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Um juiz disse hoje em decisão provisória, liminar, que a Embraer não poderia ter demitido milhares sem negociar. Ok, se a Embraer negociar, não conceder nada e mantiver a decisão de demitir, fica tudo bem? Lula tinha ficado "indignado" com as demissões. Logo esta Folha noticiou que Lula jogava para a galera, pois já sabia da demissão havia dias (assim como a CUT). Como de costume, no Brasil e na política deste governo também, essa conversa é cínica, de baixo nível e populista. Existe um limite, a racionalidade econômica, a partir do qual uma empresa não pode manter empregados, pois vai prejudicar o negócio. Onde fica tal "limite" e o que significa "prejudicar o negócio"? Não sabemos bem. Quem sabe mais é a própria empresa. Logo, de cara, a empresa tem a vantagem de "overshoot", de exagerar para seu proveito: isto é, por exemplo, demitir mais, por segurança (ou devido a qualquer outro argumento). De resto, mesmo que fosse possível demarcar precisamente a "racionalidade econômica", não lidaríamos com um "ponto", um limite preciso da "racionalidade econômica": tratar-se-ia mais de uma "banda", uma "faixa", a partir da qual haveria margem de negociação: talvez uma empresa possa demitir menos, dar mais aumentos de salários ou benefícios do que diz que pode fazer. Mesmo nos termos convencionais desse debate, porém, essa "banda", esse limite da racionalidade econômica, com razoável margem de erro para mais ou para menos, é flutuante, digamos. Depende dos planos da empresa para o futuro. Depende das expectativas de retorno dos acionistas (prazo e quantidade). Depende de que imagem pública (para o público e para o governo) que a empresa quer passar. Depende de outras negociações com o governo (sobre quais benefícios a empresa pode auferir além daqueles relacionados diretamente a sua atividade econômica. Isto é, uma empresa não tem bom desempenho apenas devido a sua racionalidade estritamente econômica, mas também obtém ganhos devido a coisas tais como subsídios, privilégios como proteção tarifária, tolerância governamental com uma posição oligopolística ou outras vantagens ditas regulatórias etc). Ou seja, apesar do que dizem os manuais de microeconomia, uma empresa não procura apenas maximizar o lucro, mas procura maximizar a possibilidade de sua sobrevivência lucrativa _trata-se de duas coisas bem diferentes. A consequência dessa singela (...) conclusão é que a sobrevivência lucrativa de uma empresa não depende apenas da racionalidade econômica do negócio, mas de como a empresa consegue se virar em um dado ambiente institucional e social. Dados tais argumentos, poder-se-ia dizer que parece muito justo que instituições como a administração pública e a Justiça interfiram nas demissões de uma empresa, a Embraer ou qualquer outra. Mas aqui chegamos a uma coisa parecida com o que os filósofos chamavam de aporia (um beco sem saída, contradições insolúveis dentro de um determinado sistema). Por um lado, sabemos que idealmente existe de fato a racionalidade econômica _em algum ponto, empresas podem de fato entrar no vermelho e quebrar. Por outro, a partir de certo ponto tal limite é incerto; de resto, as empresas, afinal, não obtêm seus resultados apenas devido a seu desempenho econômico. O problema que se põe é: quem vai "arbitrar" até onde vão tais limites da racionalidade econômica (lembre-se, sempre, que estamos discutindo a questão dentro de um arcabouço "liberal": direito razoavelmente amplo de propriedade, economia de mercado etc). O governo? Comissões paritárias? A Justiça? Governos e seus braços devem administrar pois todas as empresas? Isso na prática faz sentido? O governo seria "neutro" e ao mesmo tempo capaz de administrar zilhares de empresas? Este blogueiro acha modestamente que não, que isto é impossível, na prática, e tende a provocar centralização autoritária. Por outro lado, a iniquidade da distribuição do produto social do trabalho é um fato. Mas, a esta altura deste modesto post, o blogueiro acha que a discussão está ficando sofisticada demais para as cretinices que estamos ouvindo do Planalto e da Justiça a respeito de demissões. A idéia aqui era apenas sugerir que o buraco é mais embaixo, que o debate é "mais para cima", e não essa bobajada rastaquera e populista, para a galera, que se ouve de Lula e da Justiça. Se se quer de fato discutir problemas de distribuição e reformas sociais e econômicas, ok. Ficar arrumando quizilas com empresas específicias e caso a caso é apenas populismo. E populismo cínico, pois quem está no governo é o Partido dos Trabalhadores e, agregado a ele, a CUT. Porém, no âmbito da sociedade civil, do conflito social, o Partido dos Trabalhadores e sua CUT resignam-se ao peleguismo. No âmbito da política, são aliados animadíssimos do atraso e da bandidagem (quando não é o próprio partido envolvido em bandidagens).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h50
"Crédito: despiorou mas encrencou"
As novas concessões de crédito estão ou estagnadas ou caindo, a depender da base de comparação. Em relação ao trimestre encerrado em janeiro do ano passado, o dinheiro novo emprestado caiu um pouco. O estoque de crédito (o total de dinheiro emprestado e ainda por pagar) ainda 30% maior que em janeiro de 2008. Tal crescimento era mesmo insustentável. Mas a brusca parada na evolução do dinheiro novo emprestado vai causar estragos. Como quase nada de honesto e duradouro cresce sem parar a 30% ao ano, poderíamos até dizer que certos males vêm para bem, como dizem alguns economistas de bancos. Em vez de inflarmos nossa bolha financeira até um desastre ou a desinflarmos à base de juros cavalares, dir-se-ia que vamos nos valer algo inadvertidamente da oportunidade que a crise mundial nos ofereceu. Porém, como no triste caso do parque da Aclimação, em São Paulo, o lago será esvaziado por acidente, de uma hora para outra, e muitos peixes e outros animais serão tragados pelo ralo. Nessa correnteza desordenada, os patos do consumo serão arrastados do mesmo modo como os cisnes do investimento. Além da metáfora oferecida por aquela cena bucólica paulistana, o que mais se passou no crédito em janeiro? Em relação aos horrores do final de 2008, pode-se dizer talvez que o crédito tenha despiorado. Em relação ao mesmo período do ano passado, o caldo entorna pelo ladrão.
Falava-se ontem bastante do aumento da inadimplência da pessoa física, que passou de 7,1% em janeiro passado para 8,3% agora, um aumento de fato ruim. Mas tal número ainda tende a piorar, dados a redução do crédito para empresas, para o consumo de bens duráveis, o aumento do desemprego e as reduções de salário. A inadimplências das empresas está no mesmo nível de janeiro de 2008. Mas a qualidade atual do crédito só vai aparecer nos dados de março ou abril (a estatística da inadimplência registra atrasos de mais de três meses).
Esse foi o tema da coluna de hoje na Folha, que o assinante pode ler na íntegra aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h35
"Desespero" nos EUA
Paul Krugman abre um post em seu blog com a expressão "sentimento de desespero" (ou "desesperança". Pelo tom do texto, o economista quis dizer algo entre desespero e desesperança). Elogia o orçamento proposto por Obama. "Mas, sobre a questão de dar um jeito nos bancos, muitos de nós estão sentindo um crescente desespero [despair]". Krugman diz que, apesar dos discursos "corretos", Obama, Geithner (secretário do Tesouro) e cia. não estão fazendo o que é preciso. O Nobel e colunista do "New York Times" subestimam o problema, fazem muito pouco e com atraso, não estão sendo claros e honestos sobre o custo verdadeiro do rombo. Literalmente: "O presente plano [Geithner-Obama] parece ser o de manter os bancos semivivos, dando garantias implícitas aos passivos e pingando dinheiro quando preciso, enquanto anunciam que os bancos estão bem capitalizados _e esperam que as coisas melhorem. Tudo como no Japão, de novo. E o resultado será provavelmente uma crise profunda e duradoura". Mais de Krugman em seu blog. Sobre a "japanização" dos EUA, também em seu blog, ler o post "Turning Japanese".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h10
"O rebolado ideológico nos EUA"
"A posse de Barack Obama abriu a temporada do teatro do rebolado ideológico na administração da economia americana. Trata-se de evitar a ruína das instituições financeiras sem que o governo pareça: 1) amigo dos "gatos gordos" de Wall Street, para o público mais popular; 2) "socialista", para o público republicano e para o americano "médio"; 3) inimigo do capital. Isto é, o governo deve dar um jeito na coisa, mas sem tirar dinheiro de acionistas e credores dos bancões zumbis (mortos-vivos, quebrados, mas respirando por aparelhos pagos pelo governo).
