Blog do Vinicius
 

O desastre do PIB da farra financeira

Desde cedo, pelas mídias eletrônicas, a gente podia ouvir que o resultado do "PIB americano veio melhor do que o esperado" ("o que anima os investidores" e essas bobagens).

Trata-se da usual e preguiçosa comparação entre o resultado de um indicador e alguma média de estimativas de mercado, observação feita para que se tenha algo a dizer além do número seco, mas o comentário não vale grande coisa. O fato de o indicador ser melhor ou pior do que o estimado pelo mercado é um fato que tem mais importância para o mercado, não para quem perdeu emprego e empresa ou para quem quer pensar o tamanho do problema.

A média das médias das estimativas era de queda de 5,4%. O PIB americano encolheu 3,8% no quarto trimestre (anualizado).

Mas a demanda final da economia caiu desastrosos 5,12% no trimestre. O PIB cresceu devido ao "investimento" em estoques: isto é, os bens produzidos mas não vendidos, que "contribuíram" com 1,32% para o resultado final do PIB. Em suma, os números do resultado do PIB neste início do ano tendem a ser ainda piores que os do final de 2008.

O resultado que mais chamou a atenção foi a queda no investimento não-residencial (em instalações produtivas, máquinas, equipamentos e software): queda de 19,1%. O resultado só não é pior que o de três outros trimestres (nos anos de 1952, 1958 e 1975). Os dados trimestrais de investimento do Departamento de Comércio dos EUA começam em 1947.

Enfim, o PIB americano cresceu 1,3% em 2008. O resultado será revisado ainda duas vezes, em 27 de fevereiro e 26 de março.

Esperemos que a luz desça sobre Barack Obama e equipe, e que eles dêem um jeito de atenuar essa tragédia. Para o bem dos americanos comuns e de todos nós.

O fracasso do PIB dos EUA durante a farra financeira

Leitores escrevem sobre os dados do crescimento médio do PIB americano desde a década de 1930 publicados neste blog. Observei aqui que o crescimento nos anos de 2000 a 2007 só não era pior que o da década da Grande Depressão, nos anos 1930, ao contrário do que diz o mercadismo vulgar.. Alguns leitores imaginavam que o dado poderia ser melhor se considerada a evolução do PIB per capita. Mas os dados não são melhores. Vide a tabela abaixo (os dados são oficiais, do "Bureau of Economic Analysis" do Departamento de Comércio. O número que aparece associado ao ano de 2008 é a média do crescimento do PIB dos anos de 2000 a 2008).

Se a gente torturar os números, pode-se achar alguma salvação para a década de Bush. Por exemplo, a renda disponível per capita nos anos 2000 cresceu um pouco mais do que nos dez anos que vão de 1990 a 1999 (1,77% ao ano contra 1,53%). Mas só. Mesmo assim, o consumo das famílias (per capita) no período Bush também mostrou o menor crescimento, afora o dos anos 1930.

Ou seja, não tem jeito. Para o americano "médio" a farra financeira não redundou em melhora relativa do nível de renda. Para os trabalhadores, a coisa foi ainda pior. Tais resultados são um outro modo de dizer que a admirável economia americana, apesar de suas grandes potencialidades e flexibilidade, viveu de bolhas financeiras desde meados dos anos 90, com o produto sendo crescentemente apropriado pelas instituições financeiras.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h06

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"Maldito Estado, maldito mercado"

 
 

"Maldito Estado, maldito mercado"

As desconversas e empulhações em Davos são o tema da coluna de hoje (30/1) na Folha. Assinante lê a íntegra aqui.

Trechos:

"O JP Morgan ficaria bem se parássemos de falar dessa maldita estatização de bancos. Nós estamos cheios de capital", disse ontem em Davos o presidente do JPMorgan, Jamie Dimon.
Dimon pode, pois, emprestar algum para seus pares e agregados do mercado. Na quarta-feira, eles estavam animadinhos com o rumor de que Barack Obama poderia dar US$ 1 trilhão para encher a burra da banca, em tese vazia de capital. Mas a burra está vazia? Há controvérsia. Jean-Claude Trichet, por exemplo, quer que os bancos voltem a emprestar já.

Se existem oito liberais e meio na França, Trichet é um deles. Preside o Banco Central Europeu. Mas Trichet disse ontem em Davos que os grandes investidores do mundo estão errados em exigir que os bancos amontoem mais capital. Isto é, critica bancos que relutam em emprestar dinheiro, no afã de fortalecer seus balanços e se preparar para mais perdas. Tal atitude, diz o banqueiro central, vai aprofundar a recessão mundial. Em suma Trichet disse que o mercado está errado.

Não é mera questão de opinião. Se os investidores não querem ver bancos emprestando demais, isso significa que venderão ou não comprarão papéis das instituições que teimam em emprestar. Ao recusar os papéis desses recalcitrantes, o mercado derruba seus preços. Logo, na visão de Trichet, os mercados estão dando preços errados para os bancos. Ops. O mercado não faz o preço certo? É Trichet quem sabe o preço? Mas ele não é liberal? Trata-se apenas de um exercício de "persuasão moral"?

Tony Blair, o "poodle de Bush", estava também num dos picadeiros de Davos. Lá o pessoal discutia "como os valores saíram dos trilhos" e como restaurar a "ética nos negócios". Mas, teoricamente, não há "ética" em economia. Apenas escassez, interesses, incentivos e normas. Alan Greenspan, por exemplo, acreditava nisso. Diz que ficou chocado quando viu que a "disciplina do autointeresse" não funcionou."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h47

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Inflação do atacado abaixo de zero

O IGP-M veio ainda mais abaixo de zero do que em dezembro: houve "deflação" este mês (-0,44%, depois do -0,13% de dezembro). O IGP-M é um dos índices de inflação da FGV que misturam de maneira meio confusa preços de atacado e no varejo (preços coletados entre o dia 20 do mês anterior e o dia 20 do mês de referência, janeiro, neste caso).

A "deflação" do IPA (Índice de Preços do Atacado) foi ainda maior: -0,95% em janeiro (-0,42% em dezembro). Nesse item, o preço dos bens intermediários (insumos industriais elaborados) foi mais ao fundo: -1,80% (-1,07% em dezembro).

Tudo é possível nesse mundo sem Deus, mas parece mais remota a possibilidade de repasse da alta do dólar para os preços. O motivo, porém, não é nada alentador. Pelo menos é o que indicam dados da CNI divulgados hoje.

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que as empresas estão ainda estocadas, num nível que, segundo a estatística (indireta), é o maior desde 1999 (quando a medida começou a ser feita). Segundo o economista-chefe da CNI, Flávio Castelo Branco, a desova de estoques e o ajuste à demanda menor pode levar, pelo menos, seis meses.

A diretoria do Banco Central disse ontem, por meio da Ata do Copom, que a inflação (IPCA) de 2009 e 2010 deve ficar na meta (4,5%) num cenário de câmbio mais ou menos onde está e de taxa Selic indo para 11,25% no final de 2009 e para 11% no final de 2010.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h04

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Vale quer vender sua parte na Usiminas

A Vale quer vender sua parte na Usiminas. Deu no "Valor Online"

Valor Online
29/01/2009 19:54 

SÃO PAULO - A Usiminas confirmou hoje que a mineradora Vale do Rio Doce pretende vender sua fatia de 5,89% das ações ordinárias da siderúrgica mineira para a Nippon Steel, sendo que ambas fazem parte hoje do grupo de controle da empresa.

A notícia tinha sido divulgada na manhã de hoje pela siderúrgica japonesa, que revelou que esse negócio deve fazer sua fatia na Usiminas subir de 23,3% para 29,2%.

Em seu comunicado, no entanto, a Usiminas ressalta que os demais integrantes do bloco de controle da companhia - Camargo Corrêa Cimentos, Votorantim Participações e o fundo de pensão dos funcionários da própria Usiminas - poderão exercer seu direito de preferência para comprar parte das ações que devem ser vendidas.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h41

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"O grande estelionato mercadista"

 
 

"O grande estelionato mercadista"

Barack Obama namora a idéia de comprar a dívida podre dos bancos, sem ficar com os bancos. Isto é, namora a idéia de dar dinheiro aos acionistas dos bancos, que assim seriam premiados por promover uma farra que deu em desastre e que não elevou o nível do crescimento americano. É o tema da coluna de hoje (29/1) na Folha. Assinante lê a íntegra do texto aqui.

Trechos:

Barack Obama, o "cavaleiro da esperança", vai mesmo doar dinheiro para donos de bancos? Tão importante quanto o pacotão fiscal (gastos em obras, energia, educação, saúde e ciência) é a menos popular "fase dois" do pacote de salvação do sistema financeiro.

O problema é que, diz o rumor, o plano Obama para as finanças pode ressuscitar o plano Paulson-Bush, um presente para grandes acionistas e gestores da banca. O mercado ficou animadinho ontem por causa disso.

No plano Paulson, o governo compraria a dívida podre dos bancos por um preço alto e esperaria até que, no dia de são Nunca, ela voltasse a valer algo. Isto é, no mínimo, o governo daria a acionistas de bancos um quase trilionário empréstimo de pai para filho, com seguro grátis. Alternativa? Desapropriar, estatizar a preços módicos e revender os bancos que sobrarem quando tiver sido limpa a porqueira de Wall Street.

Caso ocorra a mãe de todas as socializações do prejuízo, é bom que se faça um registro, para o bem do serviço de prevenção da patranha, da bravata e do estelionato ideológicos:

1) O "cavaleiro da esperança", Obama, terá dado dinheiro a ricos;
2) Ficará gravado em pedra que a grande finança não apenas depende de normas e seguros estatais para funcionar: também tem o direito de ser ressarcida pelo público em caso de lambança, ficando com todos os lucros do período da farra;
3) A grande farra financeira ocorreu na década em que o crescimento médio dos EUA superou apenas o dos anos 1930, da Grande Depressão (mesmo excluídos 2008 e 2009; considerado o período que começa em 1930). Na década da farra, a renda do trabalho estagnou e a desigualdade aumentou nos EUA. Apenas mercadistas vulgares e estelionatários continuam a repetir que a finança desembestada foi a responsável pelo "período mais próspero da história" (ou a nova camarilha chinesa na verdade era toda composta de agentes de Wall Street?)."

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h52

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China e Rússia batem no "Ocidente"

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, passou a maior carraspana no "Ocidente" (EUA e Europa), ontem em Davos. Disse coisas como: os americanos "gastam demais, poupam pouco"; "a falta de autodisciplina no mercado e a busca cega do lucro fizeram com que o sistema financeiro se expandisse de modo exagerado". Para completar, jogou para a galera, dizendo que os países em desenvolvimento deveriam ter mais voz na organização do sistema financeiro mundial. Disse isso tudo e algo mais num tom de visita à copa. Vladimir Putin pegou carona.

Wen Jiabao espezinhou o "Ocidente" depois de Timothy Geithner, novo secretário do Tesouro dos EUA, voltar à ladainha de seus antecessores sobre a moeda chinesa, artificialmente valorizada. Geithner, na verdade, acusou os chineses de manipular o câmbio (na semana passada).

É tudo verdade. Os chineses manipulam o câmbio. Mas, entre outros problemas, os Estados Unidos acabaram de despejar seu esgoto financeiro nos rios da economia mundial. Não estão com muita moral para cobrar coisa alguma.

Também em Davos, Stephen Roach, presidente do Morgan Stanley na Ásia, também detonou Geithner. Disse, em suma, que a crítica de Geithner cheirava a protecionismo.

Putin manda Dell catar coquinhos

Vladimir Putin mostra a que veio e de onde veio _da autocracia comunista, da KGB. Em Davos, depois de espezinhar o "Ocidente" em seu discurso, chutou a canela de Michael Dell, o dos computadores, que lhe perguntou da platéia como poderia ajudar a melhorar a infraestrutura russa de tecnologia de informação (segundo vários relatos de lá. Obviamente, o blogueiro está no Brasil).

Resposta de Putin: "Não precisamos de sua ajuda. Não somos inválidos. Não temos pouca capacidade mental".

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h27

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Krugman: teoria econômica Madoff

Paul Krugman, em seu blog, reproduzindo e-mail que mandou a outro economista:

"Economistas que dedicaram toda a carreira à teoria do equilíbrio ["equilibrium business cycle theory"] agora estão descobrindo que, na verdade, eles investiram seu dinheiro com Bernie Madoff".

Para quem se interessa, está quente no blog de Krugman a discussão sobre os efeitos de pacotes de estímulo fiscal. Krugman e cia. estão batendo nos críticos, para quem, grosso modo, o gasto público apenas cria uma marola temporária, sem afetar o crescimento, mesmo quando em situações de recessão ou depressão (ou "deep-ression"). Exemplo:

January 27, 2009, 9:40 am

A Dark Age of macroeconomics (wonkish)

Brad DeLong is upset about the stuff coming out of Chicago these days — and understandably so. First Eugene Fama, now John Cochrane, have made the claim that debt-financed government spending necessarily crowds out an equal amount of private spending, even if the economy is depressed — and they claim this not as an empirical result, not as the prediction of some model, but as the ineluctable implication of an accounting identity.

There has been a tendency, on the part of other economists, to try to provide cover — to claim that Fama and Cochrane said something more sophisticated than they did. But if you read the original essays, there’s no ambiguity — it’s pure Say’s Law, pure “Treasury view”, in each case.

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h32

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Cancelaram a barbeiragem

O governo suspendeu a tolice de barrar importações por meio de papelório burocrático. Bom. O governo vinha agindo de modo bastante razoável em suas respostas à crise, mesmo para quem discorde dessa ou daquela medida (ou, pelo menos, as medidas anunciadas até agora foram razoáveis. Vamos ver a implementação). Não precisa recorrer a macumbas, exorcismos e rezas brabas.

Abaixo, o texto da "Folha Online" sobre a revogação.

EDUARDO CUCOLO
da Folha Online, em Brasília

O governo voltou atrás e decidiu suspender as medidas de restrição às importações adotadas desde a semana passada. O anúncio foi feito no final da tarde desta quarta-feira pelo ministro Guido Mantega (Fazenda) e pelo ministro interino do Desenvolvimento, Ivan Ramalho.

Uma hora antes do anúncio oficial, o diretor de Comércio Exterior da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Roberto Giannetti da Fonseca, recebeu do governo a informação de que o sistema seria apenas flexibilizado. Ele havia participado de reunião no Ministério da Fazenda.

O governo acabou decidindo, no entanto, suspender a medida por ela ter sido "mal compreendida", segundo o ministro Mantega. Agora, não será mais necessário pedir a licença automática, que pode demorar até dez dias, para realizar uma importação.

"Essa medida foi mal entendida, foi mal interpretada. Diante disso, o governo resolveu suspender a medida. A partir de amanhã vai voltar ao regime antigo", afirmou. "Fica tudo como antes."

De acordo com o ministro interino do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, a partir de amanhã, não será mais solicitada a licença para importação desses produtos.

"Quando o importador for registrar a importação, já não será solicitada a licença automática. Ele volta à situação anterior, que antecede o último final de semana, quando a medida foi colocada em prática", disse o ministro interino do Desenvolvimento, Ivan Ramalho.

Mantega confirmou que a mudança tinha como objetivo monitorar as importações e evitar que houvesse uma piora na balança comercial. Por meio dela, seria possível suspender a entrada de produtos no país caso fossem encontrados problemas relativos ao livre comércio.

"Foi notada uma agudização da concorrência no comércio internacional. Em função disso, o Ministério do Desenvolvimento resolveu tomar uma medida, estabelecendo a licença prévia, para poder fazer o monitoramento do que estava acontecendo na nossa balança comercial", afirmou.

Aumento das importações

O superávit da balança comercial (diferença entre exportações e importações) caiu em 2008, devido ao aumento das importações. Em janeiro, essa situação se agravou devido à queda nas exportações devido à crise internacional.

Em 2009, a balança comercial registrou déficit pela terceira semana consecutiva. No acumulado do ano até dia 25, o déficit da balança comercial soma US$ 645 milhões, com exportações 21,8% abaixo que no mesmo período do ano passado.

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h26

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Empulhação mercadista

Cascateiros do mercadismo, em especial os mais vulgares e midiáticos, têm dito que a grande farra financeira da virada do século, por ora suspensa, foi responsável por um dos períodos "mais prósperos da história". Ou que a banca desembestada deixou o mundo mais rico, e propagandas assim de baixo nível. Tal coisa pode ser lida, por exemplo, quase semanalmente em revistas para a classe média desmiolada.

Como modestíssima "contribuição ao debate", segue uma modestíssima informação velha e acessível a qualquer um com uma conta na internet, informação no entanto obliterada pelo mercadismo mais estelionatário. Trata-se da média do crescimento do PIB americano, por década, desde os anos 1930. Os anos que vão de 2000 a 2007 registraram o menor crescimento médio desde a década da Grande Depressão. E nem se fale, por ora, do resultado de 2008 e 2009.

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h17

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Bancos estatais sustentam o crédito

 
 

Bancos estatais sustentam o crédito

Sem os bancos estatais, o crédito teria encolhido em dezembro. Esses e outros aspectos do resultado do sistema financeiro de dezembro são o tema da coluna de hoje na Folha, que o assinante lê na íntegra aqui.

Trechos:

"O aumento dos recursos emprestados à praça em dezembro foi quase todo devido à atuação dos bancos estatais. O custo de captação de dinheiro pelos bancos, na média, foi menor do que antes da explosão da crise, em agosto, mas os juros continuam a subir. Entre as pessoas físicas, aumentou o endividamento em linhas de crédito de custo catastrófico, como é o caso do cheque especial e o da rolagem de dívidas no cartão de crédito.

É o que se depreende dos dados divulgados ontem pelo Banco Central sobre as operações de crédito do setor financeiro. O panorama do crédito em dezembro, em quase toda parte, é ruim, embora a atuação dos bancos públicos possa não ser tão arriscada e/ou danosa quanto os mercadistas mais afoitos apregoam.

Cerca de 77,5% do incremento do estoque de novembro para dezembro caiu na conta do setor financeiro público. Na média do ano "pré-crise", até setembro, o aumento médio mensal do estoque de crédito na conta do setor público era de 33,5%. O setor financeiro privado se retraiu demais.


A taxa média de juros para as pessoas físicas caiu de 58,2% ao ano para 58%. Pífio. Mas o "spread" cresceu. Desde agosto, os bancos pagam 1,6 ponto percentual a menos pelo dinheiro que emprestam à pessoa física. Mas a taxa que cobram subiu 5,9 pontos percentuais. Como os impostos não aumentaram e como o compulsório diminuiu, os bancos estão antecipando enorme inadimplência, que é a justificativa restante para o aumento do "spread". A ver.

O total de novos empréstimos concedidos às pessoas físicas cresceu R$ 3,8 bilhões -mas havia caído R$ 5,8 bilhões em outubro e novembro. A parcela de novos empréstimos nas linhas de cheque especial e cartão de crédito subiu para 68% do total de novas concessões de financiamentos -era de 62% em agosto. A fatia dos financiamentos para veículos caiu de 8,1% em agosto para 5,9% em dezembro. Caiu bem a qualidade do endividamento, pois.

A inadimplência subiu de fato entre pessoas físicas e, dadas as notícias sobre demissões, devem crescer mais. Mas entre as pessoas jurídicas tal indicador continua bem comportado. De certo modo, isso deveria atenuar, ao menos por ora, os temores quanto à atuação dos bancos públicos. A reação estereotipada diante da substituição do crédito dos bancos privados pelo oferecido pelos estatais em geral limita-se a observar que, sob pressão do governo, estatais podem fazer empréstimos ruins e que a conta acabe no Tesouro, em suma, dos contribuintes. Porém um exagero contracionista dos bancos privados pode provocar também danos generalizados."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h25

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Protecionismo com manjericão: posts recentes

Os posts mais recentes:

  1. Diário da Crise: supermercados e carros;
  2. Barbeiragem no comércio exterior (3);
  3. Protecionismo ou barbeiragem (2);
  4. Protecionismo ou barbeiragem;
  5. O doce e o risco de déficit externo (coluna na Folha);
  6. Cozinha Liberal: manjericão;
  7. Cozinha Liberal: batata, massa, feijão e pesto?
  8. Cozinha Liberal: "trenette al pesto";
  9. Cozinha Liberal: fritada? Não, "fritatta";
  10. Cozinha Liberal: arroz, queijo e manjericão.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h36

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Díário da Crise: supermercados e carros

As vendas nos supermercados subiram 5% em dezembro (contra dezembro de 2007), segundo dados da Abras, a associação dos supermercados. Vem abaixo do aumento das vendas no ano de 9%. Ou seja, houve um tombo nas vendas de supermercados. Esse comércio não depende de crédito. Em períodos de crise, a venda de bens oferecidos em supermercados tende a se sustentar (relativamente, ao menos, à venda de bens mais caros, como os duráveis: carros, eletrodomésticos). De fato, os supermercados nem de longe vão tão mal como montadoras. Mas o tombo de dezembro foi ruim. O consumidor está mesmo muito assustado.

Por falar em montadoras, a Anfavea deu hoje uma preliminar das vendas de carros em janeiro. Parece que vão ficar no nível de dezembro de 2008. Isto é, parou de piorar, embora o resultado de janeiro de 2009 ainda deva ficar abaixo do verificado em janeiro de 2008. O valor médio mensal das novas concessões de empréstimos para a compra de carros foi de R$ 4,7 bilhões entre janeiro e setembro do ano passado. De setembro a dezembro, a média ficou em R$ 2,68 bilhões, segundo dados divulgados ontem pelo Banco Central. Queda de 43%. A inadimplência cresceu. Ruim.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h56

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Barbeiragem no comércio exterior (3)

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior oficialmente nega que o aumento da burocracia para a liberação de importações seja uma barreira não-tarifária a compras de mercadorias no exterior _isto é, uma medida artificial para melhorar o saldo da balança comercial. Como o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, está no exterior e, aparentemente, ninguém mais no governo sabia da medida, está difícil de entender de fato o motivo de sua implementação _oficialmente, o ministério diz que se trata apenas de um meio de acompanhar melhor as importações e de verificar discrepâncias entre os registros da Receita Federal e os do Desenvolvimento.

A ver. A prova do pudim será comê-lo: se as licenças empacarem as importações, não adianta qual o motivo oficial da medida. Ela tende a ser ruim. Explique-se:

1) Licenças demoradas de importação prejudicam a produção doméstica: criam ineficiências, atrasam a produção, aumentam custos, perturbam a relação entre fornecedores e compradores (tanto no mercado doméstico como externo);

2) Muita mercadoria exportada pelo país tem alto teor de bens intermediários importados. A burocracia pode prejudicar a exportação;

3) Barrar a importação via medidas administrativas tende apenas a diminuir a corrente de comércio (soma de exportações mais importações). Se o déficit comercial aumenta, tudo mais constante, o real tende a perder valor. Assim, num "segundo momento", tende a haver um aumento de exportações. No caso do controle administrativo, o déficit comercial pode não aumentar, mas tanto exportações e importações ficam num nível baixo. É mau negócio;

4) "Licenças para importar" tendem a criar favorecimentos, privilégios e até corrupção. Amigos e gente mais podero$a tende a procurar a "liberação" de suas importações por meio de favores.

5) Argumenta-se que a crise pode provocar uma onda internacional de protecionismo e "dumping". Pode ser. Mas não se combate tais deformações por meio de uma medida genérica como o aumento da burocracia para importar. Existem outros mecanismos para combater tais distorções do comércio.

6) Enfim, para corrigir estatísticas é preciso criar a ameaça de desorganizar os fluxos e cadeias produtivos (a medida afeta setores que respondem por 60% das exportações)? Parece um despropósito.

Se a burocracia extra pretende "melhorar" o saldo comercial, é ideia de jerico. Se a medida foi tomada apenas para "melhorar as estatísticas", é um despautério exagerado.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h46

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Protecionismo ou barbeiragem (2)?

O ministro Miguel Jorge nega que a exigência de licença de importação (vide post abaixo) seja uma medida protecionista. O ministro, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, falou à Agência Brasil (agência estatal de notícias). Está na Argélia. Segundo o relato da Agência Brasil, disse que que a medida é uma revisão de estatísticas, já que havia, no fechamento do ano passado, “muita discrepância” entre os números dos Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior e da Receita Federal.

“Como nós percebemos que continuava a haver divergência neste início de ano, resolvemos então segurar um pouco o processo [de importação] para que pudéssemos fazer uma reavaliação dessas estatísticas, mas não há nenhuma intervenção e nem retrocesso. Estamos num processo de abertura do país há muitos anos e este é um problema técnico que temos que resolver”, disse Miguel Jorge.

