economia é, como se sabe, grande.
Uma desvalorização forte da moeda chinesa levaria países das vizinhanças a fazer o mesmo, pois quase em nenhuma parte do planeta a preocupação maior é inflação. Se a Ásia, fora Japão, fizer tal coisa, pode haver reações no resto do mundo. Parecia uma ameaça remota e decrépita, essa possibilidade de políticas tipo "dane-se o vizinho". Mas deixou de sê-lo.
Stephen Jen, do Morgan Stanley, soltou hoje uma análise em que "estima" desvalorização do iuane de 5% a 10% nos próximos meses. Mas não acredita que se trate de uma política desesperada do tipo "salve-se a China, dane-se o resto". Jen avalia que, dada a queda provável do saldo comercial chinês, esse deslizamento suave do iuane apenas refletiria condições de mercado.
A ver. Está uma confusão cambial dos diabos no mundo. Apenas a ameaça de guerra de desvalorizações só vai aumentar o tumulto.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h59
Em três meses, a economia dos Estados Unidos perdeu 1,25 milhão de empregos. Em novembro apenas foram 533 mil. O Nobel e colunista do "New York Times escrevia ontem (4/11) em seu blog: "A economia declina rápido. Vamos ver o que relatório sobre emprego diz amanhã [hoje]. Mas nós bem podemos estar perdendo 450/500 mil empregos por mês". Pois é, foi pior do que Krugman imaginava.
A taxa de desemprego é a maior desde 1993: 6,7%. Os salários reais declinam ou estão estagnados (a depender de quem se inclui na medida, se apenas trabalhadores, excluídas as funções de supervisão, e do deflator. O gráfico de salário real abaixo, empregou-se o salário médio por hora dos trabalhadores, deflacionado pelo CPI cheio). O gráfico no pé do post mostra o saldo de empregos criados ou perdidos por mês, atualizado segundo o balanço de ontem do Bureau of Labour Statistics, a estatística oficial do mercado de trabalho americano (em centenas de milhares, excluídos trabalhadores rurais).


Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h18
Mais ameaças ao real
A coluna de hoje (5/12) na Folha trata da desgraça de hoje no câmbio, observando os efeitos que as perdas nos "hedge funds" ainda podem ter no preço dos ativos brasileiros. Assinante pode ler mais aqui.
O BC hoje voltou com alguma vontade ao mercado de câmbio, que estava algo histérico e girando muito dinheiro (mais que o triplo de ontem, no interbancário). O dólar chegou a R$ 2,62, recuou para R$ 2,48 no fechamento, mas acaba a semana em alta de 7%. A desvalorização é violenta e não deve parar tão cedo, como avalia a coluna. Pior, o BC não tem muito o que fazer, por ele mesmo.
Quando dessa desvalorização do real vai passar para a inflação será o grande assunto daqui em diante, e talvez não tenhamos pista de resposta boa até o final do primeiro trimestre do ano que vem.
Trecho:
"Os ativos geridos por "hedge funds" eram de US$ 1,56 trilhão no final de outubro, segundo estimativa periódica da empresa Hedge Fund Research. Naquele mês, haviam perdido cerca de US$ 40 bilhões devido a resgates de clientes e outros US$ 115 bilhões na operação do negócio. O pessoal do Morgan Stanley que analisa tais fundos estima que o total dos ativos pode cair 25% até março de 2009. Um "hedge fund" é, grosso modo, apenas um fundo de capital privado que oferece a "investidores qualificados" (ricos) aplicações em qualquer tipo e combinação de ativos financeiros, em estratégias complicadas. Compram dívida de empresas, ações, moedas, índices de commodities ou de qualquer ativo, seguros de dívida etc. Quando têm de honrar saques, quando os preços nos mercados mudam, quando fazem caixa ou devem depositar mais garantias para apostas que fizeram, tais fundos liquidam parte de seus ativos. Nestes dias de caos e iliquidez, liquidar ativos significa provocar baixas ainda maiores nos preços, com o que o ciclo de liquidações e desalavancagem continua. Tais liquidações não são levadas a cabo só por "hedge funds", é claro. Mas devido a seu tamanho influenciam todos os mercados. A intensa variação de preços que isso provoca influencia também a atitude dos investidores em relação ao risco (fogem dele). Essa cadeia de vendas logo bate no real e nos ativos denominados em real, como o Ibovespa. Segundo a mesma Hedge Fund Research, as maiores perdas de desempenho no ano ocorreram em fundos de mercados emergentes e de commodities, o que nos afeta especialmente."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h11
A "Economist" que saiu hoje dá a história da condenação de Daniel Dantas, "Fall of an oportunist", com o subtítulo "Justiça para um financista controverso". Nenhuma novidade na reportagem, apenas um resumo do que sai há anos nos jornais do país. A graça maior está no início do texto: "Muitos banqueiros podem estar preocupados com a hipótese de que algum produto extravagante, imaginado nos anos da bolha, possa levá-los a uma visita à polícia. Daniel Dantas, um financista que lucrou operando no lugar opaco onde governo e empresas se encontram no Brasil, tem muitas vezes aberto a porta para a polícia na última década". E o repórter diz que as operações da Polícia Federal têm nome de "thriller de aeroporto".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h16
O endividamento do governo dos Estados Unidos vai sugar os recursos do mercado mundial e vai dificultar o financiamento das economias latino-americanas em 2009. É o que diz um grupo de economistas latino-americanos reunidos num "Comitê Latino Americano de Assuntos Financeiros", que não dirige nada nem é uma instituição, mas, parece, um grupo de economistas que se reúne regularmente.
