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A OCDE está muito mais pessimista que outras organizações do gênero. De mais chocante, prevê para 2009 queda de 13% no comércio mundial (contra 9% da OMC), baixa de 4,3% no PIB dos países da OCDE, de 4% no PIB dos EUA, de 6,6% no do Japão e 5,3% no da Alemanha. Uma desgraceira. Para o Brasil, queda de 0,3%. Quem quiser ler o relatório completo, o "Perspectiva Econômica", pode clicar aqui. Abaixo, uma tabelona com as previsões para os principais indicadores econômicos para o G7 e para o PIB dos Brics. A OCDE é a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, uma associação e centro de pesquisa em política econômica que conta hoje com 30 associados, entre os mais ricos do mundo (vide a lista no pé do post). Em 2007, a OCDE convidou Chile, Estônia, Israel, Rússia e Eslovênia para a organização. Pensa em convidar Brasil, China, Índia, Indonésia e África do Sul. Na América latina, apenas o México faz parte do grupo. 
Os países da OCDE: Australia, Austria, Belgium, Canada, Czech Republic, Denmark, Finland, France, Germany, Greece, Hungary, Iceland, Ireland, Italy, Japan, Korea, Luxembourg, Mexico, the Netherlands, New Zealand, Norway, Poland, Portugal, Slovak Republic, Spain, Sweden, Switzerland, Turkey, United Kingdom, United States.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h16
As montadoras baixaram preços?
A coluna de hoje trata do novo pacote de redução de impostos do governo federal, desconfia do "acordo de cavalheiros" para suspender demissões e pergunta se as montadoras baixaram preços além do desconto oferecido pela redução de impostos. Assinante lê a íntegra do texto aqui. Trechos: "O naufrágio das montadoras criaria um torvelinho que tragaria vários setores. A indústria automobilística tem um "grande encadeamento para trás", como se diz, de modo comicamente obsceno. Demanda metais, plásticos, borrachas, eletroeletrônicos, vidros, químicos etc. E ainda uma rede de vendas e serviços grande; paga salários bem superiores à média. Sem tal colchão, a crise teria ganhado mais velocidade no país. Isto posto, o caso não se encerra aí. O prêmio tributário parece agora atenuado por um acordo entre sindicatos e montadoras que prevê a suspensão de demissões, o que teria "convencido" o governo a prorrogar a redução do IPI. Mas isso é conversa (e o governo prorrogaria o IPI menor com ou sem acordos). As montadoras já fizeram parte da limpa de empregos. O acordo não abriga trabalhadores no fim do contrato temporário e, claro, nem planos de demissão voluntária. Pode-se reduzir a folha de salários sem preencher vagas abertas pela rotatividade do pessoal. Enfim, junho está logo aí: as empresas vão ajustar seus negócios e demitir, se necessário. Em breve, por meio dos registros de remessas de lucros e de resultados, teremos alguma ideia do que foi feito da margem de lucro das empresas. Como gosta de dizer o mercadismo, "por um preço tudo se vende" (mas o clichê ferrabrás só aparece quando se trata de criticar a proteção ao trabalho). Qual terá sido a contribuição das montadoras para a manutenção das vendas, via redução de preços? O imposto menor terá servido apenas para manter a margem das montadoras? Mistério."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h02
Prejuízo bilionário, câmbio, desligo
A coluna de domingo na Folha fazia uma avaliação breve dos efeitos do desastre de (certos tipos de) derivativos cambiais, que quase quebraram grandes empresas, tumultuaram o câmbio, o crédito etc. Assinante lê a íntegra do texto aqui. Trechos: "Os prejuízos estrambóticos da Aracruz e da Sadia reavivaram a história dos derivativos cambiais. O caso havia caído sob a sombra de balanços opacos, quietas renegociações de dívidas em escritórios de advocacia e até em raras, porém discretas, ações judiciais. De modo ainda não quantificado pelos nossos tantos especialistas em finanças, esses ditos "derivativos tóxicos" provocaram algum efeito na frenética alta do dólar no final do ano passado e um choque que intensificou a retração do crédito no país. Para variar, avarias privadas foram parar na funilaria do governo, que, de modo indireto e inconfesso, conserta parte da trombada cambial. O fato de tais operações serem um tanto invisíveis facilitou a loucura. Nos balanços, elas apareciam de forma obscura, em "qualquer nota explicativa", para inglês ver. Não há uma central de acompanhamento de derivativos que registre, no conjunto, o risco, o tipo e o valor preciso de muitas dessas apostas. Os perigos ficaram na sombra, para o mercado e para as autoridades financeiras.
Mesmo que possível, porém, não seria o caso de incentivar a prudência financeira de empresas regulando variáveis macroeconômicas -seria como o rabo balançar o cão. Mas grandes empresas exportadoras se jogaram, sim, à procura de financiamento direto e mais longo de suas vendas ao exterior (pré-pagamento e securitização de recebíveis de exportações). Pretendiam fazer, e por um tempo fizeram, um extra com o câmbio e com o diferencial de juros favoráveis, enrolando-se de resto com as tais operações estrambóticas para se "proteger" (especular) em caso de variações cambiais. Assim, aliás, ajudavam a valorizar o real no curto prazo. Até que a roda-gigante do crédito externo parou."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h07
O besteirol racista de Lula fez sucesso. Está em destaque no "New York Times" e no "Financial Times" (abaixo). Protectionism ‘a drug’, says Lula da Silva
Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h13
Casas populares, castelos no ar
A coluna de hoje avalia o pacote de habitação de Lula e da medida do CMN que cria garantias para empréstimos tomados pelos bancos menores. Assinante lê a íntegra do texto aqui. Trechos: "O pior do plano Lula de construção de casas foi a tralha numérica e a politicalha de governo e oposição. PSDB e DEM soltaram notas críticas que iam da má-fé à vulgaridade política, passando pela vagabundagem, pois ninguém analisou bem o pacote. O plano tem qualidades evidentes: 1) Reconhece que tem de haver subsídios para famílias com renda até uns R$ 1.400; essa conta estará no Orçamento; 2) Tenta reduzir a burocracia; 3) Cria seguros acessíveis -a falta de seguro é uma desgraça dos mercados brasileiros, da agricultura à habitação; 4) Não estatiza a produção de casas (lembre-se das notórias "Cohabs"). Mas há dúvidas sérias. Quem vai fiscalizar a qualidade? Checar se fizeram barracos de areia? A medida provisória do plano não diz. Seria bom haver um órgão independente para tal coisa. Entre as dificuldades materiais sérias, estão terrenos e infraestrutura. Há empresa com casas prontas, de R$ 60 mil, para o povo de renda até três mínimos. Mas essa empresa não sabe bem onde arrumar mais terrenos baratos, que tenham infraestrutura e/ou que não fiquem na órbita de Plutão: longe.
O BNDES receberá dinheiro do Tesouro, até R$ 5 bilhões, para subsidiar os juros de obras de infraestrutura. Mas quem vai pagar o principal? Prefeituras, Estados. Certeza? Quando? Para a obra sair, é preciso haver água e esgoto, luz, eletricidade, transporte e coleta de lixo, ao menos -mas não falam nada de escola nas proximidades. Nem de humanização, urbanismo, sem o que tantos bairros populares viraram desolações, depósitos de gente, quando não pré-favelas."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 13h59
A crise foi causada por gente "branca e de olhos azuis", disse hoje Lula, entre outros disparates. Estava ao lado do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown. Disse mais: "Não conheço nenhum banqueiro negro ou índio. Só posso dizer que as pessoas desta parte da humanidade foram as maiores vítimas do mundo e elas não podem pagar por isso". "Desta parte" deve ser o mundo pobre, de países com muita gente de pele escura. Lula, dirá o lulismo, estava apenas traduzindo de modo popular, digamos, a sua "geopolítica da crise". Sim, deve ser verdade, dada a névoa tumultuada e rudimentar que é a compreensão luliana das coisas. Mas, ainda assim, a gente fica a pensar o que diria Lula se confrontado, na bucha, com o caso dos eslavos do Leste Europeu, por exemplo, tantos de olhos azuis e sofrendo com a crise, para nem falar dos "blue eyes" do proletariado americano. Também são "white mischief"? E o caso dos CEOs negros de bancões americanos? Sim, a gente sabe que não se argumenta diante de tais maluquices. Era apenas uma tentativa imaginária de testar como Lula reagiria se contraposto, na lata, às próprias bobagens. Numa série de posts ("O racismo de Lula 1", "2" e "3" e "O fanatismo lulista e os portais do inferno") que acabou por me levar a conhecer muita gente maluca e fanática, observei um dia que Lula era racista (ele dizia naquela vez que, dada a "mistura de negro, índio e europeu", o povo brasileiro era mais "esperto" que a média). Ouvindo as bobagens mais recentes de Lula, dizer que o presidente seja racista talvez seja mesmo uma imprecisão. Lula vive num universo mental em que se confundem sentimentalismos, falta de discernimento intelectual, esperteza, preconceitos populares, intuição aguda, capacidade de liderança e ignorância. Dessa névoa, vez e outra saltam essas besteiras racistas, tão desarticuladas como tantas outras "teses", digamos, de Lula. Dizer quer Lula é racista pode, pois, passar a impressão de que os preconceitos do presidente seriam elaborados demais. O problema maior, enfim, está no fato de Lula ser a pessoa mais televisionada, radiodifundida etc etc do país. É muito popular, o que torna ainda mais grave a difusão que faz de tolices e preconceitos, que contribuem para a imbecilização do debate público.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h26
Este blogueiro e colunista está temporariamente fora do ar, para "manutenção". Volta quando puder.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h28
Duas no cravo, uma na canela
O déficit externo (em conta corrente) parece controlado e bem financiado por investimentos estrangeiros surpreendentemente altos. A inflação que, se esperava, a desvalorização do dólar poderia provocar, não veio. Temos dois problemas a menos. Esse é o tema da coluna de hoje na Folha, que assinante pode ler aqui. Trechos: "Tais hipóteses parecem agora bem remotas. Mas era comum ouvir economistas de peso incluí-las nas primeiras linhas dos seus "balanços de riscos". Isso até vir a notícia da catástrofe de dezembro, o naufrágio da indústria, sabido em janeiro. Faz dois meses. Parece que foi no pré-cambriano. Imaginava-se então que o país cresceria demais para um ambiente mundial de crise, gastaria demais e não teria como financiar suas despesas em moeda "forte" (dólar). Diga-se de passagem que tanto o Banco Central como a Fazenda acreditavam mais ou menos nessa hipótese: o BC vendo riscos, Fazenda e Lula vendo fortalezas. No ar.
O desagradável é que a baixa dos riscos de inflação e déficit externo se deveu a uma encrenca maior do que a esperada: o afundamento brusco e inédito da atividade econômica. Importamos menos, viajamos menos, há menos remessas de lucros porque a atividade caiu etc. Mas também vamos vender 20% menos para o exterior, neste ano. Foram duas no cravo e uma forte na canela, para não dizer ferradura. Não ficamos sem gasolina no tanque porque o carro passou a andar devagar, quase parando.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h27
US$ 500 bi para terceirizar a faxina
A coluna de hoje na Folha trata do plano financeiro americano para reduzir a quantidade de papéis podres nas instituições financeiras e reacender uma brasinha no mercado de crédito. Assinante lê a íntegra do texto aqui. Trechos: "Depois que a arca do dilúvio encalhou no monte Ararat, Noé soltou um pombo. A ave voltou com um ramo de oliveira, sinal de terra firme em algum lugar, alhures. Nos Estados Unidos, ainda chove, e a arca da política anticrise de Barack Obama está lotada de feras financistas e de contribuintes desempregados. Nenhum financista quer se molhar. O plano de Obama e de seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, oferece um barco puxado por nadadores-contribuintes, que levariam os banqueiros para dar uma volta pela enchente e verificar se há terra firme por aí.
Como ninguém quer sair na chuva, o governo dá a mãozinha ao investidor privado e sai na chuva com ele. Fundos de parceria "público-privada" vão comprar o lixo tóxico. O governo emprestará dinheiro barato a quem quiser levar o papelório e ainda comprará um valor equivalente ao das aquisições do mercado.