A medida do governo valendo desde ontem e atinge 60% das importações, como os de plásticos, cobre, alumínio, ferro, trigo, autopeças, automóveis e eletroeletrônicos. O Departamento de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) agora analisa cada pedido antes de liberar a entrada do produto. Até a última sexta-feira, o importador obtinha a licença automaticamente pela internet

Segundo a Agência Brasil, Miguel Jorge disse que a decisão é temporária: vale até que o governo consiga acertar os números estatísticos. “Não tem prazo, mas imagino que seja bem curto, pois queremos resolver o mais rápido possível.”

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h51

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Protecionismo ou barbeiragem?

Reportagem de Guilherme Barros, na Folha de hoje (27/1) revela uma esquisitíssima medida do governo: o aumento da burocracia para obter licenças de importação (assinante lê a íntegra do texto aqui). De tão esquisita a medida, não se sabe se é uma decisão do governo, uma decisão do ministro do Desenvolvimento (Miguel Jorge), uma decisão do secretário de Comércio Exterior ou,  até, se se trata apenas de uma barbeiragem burocrática (este blogueiro ainda não conseguiu descobrir o que aconteceu). Ninguém entendeu nada.

Leia um trecho da reportagem:

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA

Em uma decisão que pegou de surpresa as empresas de comércio exterior, o governo passou a adotar desde ontem uma série de barreiras não-tarifárias ao ingresso da grande maioria de produtos importados. Na prática, a medida significa a volta do sistema de controle das importações adotado pelo país nas décadas de 70 e 80, quando o Brasil era um pequeno exportador e importava 80% do petróleo que consumia.

O que mais chamou a atenção foi a forma com que o governo comunicou a decisão ao setor. Em vez de uma portaria ou uma comunicação formal, o Ministério do Desenvolvimento anunciou a nova medida por meio de uma nota publicada na sexta-feira passada no Siscomex, o sistema usado para controlar o comércio exterior.

A nota no Siscomex informa que será exigida a partir da data de ontem a apresentação da licença de importação prévia, a chamada LI, para quase todos os produtos que entram no país. A lista é ampla e abrange praticamente toda a pauta de importações do país: produtos de moagem (trigo), plásticos, cobre, alumínio, ferro, bens de capital, material eletroeletrônico, autopeças, automóveis e material de transporte em geral, entre outros.

A exigência da LI tinha sido abolida no país nos últimos anos. A importação era praticamente automática. A única exigência era de uma declaração de importação (DI), que era feita pelo próprio importador, apenas para efeitos estatísticos.
Já as LIs podem demorar até 60 dias para serem concedidas pela Secex (Secretaria de Comércio Exterior)."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h43

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O doce e o risco de déficit externo

 
 

O doce e o risco de déficit externo

A baixa do financiamento externo e do comércio mundial vão impor restrições ao crescimento em 2009. É o tema da coluna de hoje (27/1) na Folha. Assinante lê o texto na íntegra aqui.

Trechos:

'O saldo da balança comercial e o IED são alguns dos itens do balanço de pagamentos, uma espécie de enorme livro de caixa que registra todas as saídas e entradas de moeda forte (dólares) do país. Entradas e saídas têm de se equilibrar, grosso modo. Caso ocorra um déficit, se o país fica "no vermelho", a conta do déficit "cai", em última instância, nas reservas internacionais, os ativos em moeda forte no caixa do Banco Central. Se não há reservas bastantes, em tese o país "quebra" (e/ou sofre baita desvalorização cambial).

O saldo comercial e o IED vinham sendo fontes de recursos que contrabalançavam as contas em que o país é muito deficitário: remessas de lucros de empresas e investidores estrangeiros, pagamentos de juros, de serviços (como fretes, as viagens do cidadão, royalties etc.).

Não dá para estimar o que vai ser da balança com os dados de apenas um mês, que dirá de algumas semanas de janeiro. Mas o comércio mundial vai encolher em 2009. O IED no ano passado foi bom, mas não diz tudo sobre esta conta: o Brasil também investe no exterior, uma das principais novidades no balanço de pagamentos na era Lula. O saldo do IED (investimentos estrangeiros aqui menos o de brasileiros lá fora) foi de US$ 24 bilhões. Outra novidade é que a maior parte do déficit da conta de rendas agora se deve a remessa de lucros, e não de pagamento de juros (em especial da dívida externa do governo). Tais ineditismos criam incógnitas maiores sobre o futuro das contas externas do país.

O investimento estrangeiro direto tende a cair, num ambiente mundial recessivo. E o brasileiro também? Qual cai mais? As remessas de lucros das múltis instaladas aqui, pressão crescente no nosso balanço em 2008, também devem ser menores. Mas como fica a balança?
E daí? Daí que não é possível continuar crescendo como em 2008 em um ambiente mundial no qual vamos obter menos dólares para fechar nossas contas externas. Quanto menor for o "financiamento externo" (via investimentos "produtivos" ou aplicações financeiras e mesmo empréstimos), maior terá de ser o saldo comercial: exportar mais, importar menos. Consumir menos.
Não dá para comer o doce (consumir) e ficar com o doce (equilibrar as contas externas)."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h29

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Cozinha Liberal: manjericão

Fim de tarde de domingo, o restante da folga fica cada vez mais curto e a preguiça espicha cada vez mais. É preciso fazer uma coisinha rápida para comer, é preciso dar cabo de umas tarefinhas, é preciso ainda escrever “Cozinha Liberal”. E é preciso cuidar daquele manjericão, que está enorme e bonito, apesar de ameaçado pelas cochonilhas, uma praga das ervas, em especial das que ficam no oitavo andar, batidas pelo vento e com poucas horas de sol, como é o caso das ervas deste cozinheiro.

O blogueiro pensa em voltar a escrever sobre pratos “típicos” do blog. “‘Cozinha Liberal’, seção que estréia agora neste blog, não é uma cozinha econômica. Não se vai tratar do arrocho dietético. Não vai se preocupar com a otimização calórica ou com o ajuste da silhueta”, como dizia o blog em 2008.

O blogueiro pensa em escrever sobre uma terrina de pato com laranja. Ou uma terrina de caças brasileiras. Ou sobre uma galantina de capão (frango capão desossado e recheado de carnes moídas e pedaços de carne, entre outras coisas boas).

Mas está calor demais para terrinas, ninguém vai cozinhar tal coisa durante a canícula e, sim, as receitas são enormes, assim como a preguiça (se os leitores gostaram das terrinas, escrevo em breve). Vamos hoje de algo mais simples, então.

Aquele manjericão no balcão da janela está enorme. Vai dar para a comidazinha rápida (“fritatta”), para um pesto (“trenette al pesto” à moda genovesa) e para congelar (não é tão bom como o feito na hora, mas fica mais à mão para pratos menos ambiciosos). Sim, o pesto andou na moda e depois ficou  meio desaparecido. Mas pesto é ótimo. E tem cara de verão. Pelo menos na Europa.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h31

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Cozinha Liberal: batata, massa, feijão e pesto?

Sim. Trata-se de um prato genovês, “trenette al pesto”: fatias finas de batata, feijão verde (em vagem) e uma massa chamada “trenette”, com pesto. Parece esquisito misturar carboidrato a carboidrato (batata com massa), mas, “no contexto”, fica muito bom.

“Trenette” é uma massa que não leva ovos, parecida com um fetuccine, mas com uma das bordas recortadas em curvinhas. Nunca vi nos mercados daqui (São Paulo), mas um fetuccine ou um linguine italianos servem muito bem. Aliás, se você tem máquina de macarrão em casa, faça uma massa na hora (duas xícaras de farinha, 80 ml d’água, duas colheres de chá de azeite e sal) e corte no cortador de fettucine.

Mas, para fazer o prato, primeiro é preciso fazer o “pesto”:

Ingredientes do pesto:

2 xícaras de folhas de manjericão, lavadas e muito bem enxutas;

2 dentes de alho, sem casca;

 1/3 de xícara de azeite extra virgem

3 colheres de sopa de queijo pecorino ralado na hora;

6 colheres de sopa de parmesão ralado na hora (parmigiano, o de verdade, italiano, pois);

Para quem vai fazer o pesto à mão: um almofariz (a “tigela” onde se bate o pilão, de preferência de pedra) e um pilão (a “mão” do pilão, de preferência de madeira).

Para fazer o pesto:

Coloque o alho, uma pitada de sal grosso e o manjericão no almofariz. Não “bata” os ingredientes: fazendo força, gire o pilão dentro do almofariz, esmagando os ingredientes contra a parede da “tigela”. Quando você tiver uma pasta, misture os dois queijos, aos poucos. Quando a mistura estiver uniforme, junte o azeite, aos poucos (“um fio de azeite”), enquanto continua a misturar. Pronto.

O pesto básico é esse. Pode-se colocar “pinoli” (quando se começa a “pilar” os ingredientes). Uma colher de sopa de “pinoli” (ou até duas) basta.

Polêmica: há italianos que misturam uma colher de manteiga ao pesto (até a lendária Ada Boni diz que se pode fazê-lo: “Prima dell’olio potete aggiungere il burro che, pur non essendo indispensabile, comunica all’insieme maggior gusto”). Tem gente que torce o nariz. Experimente e veja como você gosta

Se for fazer no “mixer”: coloque os ingredientes (exceto os queijos) e uma colher de azeite no mixer. Bata até conseguir um creme, mas jamais chegue ao ponto de “fazer espuma”. Quando tiver uma pasta, misture, sempre batendo, o restante do azeite, aos poucos. Junte os queijos depois, fora do mixer, com uma colher, misturando bem, quase batendo.

Se for congelar: faça a receita do pesto, mas não misture os queijos. Só faça isso no dia de servir. Descongele o pesto devagar (no máximo, em banho-maria).

Como usar:

O pesto pode ser usado em várias receitas. A mais tradicional, genovesa, segue abaixo (o pesto é um molho das cidades próximas de Gênova e, na verdade, de toda a Riviera, até a francesa _na França, é o “pistou”).

No inverno, o “pistou” pode temperar uma sopa de legumes e macarrão (“soupe au pistou”). Nesse caso, o “pistou” é mais carregado de alho e é batido também com um pouco de tomate. Você toma a sopa e “ferve” por dentro. Não faça tal coisa no verão.

No sul da França há quem coma carnes frias com “pistou”. Alguns peixes também levam “pistou” (em pequena quantidade, na versão mais leve, com menos alho).

No post abaixo, a receita do “trenette”

Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h23

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Cozinha Liberal: "trenette al pesto"

 
 

Cozinha Liberal: "trenette al pesto"

Ingredientes do “trenette” à moda genovesa (quatro pessoas):

500 g de massa (à falta de trenette, pode ser fetuccine ou linguine)

200 g de feijão (em vagem);

2 batatas pequenas (200 g, no máximo)

Para terminar o prato:

Descasque a batata e a corte em fatias bem finas (use uma mandolina, se tiver: um fatiador de mesa). Apare as pontas das vagens e tire os “fios” (aqueles que dividem a vagem: puxe com uma faquinha que eles saem).

Há uma polêmica aqui. Italianos dizem que é preciso cozinhar batatas e vagens na mesma água do macarrão. Mas, cozinhando todos juntos, fica difícil acertar o ponto. Portanto, acho melhor cozinhar as batatas e as vagens, separadamente, na água do macarrão e reservá-los.

Coloque as batatas na água do macarrão ainda fria (5 litros d água: sempre um litro para cada 100 g de massa, com duas colheres de sopa de sal grosso). Quando estiverem tenras, mas “al dente”, tire e reserve. Cozinhe as vagens, tire da água e reserve também.

Cozinhe a massa.

Numa tigela onde vai servir a massa, coloque a manteiga, o pesto (na quantidade da receita acima) e duas colheres de sopa da água em que o macarrão acabou de cozinhar. Junte a massa escorrida, as vagens e as fatias de batata e misture tudo muito bem, mas delicadamente, e pronto. Sirva logo.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h13

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Cozinha Liberal: fritada? Não, “fritatta”

 
 

Cozinha Liberal: fritada? Não, “fritatta”

Um “fritatta” é uma fritada, em italiano. Sim, fritada de ovos: uma omelete aberta, com o “recheio” de que você gostar mais. Tem um ou outro detalhe diferente.

“Fritatta” básica: seis ovos, uma xícara de parmesão (“parmigiano”), duas colheres de sopa de manteiga, sal, pimenta-do-reino moída na hora

Bata os ingredientes muito bem. Esquente a manteiga, até espumar, numa frigideira grande (25 cm de diâmetro), antiaderente. Coloque a mistura de ovos e baixe o fogo. Quando a mistura “secar” por baixo, dê soquinhos na panela para a fritada “soltar” (pode ajudar com uma espátula). Então vire a fritada (pode ser com a ajuda de um prato), aumente o fogo por um minuto, abaixe o fogo e espere a fritada “secar” do outro lado.

Difícil? Tem um jeito mais fácil. Use um recipiente redondo que possa ir ao forno (também de uns 25 cm de diâmetro). Ligue o forno (nível mais baixo, uns 160º). Coloque a manteiga no recipiente e o leve ao forno _esquente a manteiga até espumar. Tire o recipiente do forno e coloque a mistura de ovos. Reponha o prato ao forno e cozinhe por uns 15 minutos, por aí, até estar firme.

“Fritatta” com cebolas douradas, manjericão e tomate

Corte três cebolas em fatias bem finas. Corte quatro tomates em cubos (não use a polpa, a mistura não pode ficar muito líquida). Pique grosseiramente uma xícara de folhas de manjericão. Rale 100 g de parmesão.

Coloque as cebolas, sal e duas colheres de sopa de azeite numa panela larga, em fogo baixo, e tampe. Quando as cebolas tiverem murchado, cozinhe-as em fogo médio, mexendo sempre, até ficarem caramelizadas (meio marronzinhas, avermelhadas). Junte os tomates e cozinhe por uns 10 minutos, no máximo _não deixe os tomates desmancharem. Tire do fogo, deixe esfriar um pouco.

Bata seis ovos. Junte o parmesão e o manjericão. Bata. Junte a mistura de cebolas e tomates aos ovos e misture bem. Despeje num recipiente que possa ir ao forno ou faça a “fritatta” na frigideira, se você tiver habilidade para tanto (ou quiser aprender).

 

Variantes de “fritatte”:

Com abobrinha e manjericão

Corte duas abobrinhas italianas em fatias não muito grossas e coloque as numa panela larga com um pouco de azeite ou manteiga. Junte um ramo de salsão em cubos e quatro tomates cortados também em cubos. Ligue o fogo e cozinhe por no máximo 10 minutos (até as abobrinhas ficarem algo douradas e o tomate não desmanchar), em fogo médio. Misture à receita básica de “fritatta”, com umas dez folhas grandes e rasgadas de manjericão. Leve ao fogo, segundo o mesmo método da “fritatta” básica.

Com batatas, cebola e “pancetta”

Descasque e corte em cubinhos de 1 cm duas batatas médias (use no máximo duas xícaras de batatas em cubos). Corte 100 g de “pancetta” em cubinhos (lê-se “pantcheta”, barriga de porco curada mas não defumada. Pode-se usar também bacon). Corte uma cebola em fatias bem finas.

Frite a pancetta com uma colher de sobremesa de óleo. Reserve a pancetta. Frite as batatas fritas na gordura da pancetta com óleo (junte um pouco mais de óleo, se este parecer escasso) _frite até elas ficarem crocantes. Reserve. Coloque as cebolas na mesma panela, tampe, deixe murcharem e então as frite devagar, até ficarem quase da cor de caramelo. Misture tudo com a receita básica da “fritatta” e leve ao fogo ou forno.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h11

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Cozinha Liberal: arroz, queijo e manjericão

 
 

Cozinha Liberal: arroz, queijo e manjericão

Parece banal, mas é uma maravilha. Rale 150 g de mussarela (“mozzarella” de verdade, não aquele queijo que é fatiado em padarias para sanduíches) e outros 100 g de parmesão. Rasgue umas 10 folhas grandes de manjericão (sempre fresco).

Ferva 3 litros d água salgada. Junte uma xícara e meia de arroz para risoto (italiano) e cozinhe por no máximo 20 minutos, mexendo de vez em quando (prove a partir dos 15 minutos, para verificar se o arroz já está “al dente”).  

Escorra o arroz (caso tenha sobrado alguma água) e o coloque na vasilha onde vai servi-lo. Junte a mussarela e o parmesão, misturando bem, mas delicadamente, com um garfo grande. Não “mexa” muito: o objetivo não é fazer uma pasta de queijo com arroz, mas derreter o queijo “em fios” em torno do arroz. Junte as folhas de manjericão e duas colheres de sopa de manteiga (ou até quatro: fica melhor, mas com duas já fica “bem”). Mexa de leve e sirva.

Comer com o quê? Com uma carne “estufada”, cozida longa e delicadamente na panela ou no forno, com algum líquido, mas com temperos leves (para não “arrasar” o sabor leve do arroz). Ou mesmo puro. É uma delícia.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h09

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Cozinha Liberal

 
 

Cozinha Liberal

Os posts da seção "Cozinha Liberal" entram logo mais à noite. O blogueiro foi capturado por outras tarefas.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h14

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"Lula, BNDES, fusões & aquisições"

 
 

"Lula, BNDES, fusões & aquisições"

Consolidação de oligopólios privados sob patronato estatal é um dos aspectos mais relevantes do período luliano. Esse é o tema da coluna de domingo (25/1) na Folha. Assinante lê a íntegra do texto aqui.

"A gente se ocupa muito do Banco Central. Trata-se menos do BNDES, com exceção daquelas fusões & aquisições financiadas pelo banco que rendem mais chacrinha. E pouco se trata do papel de Petrobras, Banco do Brasil e fundos de pensão paraestatais na criação de oligopólios privados. Mas a atuação das estatais na reorganização do controle da grande empresa é um dos aspectos mais relevantes do governo Lula. Os negócios merecem instância ou comissão especial do Congresso para acompanhá-los."

"O BNDES forrou a cama da compra da Brasil Telecom pela Oi/Telemar. Indiretamente barateou a operação, que beneficiou Andrade Gutierrez e La Fonte. O dinheiro grosso do Banco do Brasil construiu a cama forrada pelo BNDES. Sem o BNDES, não haveria a compra da Aracruz pela Votorantim, ambas tisnadas por grossa incompetência e cupidez no caso dos derivativos cambiais.

"A Petrobras subsidiou e organizou a consolidação da petroquímica, o que deu na Braskem (Odebrecht) e na Quattor, que dominam o mercado e são sócias da petroleira. Além de reduzirem a confusão do setor (e tomá-lo), Braskem e Quattor querem baratear a fonte de seu principal insumo, a nafta da Petrobras. A maior parte dos novos investimentos do BNDES na petroquímica vai para o Comperj, o complexo petroquímico de Petrobras e cia., no Rio, onde a Petrobras vai produzir mais nafta.

"O BNDES financiou a transformação do JBS-Friboi no maior frigorífico do mundo. Agora, pode apadrinhar a compra do Bertin pelo JBS.
O BNDES articula a fusão de grandes usinas de álcool, com o que ajudaria a atenuar os problemas causados por superinvestimento e novatos afobados no setor. No ano passado, o BNDES emprestou quase R$ 6 bilhões a grandes usinas (de Odebrecht e Bertin inclusive).

"Houve aquisições mais discretas, mas relevantes, embora longe dos bilhões dos negócios citados. Em 2008, a Totvs (softwares de gestão) comprou a Datasul com ajuda de R$ 404 milhões do BNDES; ambas têm um terço do mercado. Outro negócio do ano passado foi a compra da Azaléia pela Vulcabrás, que recebeu R$ 314 milhões do BNDES.

"No início de 2008, o BNDES retomou planos para criar um grande laboratório farmacêutico nacional. Em 2006, o BNDES emprestara R$ 295 milhões para o Aché, maior grupo nacional do setor, comprar a Biosintética. Ainda em 2008, Luciano Coutinho, presidente do BNDES, disse que discutira com Lula planos de financiar fusões e aquisições na estremecida construção civil."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h13

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Economist: previsões desastrosas

O comércio mundial deve encolher 2% este ano. É uma das novas previsões do "Perspectiva Global", relatório bimestral de análise de conjuntura e de previsões da "Economist Intelligence Unit" (EIU), instituto de pesquisa do grupo que edita a revista "Economist". A previsão anterior, de 17 de novembro de 2008, era de baixa de 0,5% no comércio global. Má notícia para o mundo; para o Brasil também. O comércio se expandira ao ritmo médio de 8,7% entre 2004 e 2007, anos em que a exportação brasileira floresceu. No ano passado, o crescimento do comércio mundial deve ter ficado em 4,6%. A "EIU" prevê queda ainda maior, pois, em 2009.

No relatório anterior, de novembro, a "EIU" previa crescimento mundial de 2,4% para este ano. Agora prevê 0,9%. Quanto aos EUA, o PIB encolheria 2% em 2009, com alguma recuperação apenas no segundo semestre de 2010 _e pior, com deflação de 0,6%. A "EIU" diz, porém, que o resultado pode não ser tão ruim se a política de estímulo fiscal for eficaz (quer dizer, é uma previsão meteorológica do tipo "vai chover, se chover").

As demais previsões estão no quadro abaixo. No quadro subsequente, seguem as previsões realizadas em novembro.

 

As previsões da EIU em 17/11/2008:

Alguns destaques do relatório:

Seca de crédito continua

"Não acreditamos, porém, que as medidas [de socorro ao sistema financeiro em nível mundial] vão provocar uma significativa recuperação global dos empréstimos bancários _os bancos continuarão a se concentrar em reconstruir seus balanços e não estarão inclinados a emprestar num cenário de recessão global".

Ineficácia da política macroeconômica

Comentando alguns dos riscos mais sérios no período: "Um prolongado colapso da demanda de empréstimos também limitaria a eficácia dos estímulos das políticas fiscal e monetária, exercendo uma pressão baixista sobre o crescimento nos anos por vir. Isto aconteceu no Japão do final dos anos 1990 e foi uma das razões-chave para que o crescimento japonês continuasse tão medíocre, apesar das ações frequentemente agressivas tanto do governo como do Banco do Japão (o BC japonês)".

Crise imobiliária ainda piora nos EUA

"Os problemas no setor imobiliário vão continuar a atrapalhar a economia pelo resto da década, e as tentativas políticas de atenuar o sofrimento das famílias provavelmente serão eficazes apenas na margem... A demanda por moradias vai continuar a enfraquecer em 2009 sob o peso do fechamento de fato do mercado 'subprime', de regras mais estritas para empréstimos e desemprego crescente".

Choques europeus

"A confiança dos empresários sofreu um dramático declínio na eurozona, resultado de três choques distintos mas relacionados: a crise financeira, os efeitos dos desequilíbrios domésticos [bolhas imobiliárias, déficit fiscal] e um maciço declínio na demanda externa. Esses choques negativos vão mais que superar os efeitos positivos do preço cadente das commodities e dos substanciais estímulos fiscal e monetário".

"Os bancos da eurozona serão particularmente afetados pelo agudo enfraquecimento dos mercados emergentes, aos quais estão muito mais expostos que os bancos dos EUA e Japão. Os bancos da eurozona também investiram muito no Leste Europeu, onde estão concentrados os mercados emergentes que sofrerão provavelmente os piores efeitos [da crise]."

O PIB do Reino Unido deve encolher 3,2% (e mais 1,1% em 2010); o da Alemanha, mais de 2%. Itália e França: entre 2% e 3%.

Má notícia para o Brasil, pois as exportações brasileiras para a Europa vinham crescendo bem.

Ásia e Australásia: choque comercial

"O crescimento na Ásia e Australásia (excluído o Japão) deve declinar fortemente em 2009 para 2,6%, com uma recuperação apenas moderada para 4,5% em 2010... Um motivo para o resultado fraco é a alta exposição da Ásia ao ciclo global de comércio em geral e a sensibilidade das exportações ao desempenho econômico do mundo desenvolvido em particular".

China

A estimativa da "EIU" para o crescimento chinês baixou de 7% para 6% devido à "aguda deterioração de indicadores econômicos, tais como a queda nas exportações em dezembro e um agudo declínio nas importações, o que indica um enfraquecimento da demanda doméstica".

"Para uma economia do seu tamanho, a China é também exposta de modo inusual á demanda externa, que responde por 15% a 20% do valor adicionado bruto e por 39% do PIB". O pacote de estímulo lançado no final de 2008 não deve ter grande efeito (era, na maior parte, diz a EIU, composto de dinheiro velho). 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h52

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"O maior cheque especial da história"

 
 

"O maior cheque especial da história"

A estatização de parte significativa da oferta de crédito no Brasil é o tema da coluna de hoje (23/1) na Folha, que o assinante lê na íntegra aqui.