Entre os mais proeminentes do grupo estão Guillermo Calvo, de Columbia, Roque Fernandez, ex-ministro da economia da Argentina, Ricardo Haussman, venezuelano professor de Harvard, e Roberto Rigobon, venezuelano professor do MIT. De brasileiros, há Claudio Contador, ex-professor da UFRJ, e Pedro Carvalho de Melo, da Esalq-USP e da FGV.
O "Financial Times" dá um breve relato do último encontro e manifesto do grupo, que saiu hoje e ainda não está no site. É grátis e pode se ler aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h41
O Banco Central Europeu cortou hoje (4/12) os juros como jamais havia feito em seus quase 10 anos de existência: de 3,25% para 2,5%. Jean-Claude Trichet, o francês que preside o BCE, disse que a economia européia vai encolher 0,5% em 2009 e que inflação vai cair de 3,3% em 2008 para algo em torno de 1,5% em 2009.
Em setembro, Trichet previa expansão de 1,2% para o PIB europeu. Em junho, ainda dizia que aumentaria juros. Em agosto, ainda dizia que a inflação era problema. Sim, esse é o banco central mais rigoroso e mais previdente do mundo. Mas não prevê coisa alguma, suas "expectativas" são furadas, como tantas outras. Sim, decerto houve uma catástrofe em setembro, que balançou todo coreto. Mas a empáfia dessa gente, a cascata ideológica metida a besta, não tem limites.
Mais juros em queda:
O Banco da Inglaterra cortou ontem sua taxa "básica" de 3% para 2%, uma das menores de sua história mais que tricentenária.
O Banco da Suécia: de 3,75% para 2%. Da Nova Zelândia: de 6,5% para 5%. Dinamarca: de 5% para 4,25%. Indonésia: de 9,5% para 9,25%. A Austrália cortara os seus anteontem, de 5,25% para 4,25%.
No final de novembro, a China derrubou sua taxa para o menor nível em 11 anos. A Índia cortou sua taxa de 9% para 7,5% desde outubro. Desde setembro, a Coréia cortou de 5,25% para 4%.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h43
É o processo que a Suprema Corte dos Estados Unidos vai julgar na sexta-feira, segundo o "Chicago Tribune". Um cidadão acusa Barack Obama de não ser americano nato (com o que não poderia ser presidente) e duvida de sua certidão de nascimento havaiana. Segundo o "Tribune", há muitos outros processos dessa espécie contra Obama: o acusam de não ser americano nato ou de ter adotado a cidadania indonésia. Um outro processo é movido por Alan Keyes, que Obama derrotou em Illinois, na eleição para o Senado, em 2004. Keyes contesta os resultados da eleição.
Paul Krugman escreveu outro dia que os EUA entraram em processo de bananização. Pois é.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h12
Sem pânico ainda, por favor
A coluna de hoje (4/12) na Folha trata da saída de dólares do país em novembro, em termos nominais a maior desde janeiro de 1999. A coluna situa o saldo negativo em seu contexto e procura mostrar que a "fuga" de dólares nem foi tão ruim como a de 1999 nem a política cambial é a mesma (tínhamos câmbio quase-fixo durante a corrida que levou à queda do real forte, em janeiro daquele ano. Assinante lê a coluna aqui.
Trecho:
"Foi horrível, "recorde" e "alarmante" a saída de dólares do Brasil em novembro? Foi horrível. "Recorde" já é bem relativo, e o "alarmante" fica ao gosto e ao ânimo do freguês -em economia, um mês apenas em geral não faz história, tal qual andorinhas e o verão. A diferença entre a quantidade de dólares que saíram e entraram do país foi negativa em uns US$ 7,2 bilhões no mês passado. Tal conta não ficava no vermelho, em tal monta, desde janeiro de 1999.
Naquele mês, como se sabe, ia então à breca o regime de câmbio quase-fixo do primeiro governo FHC e o real forte fraquejava. O Brasil quebrara pouco antes, indo ao FMI. O saldo cambial ficara negativo em US$ 8,6 bilhões naquele janeiro. Mas a economia brasileira e suas receitas externas eram também menores.
Em janeiro de 1999, a receita de exportações era de US$ 50 bilhões (acumulada em 12 meses). Agora, é de US$ 198 bilhões -o quádruplo. O saldo comercial (diferença entre exportações e importações) era negativo em US$ 6,6 bilhões; agora é positivo em US$ 26 bilhões (também em 12 meses). Para piorar o balanço para 1999, o PIB era menor. Em termos nominais, em dólares e reais da época, equivalia a pouco menos de US$ 600 bilhões. Agora, deve estar em torno de US$ 1,4 trilhão. A receita da conta corrente era de US$ 64 bilhões. Agora, é de US$ 245 bilhões (em 12 meses)."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h11
"Neste momento em que temos bases de garantia de estabilização {...}, temos que dizer o seguinte: precisamos economizar o máximo que a gente puder em custeio e gastar o máximo que a gente puder em investimentos públicas, em obras públicas", disse ontem (2 de dezembro) Lula a governadores do Nordeste.