Agora, e se os empréstimos vendidos ou títulos leiloados saírem por um valor muito baixo (abaixo do registrado no balanço de um banco, caso se trate de um ativo "marcado a mercado")? O banco teria de dar baixa no balanço e ficaria com ainda menos capital -mais falido ou menos propenso a emprestar. Vão fazer tal coisa? E se os investidores comprarem apenas um pouquinho dos papéis encalhados? Como fica o resto do papelório podre no banco?
Quem entende do riscado diz que o plano pode funcionar, dados os subsídios. Enfim, é difícil de acreditar que a equipe de Obama tenha planejado tal coisa sem "combinar com os russos"."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h23
Imagine que uma fantástica fábrica de chocolate, chamada Cacau Group, descobriu uma fórmula para vender um chocolate que, além de ter o melhor sabor já provado, emagrece quem os come: o Choco Security Fat Reducer (CSFR, no jargão). O Cacau Group e outras firmas do ramo vendem rios de chocolate e estocam pilhas do doce, à espera de consumidores cada vez mais ávidos. Um dia, descobre-se que morreram alguns chocólatras: comido em excesso, o fantástico Choco Security mata, por causa do veneno que lhe dá um sabor diet. As vendas despencam. Estoques apodrecem. O Cacau Group, a Merry Choco, a AIChoco, a Cocoa Brothers e outras firmas, sem vender CSFR nem ter como investir em novos doces, só não quebram porque recebem doações e empréstimos do governo. Ninguém quer mais provar o CSFR. Os estoques do chocolate não valem nada no mercado. Um dia, o governo vem com a seguinte idéia: usar dinheiro dos impostos para comprar chocolate CSFR e distribuí-lo nas creches públicas. Ao comprar o chocolate e servi-lo em doses moderadas às crianças pobres, sugeriria que o chocolate fantástico nem sempre mata. Assim, o governo mostraria que o CSFR tem algum valor de mercado. E revendedores e consumidores voltariam a comprar o doce, colocando as fábricas de chocolate para funcionar de novo. Antes, claro, o governo teria combinado com os donos de estoques de chocolate que iria comprar os doces encalhados. Mas os donos dos estoques teriam que colocar algum dinheiro no negócio. Assim, gente do mercado daria um "preço" para os estoques encalhados de CSFR. Seria um jogo de cena para fazer com que todo mundo acreditasse que o mercado de chocolates não havia morrido. Se todo mundo acreditasse, se voltasse a confiança ao mercado de fantásticos chocolates, ao menos as fábricas poderiam sair do estado de quase falência. Aos poucos teriam algum dinheiro para inventar outros produtos (já havia alguém pensando em vender o Sugar Candy Health Enhancer, o SCHE, uma bala hiperdoce que melhora o ânimo e o desempenho escolar das crianças). No fim das contas, o governo teria dado algum dinheiro para os fabricantes do chocolate fantástico, mas que envenenava. Não mandou ninguém para cadeia (isso tiraria a confiança no mercado e nas fábricas de chocolates, a indústria nacional). Poucos magnatas do cacau teriam perdido o emprego, além de terem ficado com todos os lucros do "boom" do chocolate. Bom, em resumo, este é o plano que Timothy Geithner, secretário do Tesouro dos EUA, anunciou ontem para tentar acabar com o estoque de papéis e empréstimos imobiliários podres que ora mofam nos balanços de bancos, seguradoras, fundos de pensão, fundos de investimento e de aposentadoria. Vão entrar com algum dinheiro e garantias em fundos público-privados que comprem tais papéis, lhes dando assim algum preço e algum mercado, hoje inexistente. Provavelmente, o Tesouro dos EUA combinou tal esquema com pelo menos parte do mercado. Assim, encontram um modo de "descobrir preço" por meio do mercado (que era, em suma, uma idéia do governo Bush). Se os papéis forem vendidos, sobem de preço. Os bancos e cia ficam com rombos menores, com mais capital. Ou ficam menos quebrados ou até ficam com algum para emprestar. Se der certo, a confiança aumenta não só no mercado secundário. Alguém pode se arriscar a vender novos papéis, a securitizar empréstimos de novo. E o crédito, aos poucos, voltaria a rodar. Se der certo. Os bancos podem tentar vender uns papéis menos podres. E como ficam os totalmente podres, sem valor? Ainda apodrecendo os balanços? Ou o governo vai comprar os mais podres, disfarçadamente? O plano, decerto, não é uma besteirinha. Pode até dar certo. Mas, mesmo assim, terá sido uma das maiores doações, diretas ou indiretas (na forma de seguro e garantias), a um setor privado que enriqueceu na malandragem e não perdeu nos dias chuvosos. O governo vai bancar, a posteriori, a grande brincadeira do chocolate envenenado, os títulos lastreados em papéis imobiliários.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h11
A proteção social de Lula e a crise
Pibinho arranha presidente, mas rede luliana de benefícios sociais e salariais ficou ainda mais ampla e alterou base dos compromissos políticos entre mais pobres e governantes. Foi o tema da coluna de domingo na Folha, que assinante lê na íntegra aqui. Trechos: "O prestígio de Lula caiu. Seriam os primeiros reflexos do baile da crise, parece. Mas a reação política a períodos de dureza econômica não é previsível como a de um cão de Pavlov. De resto, quem pretenda estimar os efeitos do PIBinho na avaliação do presidente e, mais temerário, na eleição de 2010 terá de prestar ainda mais atenção à "rede de proteção social" de Lula. A ambiguidade é proposital: é proteção de Lula e dos desvalidos. A quantidade de pessoas colhida diretamente pela rede social luliana é imensa. São os 11 milhões de famílias do Bolsa Família (cerca de 40 milhões de pessoas). São os 17,8 milhões que recebem benefícios previdenciários e assistenciais de até um salário mínimo, que teve reajuste real de 45,5% no governo Lula. Mesmo que não alterem a qualidade da economia de pequenas cidades, os benefícios previdenciários e de assistência social alimentam o pequeno comércio, os negócios caseiros e dão vazão a pequenas sobras da agricultura de subsistência.
O menos conhecido Pronaf concede, por ano, 1,5 milhão de financiamentos para agricultores familiares (média de R$ 5.000 para cada um). Há outros tantos no Proger, que auxilia micronegócios. O ProUni banca o ensino superior de 310 mil garotos. Há os assentados da reforma agrária, os quilombolas, os resgatados do trabalho infantil etc. Uns 7% da população ocupada, 6,2 milhões, são funcionários públicos. Muitos servidores federais receberam aumentos sob Lula. Servidores estaduais e municipais tiveram os reajustes do mínimo, que também elevou o salário dos mais pobres. O nível de pobreza é o menor desde que se tem registro (isto é, em 32 anos)."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 13h02
Corleone e Barzini, chefes das "famílias" de Nova York, chegam a um acordo. Haviam perdido seus filhos na guerra desencadeada pelos Barzini, que pretendiam introduzir o setor de drogas nos negócios das famílias. Corleone, magnânimo, aceita a reorientação corporativa, digamos, e abre mão de vingar seu filho, a fim de dar cabo do trucidamento contínuo entre os dois grupos. Barzini aceita o negócio e a trégua. Troca beijos com Corleone. A mesa senatorial da máfia aplaude. Corta. Já viram este filme? Está passando em Brasília, naquele prédio que tem duas cuias, uma côncava, outra convexa _naquele edifício que fica no meio da Praça dos Três Poderes. A "vendetta" estava indo longe demais, e os cadáveres estavam aparecendo nos jornais.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h25
Micagens dos povos do mercado
Após o BC dos EUA anunciar que despejaria dólares no país, mercado especula com inflação, dólar e commodities. Esse é o tema da coluna, que o assinante pode ler na íntegra aqui. Trechos: "Faz uns dez meses, europeus protestavam nas ruas contra combustíveis caros. Americanos paravam de viajar de carro. Pouco antes, o preço do petróleo esbarrara rapidamente na casa dos US$ 140 por barril. Ainda em junho de 2008, a China aceitava um reajuste de 96% para o preço do minério de ferro importado. Temiam-se inflação e escassez de comida, minérios e petróleo. Ressalte-se que isso ocorria no ano passado: 2008, favor prestar atenção. Não se trata de outro século ou era geológica, como parece. Por que a lembrança? Ontem, os povos do mercado, mais exóticos que os povos da floresta, falavam em toda parte de "inflação", "proteção contra preços altos", "contra a queda do dólar", "fazer hedge com commodities". Dito e feito: compraram commodities, venderam dólares, marquetavam títulos públicos indexados à inflação etc. Foi uma reação, que não se sabe bem se estereotipada ou estúpida ou espertinha ou especulativa, à decisão do banco central dos EUA de despejar dinheiro na economia infartada. Por quê? Por que talvez as taxas dos títulos públicos de longo prazo e os juros de mercado nos EUA caiam mais. Talvez o Fed não "saiba como enxugar os dólares, quando terminar a crise" -no dia de são Nunca, de tarde, decerto. Mas foi o bastante para ressuscitarem a palavra inflação. Parece tolice, nesta recessão sem fim ainda visível, mas era o que os povos dos mercados diziam ontem. Por imitação, mímica, micagem ou comportamento de manada, derrubaram o dólar e compraram commodities como se revivessem, ainda que em escala milesimal, os acontecimentos do final de 2007."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h15

A "Economist" revisa cada vez mais rapidamente as estimativas para o PIB do mundo (trata-se das previsões da Economist Intelligence Unit, EIU, centro de pesquisa da empresa que edita a revista). Acima, está o tradicional quadrinho, com estimativas cada vez mais catastróficas. No que diz respeito a linha de "commodities", a porcentagem é da variação média dos preços no ano. Segundo os dados da EIU, só em meados de 2011 a economia mundial voltaria ao nível de produção do final de 2008. Quase três anos de estagnação.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h10
Pau na máquina de dinheiro
A coluna de hoje na Folha trata da reorientação, agora "oficial" da política monetária americana, que até por falta de opção deixou de se orientar pela fixação da taxa de juros de curto prazo, passando agora para um tipo de "relaxamento quantitativo" ("quantitative easing"), e o fazendo em grande estilo e escala: US$ 1,15 trilhão. Assinante lê a íntegra da coluna aqui. Trechos: O que fazer quando a taxa básica de juros cai a zero e a economia continua devagar, quase parando? Muitos grandes economistas consideravam, até faz pouco tempo, que tais desastres seriam hoje quase improváveis, apesar do caso japonês, um rinoceronte na sala de estar. Mas esse filme de horror está passando em quase todo o mundo rico e, em tela extragrande, na economia dos EUA. O Fed, o BC deles, vai oficialmente "ligar sua máquina de imprimir dinheiro". Na verdade, fazia tal coisa desde novembro de 2008. Mas agora disse "máquinas a todo o vapor", como nos filmes antigos.
O Fed começou a emprestar dinheiro diretamente para o mercado (compra títulos de dívida de casa própria e financia a compra de papéis de dívida de empresas). Em tempos normais, trata-se de uma aberração: é como se um grande banco estatal se tornasse o maior do país, sem de resto ter preparo para tanto (para administrar ativos financeiros de risco e variedade bem diferente daqueles com os quais um BC costuma lidar).
Novidade total, agora o Fed vai comprar títulos do Tesouro (dívida pública federal) de longo prazo (de dois a dez anos), referência para outras taxas do mercado. Vai tentar derrubar (ainda mais) também os juros desses papéis (quando a procura por um título financeiro sobe, seu preço sobe e os "juros" que paga caem).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h51
A situação do emprego melhorou, diz o ministro do Trabalho. Na verdade, despiorou muito discretamente, isso com muita boa vontade. Antes de o Brasil importar a crise, o mercado de empregos formais vivia uma excepcional recuperação. Trata-se aqui do saldo de empregos com registros em carteira (diferença entre contratações e demissões), contados no Caged do Ministério do Trabalho. Em fevereiro passado, o saldo de empregos foi de 9.179. Em fevereiro de 2008, o saldo havia sido de 204.963 empregos. Isto é, ficamos provavelmente sem quase 195 mil empregos. E todos os anos há mais gente para trabalhar. O quadro abaixo mostra o saldo de empregos formais para cada mês posterior à explosão da crise, em setembro, e os dados do mesmo mês, um ano antes. A diferença mostra quantos empregos formais em tese desapareceram (caso o saldo de empregos de cada mês, depois da crise, fosse idêntico ao do mesmo mês do ano anterior). Por alto, perdemos, ou deixamos de criar, mais de 1 milhão de empregos, provavelmente.

