Vinicius Torres Freire

A política da economia

 

Empréstimo "de graça" no BNDES

A taxa de juros que o BNDES "cobra" em seus empréstimos para empresas grandonas vai ficar negativa, em termos reais, agora no segundo trimestre do ano. A taxa vai ficar em 6%, decidiu o CMN. A expectativa de inflação para os próximos 12 meses já está em 6%, e deve subir nos próximos meses, pelo menos até a metade do ano.

Ou seja, na prática, em parte dos empréstimos, os maiores, o BNDES não vai cobrar nada pelo serviço.

A TJLP

O Conselho Monetário Nacional (CMN) manteve em 6% ao ano a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) que vai valer entre 1º de abril a 30 de junho de 2011. A decisão foi tomada em reunião extraordinária do CMN, realizada hoje para que a medida pudesse valer já no início de abril.

A TJLP está em 6% ao ano desde o terceiro trimestre de 2009, no menor nível desde que foi criada, em 1994.

A TJLP serve de base para as taxas de juros cobradas em empréstimos do BNDES em financiamentos de longo prazo para grandes empresas.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h20

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Tá frio ou tá quente: há menos crédito novo

O ritmo de concessão de crédito caiu ou não depois das medidas de dezembro do Banco Central?

Caiu. As medidas "macroprudenciais" do BC parecem estar funcionando, até agora. E devem funcionar mais, dado o novo imposto sobre empréstimos tomados no exterior, que vai reduzir a quantidade de dinheiro disponível para o crédito aqui dentro.

Mas houve alguma controvérsia, digamos, na análise dos dados sobre crédito no país, divulgados ontem pelo Banco Central.

Medidas macroprudenciais: o que é isto?

As ‘medidas macroprudenciais‘ são decisões administrativas do BC que afetam a quantidade de dinheiro disponível para crédito nos bancos e, assim, a taxa de juros para o tomador final. Por meio delas, obriga-se a banca a deixar mais dinheiro parado no BC a deixar de reserva mais dinheiro para cada empréstimo concedido, a elevar tais exigências se o financiamento é de longo prazo (o que acaba por encurtar os prazos dos crediários) etc.

A princípio, tais medidas têm como objetivo evitar que o sistema financeiro se exceda, empreste demais a quem não tem como pagar.

Calotes em massa avariam bancos, e bancos avariados são um problema para a economia inteira. Mas tais medidas têm como efeito colateral óbvio a redução da oferta de crédito, do consumo e da inflação.

Os economistas mais ou menos ortodoxos dizem que medidas ‘macroprudenciais‘ colaboram no controle da inflação, mas têm defeitos: 1) afetam pouco as decisões de poupança e de investimento; 2) sua intensidade e o tempo de seu efeito são incertos ou ainda desconhecidos; 3) criam distorções e ineficiências no mercado de crédito.

A controvérsia sobre o crédito

Por exemplo, o aumento da quantidade de crédito em relação ao PIB, 46,3% em janeiro para 46,5% em fevereiro, provocou certa confusão. Este indicador, estoque de crédito, é a soma de todos os empréstimos concedidos e ainda por vencer. Não é um bom número para verificar como anda a concessão de novos créditos.

Além do mais, houve quem se apegasse demais ao número de fevereiro, que aparentemente indicava retomada na concessão de crédito. "Aparentemente", pois o número bruto e analisado isoladamente não permite que se notem o quanto as variações desse único mês se devem a fatores típicos de um período, mas que as distorcem, os ditos fatores sazonais.

Por fim, não é possível avaliar os dados, mesmo uma tendência de curtíssimo prazo, observando os dados de apenas um mês. É preciso considerar pelo menos um trimestre. E, assim fazendo, dá para ver que estava certo o técnico do BC que apresentou os dados de ontem sobre crédito, Túlio Maciel, chefe-adjunto do Departamento Econômico do Banco Central: "As medidas macroprudenciais tiveram êxito para conter as modalidades de crédito que estavam com crescimento mais acelerado [como automóveis e o consignado]... Estamos vendo uma acomodação no ritmo do crédito".

Os dados

Um modo mais preciso de considerar os dados de ontem do BC podem ser vistos no relatório que o departamento de pesquisa econômica do Itaú soltou ontem, assinado pelo economista Adriano Lopes:

Trechos:

* "A efetividade das medidas adotadas fica evidente na manutenção de taxas de juros mais elevadas e interrupção da expansão do prazo médio das operações. Por sua vez, a manutenção do aperto nas condições de crédito se refletiu em um ritmo praticamente estável das novas concessões em termos reais dessazonalizados tanto a pessoa física quanto a pessoa jurídica em fevereiro com relação a janeiro";

"Em termos reais dessazonalizados, a média diária das novas concessões de crédito pessoa física ficou estável em fevereiro na comparação com janeiro. Desta forma, as concessões de crédito permaneceram 9% abaixo do patamar exibido em novembro de 2010, mês imediatamente anterior ao advento das medidas macroprudenciais de crédito."