Certíssimo. Quer dizer então que ele vai vetar os aumentos de gastos aprovados no Congresso (com salários, por exemplo) e outros que ele combinou "com as bases", os quais a oposição malandra e cara-de-pau aprova na maciota (para depois criticar a despesa extra, como o fazem os "lideres" da chacrinha tucana e pefelista no Senado)? Ou quem "vamos" cortar os gastos de custeio?
Lula talvez tenha começado a viver a síndrome dos presidentes que falam de seu governo como uma entidade estranha. Uma certa época, FHC começou a se comportar assim, mas o fazia com aquele ar de visita à copa. Lula o faz como se estivesse num palanque, candidato à eleição.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h17
Sinal vermelho para o PIB e demissões
A coluna de hoje (3/12) na Folha discute o desempenho da indústria em outubro (medido pelo IBGE, caiu 1,7% em relação a setembro), os indicadores antecedentes de novembro (a indústria deve cair de novo) e os primeiros sinais e avaliações de que o PIB no último trimestre deste ano deve encolher: deve entrar no vermelho. Assinante lê a íntegra da coluna aqui. A Vale anunciou hoje 1.500 demissões, mais férias coletivas. As montadoras brasileiras vão colocar este mês 47 mil trabalhadores em férias coletivas (42% da força de trabalho). A LG vai demitir 500, e 2.200 vão para férias coletivas. A Volvo demitiu 430. Bancos pequenos já demitiram 890 pessoas. São notícias que chegam de modo mais ou menos aleatório. Não sabemos de grandes contratações, mas também não temos informação de eventuais contratações dispersas, "picadas". Sem dados agregados, é difícil avaliar o que se passa com o mercado de trabalho. Mas os empregos que estão sendo eliminados são postos em boas empresas, formalizados, com salário em geral muito melhor que o da média nacional. Isso não é nada bom. Leitores que eventualmente tenham outras notícias a respeito (boas ou más), por favor, mandem mensagens.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h14
Os posts mais recentes (4/12):
- Pacotão americano: quanto já custou?
- Os netos pagam a conta
- Mais desastre nas montadoras dos EUA;
- Os cadáveres no jardim do tucanato;
- Indústria balança, cai e deve cair de novo;
- Crise no Brasil: melhor não mexer muito;
- Recessão nos EUA.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h22
O blogueiro de economia Barry Ritholz fez uma conta sobre o tamanho dos pacotes de ajuda americanos: deu US$ 8,5 trilhões. A quem interessar possa, ele montou uma planilha detalhada, que no entanto não cabe aqui. Vale visitar o blog de Barry, o "The Big Picture". O post, com a planilha, é "Calculating the Total Bailout Costs". A planilha aparece reduzida e borrada, mas basta clicar na imagem para ela aparecer em formato legível.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h08

"Gostaríamos de agradecer aos nossos netos, sem [a ajuda] dos quais tais planos de socorro [a bancos] não teria sido possível". O título do discurso diz "Dívida Pública".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h02
Novembro foi outro desastre para as vendas das montadoras nos Estados Unidos. A venda de carros (passeio, vans e SUVs, os jipões) caiu 37% em relação ao novembro de 2007. Os SUV venderam 40% menos. Pela ordem de empresas que mais vendem, a queda foi de : GM, 41%; Toyota, 34%; Ford, 31%; Chrysler, 47%; Honda, 32%. A Volvo, que a Ford quer vender, perdeu 46%.
GM, Ford e Chrysler foram pela segunda vez este mês ao Congresso dos EUA, pedir dinheiro _crédito. Querem US$ 34 bilhões.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h42
"É ensurdecedor o silêncio do tucanato diante do processo de cassação do mandato do governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima", observou Elio Gaspari na sua coluna de domingo na Folha (escreveu aliás duas notas sobre o tucanato. Assinante lê aqui as notas, entre outras, "Um veneno tucano para a Petrobras" e "Exemplo tucano", esta sobre Cunha Lima). Nem o defenderam nem comentaram a decisão da Justiça mesmo quando Cunha Lima anarquizou as finanças do Estado, escreveu Gaspari.
O silêncio tucano sobre seus passivos cresce. Talvez a dívida venha a ser cobrada na eleição de 2010. O tucanato continua a enterrar seus escândalos no jardim ("Aquele cadáver que você plantou no seu jardim, no ano passado, já começou a brotar? Vai dar flores este ano?", para enfiar T. S. Eliot no lamaçal. "Mantenha longe esse amigo do homem, o Cão, ou de novo ele vai desenterrar o corpo com suas unhas", escreveu o poeta anglo-americano).