O resultado de fevereiro deste ano só não foi pior porque a administração pública (governo) continuou com um saldo de empregos equivalente ao de antes do início da crise. De outro modo, o saldo teria sido negativo de novo. Na indústria de transformação, o saldo foi ainda mais negativo de que o janeiro _sumiram 56.456 empregos. É a indústria que está puxando a queda do emprego na economia inteira. Na construção civil o resultado foi menos desalentador. O setor de serviços, pelo menos, se saiu melhor, empurrado por um saldo de contratações devido à hotelaria do Carnaval e, principalmente, no ensino, que teve um saldo de 35.389 empregos, melhor que no ano passado. O ministro estima que o saldo de março venha a ser de 100 mil empregos, que ainda assim seria inferior ao de março de 2008 (206 mil empregos). De qualquer modo, esperamos encarecidamente que o ministro esteja certo. Ou "errado para melhor". Mas está difícil.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h33
A raiva contra os financistas cresce nos EUA, ainda mais depois dos bônus milionários que executivos da AIG estão recebendo, mesmo depois de a superseguradora ter quebrado duas ou três vezes desde setembro passado, depois de estatizada e de receber mais de centena de bilhões de dinheiro público. A historinha abaixo vem do blog de Barry Ritholtz, The Big Picture, sobre finanças, que por sua vez a recebeu de um amigo. O post de Rithholtz começa assim: "Há muita raiva por aí" ("There is a lot of anger out there"). "Quando um bombeiro vê uma casa em chamas, ele dá o alarme, prepara seu equipamento, corajosamente resgata os ocupantes da casa e apaga o fogo. Quando um banqueiro de investimentos vê uma casa em chamas, ele tranquilamente vende a casa incendiada a descoberto, usa o dinheiro para comprar uma casa ainda maior para ele mesmo e, quando alguém sugere que ele deveria pagar mais impostos para ajudar as pessoas que perderam a casa queimada, ele começa a xingar e a reclamar dos perigos do socialismo".
Há mais raiva na comunidade blogueira de finanças nos EUA. Exemplo. Yves Smith, do "naked capitalism", um ótimo blog, quase surtava enquanto assistia a depoimentos do pessoal da AIG (superseguradora falida, estatizada, mais duas vezes falida e que agora está pagando milhões em bônus para os autores da obra de arte, seus executivos maiores). Pedia cadeia e banimento do mercado; acusou a Justiça de ser conivente com os interesses de Wall Street e o diabo. Nota: "naked capitalism" é um blog que nada tem contra a economia de mercado, pelo contrário. Dizia o seguinte em seu post ("Por que precisamos de investigações criminais"): "Quem foram as pessoas que levaram a AIG e outras companhias ao naufrágio? Como isso aconteceu? E o que fizeram deveria ser motivo de banimento permanente do mercado financeiro e da atividade bancária? Tenho dito várias vezes que o motivo de ninguém querer investigar tais pessoas e empresas é que isso provavelmente revelaria fraudes, inclusive nos altos escalões ... e a equipe de Obama não quer qualquer coisa que possa ameaçar a confiança no sistema financeiro. Mas tal atitude é completamente errada; o motivo pelo qual não há confiança é que o público em geral tem notado consideráveis evidências de má conduta. A confiança, pois, já se foi, e um processo organizado para chegar pelo menos nos piores casos de podridão seria salutar."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h41
O tempo real de Clodovil e o PIB A coluna de hoje na Folha é uma crônica desacorçoada, que teve como mote o grande interesse do leitorado pela morte do desafortunado deputado Clodovil Hernandes, a popularidade do "fait divers", a mais recente revoada de baratas no Senado, a inatividade parlamentar e o mutismo das últimas semanas do governo a respeito de medidas anticrise. Assinante lê a íntegra do texto aqui. Trechos: "Nos jornais on-line, as notícias mais lidas tratavam da morte do desafortunado deputado Clodovil Hernandes. Ontem, era o texto mais clicado até em sites como o do insuspeito "Valor Econômico", jornal de economia, negócios, finanças e política. O passamento de um outro parlamentar da República atrairia tanta atenção? Talvez se um senador se fosse dormindo ao lado de uma moça que calhasse de não ser sua mulher, contando vacas de seus rebanhos nas províncias, quiçá algo preocupado com as notas frias ou quentes demais que passou para justificar "verbas indenizatórias" ou rendas para o Imposto de Renda. A menção às notas, qualquer nota, e a outras indignidades parlamentares vem a calhar, pois há uma discreta, porém notável, revoada de baratas no Senado e na Câmara. Mas o desafortunado Clodovil chamava muito mais a atenção no noticiário em "tempo real": ele, uma ilha que sumiu no Rio (sic) e a ex-namorada do Jesus da Madonna, que chamava a cantora de "velha ridícula". Mundo real, das "gostosas do BBB", de sabor bastante para motivar argumentos de uma sentença proferida noutro dia por um juiz. Dos milhares que vão aos shows de padres e pastores ou aos do "Calcinha Preta", sucesso em estádios dos arredores de São Paulo, mais fenomenal que o Ronaldo. De pessoas que tratam Lula como padre Cícero em seus comícios no interior. Ou das que sonham com a lipoaspiração a laser, com o abdômen "tanquinho" e falam demais e alto demais em celulares. ... Sim, tão "velho ridículo" como a Madonna, o FMI vazou ontem nova estimativa de recessão global, que iria até 2011. E daí? Para não dizer que não falei de PIBs."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h51
O FMI adiantou nova rodada de estimativas para a economia mundial. O mundo, dizem, vai encolher 0,6% este ano. A previsão de janeiro era de alta de 0,5%. O pior do novo pacote astrolométrico é que a economia dos principais países do mundo não volta ao nível de 2008 antes do final de 2010. Por que o blog está acometido de "estimatite", se tanta previsão dá errado? Porque não temos muitas maneiras melhores de saber onde estamos pisando. No mínimo, serve para contrastar opiniões, criticar otimismos e pessimismos abilolados, tomar cautelas. Abaixo, um quadrinho resumo das estimativas:

Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h29
Apareceram uns 20 mil novos empregos formais no país, em fevereiro, disse o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, à "Agência Estado". Ou quase isso. Os dados não são oficiais. Trata-se de uma antecipação dos dados do Caged, o cadastro oficial de vagas abertas e fechadas, com carteira assinada. Os 20 mil são o saldo (a diferença entre contratações e demissões). O ministro acha que se trata de uma virada. Virou para onde? A crise bateu no mercado formal de trabalho em outubro de 2008. Desde então, o saldo de empregos é negativo: menos 716.114 empregos (incluída a estimativa do ministro para fevereiro). De outubro de 2007 a fevereiro de 2008, o saldo foi positivo: 358.284 empregos. Se de outubro de 2008 a fevereiro de 2009 a economia houvesse repetido o desempenho do mesmo período do ano passado, no que diz respeito a empregos, o "estoque" de empregos formais seria 1 milhão superior ao do final de fevereiro. Exatamente 1.074.398 empregos a mais.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h38
O Senado deu cabo de quase 40 anos de documentos históricos, deu no Painel, de Renata Lo Prete e cia., na Folha. Ou pelo menos o Senado acabou com arquivos que poderiam contar muita história. A papelada agora é história porque os capatazes do Senado deviam estar histéricos com a possibilidade de que os documentos fizessem estragos: eram notas fiscais, inquéritos, comprovantes de despesa etc, arquivos de 1965 a 2003. Tem havido sururu na casa grande do Senado, com a descoberta de várias mumunhas dos senadores e seus capatazes, como aquele dono da casona que não aparecia em nenhuma declaração de Imposto de Renda, o Agaciel, administrador do feudo de distribuição de cargos e outros dinheiros entre a parentela e a clientela de Sarneys, Calheiros, Efraim Moraes e outros. O Senado é uma casa grande, loteado entre a coronelada de modo que até jornalistas velhos de guerra ficam espantados com vergonheira. Morais é um pefelê, agora DEM, grande defensor do nepotismo. O DEM ajudou a ressuscitar Fernando Collor no Senado. Morais está envolvido na história da queima dos arquivos do Senado, de responsabilidade de um tal Luz, amigão do Agaciel, e também da da mulher do Agaciel, a senhora Sânzia. Mais detalhes da ciranda da cara de pau podem ser lidos na coluna Painel de hoje _assinante pode clicar aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h45
Começou mal, mas não acabou
A coluna de hoje na Folha trata das mais recentes estimativas para o PIB em 2009, algumas das quais preveem desastre: os economistas do Morgan Stanley avaliam que o PIB deve cair 4,5% este ano, provavelmente o pior resultado da história (de que há registros). "Provavelmente" porque cálculos retroativos do PIB (como os de quase toda primeira metade do século 20) são ainda mais imprecisos do que a conta "moderna" do PIB. Nos tempos recentes e mais críveis, quedas da magnitude estimada pelo Morgan Stanley só ocorreram em duas ocasiões (1981 e 1990, ambas de cerca de 4,3%). Assinante lê a coluna aqui. Uma estimativa é apenas isso, estimativa, quase um chute educado e calculado ("educated guess", digamos ironicamente). De resto, o tumulto é tamanho nas economias brasileira e mundial que as variáveis e o modo como elas se "relacionam" (os modelos) endoidaram. A dispersão das estimativas é brutal: o MS fala em queda de 4,5%, mas o Itaú estima queda de 1,5% do PIB, e a média do mercado deu 0,6% de alta nesta semana. Enfim, modelos são apenas aproximações mais ou menos passáveis da realidade. O problema é que não dá para ficar muito animado com as notícias sobre aqueles fatores da crise importada pelo Brasil. Ou os dados pioram, como o das exportações, quem caem em torno de 22%, ou apenas "despioram", como no caso do crédito, que agora deve chegar a uma apenas estagnação. O choque de confiança continua brutal, e o desemprego apenas começou a se espalhar (embora nada saibamos da velocidade desse espraiamento, que teve origem na indústria). Nada sabemos ainda sobre o tamanho da queda da arrecadação, é verdade. Os gastos com juros da dívida pública serão um pouco menores, embora o efeito do relativo alívio monetário ainda deva tardar, serão pequenos em 2009 e, no fim das contas, devem apenas fazer com que o aperto de crédito nos bancos seja menos asfixiante. Mas temos ainda mais de nove meses pela frente _dá para remediar, em tese. O principal problema das medidas anticrise é a lerdeza do governo federal em incrementar o investimento público. E o risco de, no desespero politizado, o governo gastar no que não deve: em mais despesa corrente. Trecho: "Enfim, é para ficar em pânico com tais previsões? Sim e não. Primeiro, as bússolas econômicas estão mais tortas do que de costume. A reviravolta do final de 2008 foi tão grande que os modelos, para nem falar de modos de pensar à vera, foram à breca. Segundo, as estimativas estão mais dispersas. Os economistas do Itaú estimam queda de 1,5% do PIB. Na média das previsões recolhidas pelo Banco Central, a previsão é ainda de alta de 0,6%. Com tal dispersão, pode ser que uma bússola dissesse que estamos indo para o Alasca, mas chegaríamos à Nova Zelândia. Colombo navegava de modo mais preciso. Terceiro, faltam mais de nove meses para o final do ano"Os economistas do Itaú estimam queda de 1,5% do PIB. Na média das previsões recolhidas pelo Banco Central, a previsão é ainda de alta de 0,6%. Com tal dispersão, pode ser que uma bússola dissesse que estamos indo para o Alasca, mas chegaríamos à Nova Zelândia. Colombo navegava de modo mais preciso."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 11h35
Turismo da crise: Argentina