Trechos:

"O governo Lula criou ontem o maior cheque especial da história brasileira. Colocou à disposição das empresas um limite de até R$ 100 bilhões, que podem ser emprestados por meio do BNDES. O BNDES terá, então, cerca de R$ 166 bilhões para emprestar em 2009, uns US$ 75 bilhões a mais do que emprestou no ano passado.
O governo Lula lançou, pois, um programa de empréstimos a custos provavelmente subsidiados que deve cobrir e segurar quase toda a baixa estimada na disponibilidade de financiamento privado em 2009. O governo estatizou a seca de crédito.

A linha de crédito de R$ 100 bilhões representa, por exemplo, 8% da dívida mobiliária federal. Em 2008, o estoque de crédito para as empresas aumentou cerca de R$ 96 bilhões (considerado só o crédito dito "livre", privado, e excluídos o leasing e o crédito livre rural). No mercado de capitais, as empresas captaram uns R$ 70 bilhões (nos 12 meses até novembro, contado o dinheiro captado em ações, debêntures e notas promissórias).
Isto é, a linha de crédito estatal criada ontem representa cerca de 60% do incremento de fundos para empresas em 2008. Sim, a conta tem algo de alhos com bugalhos (mas nem tanto) e de "conta de chegada", mas serve para dar uma dimensão da medida de ontem.

Não saberemos ainda se, com o "auxílio", as empresas vão investir mais, se vão manter projetos ou se apenas vão trocar linhas caras por crédito estatal. Há várias modalidades de empréstimo no BNDES. A "básica" tem custo de TJLP mais "spread" básico (do BNDES) mais "spread" de risco (dos bancos intermediários). Tudo somado, pode sair a um custo de 13%, 14% ao ano. Ainda salgado para quem até 2008 captava no exterior.

Uma vantagem de o governo gastar via BNDES (e vai gastar, pois há subsídio) é que BNDES e empresas são mais ágeis que o governo, vide o lerdo PAC. Outra vantagem é que o dinheiro estará lá para a empresa que achar que deve investir -pelo menos, o governo não vai gastar em "pirâmides". A "pressão competitiva" do BNDES pode, ainda, fazer com que os bancos privados se mexam mais, dado o risco de perder algum bom negócio. Um risco é o de estimular investimentos inviáveis neste cenário recessivo (o que implica risco maior de calote privado). O governo terá como garantias ações de empresas na carteira do BNDES."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h33

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Blogueiro em dívida

Perdão aos leitores fiéis pela escassez de posts nesses últimos dois dias. Os dias estão corridos na redação (tenho também coluna na Folha etc), com Copom, R$ 100 bilhões para o BNDES e outras tarefas. Espero voltar a ficar em dia a partir de amanhã.

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h34

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Tarifas esquisitas dos bancos

Recebi mensagens de leitores que acabam de receber uma cobrança nova e esquisita dos bancos. Ao que parece, os bancos estão cobrando uma tarifa por oferecer um limite de crédito no cheque especial _não pelo uso.

Procurei minha colega Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Pro Teste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor) e colunista da Folha, onde escreve a cada 15 dias no caderno Cotidiano e que atua há quase 20 anos na área de defesa do consumidor. O que ela tem a dizer não é muito animador:

"Ao regulamentar as tarifas bancárias em abril de 2008 o Banco Central permitiu a cobrança da tarifa de renovação cadastral, duas vezes por ano. De acordo com o BC poderia ser cobrada a taxa quando houvesse prestação de algum serviço como o pedido de um empréstimo, mas as instituições financeiras alegam que ao disponibilizar o acesso ao crédito no momento em que o cliente desejar (inclusive com a possibilidade de contratar no caixa eletrônico) precisam manter o cadastro atualizado. A Pro Teste enviou ofício ao BC mas o absurdo é que respondeu aprovando a postura dos bancos, que fazem a cobrança em várias vezes."

De todo modo, fica o telefone do BC para queixas: 0800-979-2345

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h53

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"A bola agora está com os bancos"

 
 

"A bola agora está com os bancos"

A coluna de hoje na Folha trata do corte de juros de ontem. Assinante lê a íntegra do texto aqui.

Trechos:

"Em termos proporcionais, preto no branco, em outras sete ocasiões o Banco Central já reduzira com mais rapidez a taxa "básica" de juros. Mas tal coisa ocorrera nos tumultos de 1999 e 2003. ... Considerado o contexto de modo mais qualitativo, digamos, pode-se considerar que o Banco Central realizou ontem o maior talho na taxa de juros nesta década de regime de metas de inflação, baixando a meta da Selic para 12,75% ao ano.
Muita gente dirá que, com uma taxa de 13,75% ao ano e risco de recessão à vista, o Copom cortou gordura ou vento (e com má vontade, pois o placar foi de cinco votos pelo corte de um ponto contra três diretores que pediam apenas 0,75). No mercado futuro de juros, o contrato para fevereiro de 2009 (referente pois a janeiro) fechou ontem a 12,81%; o de março, a 12,77%. Isto é, deu de barato, de graça, a Selic a 12,75%. O BC, pois, estaria só pegando uma onda que está baixando muito rápido.

Isto posto, o fato é que a taxa real de juros "básicos" na praça deve cair agora para a casa dos 5%, patamar nunca dantes navegado, e pode cair mais. Ainda assim, a reação dos bancos é uma incógnita. Desde outubro, os bancos elevaram escandalosamente juros e "spreads" (a diferença entre o custo pelo qual captam dinheiro e a taxa pela qual emprestam, vide gráfico). Desde novembro, a taxa real de juros cai rápido no mercado. Chegamos ao ponto mesmo de Henrique Meirelles espinafrar os bancos por causa disso.

Os diretores do BC tiraram um bode incômodo da sala (da sala deles em especial). Rolaram a bola política para bancos e governo até que (e se) a recessão piore e os juros caiam mais na praça. O resto do governo perde temporariamente um escudo político. Em tese, terá de mostrar mais serviço "anticíclico". Mas, se gastar demais, vai solapar essa oportunidade única de contribuir para um corte histórico na Selic. Melhor do que colocar um esparadrapo popular na crise é preparar o país para uma retomada forte, com juros baixos e contas públicas em ordem."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h49

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"O grande massacre de empregos"

 
 

"O grande massacre de empregos"

Na coluna de hoje (21/1) na Folha, escrevo sobre a redução do número de novos empregos formais, que começou de maneira generalizada já em outubro, atingindo especialmente indústrias como a de alimentos e a de vestuário (mais ainda que a metalúrgica e de transporte). Os dados de dezembro mostraram que aquela parada brusca não foi acidental. Afetou tanto setores que dependem mais de crédito e de exportações como os que vendem bens de menos valor no mercado doméstico; afetou indústria, comércio e serviços. Assinante lê a íntegra do texto aqui.

Trechos:

"De setembro para outubro, no início do grande massacre de vagas, os setores que mais acusaram o golpe foram o de alimentos e de calçados. A indústria mecânica vinha logo a seguir e, os demais setores, material de transporte inclusive, reduziram a criação de postos de trabalho mais ou menos no mesmo ritmo (medida tomada em relação ao estoque total de empregados formais).

Decerto no caso do grupo "tecidos, vestuários e calçados", da pesquisa de comércio do IBGE, a queda na vendas já era forte em outubro, de 5,7%. Mas bem inferior ao desastre nos bens duráveis. Foi nessas indústrias que o contágio externo chegou quase sem baldeações. Ou melhor, a seca de crédito global e a barbeiragem cambial de algumas megaempresas brasileiras bateu nos bancos daqui, que cortaram empréstimos e elevaram os juros.
Mas alimentos, calçados e roupas não são os setores que mais dependem de crédito, para dizer o menos.

Em setembro, o mercado formal de trabalho ainda não acusava efeitos da crise externa. Os dados sobre emprego do IBGE ainda eram positivos. Havia especulações sobre o esgotamento da capacidade das famílias de se endividar, mas a massa salarial crescia e a inadimplência estava mais do que comportada.

Mas, de setembro para outubro, a baixa na oferta de emprego formal foi brusca e generalizada, na indústria, no comércio e nos serviços. A redução na criação de vagas nessa virada de trimestre, típica e que flutuara em torno de 29% desde 2004, foi a 78% em 2008. O que houve?

A taxa real de juros subira, sim. Mas tal fator não tem o poder de arrasar o ânimo empresarial de hora para outra. A catástrofe de setembro na economia dos países ricos pode ter apagado a esperança restante de "descolamento" da crise mundial. O "choque de confiança" foi bruto, mas ainda espanta que tenha ocorrido de maneira tão imediata, na acepção precisa do termo. Fabricantes de alimentos, por exemplo, pararam de contratar de maneira brusca antes que sentissem a deterioração da renda das famílias e do crédito. Os dados de novembro sobre a indústria (CNI, IBGE) e comércio, e os dados do Caged de dezembro apenas reproduzem de modo ampliado o que ficara evidente em outubro."
 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h42

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Os posts de hoje: juros, juros e mais juros

Os posts mais recentes (20/1):

  1. O ranking dos juros: aquisição de bens;
  2. O ranking dos juros: capital de giro;
  3. O ranking dos juros: compra de veículos;
  4. Juros caem um tico, diz Procon;
  5. Juros na praça caem ainda mais;
  6. Posse de Obama: "Conta aí sua emoção";
  7. "Quando 0,75 é igual a zero" (coluna na Folha).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h20

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O ranking dos juros: aquisição de bens

Leitores pediram que o blog divulgasse o ranking dos bancos que cobram as menores taxas de juros. Aí vai. O ranking é elaborado pelo BC.

Os dados abaixo dizem respeito a taxa média de juros efetiva de cada banco, incluídos encargos operacionais e fiscais, para a aquisição de bens (que não veículos automotores), para pessoa física (taxas prefixadas, ao mês), apuradas entre 31/12/2008 e 07/01/2008.

Nos posts abaixo, publiquei também os rankings para aquisição de veículos e para capital de giro.

Para consultar as dúzias de outras taxas apuradas pelo BC (e os respectivos rankings de bancos), basta ir ao site do BC ou clicar aqui. No site do BC, caminho é o seguinte: ir ao site do BC: www.bcb.gov.br

  1. No menu da esquerda, clicar em "Sistema Financeiro Nacional";
  2. No menu aberto na esquerda, clicar em "Informações sobre Operações Bancárias";
  3. Nesse item aberto, à direita, procurar por "Taxa de Operações de Crédito";
  4. Nesse item, clicar em "Dados por Instituição Financeira";
  5. Abre-se um texto. No final desse texto, clicar em "Continuar". Pronto.

Como diz o próprio site do Banco Central: "As informações apresentadas são de responsabilidade das instituições financeiras. Em caso de dúvida, favor procurar a instituição financeira para obter maiores esclarecimentos. Eventuais reclamações devem ser dirigidas a esta Autarquia pelo telefone 0800-979-2345."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h12

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O ranking dos juros: capital de giro

Leitores pediram que o blog divulgasse o ranking dos bancos que cobram as menores taxas de juros. Aí vai. O ranking é elaborado pelo BC.

Os dados abaixo dizem respeito a taxa média de juros efetiva de cada banco, incluídos encargos operacionais e fiscais, para capital de giro (taxas prefixadas, ao mês), apuradas entre 31/12/2008 e 07/01/2008.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h58

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O ranking dos juros: veículos

Leitores pediram que o blog divulgasse o ranking dos bancos que cobram as menores taxas de juros. Aí vai. O ranking é elaborado pelo BC. Os dados abaixo dizem respeito a taxa média de juros efetiva de cada banco, incluídos encargos operacionais e fiscais, para a compra de veículos automotores por pessoa física (taxas prefixadas, ao mês), apuradas entre 31/12/2008 e 07/01/2008.

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h53

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Juros caem um tico, diz Procon

Juros de empréstimo pessoal e cheque especial registram queda, diz Procon

da Folha Online20/01/2009 - 10h08)

A Fundação Procon-SP registrou queda nas taxas médias dos juros bancários nos empréstimos pessoais e no cheque especial, após sucessivas altas, segundo pesquisa divulgada nesta terça-feira. A pesquisa foi realizada no último dia 12.

Segundo o Procon, a taxa média dos bancos pesquisados foi de 6,01% ao mês, inferior aos 6,25% ao mês vistos na pesquisa realizada há um mês -- uma queda de 0,24 ponto percentual. Já a taxa média do cheque especial ficou em 9,25% ao mês, contra 9,33% ao mês em dezembro --queda menor, no entanto, de 0,08 ponto percentual.

As dez instituições financeiras pesquisadas foram: Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, HSBC, Itaú, Nossa Caixa, Real, Safra, Santander e Unibanco.

As quedas nos juros para empréstimo pessoal foram registradas no Banco do Brasil (de 6,50% para 4,99% ao mês); Real (de 8,15% para 7,45%); HSBC (de 4,83% para 4,62%); e Caixa (de 4,49% para 4,44%). Os demais bancos mantiveram suas taxas de empréstimo pessoal.

Já no cheque especial, os juros caíram no: Banco do Brasil (de 8,62% para 7,99%); na Caixa (de 7,98% para 7,49%); e Nossa Caixa (de 8,50% para 8,80%).

"As taxas de juros continuam muito altas e o consumidor deve planejar seu orçamento com critério, priorizar o pagamento de dívidas e recorrer ao crédito somente em casos de real necessidade, utilizando o cheque especial somente em situações emergenciais e de curto prazo", avalia o Procon.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h24

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Juros na praça caem ainda mais

Um dia antes da decisão do Copom sobre juros, as taxas do mercado futuro, na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), davam mais que de lambuja um corte de 0,75 ponto percentual na Selic (de 13,75% para 13%).

O contrato de DI para fevereiro de 2009 (que se refere ao final de janeiro) fechou em 12,94%. Para março de 2009, em 12,84%. Cortando a Selic para 13%, o BC fica atrás do mercado.

O contrato para um ano, com vencimento em janeiro de 2010, o mais negociado, caiu para 11,24%. Já deu de barato um corte de 2,5 pontos na Selic até lá. Isto é, dava de barato hoje. Se a economia continuar a descer a ladeira e a inflação ficar na meta (e praticamente já está), é possível que a baixa dos juros seja ainda maior.

Se a única consideração do Banco Central fosse correr "atrás do prejuízo" (ou da "curva de juros" de mercado), a Selic cairia amanhã para 12,75%.

Juros "básicos" e nos bancos

Leitores do blog escrevem para dizer que tanto a Selic como o piso dos juros na praça (no mercado) são irrelevantes "na ponta", para consumidores e famílias que pegam empréstimos, dada a absurda diferença entre o custo do dinheiro para consumir ou para investir e o dos juros "básicos".

Bem. É e não é verdade. Se o piso na praça permanecer alto, nenhuma outra taxa específica (para comprar carros ou para capital de giro, por exemplo) deve cair. Taxas "básicas" mais altas aumentam custo e risco de investir (se posso deixar meu dinheiro parado em títulos rendosos do governo ou em CDBs, digamos, para que vou me arriscar a investir ou a comprar agora?). De resto, para alguns bens como automóveis e imóveis, as mudanças nos juros básicos são relevantes, sim (isto é, "tudo mais constante", se não estiver ocorrendo um choque mundial de crédito, uma onda de falências ou de inadimplência etc).

Quanto às taxas que os bancos cobram, seus "spreads" monumentais, essa é outra história. Não vai ser com decisões de política monetária que tal situação vai se alterar. A polêmica sobre as alturas extravagantes dos spreads nos bancos brasileiros é enorme e infinita (os spreads dependem de custos e eficiência bancários, impostos, inadimplência, risco jurídico, nível de concorrência, nível de informação do público, nível de compulsórios e, claro, da margem de lucro dos bancos). E o debate e as realidades sobre os spreads não vão se mover amanhã nem um milímetro, qualquer que seja a decisão do Copom.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h09

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Posse de Obama: "Conta aí a sua emoção"

A cobertura da TV, brasileira em particular, da posse de Obama parecia transmissão de desfile de Carnaval. Muita informação factual básica errada e/ou lida às pressas em releases, falta de assunto, observação de banalidades e irrelevâncias e "âncoras", ou coisa que o valha, chamando repórteres em Washington para idiotices como "conta aí sua emoção, fulano". Um ridículo atroz. 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h08

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"Quando 0,75 é igual a zero"

 
 

"Quando 0,75 é igual a zero"

Se o BC cortar 0,75 da Selic, para 13% ao ano, só chancela corte que o mercado já fez; mas a vida não se resume à Selic _é o mote da coluna de hoje (20/1) na Folha. Na coluna, procuro relatar o que tem acontecido no mercado de juros e avalio que um corte de 0,75 ponto percentual apenas vai ajusta à Selic a um "corte" que o mercado já fez, na prática. Para ter algum efeito adicional, o BC deveria levar a Selic menos de 13%. Assinante lê a íntegra do texto aqui.

Trechos:

"O mercado (em suas transações de dinheiro no atacado) já derrubou os juros. A taxa de juro real está em torno de 6,3% e caindo (trata-se da taxa do contrato de juros para daqui um ano descontada a inflação esperada para esse período: o "swap" de 360 dias deflacionado pela expectativa do IPCA). Jamais foi tão baixa na década do regime de metas de inflação.

"Se o juro "básico" da praça baixou tanto, embora ainda recorde mundial, o BC não precisa fazer nada? O BC pode empurrá-lo mais para lá, ou mais para cá, e reger o compasso das baixas futuras no mercado. Desde o início do regime de metas, BC e mercado em geral andam pari passu, afora momentos de choque (apagão e crise de 2001, eleição de Lula em 2002) e de uma ou outra defasagem não lá muito significativa.

"Mas, no jargão, diz-se que o BC agora está "atrás da curva" (da "curva de juros"): o mercado projeta juros cada vez menores, de hoje até meados de 2010, subindo um tico a partir daí. Se estivéssemos num país de longa história de estabilidade e previsibilidade econômicas, a atual "curva de juros" brasileira estaria a dizer que, para o mercado (financeiro), a Selic está alta demais, e tal indicação seria muito razoável.

"Essa "curva de juros" aparece no gráfico que relaciona taxas de juros de títulos ou contratos futuros (no eixo vertical) a seu prazo de vencimento (no eixo horizontal). Quando muito inclinada para cima, em tese indica que o mercado espera PIB, inflação e juros mais altos no futuro (isto é, contratos ou títulos que vencem em prazo mais distante pagam taxas bem mais altas do que os juros "curtos"). Em tese, a recíproca é verdadeira. A "curva de juros" brasileira (a do DI futuro) está bem inclinada para baixo, indicando economia em recessão e juros em baixa.

"A considerar os demais indicadores econômicos, porém, parece que não há muita dúvida sobre o destino de PIB, inflação e juros, mesmo do ponto de vista do BC e dos adeptos estritos do regime de metas. E a expectativa de inflação para os próximos 12 meses já foi para a meta (a não ser para alguém que se incomode com os aleatórios decimais)."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h06

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Pacote Lula, caos britânico, déficit comercial e pudim

Quando a lista de posts fica comprida, segue um índice para ajudar. Os posts mais recentes:

  1. O novo pacote do governo e as centrais;
  2. Fiat pode comprar Chrysler;
  3. Diário da Crise: o desastre bancário britânico;
  4. Déficit comercial põe o nariz para fora, 1;
  5. Déficit comercial põe o nariz para fora, 2;
  6. Cobrança esquisita dos bancos;
  7. "O ambiente pastoso da 'pax luliana'" (coluna Folha);
  8. Cozinha Liberal: ovos e o melhor pudim;
  9. Cozinha Liberal: "o melhor pudim do mundo";
  10. Cozinha Liberal: ovos, breve introdução prática;
  11. Cozinha Liberal: omelete;
  12. Cozinha Liberal: ovos mexidos e outros básicos.

 

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h13

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O novo pacote do governo e as centrais

As centrais sindicais levaram um pacote de pedidos para Lula, na reunião de hoje. Querem aumentar a duração do seguro-desemprego para 10 meses. Redução da jornada de trabalho sem redução de salário. Aumento imediato do salário mínimo. Condicionar a ajuda a empresas (como redução de impostos) à manutenção do nível de emprego em cada empresa "auxiliada". Querem corte de impostos (ICMS e sistema S). E redução do superávit primário, esta uma ideia completamente de jerico.

O governo não sabe o que vai lançar no pacote que prepara. Ou não sabemos o que eles preparam. Por ora, de mais certo é o pacote habitacional: aumento do limite do valor do imóvel financiado, ampliação do uso do FGTS (não descobri de qual maneira), subsídio maior para compradores de casa com baixa renda.

O governo também pensa em cortar mais impostos, mas não sei quais nem quanto. E vai aumentar a duração do seguro-desemprego, não sei para quantos meses.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h08

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Fiat pode comprar Chrysler

A Fiat pode comprar 35% da Chrysler, segundo apurou o "Financial Times".

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h57

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Diário da Crise: o desastre bancário britânico

O Reino Unido reforçou o pacotão de estatização e de garantias de dívida bancária. Converteu dívida cara do Royal Bank of Scotland (RBS) com o Estado em ações. Ficou com 70% do capital do banco, que assumiu "riscos irresponsáveis", segundo Gordon Brown. Mas o ministro da Fazenda deles disse que os bancos devem voltar ao controle privado, que sabe administrar bancos, ao contrário do Estado. Pode ser, mas parece que chegamos a uma situação de "cruz e caldeirinha". Por que o RBS, em mãos privadas, era tão mal administrado? Na mão do governo vai acontecer então o quê?

De resto, o governo britânico vai garantir a emissão de dívida nova dos bancos este ano inteiro. Vai garantir dívida de empresas. Vai garantir, enfim, um monte de papel podre (em suma, vai acabar com algum mico na mão).

O Grupo Lloyds já é 43,5% do governo. Teme-se estatização geral dos bancos (os que não estão no bico do corvo, como Barclays, podem ficar, por "contágio"). Os credores dos bancos não devem morrer na praia. Mas os acionistas não verão nem navios. Em vez de "tá tudo dominado", se pode dizer que "tá tudo diluído" (o capital, digo).

As ações dos maiores bancos britânicos viraram pó-de-traque, ontem.

O governo está colocando mais dinheiro nos banco simplesmente a fim de evitar que eles "quebrem": para que os bancos possam assumir mais prejuízos (que virão, pelo jeito) sem que ultrapassem o limiar de capital mínimo. Isto é, em suma, os bancos britânicos estão quebrados _ao menos os que recebem o dindim do público britânico.

O governo teme ficar com um papagaio (papéis podres) de mais de um trilhão de libras. Mas está garantindo empréstimos a fim de fazer com que os bancos emprestem, para que as empresas emitam papéis e alguém os compre. Para destravar o crédito.

A piada maior e mais tétrica é que, segundo o "Financial Times", o governo britânico está sendo assessorado pelo Deutsche Bank e pelo Credit Suisse na avaliação do papelório podre dos bancos britânicos (isto é, precisam saber o tamanho do provável mico a fim de saber como e quanto garantir com fundos públicos). Como é que a segunda pátria das finanças chegou a esse estado de coisas? Shame on you!

Como o Banco da Inglaterra (o BC deles) vai poder comprar dívida de bancos e empresas (dívida de "alta qualidade"...), o fato é que os britânicos vão na prática imprimir libras a fim de melhorar o capital dos bancos e de socorrer credores de empresas (e empregos, claro, "na margem"). o "BoE" (Banco da Inglaterra) aderiu ao Fed, o BC dos EUA, que, como diz Maria da Conceição Tavares, faz meses "desconta até duplicatas".

Por fim: a Comissão Européia divulgou ontem a projeção para o PIB de 2009 da eurozona: retração de 1,9%.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h54

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Déficit comercial põe o nariz para fora, 1

Quando se trata de balança comercial, um mês de resultado diz quase nada sobre a tendência _e o mês nem terminou. Ainda mais quando se trata de janeiro. Mais ainda quando se trata de um período de transição tão violenta na economia do mundo.

Mas os dados de janeiro são preocupantes. Estão com toda a cara de inaugurar um déficit. Como havia sido comentado na coluna da Folha, reproduzida em parte neste blog, de quinta passada, 15 de janeiro:

"'Déficit' comercial"

Economistas do Unibanco chamam a atenção para o fechamento de câmbio no comércio exterior de dezembro: ficou negativo pela primeira vez desde outubro de 2001 (US$ 119 milhões). No primeiro terço de janeiro, está negativo em US$ 510 milhões. Trata-se do dinheiro que de fato entra e sai na conta de exportações e importações. Não é, pois, o saldo comercial.

O tombo em outubro de 2001, em relação à média dos 12 meses antecedentes, foi de cerca de US$ 1,2 bilhão. Em dezembro de 2008, foi de US$ 4,3 bilhões. O dado de um mês da conta comercial não diz muita coisa. Mas assusta, dado o contexto do tropeço assusta. A balança do ano é uma incógnita. Além do preço de commodities e do tamanho da recessão no mundo rico, o desempenho da balança comercial depende muito do saldo de combustíveis. Incluindo combustíveis, a queda do saldo bate em 34% (em 12 meses). Sem combustíveis, a redução foi menor, em torno de 21%.