O senador Eduardo Azeredo, tucano de Minas, entrou no círculo do inferno de Marcos Valério, um dos autores intelectuais do mensalão, roteiro adaptado e ampliado do caixa dois em Minas. Teotônio Vilela governa as caóticas Alagoas, caos que vem de muito tempo, mas "Teo" é amigão do notório Renan Calheiros, que tem parte na muvuca. Agora, tem as contas de Cunha Lima para justificar no cartório. E nada. Para piorar, faz chacrinha contra o aumento de gastos do governo Lula mas aprova na maciota a despesa, no Congresso, muita vez em votos de líderes. E ainda não sabemos de seu programa para 2010 (sim, programa não deve ser aquele papelório genérico que costuma aparecer dois meses antes da eleição, sendo por vezes desmentido entre a publicação e a votação, como o fizeram Geraldo Alckmin em 2006 e Lula em 2002).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h58
Os dados de ontem sobre a indústria em outubro foram bem ruins. Os industriais estão mais assustados que os consumidores. Mas os consumidores que se dispunham a comprar bens de maior valor já avisaram também que estão levando sustos.
Lula faz campanha para que as pessoas não deixem de comprar. Quer aumentar a confiança do consumidor. O consumidor, que no geral ainda não perdeu renda, vê as notícias de crise global na TV, as primeiras levas de demissões e os juros em alta nas lojas de TV, carros, motos, geladeiras etc. De resto, passou a recorrer mais ao cheque especial e ao financiamento via cartão de crédito, mostram estatísticas do Banco Central _isto é, há mais gente na lona.
Em parte, Lula está certo em não querer deixar a peteca do ânimo cair. Mas os consumidores sabem cuidar da vida, e a vida ficou mais dura. Para que não fique mais, seria melhor o governo fazer mais do que falar: conter gasto corrente e implementar os investimentos lerdos do PAC. Contendo gastos, fica mais fácil baixar juros. No Brasil, há muito mais espaço para cortar juros do que incentivar a economia via gasto público, o que seria um tiro no pé. Mas, mesmo assim, não há muito espaço para mexer muito, não.
Mas a respeito na coluna de amanhã, no caderno Dinheiro da Folha.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h55
Um leitor constante deste blog, Ramiro, pergunta se o governo federal deve adotar medidas de ‘incentivo fiscal‘ a fim de conter a crise. Ramiro diz que o Brasil terá de fazê-lo, embora a despesa pública esteja pressionada por aumentos de gasto com custeio (com salários, por exemplo). A combinação das duas coisas, diz Ramiro, pode resultar em mais déficit.
Este blogueiro não é economista, mas vá lá. Acredito que os governos (federal, estaduais e municipais) têm de alterar, para melhor, a composição do gasto: menos custeio, mais investimento, essa obviedade que tanta gente mais já observou. Deve fazê-lo com crise ou sem crise. Isto posto:
1) Não acredito que o governo deva, por ora, tomar medidas fortes para manter o crescimento _isto é, gastar mais. Primeiro, porque não sabemos (nem sabemos estimar bem) o tamanho da redução do crescimento que virá. Não sabemos coisas como o tamanho dos danos ao comércio exterior (o que determina nossa capacidade de importar e complementar a oferta para consumo e investimento). Não sabemos o que será do câmbio. Não sabemos como será a arrecadação de impostos em 2010. Portanto, não sabemos o que será dos juros. Logo, tomar medidas fortes (como gasto público ainda maior) pode resultar em tiro no pé: podemos ter um crescimento forçado em 2009, fora do esquadro mundial, o que pode redundar em mais inflação e/ou déficit em contas externas, o que pode dificultar a retomada em 2010;
2) Como seria tal "incentivo fiscal"? O governo está com dificuldade de tocar no prazo as obras do PAC. Para que o "incentivo" funcione, a despesa tem de ser executada rapidamente. Pode-se imaginar que a pressão para que a despesa seja feita de pronto deva redundar em ainda maior desperdício, projetos mal feitos, licitações arranjadas etc. Falta capacidade operacional no Estado brasileiro (da União aos municípios). Faltam bons projetos para investimento público _o próprio governo federal o reconhece). Logo, desconfio muito também da eficácia do incentivo;
3) É possível tomar algumas medidas assemelhadas, mas cujo efeito também não seria imediato: concessões de serviços públicos. É possível que ainda exista no mundo e/ou no Brasil algum capital disponível para investimentos em aeroportos, portos, estradas. Privatizar tais serviços poderia atrair algum investimento. Mas deve demorar, também _o governo Lula enrolou-se em confusão administrativa e ideológica a respeito dos projetos de concessão, de resto. Tal alternativa teria a vantagem, se bem feita, de não exigir gasto público, de melhorar a infra-estrutura, de tornar o país mais produtivo e tirar o governo de tarefas em que ele não é necessário. Não, não sou contra ação do Estado na economia. Só acho que o Estado não precisa gerenciar aeroporto, porto, estrada, fábrica de aço ou serviço de telefone. Precisamos do Estado em pesquisa de ponta, em tecnologia, em parcerias para criar e incentivar novos setores econômicos etc;
4) O governo federal não vai ser capaz de cortar muito gasto corrente. Primeiro, porque não gosta da idéia. Segundo, porque o orçamento é engessado, todo vinculado. Terceiro, porque tem compromissos políticos que o levam a gastar. Quarto, porque não tem muita capacidade operacional para conter gastos de modo eficaz. Logo, se tiver de cortar alguma coisa, em caso extremo, fará mais ou menos o que quase sempre se faz no Brasil, sob FHC ou Lula: cortar investimento. Em vez de aumentar a eficiência do gasto, vai diminuí-la;
5) Tratamos muito do governo federal, mas os governos estaduais e municipais, além das estatais, pesam na conta do balanço do setor público. Em geral, as medidas de contenção fiscal mais imediatas são determinadas pelas ações do governo federal, pois governos regionais são inertes, nesse aspecto (no curto prazo, ao menos). Nesse cenário, pode ocorrer o seguinte: o governo federal não corta custeio, tenta gastar mais e mal em investimento, os Estados e municípios continuam na mesma. O resultado pode ser apenas mais déficit, sem que a economia ganhe algo com isso.
