Moedas fracas, países fortes: EUA e China
Faz meses o banco central dos EUA, o Fed, mantém a conversa de que a taxa básica de juros permanecerá baixa por um "longo período" ("extended period"). Mais uma vez, hoje, Ben Bernanke, fez extensa palestra para dizer a mesma coisa, dizendo ainda que há fábricas ociosas e desemprego demais nos EUA para que se pense em aumentar juros. Logo, a cada vez que Bernanke renova sua falação sobre o "extended period", mais distante tende a ficar a elevação da meta dos "fed funds", dos juros básicos dos EUA. O divertido, porém, é que Bernanke agora se associou à lenga-lenga do "dólar forte", arenga rediviva a cada vez que o dólar fica fraco (desvalorizado) por um "extended period". Normalmente, a conversa sobre o dólar forte é de responsabilidade dos secretários do Tesouro (os ministros da Fazenda deles); a falação tem sido irrelevante pelo menos desde meados dos anos 1980. Mas a coisa não deve vai melhorar com o reforço de Bernanke. "Tudo mais constante", o dólar tende a ficar fraco durante o período em que os juros estiverem baixos, a quase zero, como agora. Isto é, enquanto o Fed continuar a despejar dinheiro na economia a fim de refinanciar financiamentos de casas, subsidiar bancos, enquanto os EUA precisarem exportar mais a fim de compensar a anemia econômica interna etc etc. Quanto a nós, os juros baixos nos EUA por um "extended period" e a decorrente fraqueza do dólar devem fazer com que a tendência do real, no curto prazo, seja ainda de valorização (ou de permanência nessa patamar "forte" de agora). Quanto ao resto do mundo, juros baixos nos EUA significam que ainda haverá enormes fundos, a custo zero, para financiar a compra de ativos no resto do planeta, nos emergentes em particular. Isto é, fundos para alimentar bolhas. Ou o risco delas. De resto, os chineses também vão deixar sua moeda rastejar enquanto o dólar estiver perto do rés do chão. Quer dizer, o yuan vai cair com o dólar, ou ficar baixo como o dólar, barateando também exportações chinesas e evitando uma queda ainda maior do comércio chinês. Logo, vai haver mais manufaturas chinesas batendo às nossas portas _ou melhor, portos. O G2 "rules". EUA e China cuidam do seus quintais, como de hábito, como no ambiente, como na ONU etc etc.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h31
"O Brasil decola", na "Economist"
A capa da "Economist" desta semana é "O Brasil decola - 14 páginas especiais sobre a maior história de sucesso da América Latina" (vide reprodução abaixo). São nove textos sobre economia e finanças brasileiras, extremamente simpáticos e positivos. O conjunto da obra é bastante convencional na abordagem e nos assuntos, mais ou menos o chavão liberal sobre problemas brasileiros, ao nível de "Brasil para principiantes", com largos elogios à estabilidade política e econômica, capacidade empreendedora, grandes recursos naturais etc etc.
Mas, para variar, os erros factuais são poucos e pouco significativos _ a maioria deles poderia ter sido resolvida com uma consulta a um manual escolar de história. O contraponto "Estado obstáculo" versus crescimento domina o texto, mas o trabalho pelo menos é feito de maneira bem completa e, no fim das contas, trata de problemas tão radicados aqui como as palmeiras: burocracia, impostos, Justiça ruim, crime, devastação ambiental etc etc. As novas do país são as sabidas: pré-sal, múltis brasileiras de recursos naturais, "nova classe média" etc etc.
Para brasileiros leitores de jornal, ao menos, o texto é em geral bastante tedioso, pois não há para nós novidade alguma, nem mesmo algum sabor de "livro de viagem" escrito por estrangeiro. Porém, apesar da constatação dos horrores de sempre, trata-se de publicidade certamente positiva para o país. Que está por demais na moda. Como já foi o caso da Argentina. Ou do México. Toc, toc, toc.
A capa é um Cristo Redentor decolando como um foguete. De resto, o parágrafo inicial do texto de abertura da revista consegue mencionar biquinis minúsculos, futebol e carnaval. Talvez, com a moda de tratar do Brasil, eles se cansem do lugar comum.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h21
IOF, dólar a R$ 1,69
O dólar deu uma passeada hoje pela casa do R$ 1,69. A Bovespa voltou a delirar. No momento, belisca os 66 mil pontos. E o IOF, hein? Todo mundo previu isso e aquilo. Mas, cmo diria Chacrinha, redivivo nestes dias, "roda, roda, roda e anima, um minuto pro comercial...". Ou "o programa só acaba, quando termina".
Como se diz mentira sobre dinheiro.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h42
Nobel: EUA sem gás
O Nobel de economia de 2006, Edmund Phelps, disse em entrevista à TV Bloomberg que a recuperação americana vai ficar "sem combustível" e que o novo padrão econômico americano será de baixo crescimento no longo prazo e de desemprego maior do o da década passada.
Mais Phelps:
A economia americana está "grogue, mas está ficando de pé".
“Já estamos vendo uma recuperaçãoo forte, mas acho que vamos ficar sem gasolina".