Uma brevíssima introdução aos problemas argentinos foi o tema da coluna de domingo, na série "Turismo da crise". Após depressão, país cresceu 8,4% ao ano, com ajuda do boom global e do peso fraco, mas PIB deve cair em 2009. Entre os principais problemas argentinos estão a crônica incapacidade de criar e estabilizar uma moeda e o mau estado das instituições (para ficar no mais simples, é difícil acreditar nas estatísticas argentinas; no mais complexo, o sistema político entrou em colapso e não se recuperou; a instabilidade geral das normas políticas e econômicas torna o país mais imprevisível do que o tolerável _e não estamos tratando aqui de "confidence building", de ganhar a "confiança dos mercados". Estabilidade vai muito além disso _muitas vezes, nem se trata disso). Assinante lê a íntegra do texto aqui. Trechos: "De 1999 a 2002, a Argentina padeceu uma das maiores depressões econômicas dos últimos 80 anos. O PIB encolheu uns 20%. O desemprego foi a 22%. A economia só voltou ao mesmo nível de 1998 em meados de 2005. Quase sete anos de estagnação. Parte do crescimento se deu, pois, sobre terra arrasada. Parte da recuperação se deveu ao uso da capacidade produtiva deixada ociosa pela depressão, pelo peso fraco (que estimulou exportações) e pela alta das commodities (o grosso das exportações). Mas, quando o país zerou as perdas da depressão, em 2005, a inflação voltou. As exportações poderiam ter minguado não fosse o boom mundial: como os preços domésticos subiam, os produtos de exportação também encareciam, anulando parte da desvalorização nominal do peso. Mas as commodities baixam. Em termos nominais, o peso se desvalorizou menos em relação ao dólar que as moedas dos parceiros comerciais argentinos (e a inflação aumenta a valorização real: as exportações ficam menos competitivas). Por outro lado, talvez a inflação baixe o valor real dos salários, cortando custos. Há seca, conflito com agricultores (o governo queria taxá-los mais) e escassez de investimento. O país levará um tranco."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h04
A culpa dos economistas
Dani Rodrik, economista, professor de Harvard (Escola de Governo), escreve hoje no "Valor" de sexta-feira, 13, uma nota sobre a crise e o fracasso dos economistas. Rodrik sempre foi dessa linha (seu livro mais recente chama-se "Uma economia, várias políticas econômicas"). Dentro do "mainstream", é um dos mais críticos. Mas, mesmo assim, ainda fica dentro demais do "mainstream" _na verdade, é melhor dizer que ainda é economista demais quando pensa em problemas políticos e sociais (economistas têm enorme dificuldade de pensar em problemas políticos, dominação etc, apesar do blablablá da economia política, e são completamente avessos à idéia de que exista uma coisa como cultura, por exemplo _no sentido antropológico do termo). Mas, mesmo assim, é uma nota crítica. Assinante do "Valor" pode ler a íntegra do texto clicando aqui: "Culpe os economistas, não a economia". Trechos: "À medida em que o mundo ruma atabalhoadamente para a beira de um precipício, críticos do ofício da economia vêm levantando questionamentos sobre a sua cumplicidade na crise atual. E com razão: os economistas têm muito pelo que responder. Foram os economistas os que legitimaram e popularizaram a ideia de que um setor financeiro sem amarras representava um benefício para a sociedade. Eles falavam quase de maneira unânime quando se tratava dos "perigos da regulamentação excessiva do governo". Seu conhecimento técnico - ou o que se assemelhava a isso à época - lhes conferiu uma posição privilegiada de formadores de opinião, bem como acesso aos corredores do poder. A falta não reside no campo da economia, mas no campo dos economistas. O problema é que os economistas (e os que lhes dão ouvidos) ficaram excessivamente confiantes nos seus modelos preferidos do momento: os mercados são eficientes, a inovação financeira transfere risco aos melhor capacitados para arcá-lo, a auto-regulamentação funciona melhor e a intervenção do governo é ineficaz e prejudicial. A macroeconomia pode ser o único campo aplicado na disciplina de economia no qual mais treinamento aumenta a distância entre o especialista e o mundo real, devido à sua dependência de modelos altamente irreais, que sacrificam a relevância em favor do rigor técnico. Lamentavelmente, em vista das necessidades atuais, os macroeconomistas fizeram pouco progresso em planos de ação desde que John Maynard Keynes explicou como as economias podem ficar atoladas no desemprego devido à demanda agregada insuficiente. Alguns, como Brad DeLong e Paul Krugman, dirão que o campo já regrediu. "
Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h14
A economia deve encolher 1,5% em 2009, segundo a previsão de economistas do Itaú, divulgada agora de noite. É a mesma contração prevista pelos economistas do BNP Paribas, divulgada na quarta-feira. O pessoal do Santander ainda não revisou as suas estimativas. Ainda prevê alta de 1% para o PIB. O pessoal do Unibanco ainda registra estimativa de alta de 0,3%, mas já avisou que vai revisar sua previsão para baixo. Os economistas do Citi (equipe para América Latina) estimam contração de 0,8% do PIB. No comentário sobre o desempenho do comércio em janeiro, o pessoal do Unibanco observa que há uma disparidade na queda da produção industrial e a resistência das vendas no comércio, coisa que não pode perdurar: um dos dois lados têm de ceder. Ou a indústria se recupera, ou o comércio cai. O nível do desemprego, claro, diz o pessoal do banco, é que vai bater o martelo. O desemprego pior está na indústria. A indústria sofre ainda com a falta e encarecimento do crédito e com a brutal queda do comércio mundial. Logo, estamos bem dependentes do sucesso dos programas de socorro financeiro e de estímulo econômico em EUA, Europa, China e Japão. As reduções da Selic poderão representar algum alívio, mas miúdo, neste ano. Os economistas para a América Latina acreditam que o BC cortaria a Selic em 1 ponto percentual, em abril e junho. A taxa cairia então para 9,25%.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h31
O comércio melhorou um pouquinho no já longínquo mês de janeiro, anunciou hoje o IBGE. De dezembro para janeiro, cresceu 1,4%. Melhor do que nada: quanto mais o comércio resistir, mais rapidamente serão liquidados estoques, mais cedo a indústria recomeça a produzir. E encerramos aqui as boas notícias. O volume de vendas de janeiro ainda é inferior ao de setembro de 2008 _é preciso que o comércio cresça 1,11% em fevereiro para voltar ao nível de vendas de setembro. Não é uma façanha, mas ainda estaremos no vermelho. Para piorar, fevereiro com Carnaval não é um bom mês para o comércio, mesmo "dessazonalizando" (descontando as tipicidades negativas do período). A própria Confederação Nacional do Comércio acredita que o comércio deva crescer cerca de 2,5% este ano (ante 9,13% no ano passado). Em janeiro, porém, a indústria não se sentiu inclinada a retomar a produção. A ociosidade média das fábricas (medida pelo nível de utilização da capacidade instalada, NUCI, da Confederação Nacional da Indústria) chegou a 21,6%, um dos piores da série iniciada em 2003 (quando se registraram as outras cinco piores marcas da série, no ano recessivo do início do governo Lula). Em janeiro, pois, o comércio não estava fazendo mais encomendas à indústria e/ou ainda havia muito estoque e/ou as exportações andavam mal. Isso tudo não quer dizer que está excluída a hipótese de recuperação (embora seja difícil). O futuro da Deus pertence. Mas não vamos nos iludir com esses números de janeiro.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h13
Turismo da crise: México
Reformista, contas públicas em ordem, aberto, México cresceu pouco durante "boom" global e terá recessão neste ano. O México é o "primeiro destino" das colunas que devo escrever sobre a crise em outros países e foi o tema da coluna de hoje na Folha ("Turismo da crise: México"). Trechos: "Nos cinco anos de "boom mundial" (2003-07), o Brasil cresceu em média 4% ao ano. O México, 3,3%. O PIB mexicano cresceu 1,2% em 2008 (5,1% no Brasil). O banco central deles estima retração de 1,8% para 2009. Cerca de 85% das exportações vão para os EUA. As vendas para os americanos são 21% do PIB (na América Latina, fora o México, tal proporção é 5%). Cerca de 80% das exportações de veículos vão para os EUA. No início do ano, a exportação de veículos caiu 50% (contra o mesmo período de 2008). As de petróleo, 54% (dois terços da queda total de exportações). Cerca de 35% da receita de impostos vem do petróleo. O tombo da arrecadação será ruim, mas não equivalente ao do preço do petróleo, pois os mexicanos travaram o preço, fizeram "hedge". Eles também não têm déficit fiscal desde 2005. A inflação mexicana está em torno de 6%. Eles ainda temem que a desvalorização do peso esquente a chapa dos preços. O câmbio ficou em torno de 11 pesos por dólar durante quase todo este século, até meados de 2008. Mas agora anda em torno de 15. O tamanho relativo das reservas internacionais é bem inferior ao brasileiro, mas confortável. O déficit externo é semelhante ao brasileiro (1,8% do PIB). Mas deve crescer bem devido à baixa das exportações, à baixa do turismo e das remessas de trabalhadores mexicanos no exterior (2% do PIB)."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h59
Bernard Madoff, o homem da fraude de mais de US$ 60 bilhões de dólares, confessou-se culpado diante de um juiz federal americano, em Nova York. Sua liberdade sob fiança foi cancelada e ele saiu do tribunal algemado, para a cadeia, onde vai esperar sua sentença. Madoff, ex-presidente da Nasdaq, é um escroque, mas fisicamente é um homem inofensivo de 70 anos de idade. Caso não estivesse algemado, o risco maior era de que saísse correndo do tribunal e se atirasse sob um carro. Mas é difícil dizer que os Estados Unidos não sejam um Estado de direito. No Estado de direito brasileiro, financistas não vão para cadeia, assassinos confessos e provados, mas ricos, ficam "presos" em casa, e se acredita que os juízes de primeira instância não valem o papel em que escrevem suas sentenças, pois ninguém (com advogados carésimos) será condenado até que o tribunal mais alto confirme a sentença do primeiro juiz, talvez décadas depois do primeiro julgamento, que em geral também demora muito. Os ricos também não podem ser algemados (ninguém se importa com as detenções do povaréu, enfiado aos cachações dentro de camburões, "apresentados" pela polícia, com policiais segurando suas fuças para quem mostrem a cara para as fotos). No Brasil, Madoff, se por um acaso remoto fosse condenado, ficaria livre até a morte.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h53
Cerca de um quinto de 431 empresas entrevistadas pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) ainda pretendem demitir. O copo está quase cheio ou vazio? 43% das empresas já demitiram, segundo a pesquisa da CNI. Cerca de 80% dessas empresas acham que o primeiro trimestre de 2008 foi pior que o do trimestre passado. O presidente da CNI, Armando Monteiro Neto, acha que a economia talvez não encolha do último trimestre de 2008 para o primeiro deste ano. "A desaceleração continua e vamos ter um trimestre com queda do PIB em relação ao primeiro trimestre de 2008. Mas ainda não dá para saber se será negativo sobre o resultado do PIB do último trimestre do ano passado", disse Monteiro. É o que o governo está dizendo. Mas a indústria paulista não demitia tanto em fevereiro desde 1995, segundo dados da Fiesp. A indústria paulista cortou 236 mil empregos desde outubro _8,5% dos empregos. É um massacre.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h45
Os bancos não pegaram o dinheiro que o BC está emprestando para que empresas possam rolar suas dívidas no exterior. O BC emprestaria os dólares aos bancos, que os repassariam às empresas, que está com dificuldades de rolar, por falta pura e simples de dinheiro ou porque a rolagem está cara demais. Isso seria uma ajuda muito necessária para que o impacto da seca global de crédito continue a ter impactos no país. O BC ofereceu US$ 36 bilhões. Porém, pela segunda vez em um menos de um mês, as empresas não quiseram pegar o dinheiro. O BC diz que há interesse, mas as empresas ainda não se acertaram com a burocracia da transação. Mas isso está estranho. As empresas são tão enroladas assim? Mesmo nessa crise? Não deu para descobrir o problema.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h18
"Mais cheiro de queimado"
