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Artigos & Idéias Notáveis
Capitalismo de compadres nos EUA
Tanto os americanos denunciaram o "capitalismo de compadres" ("crony capitalism") nos países de Terceiro Mundo e no Leste Asiático. Agora, eles mesmos estão mergulhados no compadrio de Estado e grande finança, com o objetivo de salvar um sistema financeiro podre e incompetente, como ficou claro no resultado e na divulgação dos "testes de estresse" ao qual foram submetidos os 19 maiores bancos americanos (os testes eram espécies de auditorias com o objetivo de verificar a capacidade dos bancos de resistir a mais baixas na economia; foram realizadas pelos reguladores financeiros americanos, liderados pelo Fed, a pedido da secretaria do Tesouro). Este, em suma, o argumento de Sin-ming Shaw, em artigo publicado hoje no jornal "Valor". Sin-Ming é presidente fundador de um fundo de hedge e de um de "private equity". O financista argumenta que os "testes de estresse" foram quase pura fraude e lembra, como se sabe, que até o "...'Wall Street Journal', geralmente o mais estridente chefe de torcida dos mercados financeiros, desacreditou abertamente a integridade dos testes". Sin-Ming diz que o governo Obama sabia que os bancos estão podres, mas não poderia dizê-lo, tanto para evitar uma corrida bancária como, como consequência, evitar a estatização dos bancos. "Nacionalizar bancos teria exigido rejeitar os caciques de Wall Street por terem administrado as suas firmas de modo tão incompetente", escreve Sin-Ming. Mas o governo Obama preferiu protegê-los. "Eles [os banqueiros] conseguiram se retratar como vítimas de um incêndio incontrolável em vez de cúmplices de um incêndio premeditado". O financista acusa Tim Geithner (secretário do Tesouro) e Larry Summers (principal conselheiro econômico de Obama) de "compartilharem a cultura de Wall Street como protegidos de Robert Rubin", ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton, da cúpula do Citigroup. "Nenhum destes homens viu qualquer dificuldade em aceitar a lógica absurda dos banqueiros". É pau puro e correto o artigo de Sin-Ming.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h29
Desemprego nos EUA passa o da Europa
"Por muitos anos, o desemprego nos Estados Unidos era mais baixo do que na Europa Ocidental, um fato frequentemente citado por quem argumentava que a flexibilidade do sistema americano (no qual é mais fácil tanto demitir como contratar do que em muitos países europeus) produzia mais empregos. Este não é mais o caso. O desemprego nos Estados Unidos subiu para níveis médios europeus, e parece provável que vai ultrapassá-los quando forem divulgados os dados internacionais para abril". [Nota do Blogueiro: na verdade, já últrapassou]. A observação, aliás muito boa, é do principal colunista de finanças do "New York Times", Floyd Norris, publicada na edição de hoje do jornal (para ler na íntegra, em inglês, clicar aqui). A evolução do desemprego na Europa dos 15 (os quinze países da primeira configuração do bloco) e nos Estados Unidos é mostrada no gráfico abaixo. As metodologias de cálculo do desemprego são diferentes, mas os dados do gráfico são os da série harmonizada pelo Eurostat (instituto europeu de estatística), na variação trimestral.

Hipóteses levantadas por Norris para explicar a história: "Primeiro, parece que as redes de proteção em muitos países da Europa Ocidental permitira que as pessoas mantivessem seus empregos durante a crise. Na Alemanha, programas do governo auxiliam empresas a pagar seus trabalhadores, por exemplo, mantendo-os empregados... Outro fator pode ter sido o fato de que muitos países europeus não viveram um ‘boom’ econômico recentemente, o que os deixou menos vulneráveis a cortes provocados pela recessão." Norris observa também que a dispersão das taxas de desemprego na Europa dos 15 são enormes: de 2,8% na Holanda a 17,4% na Espanha.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 15h56
Sachs: como um banco pode roubar os EUA "O plano Geithner-Summers é ainda pior do que se imaginava", diz o economista Jeffrey Sachs a respeito do plano de compra subsidiada de papéis podres lançado pelos economistas de Barack Obama. Diz que o pacote pode transferir centenas de bilhões de dólares do contribuinte para os bancos. O texto está no Huffington Post e pode ser lido clicando aqui. Sachs chuta abaixo da cintura. A primeira hipótese do economista é que os bancos vão simplesmente roubar o dinheiro oferecido pelo governo. Uma das pernas do plano permite que um fundo "público-privado" compre dívidas podres dos bancos: o governo empresta até 85% para financiar a compra e entra com 7,5% da aquisição. A parte "privada" da parceria entra com 7,5%. Sachs diz que o braço de um banco pode vender os papéis para um outro ramo da holding financeira: pode vender para si mesmo, e a preços superfaturados. Digamos que absolutamente superfaturados, no caso de papéis que não valem nada. O braço da holding que comprou os papéis, financiado pelo governo, daria calote e não pagaria nada. O braço da holding que vendeu os papéis ficaria com 92,5% do valor da venda de papéis que não valiam nada. No final das contas, a holding ficaria com dinheiro vivo, 92,5% do valor nominal do papel que, no mercado, não valeria nada. O Tesouro americano perderia um monte. Em tese, pelo que foi revelado do pacote, é possível que tal coisa aconteça. Mas não é possível que o pessoal do Obama seja tão idiota ou tão picareta a ponto de permitir uma coisa dessas.