“Enquanto o PIB cresce, o emprego vai ficar para trás".
“Nenhuma dessas escolas [keynesianos ou neoclássicos] percebe as mudanças estruturais às quais a economia é suscetível... Há sinais de que a economia perdeu seu dinamismo, sua urgência de inovas, sua capacidade de inovar"
Escrito por Vinicius Torres Freire às 13h04
A atração fatal de Mantega, "Ghost" e a bolha
O ministro Guido Mantega, com sua expressividade peculiar, disse hoje em Londres que "queremos [eles, no governo] impedir o excesso de atração fatal em relação ao Brasil". Estava falando do câmbio, da "sobreapreciação" ou supervalorização do real, de bolhas etc. Mas acabou inventando um outro excesso mortal, ou melhor, sobrenatural. Como atração fatal é um apego que degenera em impulso assassino, um excesso de atração fatal deve ser um caso semelhante ao de "Ghost", um amor do outro mundo, como naquele filme brega, mas de sinal trocado. Ou o que seria seria uma morte excessiva? Mantega disse também que os mercados no Brasil vivem uma fase de "uma exuberância, mas que não é uma exuberância irracional, é racional. Justamente por não querermos que essa exuberância se torne irracional é que tomamos algumas medidas" (por enquanto, que se saiba e salvo engano, uma só: o IOF sobre investimentos em carteira de origem externa).
O ministro, porém, escreve certo com sua caligrafia sofrível, digamos. Se a euforia financeira é uma bolha ou vai inflar bolhas, não se sabe, mas não se fala de outra coisa, de Hong Kong aos EUA, da Noruega ao Brasil. Timidamente, ainda, governos tomam medidas (ou ameaçam tomá-las) a fim de evitar inflação do preço de ativos financeiros, de imóveis etc etc.
O que fazer para evitar bolhas, quando mal se sabe o que elas são ou quando aparecem (e até se existem) é o problema. Muita gente (economistas) diz que é os BCs devem começar a levar em conta o preços dos ativos financeiros a fim de calibrar a política monetária (juros). Mas é insuportável imaginar que excessos financeiras possam regular a mesma taxa de juros que poderá deprimir o emprego e salários. Ainda se trata de debate, mas a hipótese está na mesa.
Voltando ao ambiente mais modesto do Brasil, já suficientemente complicado, o fato é que há um dilúvio de dólares e, na melhor das hipóteses (crescimento aqui e tranquilidade mundial), tal dilúvio vai continuar. A taxação de investimentos em carteira (IOF) foi uma barragem de sacos de areia contra a enxurrada, um esparadrapo de curto prazo. Medidas de fôlego, "reformas" ou mudanças que incrementem a produtividade, demoram para fazer efeito (e nem estão na pauta). Mesmo o aumento da poupança do governo (a volta e o aumento do superavit), mesmo se fosse um objetivo e se fosse tocado a partir de agora, não faria efeito até 2011, por aí. Logo, precisaríamos de mais esparadrapos (que não provocassem distorção excessiva ou encarecimento do crédito e do capital para empresas).
Mas qual?
Em colunas na Folha, tratei do tema recentemente, as quais podem ser lidas pelo assinante aqui: "Quem é bom de bolha?" (de 27 de outubro) e "A bolha e a balbúrdia no governo" (25 de outubro).
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h26
Indústria ainda ociosa
A ociosidade média das fábricas não era tão alta desde 2005 e, na ponta, mês a mês, ainda aumentou em setembro, segundo dados divulgados hoje pela Confederação Nacional da Indústria). Trata-se da medida do Nível de Utilização da Capacidade Instalada, indicador muito útil, embora não deva ser tomado ao pé da letra, ou ao pé das casas decimais (vide gráfico abaixo do NUCI dessazonalizado). Está na casa de 79%-80%. Estava em 83% no pico de produção, antes da crise. E não há quase nenhum setor industrial "apertado". E há outros com ociosidade perigosa, caso da indústria da madeira, de material eletrônico e de comunicações (Zona Franca e interior de SP) e de metalurgia básica. A indústria continua a se recuperar, a passo lento. Levando em conta as medidas do IBGE e as projeções de (de)crescimento da indústria para este ano, o nível da produção industrial só deve se equiparar ao registrado em 2008 apenas no começo de 2011. Segundo a CNI, o número de horas trabalhadas na indústria de janeiro a setembro de 2009 é 9,1% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. Ainda uma tragédia.
Mas a "folga" na indústria de transformação é grande. Em geral, trata-se de um indício de que levará um tempo até que venham pressões inflacionárias, embora a falta de mão de obra, ou de mão de obra qualificada, também possa pressionar a inflação. De resto, o investimento ainda reage devagar (isto é, a depender do ritmo da economia, sem novas unidades de produção a "folga" da indústria pode acabar de movo surpreendentemente rápido).
Isto posto, feitas as ressalvas, o resumo da ópera é que há folga mesmo na indústria, as "expectativas de mercado" são de inflação na meta (e as expectativas para o IPCA continuam caindo, embora lentamente).
A nascente histeria com a inflação, coisa que se via faz mês e meio, era isso mesmo: histeria.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h24