Notícia mais animadora foi a do nível de financiamento dos exportadores. Voltou ao que era antes da explosão da crise, em setembro de 2008: os ACCs ficaram em torno de 30% da entrada de dinheiro de exportação. Mas, no conjunto da ópera, as notícias continuam 'aziáticas', de dar azia, como diz Lula."

Trecho do texto da nota do Ministério do Desenvolvimento sobre a balança em janeiro (até a terceira semana):

"Nas exportações, comparadas as médias até a 3ª semana de janeiro/2009 (US$ 475,8 milhões) com a de janeiro/2008 (US$ 603,5 milhões), houve queda de 21,2%, em razão da retração nas vendas das três categorias de produtos: manufaturados (-37,0%, de US$ 312,0 milhões para US$ 196,6 milhões, por conta de autopeças, aviões, automóveis, laminados planos, pneumáticos, polímeros plásticos e calçados), básicos (-2,7%) e semimanufaturados (-2,1%).

Nas importações, a média diária até a 3ª semana de janeiro/2009, de US$ 511,3 milhões, ficou 9,0% abaixo da média de janeiro/2008 (US$ 561,6 milhões) e 2,3% inferior a dezembro/2008 (US$ 523,5 milhões). No comparativo com janeiro/2008, retrocederam os gastos, principalmente, com adubos e fertilizantes (-59,2%), cereais (-47,2%), combustíveis e lubrificantes (-29,0%), aparelhos e instrumentos eletroeletrônicos (-23,9%), farmacêuticos (-23,3%) e instrumentos de ótica e precisão (-13,5%).

No post abaixo, segue o resultado da balança em 2007 e 2008.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h27

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Déficit comercial põe o nariz para fora, 2

A seguir, os dados sobre a balança comercial em 2007 e 2008 (leia o post acima):

Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h27

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Cobrança esquisita dos bancos

Estou recebendo mensagens de leitores que acabam de receber uma cobrança nova e esquisita dos bancos. Ao que parece, os bancos estão cobrando uma tarifa por oferecer um limite de crédito no cheque especial _não pelo uso.

Mas, como recebi mensagens apenas fragmentadas sobre esse novo tipo de cobrança, não consigo entender bem do que se trata (de resto, nada entendo sobre burocracia e normas bancárias. Por favor, enviem mais detalhes a respeito da cobrança (quanto, para quê, em que qual situação e qual foi a mensagem recebida dos bancos, na íntegra) a fim de que eu possa ao menos tentar descobrir do que se trata.

Trechos das mensagens de dois leitores:

1) "Recebi a correspondência de um grande banco estrangeiro dizendo "que o limite de crédito terá cobrança de tarifas". Isso mesmo, o limite de crédito e não o uso do limite terá cobrança de tarifa.";

2) "Acabo de receber uma correpondência do [BANCO X] informando que cobrará por me dar LIMITE de crédito. Não é pelo uso do crédito é somente por ter o limite! Não pedi para ter este limite: eles aumentaram e agora me cobram pelo limite...Transcrevo parte da carta que trata do assunto: "O limite de crédito do Cheque Especial terá incidência de encargos mensais, relativos 'a manutenção do limite de crédito".

Se outros leitores tiverem recebido o mesmo aviso, por favor, mandem mensagens para o blog. Vamos ver o que dá para fazer.

 

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h43

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"O ambiente pastoso da 'pax luliana'"

 
 

"O ambiente pastoso da 'pax luliana'"

Na coluna de domingo trado de política nesse início de crise, momento em que grupos e/ou "classes" "redescobrem", na prática, que seus interesses são conflitantes, interesses que pareciam ter perdido suas arestas no esquema da "concórdia luliana", baseada em alguns anos de crescimento bom, encaixe de movimentos sociais no governo, distribuição de "Bolsas sociais" etc.

Assinante lê a íntegra do texto aqui.

Trechos:

"A ascensão final do lulismo, que sugou e embalsamou o petismo, provocou uma radicalização por assim dizer simbólica. Lula e o conjunto de sua obra são detestados por uma minoria, minoria porém muita vez "orgânica", entre eles a direita que agora ousa dizer o seu nome, embora esse partido direitista ainda viva mais restrito ao mundo das palavras. Mas, afora essa minoria, o resto é uma mistura avacalhada.

"Note-se que a grande empresa ou seus órgãos de classe são pela "responsabilidade social". Quando mais políticos, constituem uma ala do partido desenvolvimentista. Este é uma colcha de retalhos mal costurada de industriais paulistas (e seus tentáculos no resto do país), economistas "heterodoxos", da cúpula petista no governo etc. Batem-se com o BC e, em parte, com os bancos.

"A oposição política, em suma partidos fora do poder federal, limita-se a esperar uma oportunidade de ir à jugular de Lula a fim de ganhar a eleição. Não entra no debate público, não tem projeto político ou nacional, vota populismos com o governo e tira casquinhas. Nada mais. A Casa das Garças, instituto de pesquisa de economistas liberais, muitos tucanos e financistas, é um partido mais relevante e infinitamente mais inteligente que PSDB e DEM.

"O que restou da oposição "popular"? De petismo, centrais sindicais, "movimentos sociais", MST, ONGs? Cumpriram a profecia debochada de FHC. Encaixaram-se no Estado ou são por ele manipulados, caso de centrais sindicais (CUT, Força, tradicionalmente pelega etc.). O MST ora faz só chacrinhas ocasionais, manietado pela adesão a Lula e algo esvaziado pelo efeito das bolsas sociais. ONGs e "movimentos sociais", que sempre tenderam à despolitização, negociam seus pleitos diretamente com burocratas lulianos, vários deles ex-líderes "sociais".

"Os sindicatos perderam força e coesão com a abertura econômica e a desconcentração industrial, faces da mesma moeda. De resto, as centrais sindicais se fragmentaram e parte delas está em sintonia com o governo e/ou aceita o desmonte da lei trabalhista (que demanda reforma, não desmonte). No fim das contas, é como se "trabalho e capital" tivessem aparado arestas no "Conselhão" de Lula, o que não é possível além da ideologia, mas ocorre politicamente, ao menos até agora."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h40

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Cozinha Liberal: ovos e o melhor pudim

 
 

Cozinha Liberal: ovos e o melhor pudim

"Cozinha Liberal", seção quase semanal deste blog, procura dar asilo a ingredientes banidos pelo preconceito dietético e pelo esnobismo culinário. Mesmo com o aumento da volatilidade das modas de comer e das manias gastronômicas, os ovos não parecem nem mesmo voltar à média das preferências (das mais midiáticas, ao menos). Sofrem uma secular tendência de baixa.

Ontem, o blogueiro resolveu comer um doce com ovos: um pudim de leite. O leite apenas se torna pudim devido ao reforço arquitetônico dos ovos. É de ovos que vai tratar o "Cozinha Liberal" desta semana: segue a receita do "melhor pudim de leite do mundo" e das dicas básicas para dar um bom tratamento aos ovos e às receitas básicas com ovos.

"Crème caramel" ou pudim?

Em francês, o que chamamos de pudim de leite é  "crème caramel". O "crème brulée", que faz uns anos era moda nos restaurantes (como aconteceu com o "petit gâteau"), é apenas um "crème caramel" coberto de açúcar caramelizado, "queimado" ("brulée") [CORREÇÃO: NÃO É. A leitora Berenice Goelzer ensina que o "crème brulée" é feito com creme. Nas receitas, há uma "divergência" sobre se se mistura leite ao creme, ou apenas vai o creme, ou se o creme a ser utilizado é mais espesso ou líquido. Mas a receita leva creme. A mensagem de Berenice está nos comentários].

Por que traduzir o popular pudim de leite para o francês? Por que existe o costume de misturar algo além de ovos e leite ao preparado básico do pudim, ao preparado básico do "crème caramel", que é o autêntico pudim de leite.

Isto é, hoje em dia, mistura-se leite condensado aos ovos batidos com leite. No passado, se misturava maizena e até farinha de trigo. A idéia era dar "consistência" ao pudim. Mas, desse modo, se consegue apenas um pudim mais pesado e de sabor menos sutil.

A seguir, a receita do "melhor pudim de leite do mundo". Para fazer um pudim ideal, é melhor começar o preparo com um dia de antecedência. O pudim pode ser cozido numa forma "furada" (um pirex em forma de "savarin") ou em forminhas ("ramequin", aqueles potinhos brancos com o exterior canelado).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h15

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Cozinha Liberal: o "melhor pudim do mundo"

 
 

Cozinha Liberal: o "melhor pudim do mundo"

A receita do "melhor pudim de leite do mundo":

Para o caramelo

150 g de açúcar

4 colheres de sopa d'água

3 colheres de sopa de xarope de milho (que ajuda a evitar a caramelização precoce da calda de açúcar. Se encontra em bons mercados e em lojas de produtos orientais, em geral importado, sob o nome de "corn syrup" _óbvio. Uso um xarope coreano ótimo. SE PREFERIR fazer sem o xarope, dobre a quantidade d'água).

Para fazer a calda de caramelo:

Junte açúcar, água e xarope. Ligue o fogo médio e cozinhe, sempre mexendo, até a mistura ficar da cor "caramelo escuro" (deve demorar de 10 a 15 minutos). Se começar a soltar fumaça, a calda já está queimando. Cuidado. E cuidado PARA NÃO SE QUEIMAR. Mexa a calda SEMPRE segurando o cabo da panela com a outra mão. Tire as crianças de perto. Queimadura de calda de açúcar é horrível.

Quando pronto o caramelo, junte uma colher de água quente. Misture. Despeje a mistura na forma única, de uma vez só; erga a forma e a incline para os lados, a fim de distribuir regularmente a calda de caramelo pelo fundo e pelas paredes dos potes. Faça o mesmo com as forminhas, mas trabalhe mais rápido aqui. As formas com caramelo podem ser reservadas por até dois dias.

Para o pudim

1 litro de leite tipo A integral (nada de leite desnatado)

225 g de açúcar

5 ovos inteiros

3 gemas de ovos

1 fava de baunilha (ou 2 colheres de chá de extrato de baunilha. Extrato de baunilha NÃO É a mesma coisa que essência ARTIFICIAL de baunilha, que é o que mais se encontra nos mercados. Não sei o quanto se usa de baunilha artificial, que deixa o pudim com gosto de flan industrializado).

Para fazer o pudim

Corte a fava de baunilha pela metade, no sentido do comprimento. Junte açúcar, favas e o leite. Leve a mistura à fervura, em fogo médio, mexendo para dissolver o açúcar. Quando parecer que o leite vai ferver, desligue o fogo. Deixe amornar.

Enquanto o leite quase ferve, bata os ovos em um recipiente que possa receber o litro de leite. Quando a mistura de leite estiver morna, junte-a aos ovos, aos poucos, misturando sempre, de preferência com um batedor de arame ("fouet") ou com um garfo grande. Coe a mistura por uma peneira bem fina.

Para o pudim ficar melhor, deixe a mistura descansar pelo menos uma noite (um dia inteiro é melhor). Deixe a mistura descansando na geladeira (bem coberta com um filme plástico, para o doce não "pegar" cheiros da geladeira).

Para cozinhar

Aqueça o forno a 160º (a temperatura mais baixa, nos fornos caseiros). Ferva cerca de um litro d´água. Forre uma forma de metal (tipo uma assadeira) com um pano de prato limpo. Coloque a forma do pudim (ou as forminhas) dentro da assadeira, sobre o pano de prato.

Despeje a mistura de leite e ovos nos potes ou na forma. Cuidadosamente, despeje a água fervendo na assadeira (a água deve chegar pelo menos até a metade dos potes de pudim, que cozinha em banho-maria). O pano de prato dá estabilidade aos potes. No forno, quando a água começa a ferver, os potes podem "dançar" sobre as bolhas, com o que o doce pode se estragar.

O doce fica ainda melhor se os potes forem cobertos de papel-filme (aqueles para assar frango, por exemplo. Tem nos supermercados). Se for usar: estenda um saco de papel-filme sobre os potes de creme. Coloque um "peso" sobre o papel-filme: pode ser um pirex, por exemplo.

Leve ao forno. Deve ficar pronto em torno de 40 minutos, mas teste a consistência do doce depois de 30 minutos de forno. Balance um pouco a forma: o doce ainda deve balançar, mas sem parecer aguado.

Deixe esfriar e ponha na geladeira. O doce fica melhor se descansar pelo menos umas 10 horas. Para servir, ferva um pouco d´água numa assadeira. Desligue o fogo. Coloque o fundo do pote ou da forma com o pudim nessa água quente, por uns dois minutos. Com a ponta de uma faca de lâmina fina, solte as bordas do doce das paredes dos potes. Inverta o pote no prato de servir, dê uma balançada e pronto _o doce solta.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h12

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Cozinha Liberal: ovos, breve introdução prática

 
 

Cozinha Liberal: ovos, breve introdução prática

1. Prefira os caipiras;

2. Lave os ovos e as mãos antes de continuar a trabalhar. Uma sujeirinha na casca do ovo pode causar problemas pós-digestão;

3. Deixe os ovos voltarem à temperatura ambiente antes de usá-los numa receita;

4. Para saber se estão frescos: coloque uma colher de chá de sal num copo d'água. Ponha o ovo n´água. Se o ovo deitar, está fresquíssimo. Se ficar de pé, ele está fresco ou menos que isso. Se boiar, não está fresco. Pode até estar podre;

5. Para abrir um ovo: não bata o ovo numa superfície aguda (beira de um copo ou de uma vasilha, por exemplo). Pedaços da casca, podem , assim, se misturar à gema e à clara. Prefira quebrar a casca numa superfície plana;

6. Não abra os ovos diretamente na mistura da receita em que trabalha. Os ovos podem estar estragados e, assim, arruinar todo o resto do seu trabalho. Abra os ovos, um por um, num copo. De resto, ao abrir os ovos separadamente, você ainda pode resgatar um pedaço de casca que possa ter se juntado à gema e à clara;

7. Para quem não consegue separar gemas de claras apenas com as mãos: quebre o ovo sobre um funil apoiado num copo. A clara escorre, a gema fica.

8. A leitora Walkiria dá um dica adicional : "Vinicius, você deve ter esquecido de falar sobre a "pele" da gema do ovo e a maneira de retirá-la. Quando ela é retirada o ovo perde o cheiro forte . Sem retirá-la o cheiro permanece inclusive em pudins longamente assados, doces a base de ovos e até bolos com muitos ovos, ah e omeletes também etc".  Para tirar a "pele" da gema é preciso habilidade: depois de separar a gema da clara, com a gema ainda na mão, sobre o recipiente onde vão ficar as gemas, é preciso "segurar" e apertar a gema, com o indicador e o dedo médio, no ponto onde fica aquele "broto" branco da gema: assim a gema cai no recipiente e a pele fica na mão. Pelo menos esse é o meu método.
walkiria marti 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h07

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Cozinha Liberal: omelete

 
 

Cozinha Liberal: omelete

Apesar das boas normas das escolas de cozinha, ainda há polêmica sobre como fazer boas omeletes. Segue a minha receita, sem o debate de alternativas.

Para uma pessoa:

2 ovos grandes;

1 colher de sobremesa de manteiga (rasa) e um fio curto de óleo de canola (uma colherinha de café);

Meia casca de ovo cheia de leite integral;

Sal, pimenta;

Uma espátula de material plástico ou madeira, bem fina, e frigideira antiaderente impecável.

 

Misture ovos, leite, sal e pimenta. Não bata os ovos: apenas os desmanche com um garfo, até a mistura ficar com uma cor homogênea (bater os ovos vai deixar a omelete mais seca e pesada).

Esquente a manteiga e o óleo até que comecem a fumar (na verdade, um pouco antes disso). Despeja a mistura de ovos na frigideira. Imediatamente, levante as bordas da mistura, que já endureceu um pouco, e a empurre em direção ao centro da frigideira. Assim, a parte já seca da mistura não queima e a parte líquida da mistura entra em contato com a frigideira e endurece. Abaixe o fogo para o mínimo. Repita a operação "levanta e empurra" até que não tenha sobrado mais líquido. Então, dobre a omelete em duas ou três partes (incline a frigideira e empurre com a espátula a parte que quer dobrar).

Está pronto.

Gosto de servir a omelete num prato em que esfreguei um limão e coloquei algumas ervas (quaisquer, a gosto). A omelete pode ser "recheada" com o que você quiser. Gosto de colocar duas colheres de sopa de queijo parmesão.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h06

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Cozinha Liberal: ovos mexidos e outros básicos

 
 

Cozinha Liberal: ovos mexidos e outros básicos

Ovos mexidos

Para o melhor resultado, têm de ser feitos numa panela mergulhada em banho-maria. Mistue os ovos, sem bater, e despeje a mistura na panela do banho-maria, já quente. Mexa sem parar durante uns cinco minutos (ou até chegar à consistência de que você mais gosta, embora os ovos mexidos devam ficar cremosos). Franceses misturam uma colher de sopa de creme fresco no final.

Dá para juntar o que se quiser aos ovos mexidos. Gosto de misturar aos ovos um salteado de cogumelos (champignons de Paris) com um pouco de alho, um tico de azeite e umas folhas de tomilho. E comer tudo com pão "de campanha", bebendo um vinho tinto muito leve, frutado e novo.

Ovos pochês

Ferva meio litro d'água (para três ovos por vez), sem sal, com uma colher de sobremesa de vinagre. A receita correta leva estragão, mas não há estragão fresco no Brasil (a planta que está à venda com esse nome não tem gosto de nada). Se achar um bom estragão seco importado, ótimo, use uma colher de chá rasa de folhas secas.

Quebre cada ovo numa xícara (de café, por exemplo). Aproxime e xícara da água fervente e, num golpe seco, derrube o ovo na água (não despeje, "lance" o ovo). Repita a operação com os outros dois ovos (cozinhe apenas três por vez). Abaixe o fogo e cozinhe por três minutos. Retire com uma escumadeira, passe rapidamente na água fria. Coloque sal, pimenta. Está pronto.

Ovos cozidos

Duros: deixe a água ferver e coloque os ovos. Quando a água voltar a ferver, conte não mais que 8 minutos. Para descascar: role o ovo numa superfície plana, com uma leve pressão, e o descasque sob água fria.

Gema mole: faça a mesma coisa, mas cozinhe os ovos por apenas três minutos.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h05

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Socialização do preju: EUA podem criar banco estatal

O governo Obama e a burocracia das finanças americana costura um pacote de socorro aos bancos que, entre outras coisas, pode incluir a criação de um banco estatal, instituição que recolheria o papelório podre da praça, e um fundo de seguros para os ativos dos bancos. Isto é, em suma, vai ser oficial: vão estatizar e socializar o prejuízo. A apuração é do pessoal do "Wall Street Journal".

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h29

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Mais estatização e morte de bancos nos EUA

O governo dos Estados Unidos é agora o maior acionista do Bank of America, o maior banco americano (em ativos). O governo dos EUA também é acionista de uma outra dúzia de instituições financeiras e proprietário, pelo menos provisório, de Fannie Mae, Freddie Mac, AIG etc.

Ontem, as ações do BofA (Bank of America) haviam caído 75%.

O governo americano colocou mais US$ 20 bilhões no BofA. Já injetou US$ 45 bilhões no grupo e passou a ter 6% de suas ações. Vai ainda cobrir até US$ 98,2 bilhões de prejuízos que aparecerem num bolo de ativos de US$ 118 bilhões (sendo a maioria deles da Merrill Lynch, comprada pelo BofA). O governo dos EUA está, pois, bancando todos os credores da Merrill e conexos.

O Bank of America teve prejuízo de US$ 1,8 bilhão no quarto trimestre, o primeiro em 17 anos, e lucro de US$ 4 bilhões no ano. Mas a Merrill perdeu US$ 15,3 bilhões no trimestre final de 2008. Como se vê, a Merrill não se vendeu "por precaução" ao BofA. Estava totalmente quebrada.

O Fed, o Fdic (fundo garantidor de depósitos bancários) e o Tesouro vão cobrir as perdas da Merrill em títulos lastreados em financiamentos imobiliários e derivativos de crédito (CDS). O BofA banca os primeiros US 10 bilhões de perdas do pacote de US$ 118 bilhões de ativos sem liquidez ou podres mesmo.

O Fdic e o Tesouro bancam os eventuais próximos US$ 10 bi. O Fed banca os eventuais próximos US$ 88,2 bilhões. Se ainda houver algum prejuízo, o BofA leva.

Em troca do auxílio, o governo leva mais US$ 5 bi em ações do BofA, que também terá de reduzir a distribuição de dividendos a um centavo por ação. Isto é, quando tiver dividendos a distribuir.

Sobre mundo "real": as provisões do BofA para perdas com a inadimplência triplicaram, do final de 2007 para 2008 (chegando a US$ 8,5 trilhões).

 

A morte do Citigroup. Ou melhor, o Citigroup se partiu

O Citigroup perdeu US$ 8,3 bilhões no quatro trimestre _quinto trimestre consecutivo no vermelho. Em 2008, o preju ficou em US$ 18,7 bilhões. O Citigroup será ser dividido em Citicorp e Citi Holdings, além de já ter vendido a corretora Smith Barney.

Acabou o gigante criado em 1998, na fusão do Citicorp com a megasseguradora Travelers (aliás, num processo de lobby e "antecipação" da mudança na lei parecido com o da BrOi).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h06

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"Obama e a finança no bico do corvo"

 
 

"Obama e a finança no bico do corvo"

Democratas e assessores de Obama divulgam projetos de reforma; Armínio Fraga ajudou a elaborar propostas: esses são alguns dos temas da coluna de hoje (16/1) na Folha. Assinante lê a íntegra do texto aqui.

Trechos:

"As diretrizes do plano de reforma financeira foram divulgadas ontem pelo lendário ex-presidente do Fed Paul Volcker, que comandou o "Grupo dos 30" economistas, executivos e ex-banqueiros centrais que as discutiram (entre eles Armínio Fraga). Recomendaram a separação entre atividade bancária mais tradicional e negócios mais arriscados, numa reedição das leis dos anos 1930 (revogadas desde os 90), não se sabe se reedição ampliada, mas bem revista. Pediram rédea mais curta sobre seguradoras e corretoras.

Querem conter a promiscuidade entre agências de avaliação de risco e emissores de dívida. Outra ideia é enquadrar os "quase-bancos" no sistema de supervisão bancária (por exemplo os fundos de aplicação financeira, "mutual funds").

Volcker acha bom reduzir o tamanho dos conglomerados financeiros. Disse que "sistema financeiro não passou na prova do mercado". Chamou o sistema bancário de "uma bagunça" ("a mess"). No Senado, tramita projeto de lei que permitiria a juízes de concordatas alterar contratos imobiliários.
Objetivo: evitar mais inadimplência e despejos. Mas tal medida coloca os bancos em pânico: se não puderem prever seu fluxo de renda futuro, vão emprestar apenas para pessoas com risco menos zero de crédito, contraindo ainda mais a economia.


Enquanto isso, Citigroup e Bank of America lutam pela vida -o governo vai ter de socorrer a turma de novo. E ativos financeiros que ficaram famosos na crise voltam a apodrecer, após a enésima onda do "pior já passou". Trata-se de títulos atrelados a hipotecas de segunda linha, as notórias "subprime", a imóveis comerciais e também a financiamentos para aquisições de empresas. A desvalorização desses e outros ativos come o capital das instituições financeiras que os detêm."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 12h52

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Risco de zona na eurozona

O site "RGE Monitor", dirigido por Nouriel Roubini, repercute hoje a ampliação dos rumores sobre a Irlanda bater na porta do FMI e ainda pior: dar calote.

Citando o "Eurointelligence": Irlanda se vira para negar rumores de que vá ao FMI. Investidores estão cada vez mais preocupados com a perspectiva de inadimplência na zona do euro". "Risco-Irlanda" continua a crescer, assim como o de outros países europeus ("risco" medido pela diferença do custo de financiamento da dívida desses países em relação ao do custo alemão, o spread em relação ao título alemão de 10 anos). Pela ordem: Grécia (2,5 pontos percentuais), Irlanda (1,73), Itália (1,51), Espanha (1,14), França (0,5).

Será que alguém vai pular fora do euro? E como?

O RGE cita Barry Eichengreen (o historiador das finanças): zona do euro dá um jeito na vida de Itália e Espanha, bem endividados. Dinamarca, que manteve sua moeda, teve de elevar juros para defender o câmbio

Roubini: se o mercado financeiro continuar a "precificar" que um país do euro vai abandonar a moeda, vai ocorrer um ciclo de vicioso de aumento de taxas de juros que vai "realizar a profecia" de que um país vai ter de pular fora do euro [o blogueiro continua a não entender como um país meio quebrado vai deixar a eurolândia. A não ser que seja expelido. Seria isso?]