Seca de crédito mundial e colapso do comércio internacional são dois dos principais fatores da crise importada pelo Brasil. Tanto o comércio como o crédito dão sinais de que continuam a piorar. É o tema da coluna de hoje na Folha, que assinante lê na íntegra aqui. Trechos: "O valor das exportações chinesas caiu ainda mais em fevereiro: 25,7% (ante fevereiro de 2008). No primeiro bimestre, a baixa foi de 21,6%; no caso das importações, a queda foi de 34%. Há sinais de nova contração de crédito na praça mundial. Nos meses anteriores e imediatamente posteriores à quebra de grandes bancos americanos, a taxa que os bancos dizem cobrar uns dos outros na praça de Londres, a Libor, foi às alturas. Depois de janeiro de 2009, planou suavemente para baixo e, por um tempo, até esquecemos dela. Ontem, o economista e colunista desta Folha Paulo Rabello de Castro observava em sua coluna que a taxa Libor indicava um novo risco de "apagão" financeiro ("O próximo apagão financeiro"). Trata-se aqui da diferença ("spread") entre os juros interbancários (Libor) e, grosso modo, a taxa esperada para os "Fed funds", a taxa "básica" de juros americana (a "Selic" deles), o que na medonha língua financeira se chama "Libor-OIS ("overnight indexed swaps') spread". O aumento desse "spread" em tese é um indício de que cresceu a relutância dos bancos de emprestar uns aos outros e/ou escassez de capital nos bancos e/ou alta no risco percebido de calote."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h02
A carreira de Caco, o Sapo, foi objeto de polêmica entre leitores do blog. No post abaixo, disse que ele aparecia no "Vila Sésamo" ("Sesame Street"). Leitores dizem que Caco é do "Muppet Show". Mas Caco apareceu primeiro num programa de seu criador, Jim Henson (fui procurar, não sou especialista no assunto). Depois estreou no "Sesame Street". Com o sucesso, Caco ("Kermit, the Frog") foi "contratado pelo Muppet Show, programa dos anos 70. Vários colegas de Caco apareciam nos dois "shows". Uma leitora e colega, Mary, escreve para me corrigir (obrigado): Vila Sésamo voltou a passar na TV brasileira. Desde 2007, a TV Cultura passa o programa às 8h, 9h e 15h30, diariamente.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h38

Alguns personagens de Vila Sésamo Vila Sésamo não escapou da crise. Quem tem em torno de 40 anos, pelo menos, lembra do programa infantil e educativo, que passou na Globo entre 1972 e 1977 e é exibido há 40 anos nos Estados Unidos. "Sesame Street", nome em inglês do programa e da instituição que o produz, vai cortar 20% da sua força de trabalho. A Sesame faz o programa e licencia os brinquedos, mas não tem fins lucrativos. Foi um dos primeiros programas "politicamente corretos" da história da TV. A crise foi de Wall Street para Sesame Street, gracejava a mídia em inglês. O colunista não conseguiu apurar se Caco, o Sapo ("Kermit, the Frog", em inglês), Elmo, Garibaldo ("Big Bird"), Ênio ("Ernie") e Beto ("Bert") ou Gugu, o Rabugento ("Oscar, the Grunch") estão na lista dos demitidos. Sônia Braga, que era a "Ana Maria" da Vila, não foi encontrada pelo colunista para comentar o infortúnio de seus antigos colegas de trabalho. Segundo reportagem do "Financial Times", bancos de investimentos de Wall Street eram alguns dos principais doadores de fundos para a "Sesame Street".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h53
Estupor e recessão à vista
PIB deu notícias ruins novas; além de crédito raro, queda na indústria e na exportação, há consumidores em choque. O consumo das famílias caiu muito. O resultado do PIB é o tema da coluna de hoje na Folha, que assinante pode ler na íntegra aqui. Trecho: "Pessimismo não é coisa que se espera de autoridades que se dispõem a tratar do desempenho da economia em público. Mas parecer estuporado ou estupidificado é contraproducente até para o patrimônio político de quem propaga eufemismos e otimismos abilolados. A baixa antecipada do consumo das famílias completa um trio de calafrios. As concessões de novos empréstimos pelos bancos vinha caindo, as exportações continuam caindo ao ritmo chocante de mais de 20% (em relação a 2008) e, agora, os consumidores parecem ainda mais chocados do que o previsto (por medo do futuro, por desemprego, por falta de crédito etc.). E o crédito não deve melhorar com desemprego e inadimplência crescendo e o mundo ainda em transe. O juro para o consumidor ficará ainda nas alturas. O comércio mundial ainda definha. O mercado dava ontem de lambuja um corte de 1,25 ponto na Selic. Se o Banco Central cortar menos, estará pedindo para o mercado "maneirar". E estará pedindo encrenca." Erro: Escrevi na coluna de hoje: "Mas, pelo andar da carruagem, a indústria deve estagnar no trimestre (em relação ao trimestre final de 2009)." Na verdade, queria me referir ao trimestre final de 2008. Desculpem pelo erro.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h57
"O governo quer evitar uma recessão técnica." "O governo desmente que o país vá entrar em recessão técnica." Etc. "Recessão técnica", nos explicam entre parênteses, são dois trimestres de encolhimento da economia. Quem disse tal coisa? Não sei. Suponha que o PIB trimestral de Banânia crescesse 2% no primeiro e segundo trimestres de um ano qualquer. A seguir, encolhe 0,1% em relação ao anterior. No trimestre seguinte, acontece a mesma coisa. "Recessão técnica". Em Jabuticábia, o país cresce 3% no primeiro trimestre. Nos três trimestres seguintes, cresce 0,1%. Não teve "recessão técnica". O que é pior? Aliás, faz muita diferença? Como se diz nos livros didáticos de matemática, "a demonstração fica a cargo do leitor, como exercício". Recessão é, etimologicamente, voltar para trás (vem do latim). Um trimestre de encolhimento do PIB é recessão? É, pode ser. Mas pode ser que o encolhimento no trimestre seja apenas uma queda casual, acidental, do PIB _o período é muito curto para que se conclua qualquer coisa. E se o PIB cair dois trimestres? Fica mais crível. Mas por que apenas dois trimestres? Não seria melhor considerar três trimestres? Ou, já que a convenção dos registros históricos mede o PIB trimestralmente e agrega os dados de quatro trimestres (de janeiro a dezembro), por que não considerar apenas a medida acumulada em quatro trimestres (um ano)? E se o PIB jamais encolhe, mas cresce vários anos muito abaixo do seu "potencial" (serve qualquer definição de "potencial")? É recessão? Se a economia cresce abaixo do que pode, em tese está encolhendo em relação a uma expectativa razoável (ou abaixo de uma tendência já verificada no passado). É mesmo? E se o país vira um Japão, crescendo quase uma década abaixo do que se imaginava o "potencial"? Que potencialidade é essa que deixa de se realizar por uma década? Quando sabemos que o "potencial" de uma economia aumentou ou diminuiu? Por que os economistas do "comitê da recessão" nos EUA decidiram dizer que os EUA entrara em recessão antes mesmo que o PIB tivesse começado a encolher? Seja como for, recessão "técnica" não significa coisa alguma. É apenas um cavalo de batalha político. Enfim, o governo pode não acreditar em recessões, mas que elas existem, existem. Uma economia que deixa de empregar os recursos produtivos de que dispõe (capital, trabalho) está regredindo.
Desde setembro de 2008, começamos a deixar recursos produtivos ociosos. Tal coisa ocorria ainda em fevereiro. É muito provável que a situação continue assim por mais alguns meses, não sabemos quantos. Mas não se trata de um acidente, de um "ponto fora da curva", de um incidente facilmente reversível. A economia vinha crescendo em torno de 6% e pouco no ano anterior ao trimestre final de 2008, quando então cresceu 1,3% (sempre em relação ao mesmo trimestre do ano anterior). Talvez o alto crescimento passado fosse inviável. Digamos que pudesse ser de 5%. Ou talvez até de 4%. Agora fomos para a casa de 1%. Estamos voltando para trás, perdendo produção possível. "If it looks like a duck, quacks like a duck and walks like a duck, then it is probably a duck", costumam dizer os americanos ("se parece com um pato, se grasna feito um pato e anda feito um pato, então é um pato", na tradução sem aliterações). O PIB pareceu um pato, ponto.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h38
As Bolsas ficaram felizes hoje com um possível lucro do Citi, talvez uma galinha na trincheira. O Citi lucrou, mas excluídos quais rombos? Talvez as ações pareçam baratas demais, depois de um mês de tormenta. Por critérios históricos, parecem baratas. História, porém, é passado. Enquanto isso... A inflação chinesa caiu abaixo de zero pela primeira vez em seis anos. O índice de preços ao consumidor caiu 1,6% (fevereiro de 09 contra fevereiro de 08). Aparentemente, isso quer dizer: consumo baixo e capacidade ociosa alta. As exportações da superexportadora Alemanha caíram 20,7 (janeiro de 09 x janeiro 08) e 4,4% de dezembro para janeiro. A produção industrial da França caiu 13,8% (janeiro de 09 x janeiro de 08). O PIB japonês do quarto trimestre de 2008 (anualizado) deve ser revisto para baixo. A primeira medida registrou 12,7%. Pode ter sido 13,5%. As exportações japonesas caíram 45,7% em janeiro (ante janeiro de 2008).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 23h23
Ficou "difícil" crescer 4%. Nosso caro ministro Guido Mantega falava ontem, na proa do navio do PIB, que afunda rapidamente. O pessoal da TV ainda levava o troço a sério. mas considerem o que disse o ministro: 1) A economia está "desacelerada, mas em recuperação". Se a gente pensar em termos de cálculo rudimentar, poderíamos dizer até que a economia está em aceleração (se considerada a variação do quarto trimestre de 2008 para o primeiro de 2009). Para chegar a 5 km/h, depois de parado, um carro tem de acelerar. Mas talvez 5 km/h ainda seja uma previsão otimista para o primeiro trimestre do ano. Quanto à "recuperação", com alguma sorte ela ocorra lá pelo final do ano. 2) "Com esse resultado do quarto trimestre de 2008, ficou difícil atingirmos aquela meta de crescimento de 4% da qual eu [Mantega] vinha falando". Não ficou difícil. Ficou praticamente impossível. Mais provável agora é a economia crescer 0,4%. Um décimo do "vinha falando" o ministro. O país entrou em 2009 já "devendo" 1,5% do PIB. O PIB per capita deve cair bem em 2009; Como o PIB ainda deve cair ou zerar no primeiro trimestre, o país teria de voar no resto do ano para crescer até 2%. Se a economia crescer, trimestre contra trimestre, a partir de abril, o que cresceu na média dos anos bons do governo Lula (2004 até o terceiro trimestre de 2008), o PIB fecha 2009 crescendo pífios 0,5%. 3) "O governo continuará tomando as medidas necessárias de modo que a economia brasileira tenha o melhor desempenho possível". Aí fica mais fácil: "ter o melhor desempenho possível". O possível, agora, é muito pouco 4) "Vamos ter crescimento positivo em 2009... até acima de 1,5%" (como era estimado até ontem por economistas de banco e consultorias". Crescimento positivo, pode até ser: 0,1%, por exemplo, é positivo. Mas os mesmos astrolometristas de mercado agora estão pensando em crescimento entre -1% e 0,5%. Caminhando e chorando Para dizer que não falei de juros: ontem, o povo animado da BM&F (o seu "mercado") já dava de barato (e mais um brinde) um corte de 1,25 ponto percentual. Na verdade, o seu "mercado" avisou praticamente que um corte de 1,5 seria "tudo bem". Se o BC cortar menos, estará pedindo para o mercado maneirar e não baixar tanto suas apostas futuras de juros. Isto posto, a queda de juros não vai refrescar em quase nada o certamente horrível ano de 2009. O negócio agora é apenas não torrar dinheiro público (despesa com juros) com um serviço (baixar a inflação) que está sendo feito pela recessão e outro (contenção da oferta de crédito) que está sendo feito pelos "spreads" dos bancos.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h14
Vírus na veia
Efeito direto da crise global na indústria e no crédito foi mais intenso do que o previsto e reduz margem de ação oficial. É o tema da coluna de hoje na Folha, que assinante pode ler na íntegra aqui. A seca de crédito e a baixa abrupta do comércio tiveram impacto muito maior do que o previsto _economistas diziam que a economia brasileira, por ser relativamente fechada, não sentiria diretamente o impacto desses fatores. Pelo jeito, estavam errados. O corte de crédito externo para grandes empresas provocou uma contração multiplicada do crédito doméstico. As exportações são relativamente mais importantes para a indústria do que para o conjunto da economia, o que derrubou a produção industrial. A baixa na produção provocada pela escassez e carestia de crédito e pela queda das exportações causa, claro, desemprego, o que espalha a crise pelo resto da economia.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h51