O terceiro passo desse rebolado é o que "está pegando". Quem detém ações e outros títulos de instituições financeiras que pagam rendimentos fixos ou contratados está com medo. Teme que, numa estatização ou coisa parecida, o governo o obrigue a converter parte de seus papéis em ações ordinárias e/ou que adie "sine die" o pagamento de dividendos. A equipe econômica de Obama, pois, tem de rebolar e fazer teatro, conciliando os papéis que muitos deles já desempenharam: de altos burocratas e de altos financistas de Wall Street (ou agregados). Os economistas de Obama incentivaram as facilidades para lambanças financeiras, concedidas no governo de Bill Clinton, ou as apoiaram nos anos de George Bush (ou não viram o problema ou fizeram vista grossa)."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h54
"Crise grande, apatia maior"
Americanos são contra pacote de ajuda a quem pode perder casa e estatização provisória de bancos e enfrentam crise com estoicismo. Perspectiva de mudanças políticas devidas à crise parecem pequenas. É o tema da coluna de hoje na Folha, que pode ser lida na íntegra aqui. Trecho:
Pouco mais de metade dos americanos discorda da ajuda que Barack Obama quer oferecer aos americanos que ora enfrentam dificuldades para pagar a prestação de suas casas -metade dos eleitores democratas também refuta a medida. É o que dizem pesquisas de opinião. A maioria dos americanos parece pois adepta das teses, acadêmicas e/ou políticas, que atribuem aos indivíduos toda ou a maior parte da responsabilidade pela sua condição social e econômica. Grosso modo, para os ideólogos de tal opinião, num mercado quase sem "falhas", com "incentivos corretos", sem intervencionismos "distorcivos" e com algumas equalizações sociais mínimas, o endividado ou o fracassado em geral, o "loser", fez escolhas erradas e/ou irresponsáveis. Ainda segundo pesquisas de opinião desses últimos dez dias, pouco mais da metade dos americanos aprova que o governo "assuma" a gestão de bancos a fim de conter o agravamento da crise, mas apenas cerca de um terço admite que o governo controle o capital das instituições financeiras."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h04
São raros os momentos em que as Bolsas americanas reagem a comentários de “gente do governo”, digamos assim, para simplificar. Discursos de membros da direção do Fed, o Banco Central americano, por vezes fazem dançar os valores das Bolsas. Mas o mercado não gosta de imaginar nem de esperar que um banco central seja exatamente parte de um governo. A falação de secretários do Tesouro, o ministro da Fazenda deles, costumava ter ainda menos repercussão. Entrevistas de parlamentares, então, eram coisas fora do radar, a não ser que tratassem de leis que afetassem essa ou aquela empresa, e assim o preço de seus papéis no mercado. O que o mercado teme? Que o governo compre mais ações ordinárias e dilua ainda mais o capital das instituições financeiras. Ou, pior ainda, que a estatização implique a cassação dos dividendos e outros rendimentos fixos combinados com os detentores de ações preferenciais. Etc. Pois bem, os parlamentares americanos vinham derrubando as Bolsas por dizer que a estatização provisória de grandes bancos americanos seria inevitável. Ben Bernanke, o presidente do Fed, o BC americano, deu um peteleco nas ações, peteleco para cima, ao afirmar no Senado americano que não haveria estatização. Bem, pelo menos foi isso que os mercados entenderam. Mas foi isso que ele disse? Ou é isso o que vai acontecer? Bernanke não se comprometeu muito com coisa quase coisa alguma, como é de praxe em falações de presidentes de BCs. Disse coisas que não é preciso fazer coisas complicadas como “estatizar formalmente” os bancos. Ou: “Não precisamos [o governo] ter o controle do capital para trabalhar com os bancos”. Então que nome Bernanke dá à coisa? “Parceria público-privada”. Literalmente. O governo será acionista, de preferência minoritário. Enfim, parece que o pacote financeiro de Obama, na prática, vai colocar quanto dinheiro for necessário para que os grandes bancos não quebrem, evitando ao máximo ficar com o controle. Os “testes de estresse” começam amanhã _vão checar quais bancos agüentam tais e tais cenários de agravamento da crise. Se estiverem no bico do corvo, os bancos levarão mais dinheiro. Parece uma receita de conserto aos poucos, a conta-gotas. Não tem dado muito certo. O governo Obama e sua equipe econômica experientérrima vão ficar nisso? Talvez não. Talvez tapem os rombos maiores nos bancos maiores e ofereçam garantias para investidores privados (isto é, o investidor compraria papéis desses bancos, ações ou títulos, e o governo cobriria o risco e/ou garantiria que continuaria a tapar rombos adicionais, deixando os bancos sempre capitalizados). Enfim, parece que Obama vai estatizar aos pouquinhos, sem fazer alarde, cobrindo o risco de perda dos atuais acionistas e credores dos bancos, e talvez dos futuros também. Um banqueiro como Damian Chunilal, ex-Merrill Lynch, sugere que o governo estatize parte dos grandes bancos muito arrebentados e incite o investidor privado a colocar dinheiro nos demais bancos. Como incentivá-los? Garantindo os investimentos privados. Chunilal descreve o seu “pacote” em artigo para “Financial Times”, que pode ser lido aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h57
O governo Barack Obama começou a fazer mágicas e milagres a fim de evitar que, formalmente, venha a ficar com a maioria absoluta das ações do Citibank. Na verdade, se espera para ver qual será o truque do governo para não ficar com o Citi ou para fingir que não ficou. Discutem-se coisas como converter o dinheiro que o governo colocou no Citi em ações ordinárias a preços camaradas. Isto é, o governo pagaria mais do que o preço atual e irrisório de mercado a fim de não ficar com ações demais. Mas alguém do público americano deverá notar que, deste modo, o governo Obama vai doar dinheiro do contribuinte para o Citi, seus acionistas e credores. Na quarta-feira começam os “testes de estresse” aos quais o governo vai submeter as instituições financeiras. Em tese, vão checar se os bancos são capazes de resistir a novas rodadas de apodrecimento da economia e dos seus ativos. Caso não sejam capazes, as instituições “terão a oportunidade de, primeiro, procurarem fontes privadas de capital. Caso não consigam, o capital tampão provisório será colocado à disposição pelo governo”, segundo diz a nota liberada hoje pelo Tesouro, pelo Fed e três agências de regulação financeira dos EUA. Bem, dá quase vontade de rir. Se um banco estiver para quebrar (se não “passar” no “teste de estresse”), qual agente privado vai colocar dinheiro lá? Como serão tais testes de estresse? Qual o cenário econômico que será usado? Recessão profunda, de mais de 3%? De 1% e pouco, como estima o Fed? Qual o nível de desemprego e calotes? Ninguém sabe nada, e os testes podem ser truque também. Segundo o “Financial Times”, os concorrentes menos podres estão preocupados com os privilégios que um Citi estatizado, ou quase, possa ter, como capital barato. Fazem lobby para limitar o raio de ação do Citi. De resto, a que foi a maior seguradora do mundo, a AIG, estatizada em setembro de 2008 pelo governo dos EUA, está quebrando de novo _o pacote de socorro da seguradora começou com US$ 85 bilhões, passou a US$ 150 bilhões e agora deve ficar ainda maior. A AIG vai quebrar dentro do governo. Como a Merrill Lynch quebrou dentro do Bank of America. Está o caos e a barbárie no sistema financeiro americano.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h05
"O desemprego é mais paulista"
Quase todo o desemprego de janeiro veio da Grande SP; Estado também pesa mais na redução do emprego formal _foi o tema da coluna de domingo (22/2) na Folha. Assinante lê a íntegra aqui. Trecho: "Quase todo o aumento do número de pessoas desocupadas em janeiro veio da Grande São Paulo. Trata-se dos dados do IBGE, divulgados na sexta-feira, que cobrem apenas as regiões metropolitanas paulista, de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio e Porto Alegre. Em relação a janeiro de 2008, apenas São Paulo e Rio registraram aumento no número de desocupados. Foram 104 mil paulistas a mais em busca de emprego, e 15 mil cariocas. Mas a taxa de desemprego paulista foi a 9,4%; no Rio, a 6,6%. Entre as regiões metropolitanas pesquisadas, o desemprego em São Paulo só não é maior do que em Salvador. Nos números do emprego registrado em carteira, os do Caged, o Estado de São Paulo não faz melhor figura. No Estado vivem cerca de 33%, um terço, dos empregados pela CLT.
Mas, desde outubro, São Paulo contribuiu com mais de 40% da redução do número de empregos registrados em carteira (798 mil, no total), segundo dados do Ministério do Trabalho, que cobrem todo o país."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h40
Barry Ritholtz, do blog The Big Picture fez a seguinte lista de prós e contrários à estatização dos bancos americanos quebrados: Prós: Alan Greenspan Gordon Brown, UK PM Joseph Stiglitz Paul Krugman Alan S. Blinder, Princeton Nassim Taleb Nouriel Roubini Greg Mankiw J. Bradford DeLong Elizabeth Warren, TARP Oversight Panel Dennis Gartman Chris Whalen Josh Rosner Jeff Matthews John Mauldin Jack McHugh Bill King Matthew Richardson Dylan Ratigan (CNBC, Daily Beast) Jesse Eisinger, Conde Nast Portfolio Martin Wolf, FT Aaron Task (Yahoo Tech Ticker) Paul Kedrosky (Infectious Greed, CNBC) Nicholas Kristof (New York Times) Mark Gongloff (WSJ) Richard Parker (Newsweek) Michael Hirsh (Newsweek) David Reilly (Bloomberg) Paul Vigna (Dow Jones) Henry Blodget (Silicon Alley) Willem Buiter (FT) Adam Posen (Peterson Institute for International Economics) Jeff Macke Sen. Lindsey Graham House Speaker Nancy Pelosi Republicans (some) Todd Harrison Calculated Risk (Preprivatize the Banks) Karl Denninger naked capitalism Eddy Elfenbein (Crossing Wall Street) Bronte Capital Aaron Krowne Mortgage Lender Implode-O-Meter Roger Ehrenberg, Information Arbitrage Felix Salmon Interfluidity (Nationalize Like Real Capitalists) Urban Digs Contras: Ben Bernanke President Obama Tim Geithner Lawrence H. Summers George Soros Meredith Whitney, Oppenheimer Deroy Murdock (NRO) Larry Kudlow James Cramer Hale Stewart Tyler Cowen
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h27
As ações da GM americana caíram 22% hoje para o menor nível em 71 anos, quase para os tempos do Ford (ops!) bigode. O valor de mercado da empresa agora é inferior a US$ 1 bilhão (afora dívidas, passivo de aposentadorias etc). Mas ninguém quer comprar.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h16
O Brasil deve crescer apenas 0,8% em 2009, segundo projeção da "Economist Intelligence Unit" (EIU), unidade de pesquisa do grupo que edita a revista "Economist", publicada em seu boletim de conjuntura de março, o "Perspectiva Global", divulgado hoje. A previsão de janeiro para o Brasil era 1,6%. De novembro, 2,4%. Caso a previsão da EIU esteja certa, o Brasil vai viver em 2009 uma recessão do seu PIB per capita (o crescimento da população será maior que o do PIB). Uma síntese das previsões de PIB, comércio mundial e de preços de commodities estão na tabela abaixo (câmbio a preços de mercado).

O PIB argentino deve crescer apenas 0,5% este ano. Mas as previsões mais desastrosas na América do Sul vão para a Venezuela: contração da economia de 3% este ano e de horrendos 5,4% em 2010, "...e é improvável que o crescimento se recupere antes de 2012". O PIB do Japão deve encolher terríveis 5,5%. O dos EUA, 2,5%, e o da Eurolândia (países que adotam o euro), 2,9%. Tais previsões embutem a crença de que os pacotes fiscais e financeiros vão fazer algum efeito a partir da segunda metade de 2009. O comércio mundial deve encolher 3,5% este ano (a previsão anterior da EIU era de 2% de queda). "A situação da economia global se deteriorou marcadamente no quarto trimestre de 2008 e em janeiro de 2009, com os indicadores econômicos de todos as grandes economias desenvolvidas indicando uma baixa severa e um amplo ajuste da economia real, em especial no Japão e na Alemanha", diz a abertura do relatório. Apesar das medidas de estímulo econômico já adotadas pelos governos, "o recente e agudo enfraquecimento da saúde da economia global indica que as políticas econômicas devem se tornar ainda mais agressiva e heterodoxas ["unorthodox"] em 2009 antes que sejam sentidos efeitos positivos". Prever 2009 já é bem difícil. Pior ainda 2010. Mas a EIU acredita que a recuperação em 2010 será muito lenta, com crescimento mundial de 1,2%, resultado pior que o verificado nos anos de recessão de 1991 e 2001. Segundo a EIU, a "normalização" (aspas deles) das condições financeiras não deve começar a ocorrer antes de 2010, pelo menos.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h30
Bancão admite que fraudava fisco dos EUA, que querem quebrar sigilo suíço; casos de finanças bucaneiras explodem: a coluna de hoje na Folha trata dos rolos do UBS e de crimes financeiro. Assinante lê a coluna aqui.