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h56

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O pacote Congresso + Obama

Saíram as linhas gerais do pacote de estímulo fiscal (gastos do governo) que Barack Obama acertou com os Democratas. Foram anunciadas por Nancy Pelosi, presidenta da Câmara.

Valor: US$ 825 bilhões (uns 60% do PIB brasileiro), a serem despendidos em dois anos. Mas já se estima que o valor pode ser chutado para o "limiar psicológico" do US$ 1 trilhão;

"Breakdown": pacote vai ser "rachado" em US$ 550 bilhões para despesas e US$ 275 bilhões em redução de impostos para empresas com prejuízos, desde que não já tenham recebido socorro direto do governo. Isto é, bancos e montadoras estão fora do novo pacotão;

Educação: US$ 159 bilhões (para Estados e municípios, quase tudo para educação básica)

Saúde: US$ 154 bilhões. Dos quais US$ 90 bilhões de ajuda a Estados (governo federal vai aumentar sua parte nas gastos com saúde de pobres (Medicaid) e US$ 39 bilhões para subsidiar saúde para desempregados

Ampliação do auxílio a desempregados: US$ 43 bilhões

Melhoria de infraestrutura de transporte rodoviário: US$ 42 bilhões;

Redes elétricas mais eficientes: US$ 32 bilhões

Construção e reforma de prédios e outras instalações federais: US$ 31 bilhões

Aumento do auxílio alimentação ("food stamps"): US$ 20 bilhões

Abatimento de imposto para projetos de energia renovável: US$ 20 bilhões

Fornecimento de água e irrigação: US$ 19 bilhões

Laboratórios científicos: US$ 10 bilhões

Ferrovias e trens para transporte público: US$ 10 bilhões

Aquecimento para famílias pobres: US$ 7 bilhões

Internet rápida "rural": US$ 6 bilhões

Segurança: US$ 4 bilhões para polícias estaduais e municipais

Censo 2010: US$ 1 bilhão

Programa Contra Incêndio em Florestas (sic): US$ 850 milhões;

"Bolsa TV Digital" (sic): US$ 650 milhões para famílias que passarem para a TV Digital;

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h42

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Troca-troca de moedas no Fed: liberou geral

O blog "Real Time Economics", do site do "Wall Street Journal" relata hoje que Fed, o BC americano, não tem mais limites para a sua linha de troca de moedas ("swaps") com outros bancos centrais. Faz quase um ano, o Fed passou a trocar dólares por euros, francos suíços e libras a fim de auxiliar os bancos centrais emissores dessas moedas a irrigar com dólares seus sistemas financeiros em crise. O socorro foi ampliado depois para países como a Austrália e mesmo para o Brasil, um sinal, reconheçamos, de certa credibilidade das autoridades econômicas "deste país".

Assinante lê aqui o post completo do "WSJ" (ainda nos posts do hoje, o "Real Times Economics" resume as propostas do Fórum de Davos para a reforma do sistema financeiro mundial. Propõe, em suma, o contrário do que pregavam até o ano retrasado (no ano passado, puseram as barbas de molho e meio que fingiram de mortos).

"Recordar é viver":

Reproduzo abaixo post deste blog, 30 de outubro de 2008. A questão sobre o swap e o BC do Brasil continua a mesma:

"O Banco Central do Brasil e o dos EUA, o Fed, dizem que o "swap" (troca) de US$ 30 bilhões por reais será batata por batata. O Brasil recebe os dólares por uma certa taxa de câmbio e os devolve em 30 de abril de 2009, pela mesma cotação: sem juro e sem correção cambial. É um ótimo negócio. O Banco Central pode emprestar esses dólares do Fed aqui no mercado brasileiro (isto é, vender, com compromisso de recompra), sem recorrer às reservas e a custo de financiamento zero (na prática, menor que zero). A depender da cotação do dólar nos dias da venda e da recompra, o BC pode até fazer algum dinheiro.

Com esse crédito camarada do Fed, vai ser estranho se o BC usar dinheiro das reservas."

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h53

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Pausa na crise

"Um momento de poesia numa obra rigorosa": alguns minutos sem crise, apenas com Isabeli Fontana, que desfilava ontem na "Fashion Rio" para a grife Cantão quando foi fotografada por Bruno Domingos, da Reuters.

"Disclosure": o blogueiro infelizmente não conhece a modelo e também não tem nenhuma relação, pessoal ou comercial, com a grife citada.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h21

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Mais "mentiras malditas e estatísticas"

O Índice Geral de Preços-10, da FGV, de janeiro registrou queda no nível de preços ("deflação") de 0,85%. O mercado previa queda em torno de 0,35% _de -0,5%, na estimativa menos errada. Foi outro engano brutal, como já havia ocorrido na previsão da produção da indústria de novembro e com o IGP-DI.

A queda no preço dos carros foi grande, mas os economistas tinham como incorporar tal fato a suas previsões para o IGP-10 (e, embora a queda no preço dos carros tenha sido das maiores, as baixas nos preços de dezembro para janeiro foram generalizadas). Dada a desvalorização do real, de resto, era razoável esperar que o câmbio compensasse a queda de preços de "commodities", barrando a baixa do nível de preços. Etc. Mesmo assim, o erro foi grande, outra vez.

O que está acontecendo, por que erros ainda maiores que os previsíveis e de costume? Modelos de previsão costumam "entrar em pane" em períodos de turbulência e virada rápida da economia, como agora. É um fato da vida, é sabido, é "normal", é em parte remediável, mas apenas em parte. O problema é se fiar, sob ferro e fogo, no número cru, é fazer das estimativas, e apenas quase delas, cavalo de batalha política (embora não seja possível discutir racionalmente alternativas de política sem considerar tais estimativas).

Para piorar a confusão, a queda dos IGPs na virada do ano não permite que se diga que a a inflação entrou mesmo em tendência de queda. Mas os dados recentes recomendam muita moderação no que tem se dito sobre juros e inflação. Estamos meio num mato sem cachorro.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h00

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"Mais notícias 'aziáticas'"

 
 

"Mais notícias 'aziáticas'"

A coluna de hoje (15/1) na Folha recolhe alguns dos últimos indicadores sobre o infelizmente péssimo desempenho da economia em dezembro. E, também infelizmente, a correção de um erro na coluna de domingo passado. Assinante lê a íntegra do texto aqui.

Trechos:

"O consumo de eletricidade no mercado livre (grandes empresas) caiu 1% ante dezembro de 2007 (estimativa baseada em amostra da empresa Comerc, comercializadora de energia) e 18% de novembro para dezembro. O consumo de gás natural na indústria recuou 24% de dezembro de 2007 para dezembro de 2008. Nos dados preliminares, o consumo de papelão ondulado caiu 4,5% em dezembro, ante o mesmo mês do ano passado.
Considerando a derrocada na produção de veículos (54%), no tráfego de caminhões pesados (0,8%) e da carga de energia elétrica (5%), outros indicadores coincidentes, estima-se que a produção industrial tenha levado um tombo de 8% em dezembro -ante dezembro de 2007.
Alguns setores, como o de veículos, dizem que a coisa parou de piorar, mês a mês. Mas anda abaixo do nível de 2008. E a siderurgia diz que continua a deterioração. O pessoal de máquinas também.

"Déficit" comercial
Economistas do Unibanco chamam a atenção para o fechamento de câmbio no comércio exterior de dezembro: ficou negativo pela primeira vez desde outubro de 2001 (US$ 119 milhões). No primeiro terço de janeiro, está negativo em US$ 510 milhões. Trata-se do dinheiro que de fato entra e sai na conta de exportações e importações. Não é, pois, o saldo comercial.

"Errei" e dívida externa privada
Na coluna de domingo, o colunista comentava que o BC promete desde dezembro emprestar dinheiro das reservas internacionais, sem fazê-lo, mas no meio de um parágrafo sobre crédito para exportadores (que está funcionando). Mas a nova linha do BC, financiada pelas reservas, é para rolagem de dívida externa de empresas, como se sabe.
Desculpe, por favor, a confusão.
Henrique Meirelles informa que a linha para rolagem de dívida ainda não saiu porque o BC estuda como dar base jurídica forte à medida e está checando a experiência internacional no assunto. O pacote ainda não está definido. Mas diz-se que empréstimos intercompanhias (de matriz para filial) devem ficar de fora. A linha deve ser só para empresa que lançou títulos e bancos."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h30

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Irlanda no FMI?

A Irlanda, o "tigre celta", vai ao FMI? Os jornais irlandeses e ingleses dão rumores de que o primeiro ministro, Brian Cowen, já teria admitido a hipótese, nos "bastidores". Outros dão que foi apenas um boato que um sindicalista colocou para circular, depois de uma reunião de Cowen com os sindicatos. O déficit fiscal da Irlanda é de 6,4% do PIB. O teto da União Européia é (era) 3%.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h07

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Picadinho liberal, por Brad DeLong

 
 

Picadinho liberal, por Brad DeLong

Brad DeLong faz um rápido picadinho dos economistas liberais, de hoje, de ontem e de anteontem. Está no seu divertido blog, algo "slob" como ele, um "sblog" (http://www.j-bradford-delong.net/). DeLong é professor de economia na Universidade da Califórnia (Berkeley) e trabalhou no Tesouro durante o governo Clinton. Não vai dar tempo de traduzir e vai um trecho em inglês mesmo (desculpem os leitores que reclamam de textos em inglês, mas, se tiver de traduzir tudo, não faço outra coisa):

"The near-consensus of economists was at least crypto-classical liberalism, along the lines of Colbert's exchange with Legendre in the reign of Louis XIV:

'What do you need to help you?' asked Colbert. 'Leave us alone' answered Legendre. ('Que faut-il faire pour vous aider?' asked Colbert. 'Nous laisser faire' answered Legendre).

Then starting in the late nineteenth century liberal economists were mugged by reality:

* On issues of income distribution -the Gilded Age- and how laissez-faire did not appear to be producing the reasonable distribution of the fruits of the social division of labor that economists had all expected...

* On issues of macroeconomic stability -the Great Depression was a big shock- and the argument that the Great Depression arose because markets were not free enough never acquired legs or force outside the theological...

* On issues of the persistence of 'unfree' labor -Adam Smith expected the imminent collapse of slavery, but ending slavery took a war, and the market economy in America did not appear to be doing very much at all to undermine Jim Crow...

* Last and most recently, the fear of the increasing importance of 'market failure' -the coming of the 'information economy'- caused economists to worry that we were moving from a Smithian to a Schumpeterian world, and even if the presumption of laissez faire works for a Smithian world it is not at all clear that it works for a Schumpeterian world...

The upshot is what Keynes said eighty-four years ago:

"It is not true that individuals possess a prescriptive 'natural liberty' in their economic activities. There is no 'compact' conferring perpetual rights on those who Have or on those who Acquire. The world is not so governed from above that private and social interest always coincide. It is not so managed here below that in practice they coincide. It is not a correct deduction from the principles of economics that enlightened self-interest always operates in the public interest. Nor is it true that self-interest generally is enlightened; more often individuals acting separately to promote their own ends are too ignorant or too weak to attain even these. Experience does not show that individuals, when they make up a social unit, are always less clear-sighted than when they act separately. We cannot therefore settle on abstract grounds, but must handle on its merits in detail what Burke termed "one of the finest problems in legislation, namely, to determine what the State ought to take upon itself to direct by the public wisdom, and what it ought to leave, with as little interference as possible, to individual exertion"...

One way to understand Keynes's General Theory is that Say's Law is false in theory but that we can build the running code for limited, strategic interventions that will make Say's Law roughly true in practice. The modern Ametican liberal economist's view of libertarianism is much the same: libertarianism is false in theory, but it is very much worth figuring out a set of limited, strategic interventions that will make the libertarian promises roughly true in practice.

And let me stop there."

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h48

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Bank of America: quer mais dindim

O Bank of America (BofA) vai levar uma grana extra do governo americano, uma espécie de antiácido bilionário para ajudar a digestão da Merrill Lynch, que se vendeu ao bancão para evitar a quebra. É que começou a dizer, faz pouco, o "Wall Street Journal" (WSJ).

O BofA já havia levado US$ 25 bilhões do Tesouro. Segundo o WSJ, a conversa começou em dezembro, quando o BofA avisou ao Tesouro que precisava cobrir rombo maior que o esperado na Merrill Lynch (que apresentou um balanço tóxico no último trimestre de 2008). O pacote de socorro sairia dia 20, na divulgação do balança do BofA.

Para piorar, tem gente pesada da Merrill deixando a casa, devido a "tensões culturais" entre as duas instituições financeiras. Perder gente graúda em banco de investimento é ver negócios e expertise indo embora.

O Citigroup, por sua vez, talvez volte a ser apenas Citibank. Vai desmontar o colosso criado nos anos 90, começando pela venda da corretora Smith Barney para o Morgan Stanley. Estão vendendo as jóias.

Ontem, Ben Bernanke disse, em resumo curto e grosso, que os bancos americanos estão mais podres do que imaginava e que vão precisar de mais dinheiro do Estado. Pois é, estão mesmo.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h45

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JP Morgan: o pior ainda não passou

"O pior da situação econômica ainda não passou. Parece que vai continuar a se deteriorar durante a maior parte de 2009". É o que disse o presidente do JP Morgan em entrevista ao "Financial Times".

Bem, alguém pode dizer que, como os bancos erraram muito antes da crise, explodindo a si próprios, em alguns casos, pode ser que mr. Dimon erre agora. Mas é bom lembrar que o JP Morgan foi um dos poucos bancos que saíram pouco queimados da crise.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h07

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"Empregos por decreto"

 
 

"Empregos por decreto"

A idéia do governo de "punir" empresas que recebam algum auxílio do governo e demitam é o tema da coluna de hoje (14/1) na Folha. Assinante lê a íntegra aqui.

Trechos:

"Até que demorou para se ouvir besteira maior no governo nesta crise. O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, reclama que as empresas recipientes de auxílios do governo não demitam. Parece "tudo pelo social", mas é uma campanha quase totalmente idiota.

Tome-se o caso que reacendeu a celeuma, o das demissões em montadoras, para as quais Lula e José Serra dirigiram bilhões de crédito oficial. As financeiras das montadoras, diz-se, haviam ficado sem fundos para emprestar aos clientes.
Imagine-se que, num momento inicial, as montadoras estimassem que a demanda de carros fosse "tal" e que o custo de captação dos bancos oficiais fosse "qual" (o que determina o custo do dinheiro repassado às financeiras. De outro modo, se o custo é inferior ao de mercado, haveria subsídio. Há subsídio?).

No momento seguinte, o custo de captação dos bancos oficiais sobe para "qual + 1", o que encarece o financiamento do carro, e a crise assusta mais os consumidores, que compram menos, por precaução. A demanda de carros cai, digamos, pela metade. A montadora, por hipótese, entra no vermelho, mesmo com crédito oficial. Deve demitir ou falir?

"Coitadinhas das montadoras"?
Não. Mas a cobrança oficial não faz sentido, no limite desse caso. Ou, então, deve-se levar o raciocínio adiante. As montadoras ganharam muito dinheiro nos últimos dois anos. Remeteram muito lucro para suas matrizes quase falidas. Se a lógica oficial é consequente, o governo deve exigir que as montadoras passem a doar parte de seus lucros, cortando remessas (isto é, que engulam prejuízos, mesmo vendendo menos).
A divisão de prejuízos nunca é "justa", obviamente. As empresas podem por vezes dar mais aumentos ou demitir menos do que o fazem, mas o fazem porque detêm mais poder que os trabalhadores. Mas há um limite (para a divisão mais equitativa dos prejuízos da crise) que é o da racionalidade econômica numa economia de mercado.

O caso serve ainda para o governo repensar a miríade confusa de proteções tarifárias e isenções tributárias para empresas. Muita vez o subsídio apenas barateia o investimento que seria feito de qualquer modo por empresas beneficiadas. Certos subsídios fazem sentido, mas no tumulto nacional não se sabe quem recebe o que, para qual fim, com quais objetivos socialmente razoáveis.

Induzir empresários a investir em infraestrutura por meio do investimento público, que anda como um cágado. Decretos moralizantes e intervencionistas (no nível micro) não vão adiantar nada."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h20

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Dica de livro, correção

No post "Mentiras, mentiras malditas e estatísticas" recomendei um livro de Peter Bernstein, em inglês. Mas existe tradução em português:

"Para quem quer ler uma introdução sobre probabilidades e risco, uma introdução para o público geral, vale ler o best seller de Peter Bernstein "Against the Gods: The Remarkable Story of Risk", uma história do desenvolvimento da idéia de probabilidade e risco, dos gregos (como de hábito) aos modelos atuais de cálculo de risco em negócios e finanças."

O leitor Alexandre escreveu para dizer que existe tradução brasileira do livro: é "Desafio aos Deuses: A Fascinante História do Risco", da editora Campus, edição de 1997. Falha minha, que não fui checar. Desculpas e obrigado ao Alexandre pela correção.

Mas o livro no Brasil custa em torno de R$ 100 (nas livrarias virtuais). Na Amazon, contando o preço do frete, os usados custam a partir de US$ 22 (R$ 52, pelo dólar de hoje).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h08

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Diário da Crise: Portugal picado pela S&P

Portugal levou o beijinho da morte da S&P. Foi avisado de que pode ter sua nota de qualidade de crédito rebaixada. Portugal tem déficit público ruim e déficit externo gigantesco. A agência de classificação de risco já havia dado a bicota infecciosa na Grécia e na Irlanda, semana passada, e na Espanha, na segunda-feira.

O mercado, claro, já havia percebido que os quatro andavam mal das pernas. A S&P apenas junta insulto à injúria. Trata-se de países superendividados, no setor público e/ou no privado. Sob o risco de rebaixamento, seus custos de financiamento aumentam ainda mais: ciclo vicioso à vista. A diferença entre o custo de financiamento da dívida da Alemanha (a mais segura, o "benchmark" continental) e o dos demais países da eurozona nunca foi tão alto desde a estréia do euro, faz uma década.

A Islândia, o parque de diversões de teóricos liberais malucos, faliu. Os "tigres bálticos" não vão muito bem _a Lituânia já foi "rebaixada". Vai mal também a periferia européia.

A Europa do rigor fiscal, do pacto de estabilidade financeira, de Maastricht, deriva levemente para o vinagre  e aceita que os países estourem suas metas fiscais. Mesmo assim, não está funcionando.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h46

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Diário da Crise: dindim para bancos, quer Bernanke

Os bancos americanos estão ainda tão podres que o pacote fiscal de Barack Obama pode dar com os burros n'água. Em resumo curto e grosso, foi o que disse hoje em Londres Ben Bernanke, presidente do Fed, o BC americano.

Bernanke propôs quer que o governo Obama lance novo pacote de injeção direta de capital em bancos e/ou que dê garantias (seguro de crédito) para tais papéis e/ou que se volte ao pacotão original Paulson, aquele que previa a compra do papelório podre dos bancos. Isto é, na prática, que o governo dos EUA dê dinheiro aos bancos, pois parte desses papéis jamais vai voltar a valer alguma coisa (como títulos garantidos por ativos ora podres ou meio podres, como casas e dívidas de cartão de crédito). De outro modo, disse Bernanke, os bancos não vão voltar a emprestar.

É o pacote Bernanke para Obama, que assume na semana que vem. A coisa parece andar ainda muito feira para Bernanke dizer tais coisas.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h31

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Mentiras, mentiras malditas e estatísticas

Leitores escrevem para o blog para comentar os erros das previsões econômicas. Delfim Netto, em sua coluna de hoje (13/1) no "Valor", escreve sobre o tema. Elaborou uma tabela com a média (ou mediana, ele não diz) das previsões para o PIB e para o saldo em conta corrente, recolhidas pelo Boletim Focus do BC, que registra as estimativas de cerca de 80 consultorias econômicas (em geral, ligadas ao setor financeiro, que é o mais equipado para fazer tal coisa, e em geral o mais interessado no assunto).

Delfim lembra as previsões feitas no início dos anos que vão de 2001 a 2009 e as compara aos fatos do final daqueles anos (com exceção de 2009, claro). No caso da previsão do PIB, os erros vão de no mínimo 5% ao máximo de 68% (desvio da estimativa em relação ao crescimento do PIB de 2001, ano em que vínhamos do bom crescimento de 2000 para nos chocarmos com o apagão e a crise argentina) _o erro médio anual foi de 35%. No caso do saldo em conta corrente, os erros vão de 11% a 400%, com erro médio de 218%.

Comentário de Delfim: "Aceitemos que 'prever é preciso'. Todos temos de fazer 'previsões'. Não esqueçamos, entretanto, o fato desagradável que elas são para um 'futuro', incerto e opaco, e não podem adivinhar como a política econômica reagirá diante dos acidentes do trajeto." Assinante lê a íntegra do texto do ex-ministro aqui ("A crise e as previsões").

Isto posto, devemos jogar tudo no lixo? Não. Como diz um econometrista, Peter Kennedy, "todos os modelos são ruins. Alguns são úteis" (Kennedy é autor, entre outros trabalhos, de uma útil introdução mais intuitiva à econometria "A Guide to Econometrics", um bom guia para quem se inicia na matéria. Isto é, para quem já fez o currículo de estatística em nível de graduação _pelo menos dois semestres).

Num resumo curto e grosso, Kennedy diz que estimativas bem feitas são um instrumento necessário, mas insuficiente, e mesmo quando erradas servem para balizar a ação _não para determiná-la ou "fechar o debate". Qualquer analista de risco sensato e bem treinado sabe que não se tomam decisões com base apenas no "cálculo das probabilidades" (que é uma "pilhéria", como diria Manuel Bandeira, obviamente em outro contexto). No entanto, estão aí o caso do LTCM e do "subprime" para provar que brilhantes "quants" (matemáticos que trabalham em finanças) acreditam demais no que acreditam (sic) e acabam quebrando estrondosamente (o fundo de hedge LTCM, que tinha na direção dois prêmios Nobel em economia, Myron Scholes e Robert Merton, especializados em matemática das finanças, foi à breca em 1998 e quase explodiu a finança do planeta).

Porém, como diz Delfim e é óbvio, "todos fazemos previsões", e não dá para tocar um negócio sem fazê-las _aliás, não dá nem para atravessar uma rua sem fazer estimativas que relacionem velocidade e espaço, certo? Um exemplo muito rudimentar: nenhum empresário sensato _micro, médio, pequeno, grande ou mega_ toma um empréstimo se a taxa de juros for maior que a rentabilidade do seu negócio, é óbvio. Para tomar tal decisão, o empresário tem portanto de estimar o retorno do seu empreendimento. E daí a coisa cresce como bola de neve. Instituições financeiras, por exemplo, têm de rever algumas de suas estimativas hora a hora (minuto a minuto, em certos casos).

Mas, dado o debate sobre política econômica, a importância das finanças, interesses políticos e outros, as estimativas transbordaram faz muito tempo para o debate público. São lidas, empregadas e até manipuladas de acordo com posições teóricas, posições no mercado, interesses políticos, econômicos etc etc. Nesse contexto, deixam de ser apenas um elemento do cálculo econômico de quem as elabora para se tornarem também um instrumento de convencimento político (ou, por vezes, coisa pior, até de propaganda).

Estimativas, porém, são apenas isso: tentativas. Dada uma certa teoria e os dados do passado, se calcula como variáveis econômicas se influenciaram e, assim, se estima que, sem maiores variações ou novidades no ambiente, o comportamento das variáveis tem certa probabilidade de se repetir no futuro. Considerado o grande tumulto da vida real e as novidades inevitáveis, até que se acerta bastante (do ponto de vista matemático, ao menos).

Sobre "acertar", porém, é preciso dizer ainda que os modelos também embutem visões do que é ou deve ser a realidade e, antes que essa se concretize (e se veja que o modelo está eventualmente errado), os resultados de tais visões teóricas (ou ideológicas, como queiram) influenciam as próprias expectativas econômicas e o debate político sobre a política econômica (a esse respeito, ler no post abaixo uma alegoria publicada nesta Folha por este colunista, em 2003). O próprio fato de as estimativas serem divulgadas pode, então, alterar o comportamento dos agentes econômicos, o que pode provocar alterações imprevisíveis da realidade. É preciso tomar as estimativas, as "previsões", com muitos grãos de sal.

Mas estimativas são inevitáveis. Aliás, são um grande progresso do conhecimento e da civilização. Sem estatística não teríamos remédios, diagnósticos médicos, plantas mais produtivas, controle de qualidade, previsão do tempo, ecologia, seguros, aplicações financeiras mais ou menos confiáveis, política econômica etc etc. No entanto, elas estarão quase sempre erradas (dentro de certos intervalos e níveis de confiança etc etc, mas "erradas" se comparadas com as realidades da vida). E, desde o início, desde a prancheta, embutem certa visão do mundo e, mais importante, são lidas e usadas de formas variadamente políticas no debate público. "Beba com moderação", pois.