Enfim, dá para fazer alguma coisa. Rever gastos anunciados para 2009 (e 2010 etc). Conter todo aumento de gasto corrente que não cresça de modo "vegetativo". Em seguida, dada tal contenção de despesa, reduzir juros. Melhorar a administração das obras de infra-estrutura. Tentar resolver alguns gargalos de crédito. No curto prazo, não há muito mais o que fazer. O governo Lula quase não se dedicou a mudanças institucionais. Agora, não há muito mais tempo para fazê-lo. Se mexer demais, pode dar besteira.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h29
Recessão nos EUA
A coluna de hoje (4/11) na Folha trata da recessão americana _na verdade, trata mais das perspectivas de piora da crise por lá, pois o índice mais relevante do setor privado, o ISM, caiu para o nível mais baixo desde 1982, quando terminava a última recessão feia nos EUA (as de 1991 e 2002 foram até bem fraquinhas, em comparação). O ISM recolhe a opinião dos executivos industriais encarregados de encomendas nas fábricas. É um indicador antecedente importante, o mais importante produzido pelo setor privado nos EUA. A coluna trata ainda dos limites da política monetária nos EUA de agora. Assinante lê a coluna inteira aqui.
Trecho:
"Mas o número mais relevante de ontem foi um indicador de que a crise talvez dure outro ano. Trata-se do ISM industrial, número que dá a tendência de produção nas fábricas, obtido a partir de opiniões de executivos encarregados de compras. É o mais importante indicador produzido pelo setor privado nos EUA. O Índice dos Gerentes de Compra (ISM), número síntese da associação industrial, foi a 36,2% em novembro, o pior desde 1982, final de recessão feia. Na pesquisa, o executivo responde se as compras da empresa estão em alta, na mesma ou em baixa (respondem ainda sobre emprego, estoques etc.: o ISM é uma síntese). Para chegar ao índice, o ISM soma as respostas "em alta" com metade das respostas "na mesma". Se todo mundo (100%) responder "na mesma", o índice dá pois, 50%: sem mudança. Menos de 50% é retração nas fábricas. Menos de 41,1% é retração na economia toda. O ISM também é um bom indicador antecedente: do que vai acontecer adiante na economia, o que parece péssimo. O ISM do emprego é o menor desde a recessão de 1991."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h27
Amir Khair estima que o governo federal ("governo central", governo e BC) chegue ao déficit zero neste ano. O déficit do setor público restante seria de responsabilidade de Estados e municípios.
Abaixo, segue uma pequena história das contas do setor público desde o Plano Real e a estimativa de Khair, engenheiro, consultor de finanças públicas, secretário das Finanças da Prefeitura de São Paulo no governo de Luiza Erundina, então no PT (1988-92).
Khair observa que a grande desvalorização do real entre 199 e 2002 ajudava a inflar a dívida pública (externa e a dívida interna, então muito dolarizada). Desta vez, ao menor por ora, a desvalorização do real ajudou a baixar a dívida pública, pois o governo federal é credor em dólares.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h34
Quem fez o discurso que segue abaixo?
"Chávez não vai embora. Chávez fica. Autorizo o Partido Socialista Unido da Venezuela, o povo venezuelano, que comecem o debate e as ações para conseguir a emenda constitucional e a reeleição do presidente da República. Tenho a certeza de que agora vamos conseguir."

Sim, foi o próprio Hugo Chávez. Chávez fala de si na terceira pessoa, em discurso em rádio e TV. Magnânimo, "autoriza" o povo venezuelano a defender seu (dele) enésimo mandato _o atual vai até 2013 e Chávez foi eleito pela primeira vez em 1998.
Está ficando mais doido. Falta pouco para decretar que a língua bolivariana será o suíço (sic) e que todos deverão vestir cuecas sobre as calças, como o revolucionário recém-vitorioso do país bananeiro de "Bananas", de Woody Allen.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h59
O maior banco do mundo
"O maior banco do mundo" é agora o Fed. O Banco Central dos Estados Unidos é o maior fornecedor de crédito _de crédito para operações cotidianas e elementares para finanças e empresas americanas. Era o tema da coluna de domingo (30/11), que o assinante pode ler a íntegra aqui.