"O que importa? Primeiro, há suspeitas de que coisa semelhante tenha ocorrido no Brasil, como noticiado em várias reportagens desta Folha. A Polícia Federal chegou a prender algumas pessoas, acusadas de terem sido enviadas pelos bancos suíços para oferecer o serviço de evasão de dinheiro. O caso ainda é inconclusivo. Porém, se faziam tal coisa nos EUA, onde evasão fiscal dá cadeia firme, por que não o fariam no Brasil, onde senadores notórios são acusados de burlar o fisco e fica tudo por isso mesmo? Segundo, a quebra do sigilo bancário suíço abriria um precedente que daria mais gás às iniciativas para dar cabo de paraísos fiscais. Dinheiro de nazistas, terroristas, traficantes de drogas, ditadores africanos e latino-americanos, corruptos brasileiros e ricos bandalhos de todo o mundo circula por tais lugares, e não só em Cayman. Áustria, Suíça ou Panamá oferecem tais facilidades. A União Europeia discute como dar fim a tal coisa no bloco. Terceiro, o caso do UBS mostra que a fronteira entre "finanças desregulamentadas" e criminosas é tênue. Na semana passada, o FBI disse que investiga fraudes em 38 grandes empresas e instituições financeiras, mas que o número de casos pode ir às centenas com o agravamento da crise e com a entrada de dinheiro público grosso nas empresas e nos bancos americanos."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h26
Fraga fala sobre crise e regulação
Armínio Fraga critica ilusões da economia, aprova estatização provisória de bancos, mas alerta contra regulação pesada. A coluna de hoje na Folha trata de uma palestra do ex-presidente do BC sobre crise e regulação. Assinante lê a íntegra aqui. Trecho:
"NOS EUA , estão dando uma moleza extraordinária para os bancos." É uma opinião de Armínio Fraga. Fraga acredita que se vive o fim de grandes ilusões, como aquela "do controle científico do risco", por meio de estatística avançada, entre outras, que ajudaram a alimentar a religião ultraliberal do período em que Alan Greenspan presidiu o Fed. "E os economistas achavam, de modo meio prepotente e otimista, que se vivia a "grande moderação'", um período em que os BCs acreditavam ter encontrado um equilíbrio entre inflação baixa e crescimento. Fraga aprova a estatização provisória dos bancos americanos. Credores e acionistas perderiam dinheiro. "Do ponto de vista social, é justo, do ponto de vista do funcionamento do sistema, é bom": tal punição inibiria investimentos de risco demasiado. Diz que é "muito ruim o governo [dos EUA] comprar dos bancos essa papelada podre"."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h21
O UBS admitiu nos EUA que cometia o crime de ajudar americanos ricos a sumir com dinheiro para não pagar imposto. Admitiu e assinou embaixo. Um vexame grosso, daqueles para dar razão a todos os títulos do tipo "bancos suíços lavam mais sujo" ou "a Suíça lava mais branco". O UBS, o maior banco da Suíça, vai pagar ao governo dos Estados Unidos US$ 780 milhões, uma espécie de multa, para se livrar de um processo de fraude fiscal. Terá também de dedar os americanos que faziam a negociata. Literalmente, o UBS é acusado de "conspiração para fraudar os Estados Unidos e sua agência ‘Internal Revenue Service’ [o IRS, a Receita Federal deles]". Na verdade, não é apenas "acusado". Segundo o texto do acordo firmado entre a Justiça dos EUA e o banco, o UBS "reconhece e aceita" que de "2000 até 2007" "participou de um esquema para fraudar os Estados Unidos e o IRS" por meio da criações de contas "offshore" (fora dos EUA), com o objetivo de esconder dinheiro e transações financeiras do fisco, entre outras lambanças. Além do mais, o acordo assinado pelo UBS diz ainda que executivos e gerentes do UBS sabiam da maracutaia e continuaram a realizá-la até 2007 devido "à lucratividade do negócio" (sic). Não era coisa de varejo. O Departamento ("ministério") da Justiça dos EUA acusa o UBS de ter cometido o crime de ajudar mais de 17 mil americanos a fraudar o imposto de renda. Segundo o governo americano, apenas em 2004 os banqueiros suíços fizeram 3.800 viagens para aos EUA para fazer a negociata da pirataria fiscal. Se o bancão suíço auxiliar a investigação e parar com a maracutaia, o governo dos EUA vai deixar o processo criminal para lá. Na verdade, não se tratava de negócio com subsidiárias do banco: era "aconselhamento" por debaixo do pano mesmo. "Enviados especiais" do UBS procuravam aglomerações de ricos nos EUA e ofereciam os serviços de esconder dinheiro do fisco. Ajudar a investigação significa: dedar os fraudadores do fisco, seus nomes e suas contas. O caldo vai entornar, pois um banco suíço entregar nome de clientes é coisa raríssima.
Coisa semelhante se faz no Brasil, o que os bancos suíços daqui negam, embora o rolo já tenha resultado em algumas prisões pela Polícia Federal. Bem, se fazem nos Estados Unidos, onde a coisa dá processo e cadeia, porque não fariam no Brasil? Veja post sobre o assunto publicado aqui, em 12 de novembro: Bancões que lavam dinheiro de fortunas: EUA e Brasil. O UBS disse em nota oficial que "cometemos erros e nossos sistemas de controle era inadequados" e admitiu "plena responsabilidade por estas atividades impróprias". Isto é, reconheceu que fizeram besteira grossa e que ajudou a armar a bandalheira. A auto-regulação do mercado é mesmo uma maravilha.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h49
Taiwan em recessão Mais uma economia exportadora naufraga. O PIB de Taiwan encolheu 8,4% no trimestre final de 2008. Foi menor do que o tombo japonês, de 12,7%. Mas foi um tombão. E cortaram os juros básicos de 1,5% para 1,25%. Esperam recessão de 3% em 2009. Taiwan fornece componentes eletrônicos para a indústria chinesa montá-los em equipamentos, A China exporta para EUA e Europa, que estão cortando importações. Europa, credora dos emergentes O euro caiu 22% contra o dólar desde o pico de sua valorização, em julho. Valia ontem US$ 1,25. A moeda europeia voltou a apanhar devido a mais notícias sobre a derrocada em câmara lenta das economias do Leste Europeu, onde os bancos e os créditos são do "Oeste" europeu: cerca de 90% dos empréstimos para as economias do Leste vêm do Oeste. Cerca de 73% dos empréstimos bancários para países emergentes do mundo inteiro vêm de bancos europeus (contra 10% dos EUA e 5% do Japão). Deu no "Financial Times". A íntegra do texto pode ser lida aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h08
Obama contra os despejos Barack Obama lançou ontem seu plano para evitar que americanos percam suas casas. O governo vai subsidiar a casa própria. O plano Obama pretende: 1) Ajudar a refinanciar financiamentos que ficaram muito caros, dados os valores das casas; 2) Ajudar a refinanciar financiamentos de inadimplentes; 3) Dar subsídios para financeiras renegociarem débitos; 4) Dar garantias (via financeiras imobiliárias estatizadas) para empréstimos imobiliários novos ou renegociados, cortando assim o custo do seguro e barateando a prestação; 5) Dar mais crédito para as financeiras imobiliárias estatizadas. Em suma, trata-se de uma plano para: a) Reduzir o valor das prestações de inadimplentes e de por ora adimplentes; b) Financiar novas habitações. Assim, pretende-se reduzir despejos e vender imóveis vazios. Desse modo, aumentam os preços das casas (o que ajuda a reduzir o nível de inadimplência) e se reduz o nível de calote, o que pode conter a desvalorização de papéis que rodam no mercado financeiro. É um troço importante. Parte do plano exige aprovação do Congresso (mudança na lei de falência pessoal, por exemplo). O plano prevê US$ 75 bilhões para subsidiar o refinanciamento de empréstimos e outros US$ 200 bilhões para Fannie Mae e Freddy Mac (as financeiras estatizadas), que com o dinheiro vão comprar financiamentos existentes, abrindo espaço para o mercado fazer novos empréstimos. Crise longa, diz o Fed A recuperação da economia americana vai ser "prolongada e gradual" como nunca antes, avisou ontem o Fed. O Banco Central dos EUA prevê que o PIB vai encolher 1,3% (ainda é das mais otimistas) e o desemprego irá a 8,8%.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h45
O "pior já passou" pelo mundo inteiro
Últimos corcoveios do mercado estiveram associados a evidências de que a crise detona cada canto do mundo: "o pior já passou" pelo mundo inteiro. Ontem, as Bolsas do mundo caíram devido a alertas de que os bancos europeus poderiam ser ainda mais contaminados pela crise dos países do Leste Europeu. Na semana passada, os tombos sucessivos se deveram à percepção de que as economias do Sudeste e Leste Asiáticos estavam apodrecendo bruscamente. Este é o tema da coluna de hoje (18/2) na Folha, que assinante lê na íntegra aqui. Trecho: "Mas quem liga para essas "economias de transição"? Suecos, belgas, austríacos, italianos, mas também franceses e alemães, têm interesses por lá ou são donos de alguns dos maiores bancos da região. Os ex-comunistas convertidos ao capitalismo a crédito se endividaram demais, têm déficits externos gigantes, suas exportações caem e suas moedas derretem com a fuga de capitais: ensaiam um repeteco da crise asiática de 1997-98. A Moody's e a Standard & Poor's avisaram ontem que podem rebaixar a nota de bancos do "Oeste" europeu que têm subsidiárias no Leste. As duas agências não costumam dar notas muito certeiras em período de bonança, mas durante epidemias de peste financeira sabem como "declarar óbitos", quando não ajudam a dar cabo do doente. O risco de mais perdas e mortes bancárias levou os investidores a fugir do risco. Venderam ações, ativos de empresas e países mais periclitantes e compraram títulos do Tesouro americano, que subiram bem ontem. Venderam euros também."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h35
Comércio "assim, assim" As vendas do comércio cresceram 3,9% em dezembro de 2009, na comparação com o dezembro de 2007 (contra alta de 9,8% em outubro e de 5,1% em novembro), segundo dados divulgados hoje pelo IBGE. Até setembro, a alta das vendas acumulada no ano era de 10,3%.