"Em compensação, a concessão das modalidades de crédito mais afetadas pelas medidas subiu em fevereiro com relação a janeiro: a concessão de veículos cresceu 13,7% no mês enquanto que, na mesma base de comparação, a concessão de crédito pessoal aumentou em 5,0%. Mesmo com esta elevação na margem, o ritmo de concessão de veículos e crédito pessoal é, respectivamente, em termos dessazonalizados, 18% e 9% menor que os níveis de novembro do ano passado.

"A média diária das novas concessões pessoa jurídica (em termos reais dessazonalizados) caiu 1,0% de janeiro para fevereiro. Com esse resultado, a média móvel trimestral do ritmo de concessões pessoa jurídica passou de -0.8% em janeiro para -1,3% em fevereiro"

 

Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h06

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Brasil: tá frio ou tá quente?

A economia brasileira começou a esfriar? Um pouco, parece. Quão pouco, é cedo para saber _quão pouco no que interessa à política monetária, no que diz respeito à inflação etc, entenda-se.

Os salários passaram a crescer menos, na média, embora a massa salarial continue a crescer bem e a taxa de desemprego, comparada anualmente, continue a baixar (segundo a pesquisa do IBGE).

As vendas no comércio dão sinais ainda indefinidos. Se excluídas as vendas de veículos, motos e autopelas, as vendas do varejo (pesquisa IBGE) deram uma acelerada de dezembro para janeiro, crescendo 1,2%. No total, com carros e motos etc, caíram 0,2%. Mas em janeiro houve um baque nas vendas de veículos devido às mudas nas taxas e prazos de financiamento, por sua vez derivadas das mudanças "macroprudenciais" no crédito, baixadas pelo Banco Central. Em fevereiro, porém, houve recuperação nesse mercado.

No entanto, em 12 meses o crescimento das vendas do comércio ainda é de 12,3% (conceito "ampliado", que inclui carros etc. Sem carros etc, 10,7%).

E o crédito?

Hoje, a Febraban disse em seu "Informativo Semanal de Economia Bancária" que sim, a concessão de crédito deu uma esfriada em fevereiro, em especial no caso das concessões à pessoa física, em especial na comparação com o resultado de janeiro de 2010. O motivo, outra vez, foi o impacto das "medidas macroprudenciais" do BC; em parte menor, a alta da Selic deve ter ajudado a afastar tomadores de crédito.

Ainda assim, fevereiro vai parecer melhor do que janeiro. O "Informativo" da Febraban procura antecipar o balanço mensal sobre o crédito, que será divulgado amanhã pelo BC. O pessoal da Febraban acredita que a quantidade de crédito em relação ao PIB "...deve voltar a subir e atingir o patamar recorde de 46,8%".

Qual o resumo da ópera do "Informativo" da Febraban? "Tudo considerado, os números não parecem indicar retração, mas um impacto pontual forte e uma desaceleração em 12 meses, mas diante de uma base elevada de 2010. Dessa forma, fica a dúvida se [a desaceleração] é suficiente para cumprir os objetivos do BC e não podemos descartar a adoção de novas medidas".

Escrito por Vinicius Torres Freire às 20h25

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Embolada de Japão com Arábia

A gente, em especial nós, jornalistas, presta atenção demais nos mercados financeiros. É preciso, ok. O dinheiro grosso, finanças em particular, faz o mundo girar, derrapar e capotar, de vez em quando. Mas a gente deveria ser capaz de também ignorar alguns paniquitos e as justificativas furadas que os "mercados" e seus porta-vozes dão para esses ataques momentâneos de loucura.

Considerem o caso do "choque do petróleo", devido ao tumulto nos países árabes, e do "risco de nova crise mundial", devido aos horrores no Japão.

Trata-se de dois casos sérios, sem dúvida, de preocupar de fato quem observa a economia, quem toca negócios e mesmo quem apenas pode sofrer os efeitos mais distantes desses problemas, da alta do preço de combustíveis até o emprego, passando por aplicações financeiras.

Mas o que sobrou do ataque de pânico inicial?

O preço do petróleo subiu. Subiu um pouco mais rápido que já vinha subindo desde o trimestre final do ano passado, alta devida ao reaquecimento da economia mundial e, em parte menor, ao efeito especulativo, ao fato de haver muito capital barato e baixo custo (juro quase zero) sobrando no mundo rico. Capital sobrando valoriza preço de ações, moedas de países emergentes e o preço de commodities (combustíveis, minérios, metais, comida).