"Indústria encalha no bazar global"
Baixa no comércio mundial contribuiu para provocar novo desastre na indústria brasileira, o pior em décadas. Foi o tema da coluna de domingo na Folha. O impacto da queda do comércio exterior para disseminar a crise no Brasil está sendo maior do que o imaginado até pouco tempo. Costuma-se dizer que o "Brasil é uma economia relativamente fechada" e, que, portanto, o "comércio exterior" não seria um canal direto de transmissão da crise. Porém, embora o razão/exportações PIB seja vaixa o Brasil, a proporção exportada da produção industrial é grande. A baixa no comércio mundial nos contaminou por meio dessa "ferida pequena": pequena em relação ao corpo, mas capaz de transmitir a crise por meio dos cortes de produção e de empregos em setores mais sofisticados da economia. Assinante lê a íntegra da coluna aqui. Trecho: "No primeiro bimestre deste ano, o valor total das exportações brasileiras caiu 22% em relação ao bimestre inicial de 2008. Mas o valor das exportações de produtos manufaturados, os bens industrializados, caiu mais: 30,5%. No caso de produtos básicos (ferro, petróleo, carnes, café, soja etc.), a queda ficou em 4,8%. As exportações mais importantes e mais prejudicadas da indústria foram as de aço, veículos, autopeças, aviões, máquinas e etanol. Não há paralelismo ou correspondência exatos, mas entre os setores industriais que mais padeceram em janeiro estão justamente os da indústria dita metal-mecânica (embora a indústria de material eletrônico e de telecomunicações tenha encolhido 46%; a química, 30%). Entre os menos afetados estão aqueles que podem se apoiar mais no mercado doméstico: bebidas, farmacêuticos, fumo, alimentos, têxteis, higiene e limpeza, por exemplo."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h38
Como confessei minhas preferências políticas no blog, os raros leitores mais frequentes já sabem que torço pelo Flamengo. Depois do fiasco na taça Guanabara (perdemos a semifinal para o potente Resende), estreamos sábado na Taça Rio com um aceitável 3x1 na Cabofriense, no sábado. "Aceitável" foi o resultado, digo. O jogo foi duro de ver. Quando eu era "teen", o Flamengo jogava com Zico, Junior, Adílio, Leandro e cia. Mas ainda lembro do Fio Maravilha, do Reyes e do Merica. Tive de abrir minhas preferências políticas devido aos inquéritos policiais-militares enviados pela gangue dos fanáticos do lulismo-petismo, que costuma escrever (ou algo assim) para dizer que este blogueiro é "tucano" (não sou adepto de partido algum, mas costumo votar em tucanos e petistas, quando tenho estômago de votar em alguém, o que é cada vez menos frequente), "da elite branca" (sou "pardo", como diz o IBGE, da cor indefinida da maioria dos brasileiros), "paulista" (sou carioca naturalizado paulistano, mas desde quando "paulista", ou "baiano" ou "capixaba", é insulto?), da "Opus Dei" (sou um católico ateu), "riquinho" (antes fosse) e outras manifestações de percuciência analítica, boa fé intelectual e cultura.
Para os leitores de outras praças: a Taça Guanabara é o primeiro turno do campeonato estadual do Rio de Janeiro. Quando eu era criança, o campeonato do Rio era só da cidade do Rio mesmo. Participavam apenas times cariocas: os cinco "grandes" (o América era então "grande") mais Bangu, São Cristóvão, Madureira, Campo Grande, Bonsucesso, Olaria e Portuguesa. Que fim levaram o Olaria e a rua Bariri? E o Bonsucesso, o Leão da Leopoldina? Para os muito jovens: a Guanabara foi um Estado do Brasil de 1960 (quando o Rio deixou de ser o Distrito Federal e a capital do Brasil) até 1975, quando a ditadura militar achou que o Estado elegeria políticos oposicionistas demais e o fundiu ao Estado do Rio de Janeiro, capital Niterói. Eu nasci no Estado da Guanabara. 
Bandeira do antigo Estado da Guanabara. 
Bandeira da cidade do Rio de Janeiro. As bandeiras cariocas têm no fundo uma cruz de santo André (que pediu a seus executores que não fosse crucificado numa cruz como a de Jesus, por se achar indigno de morrer como o Cristo), em parte coberto pelo brasão da cidade, quase o mesmo em séculos, com a esfera armilar e as flechas que mataram são Sebastião, padroeiro da cidade (e, acho, dos gays masculinos). Entendidos em heráldica, por favor ajudem e corrijam eventuais besteiras. Que me lembre, a bandeira de Fortaleza também tem uma cruz de santo André azul. Que história é essa de Flamengo, bandeiras, santos etc? "Tá doido"? Bem, eu pretendia escrever sobre mais uma rodada de comentários fanáticos do lulismo-petismo, mas fiquei enojado de pensar no assunto e desisti. Esse pessoal parece uma espécie de meganha inquisidora, ignorante, ressentida e mesquinha, feita de típicos candidatos a esbirros e dedo-duros de ditaduras. Não dá para conversar com tropas de choque, SAs e coisas do gênero. Preferi falar do Flamengo e do Rio. Bom final de semana.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 00h07
Há um surto de alheamento da realidade nos noticiários online brasileiros. Na maioria deles se diz que a "indústria cresceu" em janeiro, que a alta da produção industrial ficou "aquém" do previsto e outros sinais de desconexão com o mundo real. Segundo dados divulgados hoje pelo IBGE, a produção industrial "cresceu" 2,3% de dezembro para janeiro. Bem, apenas para começar: a produção industrial encolhera -12,7% de novembro para dezembro. Logo, ainda está sob a água. Como escrevi aqui outro dia, é o mesmo que dizer: "sorria, você não vai se afogar no fundo do mar, mas dois metros acima". Mas a indústria encolheu 17,2% em janeiro de 2009 (contra janeiro de 2008), FAVOR PRESTAR ATENÇÃO. É uma tragédia, um desastre. O crescimento acumulado nos doze meses até janeiro agora caiu a 1%. No mês que vem, a indústria estará em recessão, no vermelho anual. Imaginava-se, na média das estimativas, que a queda anual (janeiro contra janeiro) ficaria em torno de 11%. O modelinho usado por este colunista dava números ainda mais otimistas (achava que ia cair 10%). O Ipea, que vinha acertando, também estimava queda por aí. Modelos ficam "desorientados" em períodos de mudanças bruscas (se pautam, principalmente, pelo passado). Mas mesmo checando os resultados previstos com outros indicadores não utilizados como variáveis na previsão, a fim de verificar "perturbações" e novidades na economia, estava difícil de ver uma queda muito maior que isso. Mas a queda veio. Além de a situação estar braba, estamos mal informados sobre o que se passa no país, sobre o tamanho do estrago. O resultado de janeiro foi assustador. O setor de bens de capital encolheu 13,3% em relação a janeiro de 2008. Péssimo. Na média móvel trimestral, a produção industrial está negativa em 6,2%. Em suma, a produção industrial está no mesmo nível registrado entre abril e maio de 2004. Os juros futuros para abril (DI) fecharam em 11,71% ontem (isto é, o juro de referência para o final de março). O mercado já entregou um corte de mais de 1 ponto na Selic. Os contratos para janeiro de 2010 fecharam em 10,37%. Difícil segurar a Selic em dois dígitos no final do ano, afora uma catastrófica mudança no câmbio ou uma infelizmente muito improvável recuperação da economia antes do final do ano (último trimestre).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h55
Citi no McDonalds, piada chinesa, Lula...
Na coluna de hoje na Folha faço um resumo desencantado dos disparates e cascatas do mundo econômico nos últimos dias. Assinante pode ler a íntegra do texto aqui. Trechos: "A piada de ontem na blogosfera financeira americana dizia que o McDonald's vai colocar a ação do Citigroup em seu cardápio de US$ 1. A ação do banco chegou a cair ontem abaixo de US$ 1. Em 2006, chegou a US$ 57. Os papéis do Citi e até de bancos como o JPMorgan e o Wells Fargo foram para o ralo, aparentemente porque a notória Moody's relatou que também os bancões saudáveis terão mais perdas. A esperança é que, como a Moody's e suas irmãs classificadoras de risco não acertam uma, o sistema financeiro americano comece a melhorar agora. Sim, era só uma piada. Piada nacional? Foi Lula dizer ontem que os trabalhadores não podem ser "punidos" com desemprego "nesta crise". Os Ignorantinhos de são João de Deus devem ter orado pelo presidente. Se não houvesse desemprego, não haveria crise, certo? Crise significa desemprego. O que mais poderia ser chamado de crise? Talvez a eleição de Fernando Collor, cortesia de Renan Calheiros, para cuidar da comissão do Senado que trata de infraestrutura e do PAC, a menina-dos-olhos-novos de Dilma Rousseff e de Lula. Mas, não, está tudo bem. José Múcio, ministro de Lula, assegura-nos que Collor vai levar sua "experiência" à comissão. O escárnio desce de nível a cada dia, rolando com as Bolsas."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h58
O pulinho da galinha de ontem no mercado acabou rápido. Ontem o mercado ciscava para dentro (apud Fernando Collor, vide post abaixo), com a história muito mal contada do pacote chinês. Hoje, depois de feita uma graninha, o pessoal voltou a ciscar para fora. Vai haver ainda muito mais problema com banco, por incrível que pareça. De passagem, observe-se que o valor do Itaú Unibanco é agora maior que o de Citi e Bank of America somados. Continuando a enumeração caótica do noticiário: o sábio Bank of America (BofA) cortou a recomendação de compra das ações da Vale, aquela mesma que vinha subindo supostamente por "melhorias no mercado mundial de commodities". O BofA diz que a demanda de ferro está caindo. As ações do Citi chegara a cair ontem abaixo de US$ 1. As ações de bancos americanos foram à breca ontem, de novo, em geral. Até as do JP Morgan. O nível de inadimplência de hipotecas nos EUA foi ao maior nível desde 1972, no trimestre final do ano passado. A notória Moody's soltou relatórios que apodreceram as ações do JP e do Wells Fargo, os bancões mais saudáveis até aqui. O Banco da Inglaterra (BoE, o BC deles) baixou os juros a quase zero (0,5%). Não tem mais como fazer política monetária "convencional" e, literalmente, começou a fazer dinheiro a fim de comprar títulos no mercado a fim de baixar os juros (o que se chama "quantitative easing", "relaxamento quantitativo"). Isto é, comprando títulos ("gilts", apelido dos títulos do Tesouro deles, de médio e longo prazos), provoca o aumento do valor desses papéis, baixando assim as taxas de juros). Enfim, estão despejando dinheiro no mercado, coisa que os EUA vinham fazendo e apenas o Japão da década perdida havia feito, entre economias ditas "sérias", nos últimos 30 anos. O probleminha, geral no mundo, é que os bancos ficam sentados sobre a grana extra. Se o despejo de dinheiro, via compra de títulos públicos no mercado, não funcionar, o BoE terá de comprar papel de alto risco. A coisa continua feia.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 19h12
José Múcio, ministro das Relações Institucionais de Lula, disse que Fernando Collor (PTB, de vasta experiência mensaleira) é "experiente". Collor vai levar sua experiência para presidir a comissão do Senado que cuida da infraestrutura, onde está o dinheiro grosso. Collor tem longa experiência com dinheiro. Collor assumiu a comissão porque José Sarney (PMDB) devia favores de sua vitoriosa campanha à Presidência do Senado, na qual derrotou Tião Viana, do PT. Campanha tocada com toda a experiência de Renan Calheiros (PMDB). Calheiros deve sua permanência no Senado, entre outras experiências, ao apoio do PT e de Ideli Salvatti, senadora do PT que perdeu a boca da infraestrutura para Collor na votação de ontem no Senado. Collor chamava o governo Sarney de ladrão. Lula dizia o mesmo dos governos Sarney e Collor. Lula dizia que o governo FHC lhe deixara uma "herança maldita", mas no entanto adotou o básico da política econômica de FHC. Lula não reclama de outra herança deixada por FHC, como a reabilitação política de Renan Calheiros. Calheiros foi ministro da Justiça de FHC. Para usar a expressão que Collor empregou em seu elogio à senadora Salvatti, todo esse pessoal "cisca para dentro". Segundo Collor, "ciscar para dentro" não significa algo como "costurar para fora". No Nordeste, explicou o experiente senador, "ciscar para dentro" significaria "agregar".