Não foi horrível, talvez um tico melhor do que o previsto. Mas não refresca muito o ambiente, pois a crise aqui pegou por outros lados _bens de consumo duráveis, que dependem de crédito, e grandes exportadores, em especial na área de minérios, metais, metalurgia e mecânica. De resto, os dados são velhos e "derivados": o comércio de varejo é hora "reflexo", na maior parte, e não diz lá grande coisa sobre o futuro, nem o imediato. Menos más notícias nos carros A venda de carros subiu 7,4% na primeira metade de fevereiro, em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a associação das revendedoras, a Fenabrave. Fica em torno de um terço do crescimento médio do ano passado, mas é um respiro, ao menos uma imunização, de leve, contra a maré de pessimismo e demissões que vinha das montadoras e das autopeças. Que não tenha piorado, pelo contrário, é um alívio.
Mas também não indica tendência nem para o futuro imediatíssimo. Pode se tratar apenas de um "efeito liquidação": as pessoas estão correndo para aproveitar o IPI baixo e as promoções. Preocupa ainda que a venda de caminhões tenha caído 15% (em relação a 2008). A de motos caiu 16%. Enfim, a venda total de veículos caiu 3% em relação à fevereiro de 2008. Por ora, no entanto, os indicadores que aparecem são de que a economia se acomoda num ritmo de crescimento próximo de zero em relação ao primeiro trimestre de 2008. Banco podre, podre, podre, de marré... O medo de que mais bancos europeus fiquem ainda mais podres devido à falência do Leste Europeu parece o motivo mais provável para o rapa mundial no preço das ações. Mas essa é apenas a mais recente cereja do bolo de más notícias. Faz seis dias que os índices mundiais de ações caem. As notícias de que a Alemanha está pior do que se imaginava, o horrível tombo do Japão, a má recepção do não-pacote financeiro de Obama, o risco de coma para as montadoras econômicas, tudo isso vinha se acumulando no fígado dos grandes investidores. Hoje caiu a gota que faltava para transbordar o balde. Como a Europa despenca muito mais rápido do que os EUA, e como os investidores continuam jogando na retranca dos títulos do Tesouro americano, o euro continua a cair, agora voltando para US$ 1,26. As ações de bancos dos EUA entraram em parafuso (quedas de mais de 8%), assim como o resto do preço dos papéis das montadoras americanas. Mas as ações dos bancos alemães e de europeus de países mais periféricos também derreteram, pois tais bancos tem muita exposição ao Leste Europeu, ora quebrado e ameaçado de colapso. Foi uma razia no preço dos papéis de bancos alemães, suecos, italianos, austríacos, belgas. O Dow Jones está perto do menor nível em uma década. A Bolsa russa fechou para não bater a cabeça do chão, o primeiro "circuit breaker" do ano. A volatilidade explodiu de novo nas Bolsas americanas, os títulos do Tesouro dos EUA voltaram a subir etc etc. Para adicionar ridículo ao desastre, o ministro das Finanças do Japão teve de pedir demissão porque se apresentou bêbado numa entrevista coletiva do G7, um vexame de dar quase pena.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h49
Bazar mundial às moscas
Queda abrupta do comércio mundial derruba Japão e pode criar nova onda de deterioração de empresas: é o tema da coluna de hoje (17/2) na Folha, que assinante pode ler aqui. Trecho: "Comércio menor implica menos investimentos, o que resulta em menos gastos de capital, o que pode detonar a saúde das empresas. Por ora, as piores notícias aparecem em fábricas de bens de consumo, como carros. Mas a baixa abrupta do comércio pode criar uma nova onda de deterioração "corporativa", como se diz hoje em dia."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h44
Jarbas Vasconcelos, senador pelo PMDB de Pernambuco, chamou seus colegas de ladrões, sem dedar os corruptos, em entrevista à revista "Veja" que circulou no final de semana passado. Sobre Renan Calheiros, senador por Alagoas que dispensa apresentações (e quem quer ser apresentado a tal pessoa?), disse que "não tem nenhuma condição moral ou política para ser senador, quanto mais para liderar qualquer partido". Calheiros foi a eminência parda, melhor seria dizer sombria, da eleição de José Sarney à Presidência do Senado. Sobre tal eleição, Vasconcelos disse que se trata de "completo retrocesso". Um senador "sem moral" como Renan então ajudou a eleger um "retrocesso" total, ambos de um partido de gente majoritariamente bandida, segundo Vasconcelos. Escrevo "sem moral" porque não dá para saber se Vasconcelos considera Renan "imoral" ou "amoral". O que diz o PMDB, em nota oficial, sobre as acusações de Vasconcelos? Que foi "um desabafo". Pergunta-se: 1) O que Vasconcelos ainda faz no PMDB? Gosta da companhia? Pretende-se um evagelizador em meio aos carentes da moral? Quer ser assaltado? 2) Então está liberado chamar todo mundo no PMDB de ladrão (isto é, fazê-lo em público)? Basta dizer que se trata de um "desabafo"? Por falar em retrocessos sem moral, cerca de metade das direções do Senado e da Câmara têm uma folha corrida interessante, segundo reportagens publicadas hoje na Folha. "Mais 3 deputados da Mesa são alvo do STF - Além do presidente da Câmara, a Casa elegeu outros dois suplentes que respondem a inquéritos e processos na Justiça". "Na cúpula do Senado, outros 3 sofrem inquérito".
Assinante lê aqui a íntegra da reportagem sobre a ficha do pessoal da Câmara e aqui a ficha do pessoal do Senado.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h22
"Comércio mundial murcha"
China, EUA, Alemanha e Japão exportam e importam menos; falta de crédito e mercado externos limitam PIB do Brasil. Foi o tema da coluna de domingo (15/2) na Folha. Assinante lê a íntegra aqui. Trecho: "O Brasil exportou bens no valor de mais ou menos US$ 200 bilhões no ano passado. A China exporta o mesmo valor em menos de dois meses. Os Estados Unidos levam ainda menos tempo. Tanto China como EUA têm visto seu comércio exterior declinar. As exportações chinesas caíram mais de 17% em janeiro (em relação a janeiro de 2008). Alguém poderia achar que se trata de "boa notícia" -os chineses, e não apenas os brasileiros, estariam perdendo mercado. Bem, as importações chinesas declinaram 43%. No fim das contas, o superávit comercial chinês aumentou 100%, para US$ 39 bilhões (sempre na comparação anual). As exportações norte-americanas de bens caíram 9% em dezembro (ante janeiro de 2008). O déficit comercial caiu porque as importações declinaram ainda mais (cerca de 15%). Os problemas comerciais do Japão são ainda piores. O superávit comercial japonês caiu 23% em dezembro, com baixa de 35% nas exportações e 26,5% nas importações. O PIB japonês encolheu uns 3,5% no trimestre final de 2008. O comércio da Alemanha, um dos três líderes da exportação mundial, não sofreu tanto como o japonês, mas vai minguando em ritmo assemelhado ao do comércio americano."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h46
Obama e suas cabras
Estados Unidos começam a auditar grandes bancos, meio quebrados, para decidir em quais vai injetar dinheiro. Pode rolar uma estatização disfarçada. É o tema da coluna de hohe (13/2) na Folha, que o assinante lê na íntegra aqui. Trecho: "A auditoria em massa parece ter começado na quarta-feira para os maiores bancos americanos, segundo o "New York Times". Cerca de cem agentes de supervisão bancária baixaram no Citigroup. Outras "dúzias" foram investigar as contas de Bank of America, JPMorgan e mais 15 grandes bancos, perfazendo 18 no total. O governo, pois, não acredita que tais bancos tenham capital suficiente. Duvida dos seus balanços. De resto, se algo nisso tudo faz sentido, bancos que não passarem no "teste de estresse" serão: a) parcial ou totalmente estatizados ou b) receberão empréstimos camaradas do governo Barack Obama, incondicionalmente. Sim, pois, se houver condições, tal como alguma interferência do governo na gestão, haveria estatização de fato, mas disfarçada. Mas, na noite de terça, após o anúncio do plano Geithner, Obama havia dito em entrevista à TV ABC que ele e equipe avaliaram que estatizar não era uma boa solução, pois os EUA têm milhares de bancos e que estatizar não é uma tradição do país (mas tradições se inventam)."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h25
O PIB americano vai encolher 4,6% no primeiro trimestre (na medida anualizada). No segundo trimestre, mais 1,5%. O PIB voltaria a crescer 0,7% no terceiro trimestre (convertido em medida trimestral, isso porém dá quase zero) e 1,9% no trimestre final do ano. São as estimativas recolhidas por enquete do "Wall Street Journal’ com 52 economistas, feita agora em fevereiro. Cinco dos economistas ouvidos pelo "WSJ" acham porém que a volta do crescimento a partir de agosto é um cenário "muito otimista". Para a média do entrevistados, o desemprego deve subir dos atuais 7,6% para 8,8%. Cerca de 68% dos entrevistados acha que agora é um bom momento para comprar ações (nos Estados Unidos). A esperança que resta é os economistas errarem, como de hábito, as suas previsões. Os autores de teatro bem podiam fazer com os economistas o que Molière fez com os médicos ("Le Médecin Malgré Lui", entre outras) ou o que Balzac fez com os jornalistas. Material de ridículo não falta. Crédito ruim No final de 2008, o volume de crédito ao consumidor nos EUA caiu num ritmo que só não foi pior que em meia dúzia de meses dos anos ruins de 1980, 1975 ou 1951 (a contar da Segunda Guerra). No final do trimestre (contra o trimestre anterior, taxa anualizada), a queda foi de mais de 3%. As taxas de juros para o consumidor mal se mexeram ou subiram, embora o Fed tenha levado os juros básicos a zero.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h08