Para quem quer ler uma introdução sobre probabilidades e risco, uma introdução para o público geral, vale ler o best seller de Peter Bernstein "Against the Gods: The Remarkable Story of Risk", uma história do desenvolvimento da idéia de probabilidade e risco, dos gregos (como de hábito) aos modelos atuais de cálculo de risco em negócios e finanças.

Adendo (14/1), falha minha:

O leitor Alexandre escreve para dizer que existe tradução brasileira do livro de Peter Bernstein, citado acima: é "Desafio aos Deuses: A Fascinante História do Risco", da editora Campus, edição de 1997. Falha minha, que não fui checar. Desculpas e obrigado ao Alexandre pela correção.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h25

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O cacique, os juros e a meteorologia

 
 

O cacique, os juros e a meteorologia

"O cacique, os juros e a meteorologia", foi um texto publicado quando este blogueiro escrevia, às segundas-feiras, na página A2 da Folha, na coluna São Paulo. Refere-se ao post acima. 

"Consta que, em um dia de outono, um cacique foi procurado pelos homens da tribo. Queriam saber se o inverno seria rigoroso. Atônito, hesitante, o cacique balbuciou que faria muito frio. Sem hesitar, a tribo passou a recolher pilhas de lenha.

O cacique, que não tinha estimativa confiável do tempo desde que seu pajé fora morto por grileiros de terra, apelou ao serviço de meteorologia para checar sua previsão. Afinal, ele era admirador da tecnociência branca desde que assistira a um vídeo da Funai sobre a teoria dos fractais, a estatística e a econometria, sabedorias que permitiam prever desde safras de abóbora e temporais até erupções de vulcões e inflação.

Do orelhão da tribo ligou para a webclima.com.br, que confirmou sua previsão: as primeiras evidências mostravam que, sim, faria frio.
Passado um mês, vendo sua tribo dizimar a floresta em torno com mais rapidez que madeireiras malaias ilegais, voltou a ligar para a webclima. Ouviu a mesma previsão.

À beira do inverno, já não era possível andar entre as malocas. A tribo acumulara toda a lenha disponível nas redondezas e ainda comprara pilhas de papel de carroceiros paulistanos, que recolhiam relatórios de inflação do lixo dos bancos da avenida Paulista. Angustiado, o cacique voltou à webclima, que foi taxativa sobre as evidências agora incontestáveis de que o frio seria terrível.

O cacique arriscou-se enfim a contestar a sapiência meteorológica. "Mas como vocês têm tanta certeza de que fará frio?", perguntou.
"Porque faz meses que vemos os índios armazenar muita lenha para o inverno", foi a resposta.

Essa historinha foi furtada e adaptada de uma divertida e instrutiva introdução à meteorologia escrita pelo grande astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão ("Vai Chover no Final de Semana?", Editora Unisinos). A fábula lembra a previsão de alta inflação dos bancos, que faz o BC deixar os juros na Lua e dizer que a inflação não foi controlada, o que leva os bancos a prever inflação ainda alta etc. Mas resta uma dúvida: quem prevê inflação com base na lenha no lombo dos índios, o BC ou o mercado? Os dois?"

Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h15

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"O trimestre preocupante" de Lula

 
 

"O trimestre preocupante" de Lula

O governo tem poucas opções de medidas de impacto forte e rápido, as capazes de atenuar a súbita e brusca mará baixista da economia. Mas, se não quer deixar a peteca cair, como tanto tem insistido Lula, tem de trabalhar para implementá-las com urgência. O início das demissões em massa pode deteriorar o ambiente econômico de maneira rápida, profunda e, no curto prazo, irreversível. Este é o tema da minha coluna de hoje (13/1) na Folha. Assinante lê a íntegra da coluna aqui.

Trechos:

"As dificuldades atingem os setores que estavam na primeira linha de tiro da crise: exportadores e produtores de bens duráveis, os quais dependem muito de crédito. Também se trata de setores para os quais é mais difícil elaborar medidas diretas de atenuação da crise. Não há, óbvio, como influenciar o mercado mundial ou obrigar bancos a emprestar.

Como a produção despencou em dezembro, a de veículos em particular, e como os preços das commodities também desabam, pode-se dizer que os horrores do desemprego mal começam. Por outro lado, como mal começam, as dificuldades podem ainda ser atenuadas. Mas agilidade, urgência e impacto importam.

Muitas demissões devem estar "contratadas". As montadoras reduzirão suas produções, o que vai transbordar em breve para os fornecedores. Cortes na produção da grande empresa, que afetam seus fornecedores, e crédito raro e caro para médias empresas são uma combinação que tende a capilarizar o desemprego e desorganizar ainda mais a vida dos pequenos negócios.

Caso tal ciclo ganhe ritmo, os bancos vão relutar ainda mais a emprestar. Há mais. O preço das commodities e correlatos continua a cair, afetando as maiores empresas do Brasil. Está previsto que a agricultura vai produzir menos, será menos produtiva e vai faturar menos. Estoques mundiais sobem e o comércio de grãos cai. Deve cair mais, mesmo com a baixa de preços, segundo o Conselho Internacional de Grãos. O custo do frete caiu a um quinto, em média, do que era faz um ano.

O mais importante agora é tomar as poucas e possíveis medidas de estímulo que tirem velocidade do ciclo vicioso que está começando. Mas é preciso mais impacto. O conta-gotas pode não funcionar, como pouco funcionou no modesto relaxamento monetário (via compulsório). O governo por ora parece decidido a queimar cartuchos em aumento de gastos que pouco deve se traduzir em estímulo econômico (como no caso dos aumentos salariais de servidores). Mas Lula e cia. precisam reunir a munição disponível, que não é muita, e atirar de uma vez."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h24

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Commodities, Lula, sacis e vinagrete

Como sempre, quando há muitos posts, segue uma lista dos mais recentes (12/1):

  1. Diário da Crise: massacre nas commodities;
  2. Diário da Crise: europeus no bico do corvo;
  3. A azia de Lula e outras coisas indigestas;
  4. Escassez de alternativas;
  5. Cozinha Liberal: foi para o vinagre;
  6. Cozinha Liberal: do saci para a salada do bistrô;
  7. Cozinha Liberal: introdução ao vinagrete;
  8. Cozinha Liberal: vinagrete, nível intermediário;
  9. Cozinha Liberal: vinagrete, nível superior;
  10. Cozinha Liberal: variação com limão, azeite e cogumelos crus;
  11. Cozinha Liberal: as nozes que sobraram...

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h50

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Diário da Crise: massacre nas commodities

Dias de mais baixas ruins no mercado de commodities. O departamento (ministério) de Agricultura dos EUA anunciou que a produção de grãos deve ser maior que a esperada, em especial no milho, mesmo com a produção argentina indo mal das pernas. Foi a primeira projeção oficial da safra americana.

Com a queda do petróleo, o milho (com o que se faz álcool nos EUA), despencou ainda mais. As estimativas de estoques maiores, nos EUA e no conjunto do planeta, também derrubou o "complexo" soja e o trigo _a demanda pelo trigo americano está caindo. No mercado americano, apenas o preço da carne escapou da razia.

Em 2008, o índice Reuters/Jefferies CRB de commodities caiu 36%, para o menor nível desde 2002. O desabamento dos preços ainda não chegou todo ao preço das commodities exportadas (no entanto também algumas delas importadas) pelo Brasil.

O preço médio do frete de grãos exportados dos EUA (Golfo do México) caiu de US$ 76 por tonelada, há um ano, para US$ 17 (exportações para a Europa) e de US$ 121 para US$ 24, segundo dados para o dia 7 de janeiro, do International Grain Council. A Alcoa (alumínio, EUA) anunciou ontem que teve prejuízo no quatro trimestre, com queda de 19% no faturamento (trimestre contra trimestre de 2007), a primeira vez que a empresa entra no vermelho em seis anos.

É um mergulho que mostra bem as perspectivas para o comércio mundial.

A espuma da maré podre chegou, claro, à Bovespa, que perdeu 5,24% ontem, o pior tombo desde o final de novembro. Petrobras, Vale, CSN, Gerdau e Usiminas, claro, desabaram. Apenas parte do varejo e das elétricas se salvou ontem, as ações ditas "defensivas".

E mal começou a temporada de balanços de empresas americanas.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h41

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Diário da Crise: europeus no bico do corvo

As agências de classificação de risco de crédito continuam a cumprir seu papel: jamais detectam desastres e vão a campo depois da batalha, mas a fim de matar os feridos. A nota de crédito da Grécia, Irlanda e Espanha pode ser rebaixada. Os países do "Clube Med", os do sul da Europa, têm déficits externos e/ou fiscais altos. A Espanha, além do mais, vive o fim de sua bolha de crédito, assim como a Irlanda, que fica nos mares gelados mas também está numa fria econômica parecida com a dos europeus do Sul.

Vão quebrar? Sabe-se lá. Mas o custo de financiamento para esses países está ficando mais caro num momento em que todo mundo só fala em pacotes de estímulo fiscal.

Os próximos a entrar na dança dos boatos são a Itália, com sua monumental dívida pública, e Portugal, com seu monumental déficit em conta corrente (12% do PIB. Se não fosse o euro, Portugal já estaria quebrado faz muito tempo).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h40

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A azia de Lula e outras coisas indigestas

"Antes tarde do que" etc: Vinicius Mota, colega da Folha, editor de Opinião, escreveu na sexta (9/1) este rápido comentário sobre Lula ter dito que a crítica lhe causa indigestão. Assinante lê a íntegra aqui. Mais abaixo, notas do "Painel", da Folha, com trechos inéditos da entrevista do presidente à revista "Piauí", a das declarações "aziáticas" e aziagas de Lula.

Trechos da coluna de Mota:

"Não há de ser só o estômago do presidente Lula que se indispõe com a leitura de jornais e revistas e com o acompanhamento de notícias e opiniões pela TV, pelo rádio e pela internet. À revista 'Piauí', Lula debochou da mídia. Não acompanha o noticiário por opção; porque tem 'problema de azia', fez troça.
Não é de hoje que Lula demonstra, em gestos, biografia e palavras, desprezo solene pela leitura e outros hábitos de instrução e informação. A resposta a quem aponta essa falha, grave num presidente da República, é sempre a mesma: é acusado de elitista e preconceituoso.
"A imprensa brasileira tem um comportamento histórico em relação a mim", disse na entrevista. A indolência, de repente, toma a forma de prevenção contra ataques de um inimigo "histórico", a mídia.
Eis um clássico do escapismo esquerdista. Não me exponho ao diálogo na esfera pública, não cotejo minhas opiniões e minhas atitudes com a crítica porque os meios de comunicação não têm legitimidade; estão entregues à burguesia, ao império, aos bancos, aos tucanos."

No "Painel" (tocado por Ranier Bragon, Fábio Zanini e Silvio Navarro. Renata Lo Prete está de férias):

"Mais do que "sentir azia" quando exposto diretamente ao noticiário, o presidente Lula acha também que os jornais estão "obsoletos" e diz confiar mais nas informações de assessores do que naquilo que sai publicado. As declarações fazem parte de trechos inéditos da entrevista à revista "Piauí" deste mês. ... Em outro trecho, Lula afirma considerar "promíscua" a relação entre políticos e jornalistas baseada no anonimato da fonte. "Você passa a ser uma espécie de informante privilegiado. (...) O cara [a fonte] planta laranja para colher manga."

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h46

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"Escassez de alternativas"

 
 

"Escassez de alternativas"

Na coluna de domingo na Folha, trato da escassez de alternativas novas, de curto prazo, para lidar com a crise. Assinante lê a íntegra aqui.

Trechos:

"Mas o que se pode fazer da crise? Mexer no compulsório? O volume de dinheiro que os bancos têm de estacionar no BC (compulsórios) caiu de R$ 259 bilhões em agosto para R$ 199 bilhões no início de janeiro. Em tese, os bancos têm mais para emprestar. Porém o relaxamento do compulsório foi muito dirigido, digamos, e o volume de compulsórios que não rende remuneração aos bancos (sobre depósitos à vista) ficou na mesma. Ainda que o pessoal do BC corte pela metade o compulsório sobre depósitos à vista (30% do total), o que não deve fazer nem se embebedado, o refresco seria pequeno, embora ainda refresco.

Parte do nosso choque de crédito deveu-se à redução brusca do financiamento do comércio exterior. Desde dezembro, o BC promete emprestar parte das reservas internacionais para aliviar a situação. É um refresco, que porém está ficando morno, de atrasado.

A retração maior na indústria ocorre em exportadores (mais em minérios & cia.) e em veículos, metalurgia e mecânica. Um depende do mercado global (nada a fazer), outro depende de crédito. Em dezembro, houve alta terrível na capacidade ociosa desses setores (para nem citar o tombo do consumo de eletricidade ou que deve sobrar gás). O refresco, para os veículos, é mais crédito e menos medo do consumidor. Está difícil. Mas dá para remediar. O governo pode gastar mais em investimento produtivo. Seria útil.

A grita geral, como de hábito, é pelo corte da Selic. Recorde-se que os juros "básicos" na praça caíram ao menor nível da história, mas subiram para empresas e consumidores. Em novembro, último dado disponível, o custo de captação de fundos pelos bancos era o mesmo do agosto anterior à explosão da crise. A taxa média de juros para os clientes, porém, subiu muito. Desde então, o custo dos bancos deve ter caído.
Se o BC cortar a Selic, esse custo deve cair um tanto mais -o mercado já deu de lambuja a queda de meio ponto. Mas, os bancos, ora sentados sobre o capital, vão levantar da cadeira?"

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h40

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Cozinha Liberal: foi para o vinagre

 
 

Cozinha Liberal: foi para o vinagre

Não, a seção "Cozinha Liberal" deste blog não foi para o vinagre. Apenas ficou de molho devido à preguiça finianual do blogueiro combinada à modorra da canícula.

A seção ficou, pois, marinando na desculpa de que a virada do ano é um "momento de pausa" e, também, cozinhando no calor da estação, embora digam que este tem sido um verão "frio" (são agora 23h08 e uma janelinha aqui na lateral da tela do computador diz que a temperatura é de 26º). O blogueiro caiu na modorra.

O que é modorra? Trata-se do estado de corpo e espírito em que é possível ver sacis presos em garrafas, por exemplo. "Num dia bem quente, quando os olhos da gente começam a piscar de sono", como dizia tio Barnabé, apud Monteiro Lobato, sacis aprisionados em garrafas começam a se materializar diante da nossa vista cansada. Isto é, nos dias de calor, depois de um almoço na roça, de feijão preto com paio, torresmos e farofa de farinha de milho com ovos, além de uns copinhos de cachaça, a gente tende a ver sacis, é natural, e perde magicamente a vontade de fazer coisas, qualquer coisa, em especial a de ligar computador e escrever colunas.

Calor pede saladas, diz-se. Com a exceção dos sulinos, que dispõem de pelo menos uma temporada fresca, os brasileiros deveríamos ser todos quase vegetarianos, pois. Jamais avançaríamos em feijoadas, moquecas, pato no tucupi, virados, barreados, cozidos, baião de dois, comidas do Recôncavo Baiano e outras contradições da leveza, pois a canícula dura o ano inteiro aqui no Senegal. Pensando bem, aliás, por outros motivos nem mais comemos muito dessas comidas mesmo, a não ser em restaurantes ou em dias mais festivos.

Mas esses são causos para outro dia, quando tratarmos das comidas do sítio do Picapau Amarelo, da roça e da mata. Da mata, sim: o saci, por exemplo, preparou para Pedrinho (Pedro Encerrabodes de Oliveira, o neto de dona Benta), um prato de palmitos com mel, servido em casca de tatu. Beberam água de gomos de taquara e tiveram amoras do mato como sobremesa. Não parece bom? Falta o saci? Tudo bem. A gente dá também a receita para capturar um deles.

A deixa de hoje é para falar de comidas que não convidam à modorra e a visão de sacis, tais como saladas e seus molhos. Vamos então para o vinagre _vinagrete, aliás.

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 04h45

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Cozinha Liberal: do saci para a salada do bistrô

 
 

Cozinha Liberal: do saci para a salada do bistrô

A salada mais leve em que posso pensar é a salada verde. Mas, considerado o post que vai acima, ainda não estou pensando muito _o blog aceita sugestões de outras levezas.

Algumas folhas de uma alface romana nova cobertas apenas de azeite excelente e um pouco de sal e pimenta do reino moída na hora já dariam conta do assunto "leveza com sabor e frescor. Para adicionar alguma frescura ao frescor, a gente pode pensar em escolher o azeite que faria um bom par com a alface.

A boa alface romana, quando nova e tenra, é pequena e tem folhas carnudinhas, um tanto doces. Se a gente espreme as folhas, sai até um leitinho esbranquiçado e adocicado. Daí vem o nome da alface em algumas línguas: de leite, "laitue", em francês, "lettuce", em inglês. Voltando ao assunto, então: dá para criar um bom efeito combinando o doce da alface com um azeite daqueles que tendem mais para o amargo, rascante e apimentado.

Apimentado? Uma vez provei de colherinha um azeite siciliano em Trapani (oeste da Sicília), desavisado. Na língua, era uma delícia forte; direto na garganta, parecia molho leve de pimenta no óleo, a ponto de fazer tossir. Mas, espalhado de leve pelas folhinhas da alface, fica excelente. Nos mercados de São Paulo já existem uns azeites sicilianos (do Val di Mazara, cultivado de Palermo a Agrigento). Não são bem aqueles provados na terra, mas já valem a pena.

Moinhos nas salinas de Trapani, oeste da Sicília

Frescura demais? Sim, é verdade, um pouco. Mas, se a gente vai gastar mesmo dinheiro em azeite, que não é exatamente barato, é melhor pensar no que está fazendo, sentir bem o gosto de cada um deles e imaginar com o que fazem um bom par (ou trio etc).

Mas o post está virando uma salada. De volta a elas: saladas verdes são "básicas", como dizem as pessoas que tratam de moda. O molho "básico" de salada verde é o vinagrete. Pensando bem, italianos e gregos vão protestar contra o francesismo, mas passemos. Vinagrete é o molho básico da salada verde de bistrô, à qual se segue um prato de alguma carne com batata (cordeiro com gratinado, bife com fritas etc). Na verdade, é o molho básico da salada que compõe um dos típicos "PF" (prato feito) parisienses: salada de folhas verdes com quartos de tomates, algumas vagens de feijão novo, bife e batatas fritas ("french fries", né?).

Vinagretes são "básicos", mas, basicamente, os que se encontram por aí são uma porcaria. O que é então um vinagrete bom?

Vamos começar por uma definição de dicionário, dos cozinheiros que, se não a inventaram, ao menos difundiram a "vinaigrette", os franceses. Na versão do "Larousse Gastronomique":

"Molho frio emulsionado, feito da mistura instável de um ácido (vinagre ou limão siciliano) e de um produto gorduroso (óleo ou creme fresco), de pimenta e de sal, ao qual se acrescentam diversos elementos, tais como alho, anchovas, alcaparras, pepinos em conserva, chalotas, ervas, mostarda, ovos duros, cebola etc."

E o "Larousse" continua:

"Considera-se o vinagrete um molho tipicamente francês (nos países anglo-saxões, ela se chama 'french dressing')."

Traduzindo, o vinagrete é um pouco de ácido batido com um pouco de gordura líquida. Bate-se, pois, até o "caldo engrossar", até o óleo temporariamente se "misturar" com o ácido, segundo o mesmo princípio ao qual se recorre para fazer maionese, também uma emulsão, porém estabilizada por um emulsificante natural, a gema do ovo. Uma emulsão é um composto de microgotículas dispersas de dois líquidos que na verdade não se misturam, como água e óleo.

Batidos, ácido e óleo formam um preparado mais encorpado, opaco e "cremoso", mas que fica estável por pouco tempo (o óleo e o outro líquido logo se separam). Mas é tempo suficiente para temperar e comer uma salada. No post abaixo segue a receita básica da vinagrete.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 04h25

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Cozinha Liberal: introdução ao vinagrete

O vinagrete básico leva apenas um líquido ácido e uma gordura líquida. A básica das básicas leva vinagre e óleo ("óleo", assim mesmo, sem especificações. Sem sal e sem pimenta? Por ora, sim. Detalhes abaixo).

A proporção é, aproximadamente, de uma parte de vinagre para três de óleo ("aproximadamente" porque há vinagres e óleos de diversos tipos. Como sempre, na cozinha é preciso provar antes de servir, a fim de checar se a mistura está equilibrada e/ou a seu gosto). Por exemplo, a proporção pode ser medida com uma colher de vinagre para três colheres de óleo. Mas não se misturam os dois ingredientes de qualquer maneira.

Coloque o vinagre num pote (e coloque o pote sobre um pano molhado, para o pote não sair dançando enquanto você prepara o molho). Misture então o óleo, aos poucos, ao vinagre, sempre batendo os ingredientes. Pode-se bater a mistura com um garfo. Se você estiver preparando bastante molho, fica mais fácil bater com um "fouet" (um batedor de fios de arame, vide foto abaixo). Se você quiser, pode usar um "mixer" de imersão (aqueles que você enfia no copo do batedor. Mas não bata muito, nada além de uns 15, 20 segundos).

Isto é um "fouet"

Quando o vinagrete está pronto? Quando vinagre e óleo não parecem indistintos, quando não estão mais "separados" e formam um líquido mais para o cremoso e opaco. C'est fini.

Onde entra o sal? E a pimenta? Pode se usar qualquer óleo? Não é com azeite que se faz? Qual vinagre usar? Pode usar limão? Não leva cebola? Etc, etc, etc. Vamos chegar lá. Porém, este post que era para apresentar apenas a receita da simples vinagrete, vai entrar também em polêmica. Franceses gostam de discussões, teorias e de comida. Logo, não poderia deixar de haver alguma pinimba até sobre o vinagrete. Para piorar, os americanos recentemente aprenderam a cozinhar na melhor escola francesa. E já têm suas idéias sobre o assunto.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 04h22

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Cozinha Liberal: vinagrete, nível intermediário

 
 

Cozinha Liberal: vinagrete, nível intermediário

Breve tira-dúvidas sobre o vinagrete:

Sal. Para fazer o vinagrete com sal, primeiro misture o sal ao vinagre. O sal não vai se dissolver no óleo.

Qual óleo usar? Um óleo de qualidade. Qualquer um? Em tese, sim, qualquer óleo de boa qualidade. Vários excelentes restaurantes americanos de cozinha francesa usam óleo de canola no vinagrete (o óleo de canola é mais saudável, "healthy", claro, e tem sabor neutro). Dá para usar óleo de soja, de amendoim etc? Dá, mas o gosto não fica lá muito bom, não. Na verdade, acho que fica meio horrível. Mas óleo de nozes e de sementes de uva, embora caros, dão bom vinagrete.

Azeite (de oliva) melhora o vinagrete? Pode ser. Mas o vinagrete piora o azeite. Não vale a pena usar um grande azeite no vinagrete _o sabor do grande azeite vai, literalmente, para o vinagre. Pode-se usar um azeite simples. Este cozinheiro usa o mais simples dos azeites de oliva extra-virgem que encontrar.

Dá para usar limão no lugar do vinagre? Sim, claro. Mas, quando você estiver lendo uma receita européia que cite "limão", lembre-se de que eles estão falando de um fruto que por aqui chamamos de "limão siciliano". Alguns franceses costumam compor a parte ácida do vinagrete com meia parte de limão e meia parte de vinagre. Claro, se pode usar só limão (siciliano). O vinagrete fica menos ácido (em comparação com a feita com vinagre de vinho).

O limão que chamamos de "siciliano"

Qual vinagre usar? O que lhe der na telha e no gosto. Pode ser vinagre de vinho branco, tinto, de xerez, de champanhe, de maçã, balsâmico etc. O que for mais adequado para o uso do molho. Mas tem de ser um BOM vinagre. Acredite, faz diferença. Há vinagres nojentos na praça. Este cozinheiro usa vinagre de xerez. Para começar, faça seu vinagrete com um bom vinagre de vinho tinto.

O que é um bom vinagre? Difícil dizer sem mostrar. Mas prove uma colher de café do seu vinagre e veja o que acontece. Seu rosto se contorceu demais com a acidez? O vinagre não é muito bom: acidez sim, mas sem excesso. Sinta então o cheiro. É suave, sem irritar o fundo de suas narinas, não tem cheiro de "passado", de "azedo"? O vinagre deve ser bom.

Vinagrete não leva mais nada? Pode levar várias coisas, como até o "Larousse" diz, no post acima. Depende do uso do molho e do seu gosto. No post abaixo, apresenta-se uma receita, enfim, de vinagrete para uma salada de alface romana e tomates "perini".