Mas deve haver um erro de espécie nessa discussão toda. Isso tudo parece caso de urubu malandro ("urubu malandro/ tá nervoso e quer dançar/ agarradinho nas cadeiras de iaiá", como dizia um samba de avenida do Rio, ou, na versão clássica de 1918, gravada por Baiano: "Urubu municipá/ Larga o osso por favô/ Vê se come os intendente/ Da mão do bispo, sinhô/ Come, come urubu/ Eu não, sinhô").
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h33
O caso das demissões da Embraer se arrasta em demagogia, inconsequência e começa a se tornar um péssimo precedente. A Justiça enrola o caso. Lula, depois de recuar na demagogia, voltou a dizer que o trabalhador não pode ser "punido" com demissões devidas à crise mundial (agora, aliás, também brasileira). "Não me peçam para fazer o trabalhador pagar por essa crise", disse Lula. Mas o que Lula entende por "crise"? Em última análise (e a mais importante) crise significa desemprego, ponto. Se não houvesse desemprego, não haveria crise alguma. Não faz lé com cré o que diz Lula. Como escrevi em outro post ("Populismo, Lula e Embraer na Justiça"), é muito difícil saber se uma empresa exagera ou não quando corta salários e empregos (ou deixa de aumentar salários e o número de empregos, em tempos melhores). Como as empresas têm mais poder, a balança pende para o lado dos proprietários. Mas daí a aceitar uma intervenção do Estado, caso a caso, na administração de cada empresa vai uma longa distância. Enfim: 1) Por que apenas a Embraer? Decerto suas demissões são uma massacre, uma razia que vai afetar e muito a avançada economia da região de São José dos Campos e do Estado de São Paulo, o centro industrial e financeiro do país. Nem é preciso lembrar o desastre humano que as milhares de demissões representam. Mas empresas de espécie e tamanho variados estão demitindo. Várias delas até lamentando-se por fazê-lo (não por "humanidade", embora esse possa ser até o caso). Mas empresas que demitem lançam fora também investimentos em treinamento e a cultura acumulada de trabalhadores. Estão deitando fora um ativo. Não são "coitadinhas". É apenas um fato. Em suma, por que não há encrenca com essas outras milhares de empresas? Por demagogia, política midiática etc; 2) A intervenção caso a caso do Estado, além de inviável, não vai resolver o problema da distribuição do produto do trabalho, dos lucros, enfim, dos ganhos de produtividade. Não se trata aqui da defesa de "sagrados" (por quem?) direitos de propriedade (que faz séculos são relativos: normas, "regulação", e impostos são exemplos óbvios da restrição ao direito de propriedade, e é bom que o sejam). Mas o que vai fazer o Estado (por meio do Executivo ou da Justiça)? Administrar as empresas? Todas as milhares de empresas do Brasil? 3) Já que estamos falando de política, por que os sindicatos estão tão desorganizados, divididos e tão pouco ativos nesta crise? Porque ficaram pelegos, com cargos e interesses imbricados aos do governo? 4) Suponha-se que, no limite, empresas como a Embraer sejam proibidas de demitir. Suponha-se também que a Embraer esteja fazendo o que é preciso para a sua sobrevivência saudável. Então, sem demitir, a empresa começa a ficar sem caixa, tal como as montadoras americanas. Como é que vai ser? "Deixa quebrar"? Ou "o governo não pode deixar uma empresa como a Embraer quebrar"? Subsidiar empresa quebrada é uma solução melhor? 5) É irrelevante que a Embraer receba auxílio indireto de fundos públicos, como os financiamentos do BNDES para seus clientes. Ou bem se acha que o BNDES é necessário, dadas as restrições do mercado financeiro brasileiro ou do financiamento para empresas brasileiras, ou deixa-se a empresa se virar sozinha. Ou estatiza-se a empresa (o que não me parece uma boa solução) ou deixa-se que ela se administre. Colocar restrições em regra à atividade de cada empresa vai criar apenas ineficiências e, dado os presentes costumes da maior parte do Estado brasileiro, mais favores e corrupção; 6) Ideias como vincular empréstimos do BNDES à criação ou à manutenção de empregos é outra tolice. Suponha-se que uma empresa pegue dinheiro do BNDES para melhorar sua tecnologia e produtividade. A empresa investe, melhora, torna-se mais produtiva, ganha mercado, mas não cria nenhum emprego. Ou seja, cumpriu a cláusula de "manutenção do emprego" _deixando de criar empregos. O que deveria ter feito? Ficar sem o empréstimo do BNDES, ficar menos eficiente, perder mercado e fechar? Não faz o menor sentido. Com essa mentalidade, ainda estaríamos no tempo em que o algodão e a lã eram fiados em rocas, a tecelagem era caseira e as roupas eram costuradas também em casa. Isto é, antes da Revolução Industrial. 7) O caso Embraer, embora grotesco, é mais um exemplo da falta de rumo, de ideias e princípios da esquerda. A esquerda não discute nada de sério: a) A esquerda não discute tributação, a multidão de subsídios esquisitos e ineficientes distribuídos a este ou aquele setor; b) Não discute a melhoria da tributação, que deveria incidir sobre a renda dos mais ricos, e não sobre empregos e sobre produtos consumidos pela maioria pobre; c) Não discute uma reforma progressista da lei do trabalho, que, no entanto, vai sendo desmontada aos poucos com a anuência das próprias centrais sindicais (lei, aliás, que cobre apenas metade dos trabalhadores, pois o "resto" não tem direito algum, pois são "informais"); d) Não discute o caótico, fantasista e perdulário Orçamento federal, pulverizado em milhares de ações e "programas" perdidos e pulverizados, travado por vinculações ineficientes e outras aberrações; e) Não discute o horroroso sistema de saúde pública, no qual as pessoas esperam meses por uma consulta urgente; f) Não discute os milhares de homicídios e outras violências, que na larguíssima maioria dos casos inferniza ou acaba com a vida dos mais pobres. Seria possível ocupar o alfabeto inteiro e mais um pouco. Como adendo e de passagem, observe-se que Karl Marx, no "18 Brumário" detonava o cretino Luís Napoleão por criar o caos na gestão da economia capitalista, entre outros motivos. Napoleão, aliás, também tinha "azia" quando lia a imprensa e tinha um monte de amigos que fazia negociatas com o dinheiro público. Como Chávez, fez um plebiscito para ratificar o continuísmo (na verdade, o golpe de Estado que acabou por motivar o livro de Marx). Mas chega de sarcasmo histórico, embora o livro de Marx ainda hoje suscite alguma tentação de paralelismo quando pensamos no presidencialismo bonapartista brasileiro); ENFIM: ONDE ESTÁ A ESQUERDA? Brincando de maluquices importadas dos Estados Unidos (cotas) e, no caso mais comum, procurando um empreguinho no Estado, ou uma verbazinha para sua ONG e coisas assim. Nem mais política com "p" maiúsculo faz, vide a apatia e peleguismo sindicais (para não dizer coisa pior), o atrelamento dos movimentos sociais restantes ao Estado, a ausência de projetos de reforma etc etc.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h05
Vale, Petrobras e galinha na trincheira "Galinha na trincheira é uma metáfora velha dos tempos em que soldados da Primeira Guerra esperavam a morte quase certa por tiros, gás e bombas com os pés presos na lama dos fossos em que se entocavam, famintos e friorentos. Se aparecia um frango na trincheira, roubado ou extraviado de uma fazendola, o ânimo subia por alguns momentos de ilusão. Ontem foi dia de galinha na trincheira dos mercados. Dia de frango xadrez, a esperança de que um pacote chinês de estímulo econômico possa atenuar a recessão." Essa era a abertura da coluna de hoje na Folha, que assinante pode ler na íntegra aqui. A galinha foi devorada rapidamente, o pacote chinês foi sem nunca ter sido e hoje tem gente "realizando" os ganhos de ontem, "business as usual". "[Ontem] também foi um dia de "caçadores de pechinchas". Os preços das ações estão no menor nível em uma dúzia de anos, e os múltiplos (razão entre preços de ações e lucros) estão historicamente baixos também. Foi dia de xepa", continuava a coluna. O que ainda sobra desse comentário, ainda mais perecível do que habitual (comentários sobre Bolsas), é o fato de que Vale e Petrobras continuam, neste ano, bem mais valorizadas que a média do mercado, mesmo com os tombos de hoje. Ao que parece, enquanto não houver um pingo de "normalidade" (isto é, quando as expectativas não mudarem de modo tão violento como agora), as duas estrelas da Bovespa vão aumentar o diminuir sua valorização em relação ao índice de acordo com as entradas e saídas do investidor estrangeiro. Tanto nas entradas como nas saídas do país, o investidor prefere as duas ações, as mais líquidas. Se as commodities vão cair ou não no mercado mundial torna-se, nesse caso e neste momento, um fator mais ou menos secundário. "Neste momento" quer dizer: pelo menos até o terceiro trimestre, quando, se espera (agora) que se tenha uma visão mais clara da duração da recessão. "Disclosure": este colunista tem ações da Petrobras, compradas faz quase uma década. Não tem ações da Vale nem investe em fundos de ações. Guarda a maior parte de seu dinheiro em títulos do Tesouro brasileiro de médio e longo prazos, comprados por meio do Tesouro Direto. Os comentários sobre mercados nem remotamente pretendem ser ou devem ser tomados como recomendações de investimento. Também não refletem escolhas pessoais do colunista a respeito do que fazer com o dinheiro.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h34
IPI e Vale
Na coluna de hoje na Folha conto que o desconto do IPI para carros vai continuar outro trimestre e noto que Vale e Petrobras têm desempenho melhor que o Ibovespa este ano. No caso da Vale, ontem, as ações da empresa pareceram se valorizar devido a recomendações de compra de bancos e a rumores de que a demanda de ferro na China não vai cair tanto (embora a situação da siderurgia no mundo inteiro seja desastrosa). Assinante lê a íntegra do texto aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h41
O notório Renan Calheiros, PMDB, está fazendo a limpa na Comissão de Infraestrutura do Senado, trocando senadores para facilitar a eleição do notório Fernando Collor para a presidência da comissão, a qual disputa com a não tão notória Ideli Salvatti, do PT. O PT está fulo, pois Calheiros está rapando o PMDB ainda mais governista. Calheiros, entre outras glórias do seu currículo collorido, foi a eminência pardinha da eleição do notório José Sarney, PMDB, para presidir o Senado. É o contubérnio do demo. Sarney, entre outras glórias curriculares (como manter a maior parte do povo do Maranhão na idade da pedra), tem a chave do cofre de nomeações do Senado, entre elas a desse Agaciel, diretor do Senado, que tinha aquela casona que não tinha, pois não a declarava à Receita, deixando o imóvel no nome do irmão, que também não a declarava. Miudezas, sim. Coisas, pois, típicas dessa gente. Calheiros também colocou Jarbas Vasconcellos, PMDB, para fora da Comissão de Constituição e Justiça. Vasconcellos, porém, diz que não vai dar nomes aos bois (de Calheiros?). Não vai dizer que são os corruptos de seu partido, a maioria, segundo ele disse à revista "Veja". Está difícil de entender o senador. Segundo relato de Gabriela Guerreiro, da Folha Online, Vasconcellos reafirmou o que disse à "Veja", em discurso no Senado, mas disse que seria "‘mesquinho’ se acrescentasse novos ‘detalhes e adjetivos’ às suas denúncias", que não é "paladino da ética", mas que tem "nojo e ojeriza à passividade e à omissão". Segundo relato da colega Gabriela, "o senador citou a disputa em torno do comando do fundo Real Grandeza, de Furnas, como uma ‘prova clara, transparente e inequívoca’ do que explicitou na entrevista [à "Veja"] _sem mencionar que o PMDB pressionou a estatal para indicar afilhados políticos para os cargos. ‘Não preciso citar nomes porque eles vêm à tona quase que diariamente’, disse." Na verdade, parte do PMDB do Rio e o ministro Lobão, do PMDB, é que estavam promovendo o sítio do fundo de pensão. O ministro de Relações Institucionais, José Múcio, quer derrubar a CPI dos fundos de pensão. Esta CPI mala preta está sendo proposta pelo pessoal animado do PMDB, que queria tomar o Real Grandeza. Mala preta, pois essa de CPI, proposta como foi, é uma espécie de ameaça de chantagem contra o governo, que vai ver vários esqueletos do mensalão saírem do armário se a coisa for feita a sério. Seria o abraço do afogado. Mas, se sair CPI, o governo vai dar um jeito de melar a coisa. De outro modo, seria sujeira no ventilador voando até o início, na prática, da campanha eleitoral, no final do ano.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h10