Serra anuncia medidas para incentivar economia de São Paulo. Inclui investimentos e medidas velhas, que já estavam previstas pelo governo paulista, assim como o fez Lula com seu PAC 2.0. Tudo bem que os dois maiores governos do país tomem atitudes anticrise. Mas a cascata política é idêntica nos dois PACotes. Segue o texto da Folha Online sobre as medidas de Serra. THIAGO FARIA colaboração para a Folha Online Atualizado às 16h57. O governador José Serra (PSDB) anunciou nesta quinta-feira um pacote de medidas para incentivar a economia do Estado e dessa forma ajudar no combate aos efeitos da crise econômica global. Muitas das medidas, no entanto, já estavam previstas no cronograma de investimentos do Estado, mas foram antecipadas para aquecer o mercado. O investimento do governo será de R$ 20,6 bilhões ao longo do ano. "O nosso empenho fundamental é segurar o nível de emprego e ampliar o nível de emprego em São Paulo", afirmou o governador que, com os investimentos previstos, espera gerar 800 mil empregos. Serra explica, porém, que o número não representa apenas vagas novas, mas também empregos mantidos pelo investimento do governo estadual. "Se isso [o investimento] não fosse feito o número de desempregados seria acrescentado em 40%", afirma o governador, que estima em 2 milhões o número de trabalhadores sem emprego no Estado --1,2 milhão apenas na região metropolitana de São Paulo. Segundo o governador, as 17 medidas anunciadas hoje somam-se a outras 16 já apresentadas com o objetivo de conter os efeitos da crise econômica global. Ao todo, o "pacote anticrise" paulista inclui 33 medidas, como redução de carga tributária sobre produtos, apoio e fomento às micro e pequenas empresas e expansão de linhas de crédito. Serra negou que o pacote tenha algum viés político. Segundo ele, incentivar o mercado no atual momento de crise é sua "obrigação". "Não estamos fazendo nossa parte para aparecer, estamos fazendo nossa obrigação." A comparação com as medidas anticrise adotadas pelo governo federal foram evitadas por Serra, que jogou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a maior responsabilidade de reduzir os impactos na economia do país. "O governo do Estado não tem política monetária, não controla taxa de câmbio, nem grandes instituições de crédito", afirmou o governador paulista. Há três semanas na secretaria de Desenvolvimento, coube ao ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) apresentar o pacote anticrise de Serra. Ao lado de outros secretários estaduais, também doi Alckmin que explicou detalhes do pacote. Cobrança O governo de São Paulo anunciou as medidas anticrise dois dias depois de o Diretório Nacional do PT ter aprovado uma resolução política que faz uma análise da crise econômica. O documento usa a crise para criticar as políticas dos governos administrados pelo PSDB e DEM --partidos que fazem oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O documento diz que os "neoliberais" que antecederam o governo Lula "precisam responder solidariamente pelo que acontece no mundo". Diz ainda que a derrota do PSDB-DEM nas eleições de 2002 e de 2006 foi essencial para que o Brasil estivesse mais preparado para enfrentar a crise econômica. Sem citar nomes, o documento diz que os governos do PSDB e do DEM "se recolhem silenciosos, a despeito de sua irresponsabilidade e submissão anteriores". No documento, o PT diz que os governos de esquerda precisam implementar políticas anticrise contrárias às adotadas por administrações tucanas. "Onde somos oposição, é preciso enfrentar as medidas conservadoras adotadas por governos como os de Yeda Crusius (RS), José Serra (SP) e Aécio Neves(MG)."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h52
Quase 40% dos presidentes (CEOs) de grandes empresas americanas acha que a recessão vai até 2010. A pesquisa foi feita com 71 CEOs de grandes empresas, pelo Business Council. O Business Council é uma espécie de "conselhão" (como o do Lula), mas "privado", criado em 1933 para "externar" a opinião da "comunidade de negócios" americana ao governo dos EUA. Hoje em dia, se encontra três vezes por ano para debates com gente do governo e da universidade. Entre as medidas adotadas pelos CEOs para proteger suas empresas estão: congelamento de contratações (72%), demissões (58%) e corte de gastos não essenciais ("discretionary spending", 82%). Dois terços dos CEOs acham que os gastos do governo federal em obras de infraestrutura podem ajudar a estimular a economia, mas em geral desconfiam do pacote de gastos de Barack Obama. Preferem, na verdade, cortes de impostos para a classe média (71%) e de tributos que incidem sobre a folha de pagamentos (67%).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h26
Janeiro ainda foi um mês ruim
Os sinais aparentes de recuperação que vimos em janeiro infelizmente se devem ao fato de que a base de comparação, dezembro, foi um desastre. Em relação a janeiro de 2008, a economia ainda declina. É o tema de hoje (12/2) na coluna da Folha, que o assinante pode ler na íntegra aqui. Trechos: '"Produção de veículos, tráfego de caminhões pesados, consumo de energia elétrica e vendas de papelão ondulado são alguns desses indicadores coincidentes da produção industrial. Isto é, a evolução de tais setores num certo mês, combinados de maneira ponderada, indica, com probabilidade mais ou menos razoável, como foi o desempenho da produção industrial nesse mesmo mês. Os dados oficiais do IBGE demoram ainda para sair. Em janeiro, a produção de veículos caiu 27% em relação a janeiro de 2008 (em dezembro, caíra 54%; em novembro, 29%, sempre em relação ao mesmo mês do ano anterior). A carga de energia elétrica foi 4% menor, segundo o ONS, o Operador Nacional do Sistema, que administra o despacho de eletricidade (ante queda de 4,9% em dezembro e alta de 0,5% em novembro). O tráfego de veículos pesados, o transporte de cargas, caiu 9,1% (ante quedas de 0,8% em dezembro e 1% em novembro), segundo a ABCR, a associação das empresas que administram estradas. A venda de papelão ondulado, as embalagens, declinou 8,3% (ante quedas de 4,5% em dezembro e de 2,2% em novembro). Um dado mais parcial, embora relevante, também indica declínio forte ainda em janeiro, embora com melhoras em relação ao desastre de dezembro. Segundo estimativa da Comerc, empresa que negocia energia elétrica no mercado livre (grandes empresas), o consumo de energia aumentou 3% de dezembro para janeiro. Mas, na comparação anual, janeiro contra janeiro de 2008, a queda foi de quase 16%. Com tais informações em mão, pode-se estimar que a produção industrial em janeiro deva ter recuado algo em torno de 7% na comparação anual (ante janeiro de 2008). Mas, a depender dos modelos e das correções de cálculo de tendência impostas pelos dados terríveis de dezembro, o recuo pode ser estimado em qualquer coisa entre 6% e 9%."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h38
A apresentação do blog ficou empastelada durante algumas horas, devido a mistérios técnicos. Parece estar tudo em ordem agora.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h32
O ritual brasileiro do trote
Estamos na época dos trotes em calouros de universidade, um ritual coletivo tão brasileirinho quanto o Carnaval e a carnavalização da Justiça nas CPIs.
O trote é medieval como a universidade e quase deixou de existir em lugar civilizado. No Brasil, é um meio de reafirmar, na passagem para a vida adulta, que o jovem estudante pertence mesmo a uma sociedade autoritária, violenta e de privilégio.
Submissão e humilhação são a essência do rito, mas expressivas mesmo são suas formas: o calouro é muita vez obrigado a assumir o papel de pobre brasileiro. A humilhação também faz parte da iniciação universitária americana, embora nesse caso o rito marque a entrada na irmandade, sinal de exclusivismo e vivência de segredos de uma elite que se ressente da falta de aristocracia e de mistérios em sua sociedade ideologicamente igualitária e laica.
De início, como em muito ritual, o jovem é descaracterizado e marcado fisicamente. É sujo de tinta, de lama, até de porcarias excrementícias; raspam sua cabeça. Ao mesmo tempo que apaga simbolicamente sua identidade, a pichação do calouro lhe confere a marca do privilegiado universitário (são poucos e têm direito a cadeia especial!). Muitos pais e estudantes se orgulham da marca suja e da violência.
Nesse ritual provinciano e autoritário, faz-se uma imitação da prática costumeira, no Brasil, de humilhação dos servos, inferiores etc. O jovem é colocado em fila, amarrado ou de mãos dadas, e conduzido pela ruas, do mesmo como se fazia com escravos. Do mesmo modo como a polícia faz com favelados. É jogado em fontes imundas, como garotos de rua.O calouro também deve pedir esmolas para seu veterano-cafetão. Na aula-trote, o veterano vinga-se do professor autoritário ao encenar sua raiva e descarregá-la no calouro, com o que a estupidez se reproduz.
Como universidade até outro dia era privilégio oligárquico, o trote nasceu na oligarquia, imitada pelos arrivistas. Da oligarquia veio ainda o ritual universitário do assalto a restaurantes ('pindura'), rito de iniciação pelo qual certa elite indica que se exclui da ordem legal dos comuns.