Afora auxílios a instituições financeiras e compras de papéis podres de bancos, o Fed agora tem programas de quase US$ 1,3 trilhão para a compra títulos lastreados em empréstimos para casas, carros, pagamento da faculdade, do cartão de crédito, e de títulos lançados por empresas ("commercial papers", para financiar giro, operações). Isto é, o Fed compra tais papéis ("recebíveis" ou dívida securitizada) e assim renova o caixa de instituições financeiras, as quais, em tese, assim teriam mais condições e segurança de fazer novos empréstimos. O Fed tornou-se o grande intermediador do mercado de securitização nos Estados Unidos, núcleo do sistema financeiro americano, ora em coma.
Trecho de "O maior banco do mundo":
"O Fed vai comprar até US$ 540 bilhões de títulos de posse de fundos de investimento. Esses fundos obtêm seus rendimentos, e assim remuneram os aplicadores, de papéis comprados de bancos e empresas. São fonte enorme de capital de giro. O Fed já tem na conta US$ 295 bilhões de "commercial papers" (notas promissórias, crédito de curto prazo), os papéis que financiam operações de empresas.Trata-se de 18% do total do valor desse tipo de papéis no mercado. O Fed vai comprar US$ 200 bilhões de "recebíveis" de empréstimos para estudantes, para a compra de carros e para cartão de crédito. Isto é, vai comprar títulos lastreados nos pagamentos dessas dívidas. Enfim, vai rolar o crédito parado ou encarecido nesses setores. O Fed vai ainda comprar até US$ 500 bilhões de títulos lastreados em pagamentos de prestações imobiliárias, hipotecas compradas e securitizadas pelas empresas privadas mas "paraestatais" Fannie Mae, Freddy Mac e Ginnie Mae. O valor no carrinho de compras do Fed deve equivaler ao do PIB brasileiro. Isso não significa que o BC dos EUA está dando dinheiro. Significa que o mercado de securitização, o que faz o crédito rodar nos EUA, está ainda em coma."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h52
Cozinha Liberal: chefs, turistas, cagaitas e tropeiros
Um cozinheiro que ajudou a ensinar os brasileiros a comer foi o franco-carioca Claude Troigros _ensinou a brasileiros ricos, claro. Explicou à tigrada que era bom usar produtos da terra, locais, ois são mais frescos, adaptados ao ambiente do lugar, do "terroir", podem ser comidos na estação. Troigros e alguns outros, brasileiros inclusive, ajudaram a explicar a gente bem de vida, porém grossa e jeca, que não era "feio" comer coisas da terra, frutas daqui, pratos daqui, farinha, angu, mandioquinha (batata-baroa) etc. Sim, foi preciso explicar tal coisa.
Agora, porém, o pêndulo foi até o outro lado. Muita gente fala e gosta de cozinha, mais gente sabe o valor de produtos da terra bem cultivados (ao menos da boca para fora). Muito grande cozinheiro viaja por aqui. Um programa típico de chef-turista no Brasil é conhecer " frutas e produtos brasileiros", como no Rio de antes se levava escritor estrangeiro para conhecer a Mangueira e o samba do morro, ou coisa assim, quando ainda se podia subir o morro sem pedir autorização a bandido.
Agora mesmo, em novembro, teve o show da fruta para chef estrangeiro _vários grandes cozinheiros estiveram aqui para um evento e foram à essa nova modalidade de macumba para turista. Sim, o chão do Brasil dá uma diversidade enorme de frutas, o que é uma maravilha. Mas o que é uma "fruta brasileira", o que são "ingredientes brasileiros"? Cozinha "brasileira" leva açaí, cagaita, abiu, cajá e pequi? Tucupi? Tacacá? Brasileiros em geral comem disso? Cultivam tais ingredientes? Têm como cultivá-los? A moda dita gastronômica agora vive seu período romântico, de indigenismo culinário, para fazer uma comparação irônica com a literatura de Iracemas, Peris etc.

A cagaita (Eugenina dysenterica).
Talvez a primeira vítima dessas modas tenha sido a da mandioquinha (batata baroa). De desprezada para as mesas mais populares passou a aparecer em qualquer prato, em geral como purê. Mas faz tempo isso. Depois veio a cozinha "fusion", e alguns ingredientes "brasileiros" mais esquisitos ajudaram a variar a composição de pratos ou peças tradicionais, tal como chefs americanos e europeus misturam ingredientes "asiáticos" a ingredientes e pratos de sua cozinha.
Frutas exóticas, esquecidas e macumba pra turista
Brasileiros mais antigos e/ou com memórias rurais mais vívidas comiam essas frutas hoje tidas como exóticas, pelo menos gente que conheci e/ou li do Nordeste, Minas, São Paulo, Rio. Na urbanização, houve uma troca de guarda e de memórias, e desprezo pelo "mato", pelos caipiras, por gente do interior, seus frutos e comidas (mais no Sul-Sudeste, São Paulo em particular. Nas cidades mineiras e nordestinas maiores encontramos muitas das maravilhas das diferentes cozinhas do sertão). A mãe do blogueiro (mineiro-carioca) costumava contar que comia abiu, jambo, sapoti, mangaba, cajá etc, nem me lembro de quantas, algumas das quais continuo sem conhecer.