Paul Krugman levou a sério a hipótese de Sachs, em seu blog. "Não está claro se existe um mecanismo para policiar tais negócios. E a sensação de que o governo [Obama] está muito próximo de Wall Street continua a crescer", diz o economista Nobel e colunista do "New York Times". Mas Sachs levanta outras hipóteses mais razoáveis de rolo, que muita gente já viu. Um banco não precisa comprar papéis podres de si mesmo. Pode combinar com outro banco e fazer uma operação casada (ainda assim muito evidente) _seria como dois senadores brasileiros combinarem de um contratar a mulher do outro a fim de evitar acusações de nepotismo. Sachs diz que o sistema de liquidar bancos e dividi-los em "banco ruim" e "banco bom", como mais ou menos foi feito no Proer brasileiro, seria uma boa solução.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h50
Nova ordem mundial de mentiras Muito bom o artigo de Marcos Nobre, hoje na Folha. O professor de filosofia na Unicamp, pesquisador do Cebrap e colunista da Folha fez uma avaliação cética no ponto sobre cúpulas e "nova ordem mundial". Assinante lê a íntegra do texto aqui. Trechos: "Espetáculos midiáticos como a reunião de clube do G20 servem para dar a impressão de que há algum tipo de controle sobre a situação. Indicam só muito vagamente o sentido das negociações globais por novas formas de regulação. Não apenas porque os países presentes à reunião estão tão perdidos quanto qualquer pessoa que teme por seu emprego. Também porque os mecanismos de negociação internacional disponíveis não estão à altura da crise. O FMI só não desapareceu porque é grande demais para ser extinto. A OMC é hoje um tribunal de pequenas causas do comércio mundial. E a ONU tornou-se um gigantesco apêndice disfuncional de seu Conselho de Segurança. De seu lado, o presidente Obama insiste em ser um "cara legal". Mas em nenhum momento pretende abrir mão de que o dólar seja a moeda de referência internacional. Não pretende de modo nenhum enfraquecer a hegemonia norte-americana." "Disclosure": Marcos Nobre é amigo de longa data deste blogueiro. Mas obviamente não é por isso que o artigo dele desta semana na Folha está aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h48
A culpa dos economistas
Dani Rodrik, economista, professor de Harvard (Escola de Governo), escreve hoje no "Valor" de sexta-feira, 13, uma nota sobre a crise e o fracasso dos economistas. Rodrik sempre foi dessa linha (seu livro mais recente chama-se "Uma economia, várias políticas econômicas"). Dentro do "mainstream", é um dos mais críticos. Mas, mesmo assim, ainda fica dentro demais do "mainstream" _na verdade, é melhor dizer que ainda é economista demais quando pensa em problemas políticos e sociais (economistas têm enorme dificuldade de pensar em problemas políticos, dominação etc, apesar do blablablá da economia política, e são completamente avessos à idéia de que exista uma coisa como cultura, por exemplo _no sentido antropológico do termo). Mas, mesmo assim, é uma nota crítica. Assinante do "Valor" pode ler a íntegra do texto clicando aqui: "Culpe os economistas, não a economia". Trechos: "À medida em que o mundo ruma atabalhoadamente para a beira de um precipício, críticos do ofício da economia vêm levantando questionamentos sobre a sua cumplicidade na crise atual. E com razão: os economistas têm muito pelo que responder. Foram os economistas os que legitimaram e popularizaram a ideia de que um setor financeiro sem amarras representava um benefício para a sociedade. Eles falavam quase de maneira unânime quando se tratava dos "perigos da regulamentação excessiva do governo". Seu conhecimento técnico - ou o que se assemelhava a isso à época - lhes conferiu uma posição privilegiada de formadores de opinião, bem como acesso aos corredores do poder. A falta não reside no campo da economia, mas no campo dos economistas. O problema é que os economistas (e os que lhes dão ouvidos) ficaram excessivamente