Vinagrete só vai na salada? Não. Experimente fatias finas de peito de frango ou de peru, frios, com um pouco de vinagrete com mostarda (receita da vinagrete abaixo). Ou prepare lentilhas cozidas (com um bouquet garni e um dente de alho no caldo) "al dente". Escorra as lentilhas, junte colheres de vinagrete com mostarda (a gosto) e fatias grossas como um dedo de toucinho magro, fritas apenas na própria gordura (e secos num papel-toalha).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 04h11

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Cozinha Liberal: vinagrete, nível superior

Salada de alface romana, tomates e ervas

Ingredientes para quatro porções de entrada

  • Quatro alfaces romanas novas (ou "baby", esse nome ridículo). São aquelas cabeças de alface fechadinhas, mais para compridas, pouco maiores que a palma da mão, mais ou menos;
  • 16 tomates "perini" pequenos. Nome de tomate, no Brasil, é um problema. É uma salada, cada um dá o nome que quer. Mas os "perini" de que falo são aqueles compridinhos, em forma de, claro, pêra, pouco maiores que aqueles chamados tomates "cereja";
  • Cinco colheres de sopa de salsa muito bem picada;
  • Três colheres de sopa de cebolinha francesa picada (é aquela cebolinha menor, mais rígida e mais redondinha que a do nosso "cheiro-verde". Mas dá para usar a cebolinha "normal");
  • Uma colher de sopa de chalotas picadas (se não encontrar chalotas, esqueça. Dá para fazer a salada sem elas. Não use cebola como substituto, nesta receita. A não ser que você e quem vai comer sua salada gostem de cebola crua);
  • 125 ml de vinagrete com mostarda (9 colheres de sopa de azeite, 3 de vinagre de vinho tinto e 1 de mostarda de Dijon. A mostarda dá mais sabor e deixa a vinagrete mais firme por mais tempo. Receita abaixo)

 

  • 1. Corte a base "dura" da alface, sem desperdiçar as folhas. Desmonte com cuidado, folha a folha, a cabeça de alface. Lave em água fria e seque as folhas. SEQUE, para não deixar sua salada aguada.
  • 2. Lave e seque os tomates. Corte-os pela metade, no sentido da altura.
  • 3. Vinagrete com mostarda: deixe a mostarda em temperatura ambiente. Bata a mostarda com o vinagre até dissolvê-la completamente. Depois, basta seguir a receita básica de vinagrete: junte o azeite aos poucos à mistura de vinagre e mostarda, sempre batendo, até que óleo e vinagre fiquem indistintos e a "mistura" se torne opaca e algo cremosa. Prove o molho e, se for o caso, corrija a acidez (com um pouco mais de óleo);
  • 4. Coloque as folhas e as metades de tomate numa vasilha (para servir). Tempere com pitadas de sal, a gosto (cuidado com o sal), moa a pimenta do reino sobre as folhas, junte as chalotas muito bem picadas, a salsa e a cebolinha. Misture tudo delicadamente. Junte duas colheres de sopa de vinagrete à vasilha. Misture, com jeito, sem destruir as folhas. Repita a operação até acabar o molho (umas três vezes mais). Prove o sal e a pimenta, e corrija o tempero se for o caso;
  • 5. SIRVA IMEDIATAMENTE. Não se deve deixar uma salada temperada "esperando": a vinagrete vai "cozinhar" as folhas e deixá-las murchas.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 04h03

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Cozinha Liberal: variação com limão, azeite e cogumelos crus

 
 

Cozinha Liberal: variação com limão, azeite e cogumelos crus

Aqui o ácido (limão) e o azeite não se misturam de antemão, mas se juntam no tempero da salada, que usa cogumelos crus (não tema, fica uma delícia) e ainda um pouco de parmesão:

Ingredientes

  • 1. 200 gramas de champignons de Paris limpos (de preferência, já os compre limpos);
  • 2. 50 g de parmesão (de verdade. Isto é, italiano, "reggiano") em fatias finas;
  • 3. 3 colheres de sopa de azeite de oliva extra-virgem;
  • 4. 1 limão siciliano;
  • 5. 1 dente de alho muito finamente picado (não é socado, é picado);
  • 6. 2 colheres de sopa de salsa muito bem picada;
  • 7. 2 colheres de sopa de manjericão picado;
  • 8. ½ colher de chá de tomilho fresco.

Os champignons de Paris

Para fazer:

  • Misture o alho muito bem picado e o azeite. Junte as ervas picadas e misture, com cuidado. Reserve;
  • Esprema o suco do limão em outra vasilha;
  • Corte os cogumelos em fatias finas. Dá para fazer com a faca, mas seria melhor usar um fatiador (alguns raladores maiores de queijo vêm com um fatiador na lateral. Serve muito bem). Assim que for fatiando os cogumelos, coloque os na vasilha com o limão e dê uma mexida. Além de dar sabor, o limão vai impedir que eles escureçam;
  • Tempere os cogumelos com sal e pimenta do reino moída na hora (com cuidado. Salgue e prove, aos poucos, se você não tem segurança sobre a quantidade de sal que deve usar);
  • Misture os cogumelos ao azeite com ervas e alho, com delicadeza.

Dá para guardar a salada na geladeira por uma hora (muito bem coberta por filme plástico. Mas é melhor servir logo). No momento de servir, junte as fatias de parmesão.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h43

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Cozinha Liberal: aquelas nozes que sobraram...

 
 

Cozinha Liberal: aquelas nozes que sobraram...

 Sabe aquelas nozes que sobraram do Natal? Você gosta de roquefort (um primo do gorgonzola)? Então faça uma salada de agrião, endívias, nozes e roquefort:

 

Um pedação de roquefort

  • Quatro endívias;
  • Duas xícaras de miniagrião;
  • Meia xícara de nozes, por aí (não carece der ser muito preciso nisso);
  • 100 g de roquefort;
  • 4 colheres de sopa de salsa muito bem picada;
  • 4 colheres de sopa de cebolinha francesa picada (é aquela cebolinha menor, mais rígida e mais redondinha que a do nosso "cheiro-verde". Mas dá para usar a cebolinha "normal");
  • Uma colher de sopa de chalotas picadas (se não encontrar chalotas, esqueça. Dá para fazer a salada sem elas. Não use cebola como substituto, nesta receita. A não ser que você e quem vai comer sua salada gostem de cebola crua);
  • 4 ou 5 colheres de sopa de vinagrete com mostarda (vide acima)

Endívias brancas e roxas

Para fazer: desmanche o roquefort (com um garfo, sem picar muito nem transformá-lo numa pasta). Quebre as nozes (sem picá-las, apenas apertando com um cabo de uma faca). Desfolhe com cuidado as endividas (não precisa usar o coração da endívia, que tem folhas menores e mais brancas).

Numa vasilha, junte as folhas de agrião (se não achar miniagrião, tire os cabos do agrião comum) e as folhas de endívias. Tempere as com sal e pimenta. Misture. Junte as ervas. Misture. Junte a vinagrete. Misture com cuidado. Junte as nozes. Misture. Junte o roquefort. Misture com cuidado, para não empastar o queijo. Está pronto para servir.

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h37

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"Incrível, fantástico, extraordinário"

 
 

"Incrível, fantástico, extraordinário"

A coluna de hoje (9/1) na Folha faz mais alguns comentários sobre a quizila entre a Febraban e o Banco Central e avalia o efeito do desastroso resultado da produção de veículos em dezembro, que deve derrubar a produção industrial de dezembro, que pode ficar entre 8% e 10% inferior ao resultado de dezembrode 2007 (a estimativa é mais mais imprecisa do que o habitual, pois alguns indicadores importantes ainda não foram divulgados).

Assinante lê a íntegra aqui.

Trechos:

"Mas, se a pinimba sobre juros subiu aos píncaros da banca, é que a coisa deve andar bem feia. Ontem se soube que a produção de veículos em dezembro caiu quase 54% (em relação a dezembro de 2007). Outro indicador coincidente da produção industrial já divulgado, o da carga de energia, caiu também, 3% (ante dezembro de 2007), coisa raríssima de ver desde o apagão. Trata-se de um sinal de que os grandes consumidores de energia (grandes empresas) pararam de produzir.

"Faltam sair ainda dois outros dados relevantes para antecipar o que deve ter ocorrido com a indústria em dezembro: o índice do tráfego de veículos pesados e o da produção de papelão. Se esses dois últimos números seguirem a tendência de queda, é provável que a produção industrial tenha caído em torno de 9% (em relação a dezembro de 2007). Uma tragédia. Em novembro, a queda fora de 6,2%. As projeções de queda de 1% para o PIB no último trimestre de 2008 ficaram otimistas.

"Se o Banco Central cortar a meta para a Selic em janeiro (mesmo que em um ponto), o refresco tende a ser muito marginal (embora a medida reduza um tico do custo da dívida do governo e sopre uma brisa no estado de desânimo empresarial).

"Decerto Meirelles defendia o seu peixe, que está ficando meio passado e com os olhos turvos, mas o presidente do BC tem alguma razão. Em muitíssimo menor escala, mas de modo semelhante a seus pares estrangeiros, os bancos brasileiros "estão sentados sobre o capital, dado o seu estado de medo catatônico", como disse Alan Blinder, professor de Princeton e ex-vice do Fed, a respeito dos bancos americanos."

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h16

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"Fala sério", diz Meirelles à Febraban

"Vamos falar a sério: o problema não é a Selic, mas o nível do 'spread' dos bancos". Foi o que disse Henrique Meirelles, presidente do Banco Central do Brasil, a Marcio Cypriano, presidente do Bradesco e porta-voz dos bancos na reunião de lideranças de setores empresariais com o ministro Guido Mantega.

A coisa está ficando bem engraçada. Cypriano, mas não só ele, pediu que o BC faça uma reunião de emergência para cortar os juros. Meirelles reagiu dizendo que o problema é o spread, a diferença entre o custo médio que os bancos têm para captar dinheiro e o dos seus empréstimos. Assinante lê aqui reportagem de Guilherme Barros, na Folha, sobre a divertida pinimba BC-Febraban.

Bem, o BC bem que pode dar um talho nos juros. Mas isso não vai fazer muita diferença por agora (afora para a dívida pública, que vai crescer menos). Os spreads estão mesmo um horror. E a taxa de juros real na praça é a menor da história (vide abaixo).

Spreads escandalosos e subindo

 

Os spreads subiram escandalosamente desde outubro de 2008. Como este colunista observou em coluna de 26 de novembro:

"Para os bancos, o custo médio do dinheiro aumentou muito menos do que sua aversão a emprestá-lo. Isto é, o motivo mais importante da alta feia de juros em outubro não foi o aumento da taxa de juros média pela qual os bancos obtêm fundos -sua taxa de captação. Foi o aumento brutal do 'spread' (o extra que os bancos somam à taxa de captação, grosso modo o seu ganho bruto no crédito).

"Desde que há registros disponíveis no Banco Central (junho de 2000), o aumento percentual do 'spread' para empréstimos a empresas apenas não foi maior em agosto de 2002. A economia vivia o segundo ano seguido de crise, Lula arrancava para ser presidente e os mercados se torciam de pavor. Em outubro, o aumento dos juros médios para empresas perde apenas para os de novembro de 2002 (pânico da vitória de Lula), julho de 2001 (alta de juros do BC devida ao apagão e à crise argentina e mundial) e janeiro de 2003 (início do governo Lula, quando a Selic vinha de alta de 11 pontos em menos de um ano).

"A taxa média de juros para empresas aumentou 3,3 pontos percentuais de setembro para outubro. Segundo dados do BC, o custo médio de captação dos bancos em tais operações cresceu meio ponto percentual. O spread, pois, cresceu 2,8 pontos percentuais."

Taxas "básicas" caindo

 

Os juros estão caindo e subindo, como este colunista observava em coluna da Folha de 28 de dezembro de 2008:

"Os juros 'básicos' no mercado continuam a despencar. Trata-se, é claro, de taxas negociadas com base nos contratos entre instituições financeiras, que são o 'piso' do mercado (DI). Como a diferença entre essas taxas e as cobradas de consumidores e empresas são gigantescas no Brasil, em geral o grande público não toma conhecimento delas -não sabe, não quer saber ou tem raiva quando sabe.

"A taxa 'básica' real de juros já voltou ao patamar de baixa histórica, 'acredite se quiser', perto de 7% [agora, estão abaixo de 7%, flutuando em torno de 6,85]. Na praça, o custo médio de captação dos bancos caiu de outubro para novembro. Voltou ao nível de julho, antes da explosão da crise. Mas tal redução de custo não foi repassada ao tomador de empréstimos. Na interpretação mais benévola, os bancos se preparam para um baita aumento da inadimplência (que é custo), o que já começou entre pessoas físicas. No caso das empresas, a inadimplência ainda está comportadíssima, inferior à do início do ano."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h42

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Diário da Crise: juros na Europa

O Banco da Inglaterra, o BC britânico, cortou sua taxa de juros em meio ponto, para 1,5%. A menor taxa em três séculos (sic). Talves a gente consiga voltar no final de 2009 para a menor taxa em três anos.

Das grandes economias européias, a britânica é a que mais apanha, com ajuda substancial da crise no mercado imobiliário, bancos em pandarecos e mercado financeiro à míngua.

A Alemanha, um dos três maiores exportadores do mundo, sofreu uma pancada em seu comércio externo (as exportações caíram quase 11% em novembro, péssimo sinal para o comércio mundial e para o brasileiro também). O PIB da eurozona recuou 0,2% no segundo trimestre e outro tanto no terceiro. O Banco Central Europeu decide o que fazer de seus juros na semana que vem. Em outubro, cortou sua taxa de 4,25% para 2,5%, já bem atrasadinho, pois o BCE é provavelmente o mais maníaco do planeta.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h14

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Diário da Crise: massacre no varejo dos EUA

Fica difícil entender a crise quando se trata de "derivativos", política monetária "quantitativa" e coisas assim. Mas lojas vazias mandam uma mensagem muito mais concreta e relevante sobre a recessão. Nos Estados Unidos, o varejo foi massacrado em dezembro. Segundo a empresa de pesquisa Retail Metrics, as vendas caíram 0,9% (em termos nominais).

Para citar algumas redes mais conhecidas dos brasileiros, apenas Toys "R" Us (brinquedos, alta de 2%) e Wal Mart (1,7%) ficaram no azul, mas os resultados foram tidos como muito ruins pelas empresas. A Gap, que já não ia bem das pernas, vendeu 14% menos. Na Abercrombie and Fitch, roupas que são mania de adolescentes ricos aqui, queda de 24%.

A queda foi de 4% na Macy's, loja de departamentos, que tem um quarteirão em Nova York. JC Penney, menos 8,1%. Sears, menos 13%. Os resultados comparam as vendas de dezembro de 2008 contra o mesmo mês de 2007, em lojas abertas há mais de um ano.

No setor de luxo, o grupo Neiman Marcus (que opera as lojas de departamentos do mesmo nome e a Bergdorf Goodman, na Quinta Avenida, em NY), venderam 27,5% menos. Na Saks, queda de 20%.

As vendas foram assim horríveis mesmo com descontos enormes. Empresário americano corta mesmo o preço quando a coisa vai mal. Mas não adiantou muito reduzir as margens de lucro. As vendas cresceram na Wal Mart porque o grupo vende o que os economistas chamam de "bens inferiores" _grosso modo, as pessoas passam a comprar lá em épocas de crise, numa loja mais barateira.

Os varejistas cortaram previsões de lucro e anunciaram fechamento de lojas. As ações em NY caem.

Calote nos imóveis comerciais

A inadimplência nas hipotecas de lojas, escritórios, centros comerciais etc dobrou no último trimestre (isto é, as hipotecas que foram empacotadas e vendidas como títulos, um terço do total de hipotecas de imóveis comerciais), informa o "Wall Street Journal" com base em estudo do Deutsche Bank. Bancos e "caixas econômicas" vão sofrer outra rodada de tombos.

Desemprego

O número de novos pedidos de desemprego na semana encerrada em 3 de janeiro caiu para "apenas" 467 mil (o menor em três meses). Na média das últimas quatro semanas, estão em 526 mil. Mas o número de pessoas no seguro-desemprego é o maior em 26 anos. Em termos reais, os salários continuam caindo.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h13

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"Inflação do dólar: quem dá mais?"

 
 

"Inflação do dólar: quem dá mais?"

O dólar vai pressionar a inflação? É o tema da coluna de hoje (8/1) na Folha, que apresenta a visão de dois economistas ditos "ortodoxas", mas com opiniões opostas a respeito do assunto. Assinante lê a íntegra aqui.

Trechos:

"No Instituto Brasileiro de Economia (Ibre, centro de pesquisa da FGV), acredita-se que o repasse da alta do dólar para a inflação é menor do que o foi em 1999 (queda do real forte) e em 2002 (crise econômica e eleição de Lula). É o diagnóstico da "Carta do Ibre" de janeiro, texto que abre a revista "Conjuntura Econômica". O Ibre é dirigido pelo economista Luiz Guilherme Schymura.

"Na "Carta do Ibre", argumenta-se que em 1999 e 2002 o choque do câmbio provocou alta quase imediata no preço das matérias-primas (medido pelo IGP da FGV), o que não ocorreu em 2008. "Assim, ... não há uma onda inflacionária em formação. Pelo contrário, no geral os custos da indústria estão em desaceleração", diz o texto do Ibre. Além do mais, o preço das commodities agrícolas e industriais cai.

"Em 1999, o preço dessa cesta de commodities quase não variou do início da desvalorização do real até o final daquele ano. Em 2002, as commodities subiram. Em 2008, do pico das commodities, em julho de 2008, até dezembro, a queda foi de 45%.

Na "Carta", diz-se que a baixa das commodities deve continuar. De resto, a indústria ainda trabalha com preços de contratos de fornecimento antigos. Renovados, devem incorporar ainda mais baixas de preços. As empresas ora desovam estoques. A reposição dos estoques deve ocorrer a custo mais baixo. "Portanto, a pressão inflacionária vinda da indústria pode se reduzir ainda mais nos próximos meses", diz o texto.

"No lado mais pessimista estão economistas como Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, ora no Santander. Num estudo divulgado em 17 de dezembro, com Tatiana Pinheiro, avalia que os resultados da inflação corrente (de setembro a novembro) não servem como prognóstico para o repasse cambial.

"Schwartsman e Tatiana elaboraram um modelo formal para estimar o efeito da alta do dólar. Levaram em conta, além do efeito do câmbio sobre o núcleo da inflação, o desvio do PIB em relação a seu potencial, expectativa de inflação e preço de commodities. Estimaram que o efeito do dólar começa a aparecer um trimestre depois do choque cambial, sendo mais intenso no trimestre seguinte -entre o quarto e o sexto mês (março e maio de 2009, pois). O repasse para a inflação (no ano posterior ao choque) seria de 10% da desvalorização -"se o padrão observado no passado permanece válido".

"A dupla do Santander observa, porém, que há "atenuantes", digamos, nesta crise. O Banco Central teria mais credibilidade (a expectativa de inflação seria menor) e o preço das commodities ora cai, em dólares. Mas o risco do repasse ainda seria alto, embora menor que em 2002."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h44

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A nova bolha: Roubini

"Os títulos do Tesouro americano serão a próxima bolha a estourar?" é a pergunta do RGE Monitor, o site dirigido por Nouriel Roubini, um dos poucos economistas a estimar e descrever em detalhes e antecipadamente como seria a crise financeira de 2007-2008 nos EUA. Trechos da análise abaixo. A íntegra pode ser lida aqui, por assinantes.

"In 2008, the Treasury market had its best annual rally in more than 25 years on fears of global credit crisis, recession, deflation. 10yr and 30yr Treasury yields fell to all-time lows and T-bill yields even dipped into negative territory for the first time since the Great Depression. The total return of the 30-year bond was c. 45%, its best year since 1982. Treasuries in general returned 14%, outperforming S&P 500 by 53 percentage points

"In 2009, any signs of a less than dire economic outcome may burst the bubble in Treasuries. With the U.S. government expected to issue between $1.5 trillion to $2 trillion of debt into the $5 trillion Treasury market to finance its rescues of the financial system, the risk of a sudden drop in prices is growing. 10yr and 30yr Treasuries are still yielding between 2-3%, 2yr notes less than 1%, T-bills near zero. The TIPS market is anticipating less than 0.5% annual inflation for the next 10 years. 

How Bad Will the Crash Be?

The median forecast of 19 primary dealers is that 10yr bond yields will rise to 3% and 2yr yields will rise to 1.2% in 2009 (Bloomberg)

Because of the low income on Treasury securities, it would take only a small rise in yields for total returns on Treasuries to turn negative (Merrill)

Given the level of extension in yields, it would not be difficult to generate losses of say 10% in the 10-year Treasury bond, and as much as 20-25% in the 30-year Treasury bond over a very short period of time (Hussman)

The last time investors lost money on U.S. government bonds was the year after the 1998 bailout of LTCM and Russia's default sent investors rushing to Treasuries. Yields on 10-year notes rose to 6.44% in 1999 from 4.65%

If the dollar holds steady, Treasury bond prices are likely to plunge; if Treasury prices hold steady, the value of the dollar is likely to plunge. Either way, foreign holders of Treasury securities are facing probable losses, and they know it (Hussman)"

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h25

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Mais um pulo do gato morto

O leitor Aurelio Schommer escreveu hoje para o blog observando que o "rally" no mercado de ações, aqui e lá fora, parece irracional e sem fundamento. Parece que Aurelio está certo. Bastou a renovação do fluxo de más notícias, más notícias um pouco piores do que o esperado, para o pessoal faturar os ganhos recentes, vender e derrubar as cotações. As estimativas de aumento de desemprego nos EUA, as notícias de mais megaempresas demitindo pelo mundo e a queda do petróleo (especuladores venderam depois da notícia da alta dos estoques), por exemplo, serviram como toque de retirada.

John Authers, que escreve uma coluna diária sobre finanças no "Financial Times" ("The Short View") comenta hoje mais esse novo "pulo do gato morto". "... Como operadores do mercado charmosamente observam, mesmo um gato morto vai pular se o tombo for grande. E, desde que os ativos de risco chegaram ao fundo, seus pulos foram espetaculares".

Authers lembra que o índice S&P de ações de instituições financeiras (em NY) subiu quase 59% desde novembro (embora ainda esteja 64% abaixo do pico). O índice MSCI de ações de mercados emergentes subiu mais de 48% depois de chegar ao fundo do poço, também entre novembro e dezembro. Mas o colunista do "FT" conclui: "Até agora é difícil enxergar algo mais que especulação [na verdade, Authers usa a expressão "trading phenomenom"], provocado pela psicologia de massas do mercado, em vez de qualquer coisa mais fundamental".

Ou, como escrevi para Aurelio, sobre a "recuperação" recente: 1) Pararam de surgir más notícias inesperadas, o que reduziu o movimento, pelo menos o abrupto, de ajuste de carteiras de investimento e/ou de cobertura de perdas; 2) Investidores de longo prazo e especuladores de curto prazo aproveitaram para comprar papéis baratos. Os primeiros porque podem esperar mais de dois anos para ver ativos como ações voltarem a subir. Os segundos porque surfam na ondinha de recuperação, sabendo que, em breve, outra onda de más notícias pode/deve surgir (balanços nos EUA, novos saques em fundos de hedge etc).

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h49

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Deflação no atacado, economistas no passado

O IGP-DI de dezembro foi negativo: os preços recuaram 0,44%. De novo, abaixo da previsão do mercado. O mercado errou muito na produção industrial. Errou bastante no IGP-DI. Foi surpreendido no IPC da Fipe. Quando tais coisas começam a acontecer com ainda mais frequência, é sinal de que a economia está dando uma corcoveada, uma virada que tira do prumo os modelos de previsão. E essa virada da economia é para baixo, com mais intensidade do que a imaginada até aqui.

Isso não quer dizer que 2009 será necessariamente um horror (PIB crescendo abaixo de 1,5%, por exemplo). Mas o primeiro trimestre será mesmo difícil. E nossos estimados "analistas" estimadores estão vivendo em outro planeta, fora da realidade da economia, o que distorce ainda mais que o habitual o debate sobre providências de política econômica.

O que aconteceu no IGP-DI? No ano, ficou em 9,1%, horrível, decerto, mas em novembro, no acumulado em 12 meses, estava em 11,2%. A parte do índice que mais contribuiu para a "deflação" de dezembro foi o IPA, o índice de preços para o atacado: produtos agrícolas, carnes, derivados de petróleo e químicos, por exemplo.  O IPC (índice de varejo) do IGP fechou o ano em 6,1%. Pela primeira vez no ano (de 2008), o índice de preços da construção civil, no acumulado de 12 meses.

O revertério econômico parece se generalizar.

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h52

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"Apagaram a luz"

 
 

"Apagaram a luz"

A coluna de hoje (7/10) avalia o resultado da indústria em novembro, em parte já comentado nos post abaixo. O mais impressionante de tudo foi o espraiamento da crise para cerca de 70% dos setores industriais. Assinante pode ler a íntegra aqui.