De vez em quando, ferem, aleijam ou matam um garoto na cretinice do trote. Ninguém é punido. Os oligarcas velhos relevam: 'acidente'. Não, não: é tudo de propósito. FIM Publiqueir esse há quase dois anos, no dia 13/2/2006, na coluna São Paulo, na página A2 da Folha, quando ainda escrevia por ali. A estupidez, em vez de refluir, ainda se espraia, e são cada vez mais frequentes os casos de tortura nessa canalhice chamada trote, que já matou, aleijou, queimou, traumatizou.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h58
A canalha estudantil continua livre para barbarizar, com a tolerância, quando não conivência ou mesmo apoio velado, da direção das faculdades. O trote ainda é livre, não resulta em expulsão das universidades, não é reprimido, nada. Mesmo a Universidade de São Paulo ainda convive, em alguns casos alegremente, com essa estupidez. Na Poli, na Faculdade de Direito, na Medicina, em especial, onde os trotes são mais bárbaros e já resultaram e morte e feridos, as direções são especialmente tolerantes com a barbárie. Aliás, na Faculdade de Direito acha-se até divertido que estudantes assaltem restaurantes, o que chamam de "pendura", um provincianismo retrógrado, autoritário e criminoso. Na PUC, a direção dá docinhos para remediar a alcoolização criminosa dos calouros. Abaixo, segue o caso noticiado na Folha de hoje do rapaz que foi torturado e coberto de fezes e animais em decomposição. Hoje, duas meninas também denunciaram que foram torturadas no interior de SP. Tortura é a palavra: essa canalha do trote deveria ser indiciada sob a acusação de coisas como tortura, cárcere privado, atentado ao pudor etc. Aluno diz que foi chicoteado durante trote Calouro do curso de veterinária foi internado em coma alcoólico e disse que foi obrigado a beber e a entrar em uma lona cheia de fezes
Um estudante, cujo nome não foi divulgado, foi indiciado; universidade Anhanguera abriu inquérito para identificar envolvidos Robson Ventura/Folha Imagem
 Calouro Bruno Ferreira mostra como ficou sua calça após o trote
MAURÍCIO SIMIONATO DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPINAS Um calouro de medicina veterinária da universidade Anhanguera Educacional, em Leme (189 km de SP), foi internado na segunda-feira em coma alcoólico após receber um trote. O rapaz, de 21 anos, diz que foi obrigado a ficar alcoolizado, teve de entrar em uma lona que continha restos de animais em decomposição, fezes e esterco e ainda foi submetido a uma sessão de chicotada por um grupo de veteranos. O aluno e balconista Bruno César Ferreira, 21, que mora em Iracemápolis, cidade vizinha a Leme, teve de ficar três horas no hospital. Tomou soro e recebeu oxigênio. Com diversas marcas de agressão pelo corpo, ele foi deixado na sarjeta perto do campus e deu entrada no hospital como indigente.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h50
"Uma decepção e dois trilhões"
A coluna de hoje na Folha comenta o pacote Obama. Assinante lê a íntegra aqui. Trechos: "Um efeito evidente e imediato do anúncio do pacote Obama foi uma onda de decepção nos EUA. O núcleo do plano é aparentado do plano Bush. Agora, um fundo com dinheiro público e privado compraria títulos podres dos bancos, começando com US$ 500 bilhões. Isto é, compraria papéis cuja renda dependia do pagamento de prestações imobiliárias, na maior parte. Ainda se trata, pois, de repassar a alguém o mico dos bancos. O objetivo é recompor a quantidade mínima de dinheiro (base de capital) nos bancos, de modo a que possam voltar a emprestar ou não parecer falidos. O problema também continua o mesmo do plano Bush: quanto pagar por papéis podres? Pagar demais significa dar dinheiro aos bancos. Pagar pouco pode acabar com eles. A alternativa é estatizar: ficar com os prejuízos e com os bancos. De resto, de onde virá o dinheiro privado? Outro aspecto importante do plano reforça o papel do Fed como banco-mor dos EUA. Mas o plano Obama eleva o caixa do Fed para tais fins de US$ 200 bilhões para até US$ 1 trilhão. O Fed, indiretamente, empresta dinheiro a empresas e consumidores (que compram casas, carros e mensalidades da faculdade ou gastam via cartão de crédito). O Fed na verdade empresta dinheiro para que fundos e instituições financeiras comprem títulos lastreados nessas dívidas, o que abre espaço para mais empréstimos no setor privado. Um problema que continua a arruinar o sistema financeiro são os despejos e os calotes imobiliários (e, agora, também no cartão de crédito etc.). Mais calotes, menos capital nos bancos. Menos capital, menos empréstimos e juros maiores. O governo não deu detalhes do plano para auxiliar a renegociação de dívidas da casa própria (para piorar, mal se sabe hoje quem são os credores dessa dívida, que foi transformada em títulos e revendida no mercado). Uma dificuldade nova, mas incontornável, serão as auditorias ("testes de estresse") que vão verificar quais bancos ainda são viáveis o suficiente para que possam receber dinheiro do plano de socorro (via compra de ações). Além das disputas que isso deve causar, pode haver um clima de juízo final ou de tribunal do júri: quem morre e quem merece auxílio público? Novidade também, os bancos socorridos só vão poder pagar no máximo um centavo de dividendo por ação enquanto não pagarem sua dívida com o governo."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h39
Os posts mais recentes: - Krugman bate no plano Geithner-Obama;
- Caíram de pau no plano Geithner-Obama;]
- Obama fala sobre Wall Street, entrevista na ABC;
- "Meio cheio, meio vazio, quase vazio" (coluna na Folha);
- Quebra-quebra da inteligência: viúvas tucanas;
- Ricos "melam" críticas do FMI, diz um lorde;
- Quebra-quebra mundial: Reino Unido e Japão;
- Quebra-quebra mundial: carros e bancos.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h32
Paul Krugman, Nobel de economia e colunista do "New York Times", em seu blog também desceu o sarrafo no pacote Geithner-Obama de socorro ao sistema financeiro. Uns trechos: "O Plano Rorschach" [N. do . R.: Hermann Rorschach foi o psicólogo que inventou aqueles testes em que o paciente interpreta manchas coloridas num cartão]. "Uma velha piada de quando eu era jovem: o que dá o cruzamento de um chefe da máfia com um descontrucionista? Alguém que te oferece alguma coisa que você não entende". Lembrei da piada quanto tentava entender o plano de resgate de Geithner. Não é de jeito nenhum claro o que o plano significa; uma interpretação diz que o plano não é muito ruim, mas não está claro se essa é a interpretação correta. O plano merece elogios pelo que não está nele, ao menos como o entendo. Não há medidas de compra em massa de lixo tóxico por preços altos; não há também, parece, nenhuma proteção firme ["ring-fencing" guarantee] contra perdas privadas devidas a ativos ruins. Nesse aspecto, o plano é melhor do que os vazamentos das últimas semanas nos faziam crer. O que está no plano, em ordem inversa [e aqui se encerra a tradução, pois o blogueiro e colunista tem outras tarefas, lamento]: 1. Super-TALF: a big expansion of the Fed’s quantitative easing, with Treasury backing. I’m OK with that. 2. Private-public purchases of questionable assets; as I understand it, private investors would be the junior partners, so this is probably not a big giveaway (unless there’s huge public financing, in which case it amounts to ring-fencing after all). I also suspect it wouldn’t accomplish much, but no harm, no foul. 3. Stress test: everything depends on how this is actually implemented. What happens if, or more likely when, a major money center bank is stress-tested and found to have negative net worth? One possibility is that the auditors are told to come up with a different answer; that’s a big concern. The other is that the bank is effectively nationalized; as I read the language that could be achieved as part of the public capital injection. So what is the plan? I really don’t know, at least based on what we’ve seen today. But maybe, maybe, it’s a Trojan horse that smuggles the right policy into place. Para ler as observações de Krugman em seu blog, clicar aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h25
As primeiras reações ao pacote financeiro Geithner-Obama foram muito ruins. Não consegui ler nenhuma reação positiva. Mais abaixo, títulos das reportagens e sites de algumas das principais publicações americanas. Mais estranho de tudo foi Timothy Geithner aparecer com um planto tão incompleto e que, no mais importante, é muito parecido com o pacote Paulson-Bush. O plano chegou a ser chamado de "remendo". Geithner não disse como o plano vai funcionar, nem quando exatamente começa. Adiantou-se para divulgar apenas linhas gerais, frustrando sua audiência. Geithner, porém, não é bem um ingênuo. Até o mês passado presidia o Fed de Nova York, que executa as operações financeiras do Federal Reserve, o BC dos EUA. Conhece muito bem a banca em Wall Street, conhece a secretaria do Tesouro, onde trabalhou no governo Clinton, conhece Washington. - "Geithner revela plano de resgate, mas detalhes são escassos". Wall Street Journal, título de reportagem no site;
- "Novo socorro desaponta e ações declinam", título da página de abertura do site do "New York Times" (NYT);
- "Plano de Geithner falha por falta de detalhes; Dow cai 4,6%" (NYT);
- "Preço das ações desabou depois que o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, revelou novo plano" (NYT);
- "Chefe do Tesouro procura restaurar ‘fé perdida no socorro’" (NYT);
- "Ações caem, Treasuries se valorizam devido a ceticismo sobre o pacote americano de resgate de bancos". Título de reportagem da Bloomberg;
- "As ações desabaram, puxadas pelos papéis de bancos, enquanto investidores mostravam preocupação com a falta de detalhes sobre os planos para tratar dos ativos problemáticos que sufocam os balanços dos bancos", dizia trecho da mesma reportagem da Bloomberg;
- "Dow desaba 382 pontos no anúncio do plano de socorro a bancos - Investidores descarregam ações para manifestar frustração com o último pacote de socorro do governo" (título de abertura da página do "Washington Post";
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h12