No entanto, vários ingredientes da macumba para turista não fazem parte da identidade cultural, culinária, de muito brasileiro, é óbvio, o que não quer dizer que não queiramos comê-los, é claro. Mas estamos sempre à beira do ligeiro ridículo de passar de uma moda colonizada a outra. Ridículo "ligeiro", apenas, porque o assunto não é lá tão sério, certo?
Vivemos o tempo da pavorosa "cozinha internacional". Era uma seleção de pratos "globais", constante de qualquer cardápio e preparados em geral como gororoba, com receitas erradas, com nomes errados e ingrediantes "fake", típico até anos 70 e início dos 80, antes da nossa "globalização". Agora corremos o risco da cozinha transamazônica.
No entanto, muitos de nós em São Paulo comemos um sarapatel de mistura de cozinhas _italianas, árabes, japonesa, nordestinas, chinesas, para citar as mais comuns e de presença mais antiga. Comemos as aindas sobreviventes cozinhas caipiras (são várias) e tropeira, patrimônio cultural ameaçado. Não temos os ingredientes nem os hábitos de amazonenses ou paraenses, que têm perto de casa aquela cornucópia sensacional: a floresta e os rios. Misturar seus ingredientes (ou os de Goiás, Maranhão ou Parná) em novos pratos, desde que os ingredientes não tenham viajado mal, é ótimo. Mas brasileiros não somos carmens mirandas com turbantes de frutas amazônicas, do cerrado ou outras. Somos muito diferentes. E daí?
Daí que, em partes de São Paulo, raviolis são mais pratos da terra do que aqueles que levam tucupi. E estamos perdendo a sabedoria de escolher os ingredientes e de cozinhar feijão-tropeiro, suã de porco, virado, broa de milho com erva-doce, biscoitos do sertão ou o doce de casca de laranja-da-terra em calda, como o da tia Irma. Ou desconhecemos outras tradições regionais próximas e maravilhas de comer como um barreado paranaense, ou um cozido luso-carioca, ou um angu de rico (mingau grosso de fubá com queijo de minas curado e ralado, primo da polenta com parmesão, mas mineiro da gema).
Receitas
Para dar um gosto ao comentário, nos posts abaixo seguem uma receita de feijão-de-tropeiro (com torresmo, sim) e uma de angu de rico (angu com queijo). Por favor, leitores, em especial mineiros, corrijam eventuais heresias e erros.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h18
Cozinha Liberal: feijão-de-tropeiro
A primeira receita do "Cozinha Liberal" desta semana é de feijão de tropeiro, mais do jeito que se faz em Minas (há feijão de tropeiro também no Rio e em São Paulo).
A receita dá para 6 a 8 pessoas. Para fazer menos, basta cortar os ingredientes pela metade

Foto: Folha Imagem
Para cozinhar o feijão
1 kg de feijão preto (que ficou de molho de 6 a 8 horas)
1 couro do toucinho para o torresmo
1 dente de alho inteiro e sem casca
½ cebola pequena
2 folhas de louro
ramos de salsa
óleo (se for adepto ou quiser experimentar, banha de porco)
Retire a pele do toucinho, sem deixar gordura na pele: isso é o "couro" do toucinho (dá gosto e consistência ao feijão). Lave. Descasque o alho. Corte a cebola em cubos bem pequenos ou fatias muito finas. Separe uma meia dúzia de ramos de salsa.
Ponha um colher de sobremesa de óleo na panela onde vai cozinhar o feijão. Não use panela de pressão: o feijão deste prato deve ficar inteiro e firme. Em fogo médio, refogue a cebola até que ela fique amarelinha, dourada, mexendo sempre.
Junte então o feijão escorrido, metade do couro do toucinho, as folhas de louro, os ramos de salsa e o dente de alho. Misture tudo muito bem. Cubra o feijão de água _o volume de água deve ser o equivalente a três ou quatro vezes o do feijão (isto é, para uma xícara de feijão, use de três a quatro xícaras d´água, e assim por diante). Junte uma colher de chá de sal. Cozinhe o feijão em fogo médio. Por quanto tempo? Depende do fogo, da panela e do feijão. Prove: tem de ficar macio, mas firme. Prove e corrija o sal.
Escorra o feijão e retire o couro e os vegetais. Reserve o feijão e guarde o caldo para outro uso.
Para o torresmo
1 kg de toucinho (peça toucinho para torresmo ao açougueiro e prefira peças que tenham tanto boas faixas de gordura e de carne em camadas alternadas)
1 colher de sobremesa de cachaça
1 dente de alho socado
1 colher de chá de sal
1 colher de café de bicarbonato de sódio
Corte o toucinho em cubos. Tempere com a cachaça, o sal, o alho e o bicarbonato. Deixe quieto uma hora.
Na panela em que vai fritar o toucinho, coloque um pouco de água, 0,5 cm, digamos, de altura). Ligue o fogo forte. Assim que ferver, deixe o fogo bem baixinho e cozinhe os torresmos até ganharem cor (branco amarelada, bem claro. É rápido). Escorra bem os torresmos numa peneira. Reserve _na própria peneira.