Trechos:

"Sabia-se que a produção industrial de novembro era um caso perdido, embora a maioria dos economistas de bancos e consultorias estivesse vivendo em outro país, talvez planeta. Na média, projetavam queda de uns 3,4% de outubro para novembro. Mas a indústria se espatifou, caindo 5,2%. O que não estava no script, porém, era o espraiamento da crise. Cerca de 70% dos setores fabris cortaram a produção. Não se via coisa assim desde 2002. Ou seja, desde quando a série de dados permite comparações.

Dos setores que indicam com mais precisão o andamento da produção e as expectativas de consumo, apenas alimentos escapou, com crescimento de 3,1% no mês. O encarecimento do crédito, o aumento da seletividade dos bancos e o choque na confiança do consumidor sugeriam óbvias dificuldades para a indústria de bens duráveis (eletrodomésticos, eletrônicos, além de carros etc.). Mas os bens duráveis caíram mais 20%, depois dos 4% de outubro, com paradas duras no caso de máquinas de escritório e informática (18%) e material eletrônico (17%).

Quem produz móveis, roupas, remédios ou produtos de limpeza também desligou máquinas -tais setores caíram entre 2% e 3%.
No caso dos investimentos, o ritmo da produção de máquinas não chegou a recuar tanto como em maio de 2008, quando se sentiu a primeira geada forte da crise. Mas, dada a razia na maior parte da indústria, fica o temor de epidemia no setor de máquinas. Parte relevante de tal indústria trabalha com encomendas feitas com um prazo de antecipação maior que o de outros setores. Ao que parece, dias piores virão nos setores de máquinas, metalurgia, peças, motores etc.

Novembro pode ter sido um caso de exagero? Pode ser. Talvez as indústrias estivessem com estoques grandes demais, pois a economia vinha embalada antes da catástrofe americana de setembro-outubro de 2008. Na dúvida, o empresário pode ter desovado estoques e esperado para ver. Mas a venda de carros ainda caiu muito em dezembro -o imposto menor ajudou, mas não compensou o crédito caro e raro. Os exportadores maiores (minérios, comida e outros associados a recursos naturais) estão demitindo.

Ainda assim, o corte não vai aliviar o custo do dinheiro para o consumidor, que no mínimo deve ficar onde está, o que por sua vez não deve animar o empresário a produzir de novo. Dependemos como nunca da dimensão e da eficácia do pacote que "são" Barack Obama deve anunciar na mesma época em que o BC daqui estiver definindo os juros."

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h41

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Indústria cai muito, mercado erra muito

O resultado da indústria de novembro foi um pouco mais horrível do que o esperado. Isto é, foi muito pior do que o esperado pelo mercado, que na média previa uma queda muito, mas muito mesmo, menor do que a verificada. A média do mercado estava, pois, achando que estava em outro país.

Quem mais acertou foi o Ipea. Apesar de o instituto agora fazer provas de seleção de pesquisadores num nível de esculhambação intelectual que escarnece da inteligência brasileira e vilipendiam o serviço público, a projeção do grupo de conjuntura do instituto foi a que mais se aproximou da divulgada ontem.

A previsão do Ipea para novembro era de queda de 6,7% em relação a novembro de 2007 e baixa de 7,2% em relação a outubro deste ano. O resultado do IBGE foi de queda de 5,2% de novembro para outubro e de 6,2% de novembro de 2008 contra novembro de 2007. Como houve revisão para baixo da série da dados da Pesquisa Industrial Mensal, o Ipea praticamente acertou na mosca (de outubro para setembro, a produção industrial caiu na verdade 2,8% _o dado divulgado no mês passado apontava recuo de 1,7%).

Os modelos de previsão são parecidos. Os indicadores coincidentes e antecedentes de produção industrial utilizados para fazer as contas também são quase os mesmos. Por que o mercado errou tanto? Aliás, o leitor pode se perguntar por que estamos perdendo tempo discutindo previsões. Porque, além de expectativas serem importantes, no Brasil dos dados precários e do debate por demais politiqueirizado sobre política econômica, as previsões têm peso ideológico acima do tolerável.

Na média do mercado, a previsão de queda, de novembro para outubro, era de 3,5%. Gente capaz no mercado previa que a coisa ficaria por aí. O pessoal do Unibanco, por exemplo, ficava nessa média. O pessoal do Credit Suisse acreditava em recuo de 2,5%. No Santander, a projeção era queda de 2,9%. Do lado dos que acertaram mais ficaram, por exemplo, o Bradesco, que previa queda de 5% e a MB Associados, que estimava retração de 4,5%.

Juros, dólar, Banco Central: "viés de baixa"

O mercado de juros futuros (DI) mal se mexeu hoje. Continua "embutindo" uma queda de 1,75 ponto na Selic até dezembro (de 13,75% para 12%) e, praticamente, um corte de 0,5 ponto na Selic na reunião do Copom de 21 de janeiro. O dólar continua a desmanchar no mercado doméstico, não se sabe bem o motivo _talvez seja abandono dos montes de posições compradas em dólar, mas não há dados para saber. Os índices de inflação têm vindo um pouco abaixo do "esperado". Tudo isto posto, a continuar a queda do dólar e sem novos desastres lá fora, um corte de meio ponto na Selic em janeiro parece ser agora o mínimo razoável a se esperar do Banco Central.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h03

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Delfim Netto sobre juros e seca de crédito

 
 

Delfim Netto sobre juros e seca de crédito

Delfim Netto escreve hoje (06/01) no "Valor" um artigo com o título "A solução da crise". Na maior parte do texto, o ilustre professor faz mais uma de suas sínteses sobre o que acredita serem os princípios da política econômica "talvez quase ótima" (já que ele diz não podemos saber se tal política é de fato "ótima"). Sobre a solução da crise, ele é rápido e vai direto ao ponto: no centro do mundo, tal crise vai continuar enquanto o nível de capital dos bancos estiver baixo. Ok.

E no Brasil? O aperto mundial de crédito levou os bancos brasileiros a serem mais, digamos, prudentes, o que no fim das contas provoca um aumento de juros que talvez nos leve a um ciclo vicioso (parada brusca na economia, mais inadimplência, mais retração dos bancos etc). Delfim então parece dizer que a Selic perde efetividade, dado o nível agora ainda maior das taxas de juros na ponta, para o consumidor. De resto, o problema do custo do crédito para o consumidor (aqui e lá fora) não será reduzido enquanto os bancos estiverem "sentados sobre o próprio capital" (na expressão da Alan Blinder, ex-vice do Fed, citado num post de ontem deste blog, O "medo catatônico" dos bancos: EUA e Brasil). A taxa perseguida pelo BC (a Selic) serviria apenas para aumentar o custo de financiamento da dívida pública e reduzir o investimento público. Delfim não o diz explicitamente, mas parece pregar o corte rápido e forte da taxa Selic.

Assinante pode ler o texto na íntegra aqui.

Abaixo, trechos essenciais do artigo:

"O processo iniciado no exterior contém um elemento perverso porque atinge mesmo os sistemas financeiros mais hígidos (como é o caso brasileiro), através da redução do 'funding' com empréstimos internacionais e da redução das linhas de crédito do comércio externo. As instituições financeiras tentarão ajustar a sua 'alavancagem' aumentando o seu capital, as tarifas e suas taxas de juros. O paradoxo é que se tentarem ajustá-la através de uma rápida redução do crédito, racionando seus empréstimos, produzirão uma dura queda do consumo e do investimento privado que atingirá a economia real, deteriorando ainda mais a qualidade dos seus créditos.

"No curto prazo o racionamento do crédito promoverá um aumento da taxa de juros na ponta final, independentemente da taxa Selic que apenas continuará a aumentar os gastos públicos com juros que poderiam ser dirigidos ao investimento. O Banco Central pode e deve continuar a fazer o que está fazendo: dar liquidez e acomodar a alavancagem dentro dos critérios de Basiléia (que em outra situação poderiam ser discutidos). Mas é preciso entender que o problema só será resolvido satisfatoriamente com um aumento do capital do sistema financeiro.

"Até o final de 2008 ele tinha reconhecido um prejuízo efetivo e potencial no mundo da ordem de US$ 750 bilhões e aumentado o seu capital na mesma proporção, com pouco mais de 1/3 de recursos fornecidos pelos Tesouros... "

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h06

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"A nova bolha e o rinoceronte"

 
 

"A nova bolha e o rinoceronte"

É cada vez mais intenso o blablablá sobre o risco de uma "nova bolha" nos Estados Unidos, a do preço dos títulos da dívida pública americana, os títulos do Tesouro dos EUA. Se se pode chamar a coisa de "bolha" ou não, isso é quase discussão metafísica. Sabe-se apenas que a massa enorme de títulos está rendendo quase nada (em termos nominais, no curto prazo, e apenas os títulos mais longos empatam com a inflação). A valorização dos títulos foi rápida, decorrente do pânico de setembro. O que pode acontecer se houver um desmonte dessas posições? Esse é o tema da coluna de hoje 05/01, na Folha, que o assinante pode ler na íntegra, aqui.

Trechos:

Quando os estilhaços da bolha de ações ainda faziam estragos, em 2002, já havia alertas sobre uma nova bolha que se formava nos EUA: a imobiliária. Havia diagnósticos inteligentes e experts mercadejando profecias. Para citar apenas um nome ilustre, Paul Krugman, ora Nobel de Economia, escrevia assim: "Se tivermos, de fato, uma bolha imobiliária, e, se ela estourar, vamos [os EUA] ficar incomodamente parecidos com o Japão".

 
Os títulos americanos tornaram-se uma espécie de colchão universal. O temor do risco, entre outros fatores, levou investidores a comprarem tais papéis, que assim se valorizaram. Assim, o rendimento dos títulos que vencem em três meses flutua, desde setembro, pouco acima de zero, quando não é zero mesmo. No vácuo dessa fuga do risco, o valor de outros ativos despencou (embora por vários motivos), encarecendo o custo do crédito para o setor privado e barateando o financiamento da enorme e crescente dívida americana.

Se os investidores se cansarem do rendimento zero e/ou a economia mundial começar a se recuperar ("quando e se"), o valor de tais títulos cairá, os juros "básicos" americanos aumentarão e o valor de algum outro ativo vai inflar.

O governo dos EUA poderia, então, comprar seus papéis, baixando o seu custo de financiamento, mas despejando mais dinheiro na praça, em tese aumentando o risco de inflação e de o dólar perder valor (o que em tese poderia provocar alguma fuga de ativos dos EUA) etc.
Como disse o economista Kenneth Rogoff, na atual crise, temer um pouco mais de inflação é como se preocupar com sarampo quando o risco é de peste. E o rápido e monumental aumento da dívida americana, e o movimento de placas tectônicas que tal fenômeno provoca, talvez nem seja uma "bolha".

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h50

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O "medo catatônico" dos bancos: EUA e Brasil

"Os bancos estão sentados sobre o capital, dado o seu estado de medo catatônico", disse Alan Blinder, professor de Princeton e ex-vice-presidente do Fed, em uma entrevista citada pela Bloomberg (mas o texto não deixa claro para quem Blinder falou). "Não os culpo nem um pouco, pois isso mostra a Wall Street que os bancos estão mais seguros, mas isso não melhora muito a situação. Se se tira dinheiro do bolso do público, seria preciso dar alguma coisa em troca, e não está se dando realmente nada", continua Blinder.

O texto da matéria, porém, não diz o que Blinder faria. Como diz Delfim Netto a respeito de situação análoga no Brasil, pode se levar o burro à fonte, mas não se pode obrigá-lo a beber (embora Delfim seja adepto de alguma "moral suasion", por parte do governo, para fazer os bancos emprestarem mais).

Logo depois de Blinder, Jeffrey Garten, professor de finanças em Yale e ex-subsecretário do Comércio no governo Clinton, parece concluir o raciocínio do ex-vice do Fed: "O governo não está agindo de modo suficientemente agressivo para obter algo em troca. O bem público é a chave para o bem privado neste caso. Não há outro jeito".

Bem, parte minoritária do controle acionário das maiores instituições financeiras estão não mãos do governo, do Tesouro americano. E daí? Como se faz um banco emprestar e baixar juros (as taxas de juros americanas, afora as da dívida pública, ainda estão bem altas)? Considerem o caso de Lula e dos bancos estatais no ainda estatalíssimo Brasil, onde de resto intervenção governamental na economia causa pouquíssimo escândalo. Nem aqui "rola".

O que dizem os bancos americanos? A Bloomberg cita Diane Casey-Landry, COO da Associação dos Banqueiros Americanos, para quem a lucratividade dos bancos tem de aumentar antes de que o aperto de crédito imposto pelos bancos seja aliviado.

"Os contribuintes devem ganhar com seus investimentos [feito por meio do governo americano, que ficou com ações dos bancos durante a crise]", diz Casey-Landry. "Temos de voltar ao tempo em que nem todo mundo tinha direito a um empréstimo. O que vai nos tirar dessa recessão são empréstimos seguros, feito a pessoas que vão pagá-los, e não mandar dinheiro para pessoas que não podem fazê-lo".

O debate americano serve para pensarmos o que fazer por aqui, no Brasil. A taxa real de juros está em torno de 7% (swap DI x pré, 360 dias, deflacionada pela expectativa do IPCA em 12 meses). O custo de captação dos bancos caiu. Os spreads, porém, aumentaram, aliás dispararam, para usar o clichê, no caso correto. Supondo que o BC corte meio ponto percentual da Selic, chancelando a baixa de juros já ocorrida na praça (o DI para fevereiro, por exemplo), talvez os juros futuros no mercado caiam um tantinho mais e a expectativa de inflação fique onde está, ou talvez um cadinho mais alta. Teríamos juros reais por volta de 6,5%. E daí?

Na margem, muito na margem, é verdade, haveria alguma melhoria no custo do crédito (e a dívida pública ficaria mais barata, talvez o efeito mais relevante). Mas os bancos vão ficar menos seletivos, vão reduzir spreads de maneira relevante ("tudo o mais constante")? Não se trata aqui da defesa de posição alguma. Mas de uma dúvida. Quem se habilita a responder?

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h46

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"A balança e o balanço do dólar"

 
 

"A balança e o balanço do dólar"

Vamos passar pelo menos os próximos três meses num tiroteio a respeito do efeito do encarecimento do dólar sobre a inflação. Sim, as escaramuças já começaram. Mas como quase todo mundo reconhece que o repasse da desvalorização do real para os preços do varejo costuma demorar (três meses? Seis? Quem dá menos?), os contendores estão ainda comportados. A coisa deve esquentar pelo final do mês, com a primeira reunião do Banco Central para discutir e definir a meta da taxa básica de juros. A coluna de ontem (4/1) na Folha trata das incertezas a respeito de dólar e inflação em 2009. Assinante lê a íntegra do texto aqui.

Trechos:

A desvalorização do real tende a encarecer produtos importados. Tem efeitos também sobre os preços de produtos de produtos que o país exporta. Como o exportador recebe mais reais pelos seus produtos, dada a desvalorização da moeda nacional, tende a cobrar o equivalente no mercado interno, influenciando os preços mesmo dos produtores que não negociam no mercado externo, "tudo o mais constante". Isto é, a desvalorização do real tende, em tese, a provocar tais efeitos, pois o comportamento dos preços depende de ainda de outras variáveis. O problema está, pois, aí, no "tudo mais constante".

Fica mais fácil de imaginar o tamanho do problema com um exemplo concreto, embora simplificado. Nos doze meses que correram até agosto de 2008, o preço das importações brasileiras (em dólar) tinha subido em média cerca de 20% (até novembro). Nesse mesmo período, o dólar havia perdido cerca de 18% de seu valor nominal em relação ao real (usamos apenas o preço do dólar para simplificar o exemplo). Ou seja, os preços subiram em dólares, mas o real se valorizou diante do dólar. Na prática, ficaria elas por elas. O efeito do encarecimento dos importados sobre os preços domésticos tendia então a ser "compensado" pelo do câmbio.

Desde agosto, depois da explosão da crise e do dólar, a moeda americanaficou uns 40% mais cara (pela cotação média do mês). O preço dos importados em dólar subiu 4,5%. Em tese, por estas médias de preços, os importados teriam ficado quase 46% mais caros, em reais (mas isso é apenas uma abstração estatística).

Quanto desse aumento de preços em reais é enfim repassado para os preços do varejo? Alguns economistas dizem que 10% do aumento de preços em reais (no acumulado de 12 meses) acaba chegando ao varejo (ao IPCA), nos 12 meses seguintes.

Mas há problemas variados nessa conta, como se dizia. Os empresários trabalhavam, de fato, com qual valor do dólar em agosto? Com R$ 1,60? Ou não reduziram seus preços quando o dólar caía (isto é, teriam "gordura" para queimar)? Trabalham agora com R$ 2,30? O dólar vai ficar por aí, vai cair ou vai subir?

As empresas que lidam com produtos "comercializáveis" no exterior (exportação e/ou importação) vão conseguir repassar seus preços, tanto no mercado doméstico como externo? Desde outubro, a quantidade de produtos exportados pelo país vem caindo, e a demanda doméstica também deve cair. Com demanda menor, fica mais difícil repassar aumentos para o consumidor (porém, o efeito câmbio "aparece" em outro lugar, na rentabilidade: margens de lucro menores levam empresas a fazer cortes de investimento, produção e emprego).

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h28

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Recessão piora nos EUA

Saiu hoje, como em todo primeiro dia útil do mês, o primeiro indicador econômico americano relevante de 2009, embora ainda sobre o ano pestilencial de 2008. É o ISM industrial de dezembro, número que dá a tendência de produção nas fábricas, obtido a partir de opiniões de executivos encarregados de compras. É o mais importante indicador produzido pelo setor privado nos EUA.

O Índice dos Gerentes de Compra (ISM), número síntese da associação industrial, caiu a 32,4% em dezembro (contra 36,2% em novembro e 38,9% em outubro), o pior desde junho de 1980 (quando chegou a 30,3%). Na média, economistas previam que o ISM síntese ficaria em torno de 35%.

Na pesquisa do ISM, os executivos respondem se as compras da empresa estão em alta, na mesma ou em baixa (respondem ainda sobre emprego, estoques etc.: o ISM é uma síntese). Para chegar ao índice, o ISM soma as respostas "em alta" com metade das respostas "na mesma". Se todo mundo (100%) responder "na mesma", o índice dá pois, 50%: sem mudança. Menos de 50% é retração nas fábricas. Menos de 41,1% é retração na economia toda.

O índice de novas encomendas caiu pelo 13º mês consecutivo, para 22,7% (contra 27,9% em, novembro). Está no nível mais baixo desde 1948.

Enfim, o número indica que os Estados Unidos entraram numa recessão tão feia como a do início dos anos 1980, bem pior que a do início dos 1990 e a do começo deste século.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h27

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"Recordar é viver: blablablá 2008"

 
 

"Recordar é viver: blablablá 2008"

A coluna de hoje (2/1) na Folha é apenas uma memória do que disseram os "líderes do mercado livre" a respeito da crise:

Os "líderes do mundo livre", dos mercados antes liberalérrimos e outros senhores do universo estão em recesso. Ainda não há mentiras e blablablás novos para registrar. Mas recordar é viver. Antes da nova safra de cascatas ideológicas, segue um resumo do lixo tóxico verbal de 2008 na economia.

"Não acho que vamos para uma recessão." George Bush, presidente dos EUA, em março.

"Os fundamentos da economia americana são fortes." John McCain, então candidato a presidente dos EUA, 17 de abril.

"O pior provavelmente já passou. Não há dúvida de que as coisas vão muito melhor agora do que em março." Henry Paulson, maio de 2008.

"É bem possível que em algum momento [do ano] tenhamos um ou dois trimestres de crescimento negativo, mas recessão não é de modo algum a nossa projeção central." Mervyn King, presidente do Banco da Inglaterra (BC inglês), em maio.

"O estímulo fiscal vai dar apoio à economia enquanto enfrentamos a correção imobiliária, o tumulto nos mercados e a alta do preço da comida e do petróleo... Mas esperamos ver a economia crescer num ritmo mais forte antes do final do ano." Henry Paulson, maio de 2008.

"Não há dúvida. Wall Street tomou uma bebedeira e agora está de ressaca. A questão é por quanto tempo Wall Street vai ficar sóbria, sem mexer com esses instrumentos financeiros extravagantes", George Bush, 18 de julho.

"Quando encontrar um "short seller", vou arrancar seu coração e comê-lo diante dos olhos dele, enquanto ele ainda estiver vivo", Richard Fuld, presidente do Lehman Brothers, em setembro, que atribuiu a queda de seu banco à ação de "short sellers" (quem vende ações a descoberto, sem tê-las, acreditando na baixa do papel).

"Seu banco quebrou, nossa economia está em crise, mas o senhor conseguiu manter seus US$ 480 milhões. Tenho uma pergunta muito básica para o senhor: isso é justo?" Henry Waxman, deputado americano, para Richard Fuld, em outubro.

"Descobri uma falha [nos mercados livres]. Não sei quão significativa ou permanente ela é. Mas esse fato tem me angustiado", Alan Greenspan, ex-presidente do Fed (1987-2006), 23 de outubro.

"No último ano [2007/8], a falta de confiança na validade dos registros contábeis de bancos (...) provocou uma maciça relutância de emprestar a eles [aos bancos] (...). Alguns dos pilares da competição de mercado falharam", Greenspan.

"Eu e outros estávamos enganados quando dissemos que a crise do "subprime" seria limitada." Ben Bernanke, presidente do Fed, o BC dos EUA, semana 25 de novembro.

"Tudo era só uma grande mentira", frase atribuída a Bernard Madoff, que a teria dito em dezembro a sócios, "revelando" a fraude de US$ 50 bilhões. Madoff, 2007: "No ambiente regulatório de hoje, é virtualmente impossível violar regras".

"Sabe, sou o presidente [nesse período de crise]. Mas acho que, quando escreverem a história deste período, as pessoas vão ver que um monte de decisões foi tomado em Wall Street há uma década, por aí, antes que eu fosse presidente, quando eu estava chegando ao governo", George Bush, 1º de dezembro.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h47

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"2008: o mercadismo saiu de férias"

 
 

"2008: o mercadismo saiu de férias"

Na primeira coluna do ano na Folha, de hoje (1/1/2009), discuto a desmoralização, ao menos provisória, das teses sobre a autodisciplina e a capacidade de auto-regulação dos mercados. A íntegra do texto pode ser lida aqui.

Trechos:

O maior lugar-comum do ano passado foi dizer que 2008 marcou o "fim de uma era".

Por um lado, tal trivialidade partia de gente que perdeu muito dinheiro.  Ou que via sua jactância mercadista ser desmoralizada quando bazófias da finança, de autoridades ou de intelectuais eram seguidas, dias depois, por falências desastrosas de ideologias, de formuletas econômicas ou de instituições financeiras. De outro lado, foi também a reação estereotipada e ainda vulgar de ingênuos, passadistas, desinformados e seitas que proclamavam o "fim do neoliberalismo". Mas, como de costume, nada sabemos nem de desdobramentos comezinhos da crise, quanto mais da história por vir.

Ficou evidente que o senso comum ideológico dominante sobre a autodisciplina dos mercados foi desmoralizado. Não se sabe se o vexame será duradouro ou terá consequências, mas não se trata de pouca coisa.

Trata-se do fundamento intelectual da pregação mercadista, fundamento desde sempre ideológico. O próprio mercado, a finança em particular, não teria avançado tanto em dimensão, em risco e em produção de desigualdade, em clima de estabilidade política, se não fossem os diversos seguros, financeiros e sociais, patrocinados pelo poder político.

A grande finança e a grande empresa se expandiram, e com ela seus riscos econômicos e sociais, incentivadas pela proteção oferecida por instituições reguladoras, pela cobertura estatal do risco financeiro, por "empréstimos de última instância", por socorros ocasionais contra "riscos sistêmicos", por "redes de proteção social" para os excluídos etc.

No próprio dizer de mercadistas ilustres, o autointeresse não é capaz de criar equilíbrio. Sem a proteção política, o sistema cria catástrofes, como nos anos 1930; protegido, tende a criar danos, talvez menores, que ainda precisam ser sanados pelo poder político, como na presente crise.

Talvez seja impossível controlar tais ciclos de risco de catástrofe econômica. Mas o benefício do patrocínio público e estatal, que sustenta os períodos de bonança dos ciclos, são a coisa mais mal distribuída no mundo, assim como a razão, para parafrasear Descartes ao contrário. Disso, mal se trata. E isso é o essencial.

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h27

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PERFIL

Vinicius Torres Vinicius Torres Freire é colunista da Folha, onde está desde 1991. Foi Secretário de Redação do jornal, editor de Dinheiro, editor de Opinião, correspondente em Paris, editor de Ciência e editor de Educação

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