Barack Obama deu entrevista ao programa "Nightline", da TV americana ABC, que divulgou trechos da conversa, que iria ao ar na noite de hoje (10/2). Abaixo, algumas frases. Para quem quiser ler o texto da ABC na íntegra, clicar aqui. WALL STREET "Wall Street, acho, espera uma saída fácil para esta coisa e não há saída fácil". "Essencialmente, temos um conjunto de bancos que não foram tão transparentes como seus balanços deveriam ser". ESTATIZAR BANCOS "A Suécia assumiu os bancos, estatizou-os, se livrou dos ativos ruins e os revendeu, e uns anos depois eles estavam funcionando de novo. Então você poderia pensar que a Suécia é um bom modelo. Aí está o problema: a Suécia tinha algo como cinco bancos. Nós temos milhares de bancos. Sabe, o tamanho da economia americana e de seus mercados de capitais é vasto e os problemas de administrar e supervisionar coisas desse tamanho... Nossa avaliação é que não faria sentido [estatizar]. E nós também temos tradições diferentes neste país". "Há várias pessoas que não acreditam em nada na intervenção do governo no mercado, ponto. Acho que esta luta já foi vencida: o povo americano certamente pensa que sim" [falando sobre a oposição dos republicanos a seu pacote]. AGONIA JAPONESA "Acho que temos duas opções nesta situação: você pode pode prolongar a agonia e os acionistas [dos bancos] vão ficar felizes até que eles não fiquem [mais] felizes, e isso pode acontecer daqui a um ano ou dois, ou, no caso do Japão, oito anos. Ou se pode reconhecer logo que, sim, há um monte de coisas para serem feitas para fazer com que esses bancos fiquem sólidos de novo ["on a firmer footing"]". RECESSÃO "E a verdade é que não estamos apenas numa recessão comum, nós estamos numa tempestade perfeita de problemas financeiros e, agora, [em meio] a um declínio na demanda mundial que está provocando um grande número de demissões, o menor nível de confiança do consumidor que já vimos [e] o travamento do crédito". "Não estamos entrando na Grande Depressão". PUNIR O FRACASSO DOS BANCOS "Espero que vejamos uma mudança da cultura na qual cada um no sistema financeiro comece a reconhecer que US$ 100 milhões anuais em bônus não é um direito de nascença". "Temos de reconhecer que, se você recompensa as pessoas pelo sucesso, você também tem de puni-las pelo fracasso, e isso não estava acontecendo". MUITO BONZINHO "[Ainda acredito] em reunir as pessoas, para que trabalhem juntas" [sobre a acusação de que ele seria "muito bonzinho", "too nice", e procurar acordos demais]. "Eu diria que, você sabe, essa acusação, se não estou enganado já me foi feita faz uns anos, e agora vou viajar no Air Force One [o avião do presidente] daqui a pouquinho", diz, rindo. "Então, acho que as pessoas subestimam o valor da civilidade".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h56
"Meio cheio, meio vazio, quase vazio"
Primeiros dados econômicos relevantes de janeiro mostram que economia não passou do "chão" de dezembro, mas há novos sinais de deterioração. É o tema da coluna de hoje na Folha, que o assinante lê na íntegra aqui. Trechos: "Não dá para dizer que se chegou ao fundo do poço, nem dá para desdenhar. Após a sufocação de crédito doméstico no final de 2008, trata-se de um alívio. Além do mais, com a oferta de crédito do BC para que as empresas paguem suas dívidas externas, a situação pode melhorar mais um tico em fevereiro. Um tanto inquietante é que os bancos públicos sirvam de rede de proteção creditícia. De setembro a dezembro, o volume de dinheiro novo emprestado pelos bancos privados nacionais cresceu 2,49%. Nos bancos públicos, 12,92%. Nos privados estrangeiros, 4,56%. De junho a setembro, essas taxas eram 8,83% (privados nacionais), 6,85% (públicos), 7,88% (privados estrangeiros). Isto é, os bancos públicos mantiveram a peteca do crédito no ar. Dada a seca abrupta de crédito, muito bem que os bancos públicos substituam, em parte e provisoriamente, o setor privado. Tal troca de posições vai continuar a acontecer pelo resto do ano, pois o BNDES foi vitaminado pelo governo. Mas, como no futebol, não é possível substituir o time inteiro durante o jogo, nem os bancos oficiais têm um grupo de reservas bastante para substituir os privados durante muito tempo. Trata-se apenas de um remendo. Um conserto, embora ainda precário, vai demandar medidas oficiais que barateiem o crédito: Selic, compulsórios e impostos menores. No caso das montadoras, o pior foi o grande baque na venda de caminhões. Se a venda de caminhões despenca é porque as transportadoras estão ociosas e antecipam mais ociosidade. Se o fazem, é porque o tráfego de mercadorias está em baixa. Os dados sobre desemprego ainda são muito incipientes. Mas a quantidade de acordos para a redução de jornada e salário, que devem durar para além do trimestre, não é muito animadora para as perspectivas do consumo. Também preocupante, os bancos estão não apenas prevendo, mas registrando, um aumento grande de inadimplência. Os números divulgados pelo BC registram, com atraso de um mês, pagamentos em atraso faz mais de 90 dias. Os dados disponíveis, pois, referem-se a dificuldades datadas ainda do início da crise. Os bancos e o comércio já estão vendo coisa bem pior."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h43
Há comentários mais cretinos do que de hábito sobre os planos de oferta de crédito do governo Lula. Viúvas do tucanato, em especial do tucanato financista, e bajuladores da opinião "de praxe" e de "bom tom" reagem de forma estereotipada a qualquer iniciativa que procure ao menos remendar o buraco de crédito na economia. Sim, dado o histórico do Estado brasileiro, convém sempre desconfiar, mesmo confiando. Mas a reação estereotipada de comentaristas midiáticos está caindo além do seu baixo nível de tolice e macaquice conservadora. Nem ao menos estão tomando conhecimento das medidas: dizem que BNDES e Banco Central podem fazer "empréstimos ruins" e "conta pode cair no colo do contribuinte". Bem, antes de mais nada, a conta JÁ ESTÁ caindo na conta do contribuinte, mas o que importa aqui é que OS BANCOS PRIVADOS é que serão os agentes de repasse do crédito posto à disposição por BNDES e BC. Vão fazer empréstimos ruins? Mas o setor privado não é o mais indicado para alocar a grana de modo eficiente e prudente? Quanto aos bancos estatais comerciais, BB e CEF, sim, é bom ficar de olho: historicamente, o governo costuma fazer besteira e entupir tais bancos de créditos ruins. Mas fica uma dúvida: o Banco Central não está olhando para a qualidade dos créditos de BB e CEF? O Banco Central, tão técnico e louvado pelos comentaristas de obviedades e clichês, não sabe supervisionar bancos? São técnicos para lidar com juros e chutam o balde a respeito de qualidade de crédito?
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h40
O FMI ameniza seus relatórios sobre as finanças mundiais de modo a não afetar as sensibilidades dos países ricos. É o que diz Lord Turner, que vem a ser o chefe da agência reguladora dos serviços financeiros no Reino Unido. Lord Turner usou expressão mais pitoresca. Disse que os relatórios do FMI ficam "aguados" por pressão dos países ricos, que não querem levar pitos. Lord Turner deve saber do que está falando. "Um dos problemas que o FMI tem tido é que, quando tenta lançar alertas, esses alertas são aguados pela pressão política de países poderosos", que não gostam de comentários sobre seus sistemas financeiros", disse Lord Turner, que reclamou em especial dos Estados Unidos e do Reino Unido, o "caso mais notório" de pressão.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h39
"Esta crise financeira é mais profunda e mais séria do que a de 1930, e todos nós nos lembramos de como a política daquele período foi conformada pela economia. A realidade é que esta recessão esta [crise] está se transformando na mais séria recessão global em cerca de 100 anos". É a opinião de Ed Balls, ex-assessor econômico de Gordon Brown, premiê britânico e atualmente secretário para Infância. "De outubro para dezembro, a escala da retração [do PIB] pode ter sido inimaginável, e temos de considerar a possibilidade que o declínio entre janeiro e março pode ser ainda maior". É a opinião de Kazuo Momma, economista-chefe do Banco do Japão (o BC japonês). A produção industrial japonesa caiu quase 10% de novembro para dezembro. O PIB do último trimestre, segundo a média dos economistas, deve ter caído 3% (em relação ao trimestre anterior). As declarações de pânico britânico e japonês foram recolhidas hoje pelo "Financial Times", que não é exatamente um jornal sensacionalista.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h38
A GM dos EUA e a Chrysler podem ser obrigadas a entrar em concordata pelo governo dos EUA, de modo que o contribuinte americano não morra com seu empréstimo de US$ 17,4 billhões às montadoras. É o que dizem hoje a Bloomberg e a Reuters. Mais de 1.000 bancos, um em cada oito, pode falir nos próximos três até cinco anos, devido a perdas com empréstimos, mais baixas de empréstimos imobiliários podres e perdas com títulos lastreados em hipotecas, segundo o RBC Capital Markets, o 12º maior banco de investimentos do mundo. Seria uma quebradeira tão grande quanto a da crise das "caixas econômicas" (bancos imobiliários, "savings and loans"), entre 1988 e 1990.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h37
O pacotão de Lula, a banca e o BC
O governo Lula até agora tomou medidas corretas para atenuar a brusca seca de crédito que afetou também o Brasil. Os bancos privados se tornaram mais relutantes em emprestar. Um exagero dos bancos pode levar a economia se contrair mais do que o razoável. A "medida" do razoável é difícil de definir, mas, dada a retração brusca do sistema financeiro, o governo não poderia deixar a economia entrar num ciclo vicioso desnecessariamente violento. Um exagero dos bancos poderia provocar desemprego em massa muito rapidamente, provocando novas retrações nos bancos e novos cancelamentos de investimento. Esse foi o tema da coluna de domingo (8/2) na Folha. Assinante lê a íntegra do texto aqui. Trechos: "O pacote anticrise do governo federal já passou bem dos R$ 200 bilhões, embora seja quase impossível fazer uma conta precisa. "Neste ano, o BNDES poderá emprestar R$ 76 bilhões a mais do que o fez em 2008, quando financiou R$ 92 bilhões. Para bancar a conta, o governo pode usar reservas do Tesouro, ora ociosas e sobrantes. Ou, um tanto pior, pode emitir dívida nova.
O Banco Central pode emprestar o equivalente a uns R$ 50 bilhões, via bancos, para que empresas paguem suas dívidas externas. Desde setembro de 2008, as reduções do compulsório liberaram cerca de R$ 85 bilhões para o caixa dos bancos, dinheiro para ser emprestado livremente ou que serviria, em tese, para reduzir os juros bancários (compulsório é o jargão para o dinheiro que os bancos têm de deixar parado no BC). O Banco Central ainda tem emprestado uns bilhões a exportadores, para não mencionar outras intervenções no mercado de dólares, as quais acabam por baratear custos cambiais de certas empresas. O governo adiou o recolhimento de alguns tributos de empresas (um subsídio para capital de giro). Reduziu impostos sobre operações financeiras, carros e certas importações. Vai cortar impostos sobre a construção de casas e elevar o subsídio para a habitação popular. Criou linhas especiais de crédito para montadoras, construtoras e agricultura. Em 2008, o estoque de crédito "livre" na economia cresceu R$ 211 bilhões (não se trata de novas concessões de crédito, mas da variação do saldo de empréstimos a pagar). No crédito "livre", não estão incluídos os financiamentos com destino definido pelo governo, como os do BNDES ou do crédito direcionado para habitação e agricultura. Em suma, no crédito "livre", contam-se os empréstimos decididos no mercado. Pois bem: a oferta adicional de crédito "oficial" para 2009 deve equivaler a uns 60% de todo o aumento de crédito "privado" no ano passado.