Quanto estiver para servir o feijão-de-tropeiro, coloque os cubos de toucinho numa panela pesada, sob fogo bem alto. Quando começar a fritar, abaixe o fogo. O toucinho frita na própria banha. Mexa de vez em quando, até ficarem dourados. Se ficarem "marrons", ficam amargos. Escorra os torresmos num papel-toalha.
Passe a gordura do torresmo numa peneira e reserve 100 ml (ou o que houver, se for menos que isso). Coloque a gordura de volta na panela, que será usada na finalização da receita.
Para terminar o prato
250 g de farinha de mandioca
1 kg de linguiça de porco
3 cebolas cortadas em rodelas muito finas
3 dentes de alho finamente fatiados ou 2 dentes socados
2 colheres de sopa de cebolinha fatiada
2 colheres de caldo de feijão
3 ovos cozidos
Ponha as linguiças e meio copo d’água (50 ml) numa panela, em fogo médio-baixo. Tampe. Cozinhe até a água secar. Cozinhe então a linguiça com a panela aberta, para dar cor. Não, não leva gordura.
Na panela com a gordura do torresmo junte a cebola fatiada, mexa bem para desmanchar as rodelas e refogue até ficar dourada, sem deixar escurecer. Junte o alho e misture bem com a cebola, mexendo por um ou dois minutos. Junte então o feijão, sem o caldo. Misture por mais cinco minutos, em fogo baixo. Junte duas colheres do caldo de feijão. Misture. Junte a farinha, misture. Junte as cebolinhas e o torresmo. Misture.
Sirva com pedaços de linguiça e fatias de ovos cozidos. O feijão-de-tropeiro também pode acompanhar outra carne (bisteca de porco) e pode ser acompanhado ainda de couve mineira.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 02h59
Cozinha Liberal: um grande angu sem caroço
A segunda receita do "Cozinha Liberal" desta semana é de angu. O que é angu? Não é polenta. Angu não é polenta, polenta não é angu. Angu é feito com farinha de milho fina _antigamente, de milho moído em moinho de pedra movido a água e, depois, peneirado (em Minas ainda se acha. Veja uma bela foto de um belo moinho aqui). Mas dá bem para usar o popular fubá mimoso industrializado. A farinha de milho para polenta é mais flocada, parecida com um cuscuz miúdo. Que eu saiba, não é fabricada no Brasil, mas há italianas para comprar em bons mercados. Se usar a farinha de um prato no preparo de outro, não vai sair grande coisa. Angu mineiro NÃO leva sal. Não leva nada a não ser água e fubá. Aqui e ali, muito raro, se encontram receitas que misturem algo mais no angu, o que parece meio herético. Este aqui é um caso herético: leva 150 g de queijo minas meia-cura, ralado (se tiver queijo da Canastra, melhor. Em São Paulo, tem no Mercadão municipal do centro e na Santa Luzia). Este angu herético leva ainda uma colher de cebola MUITO BEM PICADA e refogada. Se você quiser seguir a ortodoxia, o modo de preparo é o mesmo: basta tirar a cebola e o queijo. A receita de base é a mesma para o popularésimo angu a baiana (prato carioca, de angu com molho de miúdos de boi). Para fazer angu, use a proporção 1 x 4. Isto é, 500 g de fubá para 2 litros d’água, 200 g de fubá para 800 ml d’água etc. Para 4 a 6 porções, use 500 g de fubá e 2 l de água. Refogue a cebola num fio de óleo ou num pouquinho de manteiga (uma bolinha basta), sempre mexendo, até ficar dourada, sem chamuscar. Junte um litro e meio de água ao refogado e leve à fervura. Enquanto isso, dissolva o fubá aos poucos em duas xícaras de água FRIA (o meio litro que restou), mexendo bem (se tiver, use um batedor de ovos). Quando a água da panela ferver, junte o fubá dissolvido em água fria, aos poucos, mexendo sem parar. Se estiver meio grosso, misture mais água fervente (bem aos poucos). O angu deve ficar mais consistente que um mingau e menos consistente que uma polenta. Continue a mexer. Quando "pegar" na panela (começar a grudar), reduza o fogo ao mínimo e mexa até o angu soltar. Cozinhe mais uns 15 minutos, sempre mexendo. Prove a consistência e sabor, para ver se está pronto (deve estar). Misture então o queijo ralado, mexendo muito bem, já fora do fogo. Pegue uma vasilha onde caiba o angu, molhe com água fria, escorra (mas não seque). Derrame o angu nessa vasilha. Espere uns cinco minutos e vire o angu onde vai servi-lo. Angu pode ser misturado a qualquer coisa: com feijão, couve mineira e uma carne, era o antigo prato básico das Gerais (para quem tinha o que comer). Pode levar carnes moídas e ragus. Depois de frio e cortado em fatias, pode ser frito (eu gostava de comer angu frito e tomar café preto). Aqui se pode encontrar uma receita do pastel de angu e sua história, do pessoal de Itabirito (fotos acima, do Portal Itabirito).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 02h39
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PERFIL
Vinicius Torres Freire é colunista da Folha, onde está desde 1991. Foi Secretário de Redação do jornal, editor de Dinheiro, editor de Opinião, correspondente em Paris, editor de Ciência e editor de Educação
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