A venda de carros da GM americana caiu 53% em fevereiro (contra fevereiro de 2008). As da Ford, 48%. Toyota, 40%. A GM europeia diz que vai ficar sem dinheiro em breve. Sim, sem dinheiro: o caixa vai acabar. A Ford americana diz que vai reduzir a produção de carros no segundo trimestre em 38% (contra o mesmo período do ano passado). Mas o desastre não é tão grande assim para as montadoras menores (nos EUA) . A Volks também vendeu menos, mas “apenas” 17% menos. A Mercedes vendeu 21% menos.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h34
“Boas notícias, hoje”, diz animado o comentarista econômico de rádio. Fala da indústria paulista, mas em rede nacional. “Cres-ceu seeeeeis por cento em janeiro!”. Diz em seguida, como em nota ao pé de página, que a indústria paulista piorou muito, porém, quase 16% em relação a janeiro de 2008 (trata-se do índice de atividade da indústria paulista, medido pela Fiesp, o INA). A indústria “cres-ceu” apenas em relação ao desastroso dezembro (que foi ainda pior do que se imaginava _a Fiesp revisou os seus dados ). De resto, as vendas reais caíram, as horas trabalhadas também. Alardear que a indústria “cres-ceu” é mais ou menos como dizer a alguém que se afoga: “anime-se, você não vai morrer no fundo do mar, mas dois metros acima!”. Logo depois, vem a comentarista, para quem Barack Obama está mesmo promovendo mudanças pois, “pela primeira vez, desde Reagan”, um presidente não repete o orçamento do antecessor. Claro. A política de impostos e os saldos fiscais de Reagan, Bush pai e Clinton foram a cara de um, focinho de outro. São dois daqueles comentaristas para quem o Brasil apenas “resiste” à crise por causa dos feitos do governo de FHC, mas sempre “corre o risco” de desastre por causa do governo Lula, tal como aquela revista que é o farol da inteligência da brilhante classe média brasileira. “Oh, quanto riso, oh, quanta besteira, mais de mil lará lará lará lá...”
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h59
A febre terçã da finança e o Brasil
A coluna de hoje na Folha contém dois breves comentários _um sobre a tremedeira de ontem no mercado, outro sobre novos indicadores de "despiora" no Brasil (em relação a dezembro), mas ainda assim números que indicam crescimento zero ou quase isso no primeiro trimestre. Assinante lê a coluna na íntegra aqui. Trecho: "No total, as vendas de veículos estão 10% menores que em fevereiro de 2008. Vendem-se menos caminhões (20% menos), ônibus e motos, por exemplo. A economia brasileira despiora um tico. "Despiora", sim. Tem de ser na base do neologismo, pois apenas nos recuperamos do infarto geral de dezembro. A carga de energia subiu um pouquinho, 0,7%, sobre fevereiro de 2008, mas foi um crescimento tão fraco como o do já terrível novembro do ano passado. Saiu ontem ainda o balanço do comércio exterior do primeiro bimestre. O valor das exportações ficou 21% menor que no mesmo período do ano passado. A julgar pelo comportamento dos anos anteriores da balança e algumas estimativas de comércio mundial, deve ser o tamanho da queda das exportações para o ano inteiro. Porém e enfim, apesar de estarmos despiorando, vamos por ora na batida do crescimento quase zero."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h16
Para quem gosta de comparações didáticas no jornalismo, esta é boa (menos pelo didatismo e mais pelo sarcasmo suave): a AIG, a seguradora monstro quebrada e estatizada pelos EUA, perdeu US$ 465.421 por minuto no trimestre final de 2008. A comparação foi feita por Floyd Norris, veterano colunista de finanças do "New York Times", hoje em seu blog. A empresa teve prejuízo de cerca de US$ 61,7 bilhões no quarto trimestre do ano passado. A cada seis segundos, a AIG perdia dinheiro bastante para pagar uma anuidade em Harvard, continua Norris. "Por quanto tempo isso vai continuar? Um dia o governo vai parar de colocar dinheiro nesse buraco negro?", pergunta Norris, que detona o CEO da empresa, que desconversava sobre a lambança da seguradora enquanto falava na entrevista com analistas, quando apresentou o balanço. "Quando o mundo pega pneumonia, nós também pegamos", disse Edward Liddy. "Ele não conta que a irresponsabilidade financeira da AIG foi uma das grandes causas da epidemia", contesta Norris. Ladrões de bancos Em outro post, "Crime e Bolhas", Norris observa: "Willie Sutton, diz-se, explicou que roubava bancos porque era lá que o dinheiro estava (Sutton, 1901-80, foi um famoso ladrão de bancos, os quais assaltava mascarado, carregando uma metralhadora). Crime de colarinho branco é a mesma coisa. Onde existem bolhas, existem escroques".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h14
Bofetada no Buffett: A Berkshire Hathaway, empresa de investimentos e participações acionárias do triliardário A empresa presidida por Warren Buffett anunciou hoje que perdeu dinheiro pelo quinto trimestre consecutivo. Buffett é um dos investidores mais espertos e sensatos do planeta. Até trimestre final do ano passado estava até animado, comprando ações na xepa, como sempre costumou fazer. Well, dessa vez a baixa foi abaixo da baixa que ele pretendia aproveitar. Buffett também dançou e agora diz que a economia está em “pedaços”. AI, G: A AIG, que foi um dia a maior seguradora do mundo, quebrou de novo _quebrou mesmo estatizada pelo governo dos EUA (que encampou a seguradora em setembro de 2008). Na verdade, a AIG não vai à lona de fato, pois vai cair no colchão do contribuinte americano. Mas anunciou ontem um prejuízo de US$ 61,7 bilhões e vai levar mais US$ 30 bilhões do governo americano. CDS, desce, despenca, quebra etc: A AIG é candidata ao Oscar de atriz principal do desastre financeiro (candidata, pois este filme ainda não acabou). Era uma megadôntica negociante de CDS (“credit default swaps”, um derivativo que serve como seguro contra calotes em instrumentos financeiros, mas que é um negócio totalmente desregulamentado, sem regras, sem câmaras de compensação, sem nada). Xepa no HSBC: o bancão inglês está desesperado para arrumar dinheiro e não ser estatizado, como seus compatriotas. Vai vender um monte de ações a preço de banana, como abobrinha em baciada, na xepa. Quer levantar o equivalente a US$ 17 bilhões. Resumo da ópera: algumas das maiores instituições financeiras do mundo continuam “quebrando” (com o governo tapando vazamentos) ou em vias de quebrar. Em vez de eventos catastróficos, como a quebra explícita do Lehman, porém, estamos vendo hemorragias incontroláveis, compensadas apenas com transfusões insustentáveis de sangue. Dow, desce: O Dow Jones está agora, 14h28, em 6.847 pontos, menor nível desde 1997, pouco depois de Alan Greenspan dizer que os mercados financeiros viviam a “exuberância irracional”, três anos antes do estouro da bolha pontocom, das empresas de internet e correlatas. Torcida: mais cedo havia gente dizendo nas TVs e rádios daqui e do mundo que houve “surpresas favoráveis” em indicadores de hoje, como o ISM, o índice que agrega os indicadores do comportamento futuro da indústria (como encomendas, por exemplo) nos EUA. O índice “subiu” de 35,6 para 35,8. Menos que 50 representa contração industrial. Outros diziam que a renda nos EUA subiu. Sim, o governo reajustou salários do funcionalismo e as aposentadorias. As cheerleaders do mercado jamais se cansam.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 14h30
O xarope Obama e o xarope dos juros
O governo Obama empurra com a barriga o problema do Citi e de outros bancos. É o tema da coluna de sábado ("em edição extraordinária"): o Carnaval acabou, o emprego também, vieram as Cinzas, a Igreja lançou sua campanha: só falta a malhação dos juros, coluna que o assinante pode ler na íntegra aqui. No domingo, listo alguns argumentos e dados de atividade econômica, os quais fundamentariam uma redução de pelo menos um ponto percentual na reunião de março. O texto pode ser lido aqui. Trechos de sábado: A indústria deve ter crescido uns 10% em janeiro. Ótimo? Trata-se de 10% em relação a dezembro de 2008. Qualquer coisa, além da morte, é melhor que dezembro de 2008, um evento "cisne negro", como se diz hoje em dia, raro até para a histérica volatilidade brasileira. Logo, tanto faz. Sobre janeiro de 2008, a produção da indústria deve ter encolhido horríveis 10%. O número do IBGE sai na sexta-feira, dia 6. A previsão do Ipea, que nos últimos meses tem acertado mais que o mercado, é de queda de 10,5% em relação a janeiro de 2008 e "avanço" de 10,2% sobre o tétrico dezembro. Sobre o cenário internacional nem é preciso dizer muito: os resultados são piores do que os da crise dos anos 1980, e vão piorando. As quedas das exportações nas grandes economias vão de 20% a 30%. A AEB (associação dos exportadores brasileiros) estima que as vendas do país devem cair quase 18% neste ano, mas já soam otimistas. Vai sobrar capacidade produtiva. E, por ora, o consumo de energia elétrica está no menor patamar desde julho de 2007, informou na sexta-feira a Empresa de Pesquisa Energética." Trechos de domingo: "Caso o governo americano compre todas as ações ordinárias do Citigroup que se propôs a adquirir, a parte do Tio Sam no capital do bancão será maior que a participação do governo brasileiro no capital social da Petrobras. Estatizou? Pode-se fazer um malabarismo contábil e diferenciar capital do tipo "x" do tipo "y" e, enfim, quase ninguém nos EUA quer que o governo seja dono de empresas ou bancos. Mas, senhoras e senhores, o governo americano estatizou o Citi. Isso não resolve o caso das centenas de bilhões em ativos (investimentos) podres do Citi. Se alguém está com tuberculose, pode tomar um remédio para febre para se sentir melhor e ir ao médico. Mas o bacilo da tuberculose continua infectando. O Citi continua com tuberculose. Obama lhe deu um xarope. Pode aumentar a confiança de que o banco não vai quebrar de fato? Pode ser, mas alguém acreditava que o governo iria deixar o banco quebrar? O comentário geral na mídia e na blogosfera especializada nos EUA é que estão apenas empurrando o problema com a barriga."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 13h46
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PERFIL
Vinicius Torres Freire é colunista da Folha, onde está desde 1991. Foi Secretário de Redação do jornal, editor de Dinheiro, editor de Opinião, correspondente em Paris, editor de Ciência e editor de Educação
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