"Mas a estatização de boa parte do crédito talvez fosse medida incontornável, dada a hecatombe financeira. Ainda assim, faltam ingredientes básicos nessa torta emergencial. O governo precisa cortar gasto corrente. O Banco Central deve cortar a Selic de modo a achatar ainda mais a taxa de juros real, em vez de apenas deixá-la estável nos atuais 6% ao ano, historicamente baixos, mas não o bastante. Os bancos privados precisam comparecer. Até agora estão saindo de fininho, apesar do seu caixa gordinho."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h04
"O homem de 'x' trilhões de dólares"
Gestor dos maiores fundos do planeta e de programas do BC dos EUA, Bill Gross pede pacote de trilhões a Obama: foi o tema da coluna de sexta-feira (6/02) na Folha. Assinante lê a íntegra aqui. Trechos: "O governo dos EUA precisa gastar trilhões a fim de evitar uma "minidepressão". A opinião é de Bill Gross, que a externou numa entrevista à agência de notícias financeiras Bloomberg. Gross é o principal executivo financeiro da Pimco, gestora dos maiores fundos de renda fixa do mundo, parte da Allianz, maior seguradora europeia. A Pimco é ainda um dos administradores contratados pelo banco central americano para comprar notas promissórias do mercado e títulos lastreados em hipotecas, os papéis que deram origem à série de crises. "Em setembro de 2009, dias antes de o Lehman Brothers explodir, Gross pedia que o governo americano comprasse papéis podres do mercado, entre outras intervenções estatais, em um de seus artigos publicados no site da Pimco. Foi muito enfático na ocasião: se o governo não "abrisse o cofre" (aspas literais), viria um "tsunami financeiro". Veio." "Gross deu sua sugestão no dia 4 de setembro. No dia 7, o governo estatizou Freddie Mac e Fannie Mae. No dia 14 de setembro, Paulson dizia: "Jamais considerei apropriado colocar o dinheiro do contribuinte na mesa a fim de [resolver] os problemas do Lehman Brothers". No dia seguinte, o Lehman explodiu. Dia 19, Paulson defendia assim seu pacotão de compra de papéis podres dos bancos (uma quase doação): "Estamos falando de centenas de bilhões de dólares -isso precisa ser grande o bastante para fazer diferença e ir ao coração do problema". Gross sabia mais ou menos quando e onde o galo iria cantar. Agora, sugere despesa de trilhões enquanto o Senado dos EUA discute se apara o pacote fiscal de Barack Obama. Quando Timothy Geithner, secretário do Tesouro de Obama, está para anunciar o novo pacote financeiro (deve sair dia 9). Gross temperou seu alerta com a mesma pimenta retórica da sugestão de setembro: "Há [o risco] de uma catástrofe se o governo dos EUA continuar a pensar em [apenas] bilhões de dólares"."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h56
A capa e as matérias principais da "Economist" publicada hoje tratam dos perigos da volta do nacionalismo. A revista, liberal, como é, apresenta os argumentos de sempre em defesa da liberdade de comércio e de capitais (especialização e produtividade no caso do comércio, melhor alocação de capitais no caso da liberdade dos fluxos financeiros), embora o faça de maneira um tanto estereotipada e banal. De resto, diz que as medidas contra a crise não devem ser "partidárias" (ideológicas seria uma tradução melhor, no caso, para "partisan"), mas pragmáticas, sem se ater ao Fla x Flu "Estados x mercados" e coisas assim (embora nos tempos da bonança a revista tenha sido sempre "partidária" de coisas que deram muito errado). Depois de descrever as primeiras iniciativas "nacionalistas" (o "Buy American" do pacote de Obama, governos pressionando bancos a emprestar mais nos seus países de origem, sindicatos contra trabalhadores estrangeiros etc), a "Economist" defende que os Estados Unidos sejam os patronos da proteção do globalismo e da liberdade comercial. Sugerem que Obama vete o pacote fiscal inteiro caso não seja derrubada a cláusula de preferência para produtos americanos. E sugere três "diretrizes": 1) Os pacotes de socorro fiscal e financeiro nacionais devem ser coordenados em escala mundial; 2) Os pacotes devem ter cláusulas de defesa de mercados livres e não devem dirigir seus benefícios necessariamente para a indústria, comércio e finanças locais; 3) Multilateralismo: o FMI deve ter mais dinheiro para atenuar a seca de capital em mercados emergentes, a OMC deve completar a rodada Doha e o G20 deve atuar para conter barreiras comerciais. Os americanos deveriam liderar iniciativas nesse sentido. E se eles não o fizerem? E se outros países não concordarem? Para a "Economist" o mundo ficou a depender da boa vontade americana. Talvez seja verdade. Mas talvez não seja uma solução. 
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h35
"Nacionalismos e protecionismos" A dimensão da onda protecionista vai depender da intensidade da crise e do tumulto político que ela pode causar. É a tese da coluna de hoje (5/2) na Folha. Assinante lê a íntegra aqui. Trechos: "A União Europeia piscou. Piscou para a revolta de trabalhadores britânicos contra a contratação de italianos e portugueses para trabalhar na obra de uma refinaria francesa na Inglaterra. A UE pode permitir novas "interpretações" nacionais da lei que permite o livre trânsito de trabalhadores no bloco europeu. Ameaça vetar aqueles pacotes de ajuda a empresas que tenham cunho protecionista, mas quer que o auxílio oficial proteja "empregos europeus". Uma no cravo, outra na ferradura. A UE não quer deflagrar uma guerra protecionista e, ao mesmo tempo, joga migalhas para os sindicatos, a fim de evitar mais tumultos nas ruas. "Nos EUA, Barack Obama demorou a criticar a cláusula "Buy American" que o Congresso enfiou em seu pacote -só o fez após protestos globais. Países da Europa ocidental são acusados de "persuadir" suas empresas a fechar fábricas e postos de trabalho no exterior antes de o fazerem em casa, além de estimularem campanhas pelo produto nacional. "Mas hoje parece improvável que os países ricos cavem novas trincheiras nacionalistas. Primeiro, porque as grandes empresas do mundo são transnacionais -seus interesses não têm fronteiras. Segundo, o "establishment" mundial, político, intelectual e empresarial é todo "globalizante". Terceiro, está fresca a lição do desastre político e econômico causado pelo nacionalismo dos anos 1930. Quarto, uma onda protecionista é um perigo político: ameaçaria os pactos econômicos (OMC, União Europeia etc), os quais, embora precários, colocam certa ordem nas disputas internacionais. "Por outro lado, tais argumentos são demasiadamente racionais, o que não é bem o caso da política real. De resto, não levam em conta o risco de uma desgraça econômica ainda mais profunda que a já prevista. Isto é, desconsidera que a sobrevivência das empresas venha a depender ainda mais de governos, o que poderia levá-las a abrir mão do seu "globalismo". Enfim, o desemprego pode provocar distúrbios sociais com consequências políticas importantes -alguém pode querer abafar as ruas com placebos protecionistas. "Sinais desses problemas pipocam ali e aqui. Dependentes de governos, grandes bancos já direcionam seu escasso capital para seus países de origem, em parte pressionados pelos novos patronos. As pequenas manifestações de trabalhadores no Reino Unido, de funcionários públicos na França e na Alemanha e de agricultores no Leste Europeu e na Grécia já levaram governos a dar uma colher de chá ao menos verbal para o nacionalismo trabalhista."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h13
O blogueiro continua fora de combate, em modo de economia de energia _está com déficit de saúde e precisa baixar rapidamente sua taxa de vírus. Espera voltar amanhã, com "Cozinha Liberal" e os posts habituais
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h11
"A nossa Câmara dos Lordes"
A coluna de hoje (3/2) na Folha é um lamento escarninho sobre aquelas pessoas lamentáveis do Congresso. Assinante lê a íntegra aqui. Trechos: "O Senado é a nossa Câmara dos Lordes. Não vamos nos impressionar com a palavra "lordes" e suas associações fantasistas com as ideias de finura e primor. Basta-nos lembrar o caráter anacrônico da coisa. Mas de que modo o Senado estaria fora de seu tempo? Difícil dizer que a nossa Câmara Alta do Parlamento seja um resquício disfuncional porém inócuo, que sobrevive devido à inércia ou a uma tradição quase inofensiva. Se fosse assim irrelevante, a disputa pela sua direção não demandaria tantos recursos políticos (e outros) além de punhaladas morais nem o envolvimento dos mandantes de turno e futuros, presidentes e governadores. No momento em que era anunciada a eleição do novo presidente do Senado, o senador José Sarney, do PMDB do Amapá e do Maranhão, a seu lado estava o senador Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas, um dos articuladores da renovação do atraso. Desde 1995, da "era da modernidade do Real", até o final do presente mandato, 2011, Sarney e Calheiros terão governado o Senado em 10 de 16 anos. Os outros 6 anos ficaram a cargo do falecido senador Antonio Carlos Magalhães (então PFL, hoje DEM, da Bahia) e de Jader Barbalho, do PMDB do Pará. Alagoas e Maranhão lideram os rankings nacionais do infortúnio social. Pará e Bahia não aparecem muito melhor na foto. A divisão desproporcional de cadeiras do Senado (em relação ao eleitorado) e o domínio político de Estados pobres poderiam significar uma tendência constitucional de redistribuição de poderes. O desequilíbrio econômico e social tenderia a ser compensado pela maior influência, no governo, dos representantes dos Estados pobres. Mas o resultado do equilíbrio é um pacto duplamente conservador. As diretrizes maiores das políticas econômica e social são definidas por elites do Sudeste. Em troca, as caciquias ganham autonomia para manter infortunar seus feudos e uma casquinha nas benesses estatais. De resto, os representantes maiores da caciquia ganham títulos de grandes eleitores (cabos eleitorais). Esses baronatos (ministérios, postos no Legislativo etc.), fornecem fundos para a aquisição de bases políticas, alugadas nas eleições presidenciais."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h49
Ao contrário do lugar comum brandido em defesa dos anos de farra financeira, os anos 2000 não foram os "mais prósperos da história". É o tema da coluna de domingo (01/02) na Folha. Assinante lê a íntegra do texto aqui. Trechos: "O colapso da ordem financeira mundial detonou duas ondas de propaganda. Publicistas vulgares da ordem reagiam aos críticos do desastre dizendo que "a globalização e o capitalismo haviam produzido os anos de maior prosperidade da história", tolice bem típica, aliás, dos bajuladores brasileiros do dinheiro grosso. Minoritário e sem poder, mas nem por isso menos tolo, o partido "crítico" apregoava que o "neoliberalismo" morrera. "A contar de 1930, o crescimento médio dos EUA nos anos 2000 foi superior apenas ao dos anos da Grande Depressão (o per capita inclusive). O crescimento per capita europeu vem caindo a cada década desde os anos 60. O Japão teve seu grande período até 1970. Oriente Médio e América Latina viram dias melhores na década de 70 ou antes, embora o crescimento "desenvolvimentista" nos anos 50 e 60 seja bem exagerado: o PIB per capita não cresceu tanto. A qualidade dos dados africanos é suspeita, mas parece ter havido períodos melhores também por lá. Nem se mencione o problema da distribuição dessa riqueza. "Os grandes casos de sucesso econômico recente são os da China, de parte do sul da Ásia e dos Tigres (Coreia, Taiwan, Cingapura e Hong Kong, que porém não crescem tão pouco desde a década de 50). Excetuando a China, os grandes anos do PIB mundial ainda são os 50 e os 60. "Aquilo ao que se dá o nome hoje genericamente inútil de "capitalismo" são sociedades com economias de mercado tão diferentes como as de EUA, França, Suécia, Japão, Coreia, Rússia, China ou Brasil. "Neoliberalismo", por sua vez, é um fantasma ou vodu que dá forma ao ressentimento e à miséria intelectual da maior parte do que sobrou da esquerda. Mas as duas vulgaridades são próximas, pois propagandeiam generalidades fantasmagóricas."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h14
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PERFIL
Vinicius Torres Freire é colunista da Folha, onde está desde 1991. Foi Secretário de Redação do jornal, editor de Dinheiro, editor de Opinião, correspondente em Paris, editor de Ciência e editor de Educação
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