O caso da revolta árabe

Mas note-se que se falava de "choque do petróleo". É um risco. É. Se a Arábia Saudita entrar em tumulto, a coisa fica feia. Mas nada se sabia da dimensão da alta de preços e sua duração. Havia incerteza (isto é, situação em que não dá para calcular os efeitos da crise). Incerteza é problema em qualquer mercado. Mas os cálculos do risco eram disparatados, e o dos efeitos da alta do petróleo também. Enfim, o assunto ia morrendo, assim como parecia morrer o impulso inicial das revoltas democráticas no mundo árabe.

O preço do petróleo ainda vai subir, de forma a avariar o crescimento mundial rapidamente? Quanto, em quanto tempo? Continua a pergunta. Apostas são feitas e desmanchadas a cada minuto. Crise na Líbia volta a esquentar? Petróleo sobe. Mas o Japão não vai baixar seu consumo nos próximos meses. Petróleo cai. Ou, para ser mais preciso, são montadas e desmontadas operações financeiras com base nessas apostas de preço futuro.

O caso do Japão

Da confusão do dia 14 de março nos mercados financeiros pode-se dizer não muito mais que se tratou apenas de uma confusão infernal.

A Bolsa japonesa caiu quase 18% em dois dias _até aí, paniquito quase normal de mercado financeiro em relação a um ativo de risco.

Uma crise séria no Japão poderia causar recessão mundial? Ou mesmo recessão no Japão. Naqueles dias, havia estimativas de queda de 6% a queda nenhuma do PIB do Japão. Ou seja, qualquer coisa poderia acontecer.

O Japão é mais ou menos 5%, 6% da economia mundial. Tem crescido pouco ou nada, faz duas décadas. Que efeito teria na economia mundial, em termos apenas quantitativos? Pouco, de novo. Poderia haver interrupção da "cadeia de suprimentos de insumos industriais de ponta"? Parece, dizem os entendidos. Mas o assunto morreu em dois, três dias.

O preço das commodities despencou. Aí o caldo entorna. Se o efeito da crise japonesa sobre o crescimento mundial seria muito pequeno, mesmo na pior das hipóteses, como então poderia haver queda tão significativa no consumo de commodities? Não poderia haver, ainda mais no caso de comida _os japoneses dificilmente deixariam de comer tanto assim. Metais e minérios? Pode ser, num primeiro momento. Mas o Japão teria de reconstruir o que foi arrasado pelo terremoto. Ou seja, pelo tamanho do movimento do mercado de commodities, deu para ver o quanto há de posição puramente especulativa.

O iene se valorizou brutalmente. Isto é, o dinheiro grosso passou a comprar muito iene. Por qual motivo? Por que, diz a tese ou a lenda, haveria repatriação em massa de investimento japonês. Seriam vendidos ativos em outras moedas, seriam comprados ienes, pois companhias de seguro teriam de dispor de fundos, pois bancos teriam de ter mais caixa, pois empresas recuperariam dinheiros a fim de fazer caixa também etc etc. E, pensando nisso, muita gente aproveitou a possível tendência de alta do iene para ganhar algum, se antecipando à compra.

Especulou-se que haveria uma balançada grande nos preços relativos das moedas mais negociadas no mundo, o real inclusive. Mas o Banco do Japão, o Banco Central deles, com apoio dos países do G7, jogaram um dinheiro na praça e esfriaram a especulação.

Resumo da ópera?

Não há. As crises no Oriente Médio, Norte da África e no Japão são sérias e ainda de desenvolvimento muito incerto. Mas se dá atenção demais ao momento sensacional. São esquecidos os problemas de base da economia mundial ou desenvolvimentos mais tediosos e incompreensíveis, talvez até mais importantes.

As taxas de juros estão para subir no mundo rico. A União Europeia deve elevar os juros ainda em abril. O programa de despejo de dinheiro na economia americana, por parte do Fed (o BC deles) deve acabar em junho (esse despejo de dinheiro influencia toda a economia mundial, de Bolsas a commodities, passando pelo real, ressalte-se). O que vai acontecer com as moedas do mundo? Com a taxa de juros dos EUA?

Com alta de juros, como vão se virar os governos quase quebrados de países como Grécia, Portugal, Irlanda (note-se que a crise nesses países conteve retomada da economia do mundo rico em meados do ano passado).

O mundo anda mais devagar do que o noticiário, em especial do noticiário em tempo real. E é mais confuso. E incompreensível. E complicado demais.

Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h43

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PERFIL

Vinicius Torres Vinicius Torres Freire é colunista do caderno Mercado. Está na Folha desde 1991. Foi Secretário de Redação, editor de Dinheiro, Opinião, Ciência, Educação e correspondente em Paris.

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