confiantes nos seus modelos preferidos do momento: os mercados são eficientes, a inovação financeira transfere risco aos melhor capacitados para arcá-lo, a auto-regulamentação funciona melhor e a intervenção do governo é ineficaz e prejudicial. A macroeconomia pode ser o único campo aplicado na disciplina de economia no qual mais treinamento aumenta a distância entre o especialista e o mundo real, devido à sua dependência de modelos altamente irreais, que sacrificam a relevância em favor do rigor técnico. Lamentavelmente, em vista das necessidades atuais, os macroeconomistas fizeram pouco progresso em planos de ação desde que John Maynard Keynes explicou como as economias podem ficar atoladas no desemprego devido à demanda agregada insuficiente. Alguns, como Brad DeLong e Paul Krugman, dirão que o campo já regrediu. "
Escrito por Vinicius Torres Freire às 03h14
"Desespero" nos EUA
Paul Krugman abre um post em seu blog com a expressão "sentimento de desespero" (ou "desesperança". Pelo tom do texto, o economista quis dizer algo entre desespero e desesperança). Elogia o orçamento proposto por Obama. "Mas, sobre a questão de dar um jeito nos bancos, muitos de nós estão sentindo um crescente desespero [despair]". Krugman diz que, apesar dos discursos "corretos", Obama, Geithner (secretário do Tesouro) e cia. não estão fazendo o que é preciso. O Nobel e colunista do "New York Times" subestimam o problema, fazem muito pouco e com atraso, não estão sendo claros e honestos sobre o custo verdadeiro do rombo. Literalmente: "O presente plano [Geithner-Obama] parece ser o de manter os bancos semivivos, dando garantias implícitas aos passivos e pingando dinheiro quando preciso, enquanto anunciam que os bancos estão bem capitalizados _e esperam que as coisas melhorem. Tudo como no Japão, de novo. E o resultado será provavelmente uma crise profunda e duradoura". Mais de Krugman em seu blog. Sobre a "japanização" dos EUA, também em seu blog, ler o post "Turning Japanese".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 16h10
Picadinho liberal, por Brad DeLong
Brad DeLong faz um rápido picadinho dos economistas liberais, de hoje, de ontem e de anteontem. Está no seu divertido blog, algo "slob" como ele, um "sblog" (http://www.j-bradford-delong.net/). DeLong é professor de economia na Universidade da Califórnia (Berkeley) e trabalhou no Tesouro durante o governo Clinton. Não vai dar tempo de traduzir e vai um trecho em inglês mesmo (desculpem os leitores que reclamam de textos em inglês, mas, se tiver de traduzir tudo, não faço outra coisa):
"The near-consensus of economists was at least crypto-classical liberalism, along the lines of Colbert's exchange with Legendre in the reign of Louis XIV:
'What do you need to help you?' asked Colbert. 'Leave us alone' answered Legendre. ('Que faut-il faire pour vous aider?' asked Colbert. 'Nous laisser faire' answered Legendre).
Then starting in the late nineteenth century liberal economists were mugged by reality:
* On issues of income distribution -the Gilded Age- and how laissez-faire did not appear to be producing the reasonable distribution of the fruits of the social division of labor that economists had all expected...
* On issues of macroeconomic stability -the Great Depression was a big shock- and the argument that the Great Depression arose because markets were not free enough never acquired legs or force outside the theological...
* On issues of the persistence of 'unfree' labor -Adam Smith expected the imminent collapse of slavery, but ending slavery took a war, and the market economy in America did not appear to be doing very much at all to undermine Jim Crow...
* Last and most recently, the fear of the increasing importance of 'market failure' -the coming of the 'information economy'- caused economists to worry that we were moving from a Smithian to a Schumpeterian world, and even if the presumption of laissez faire works for a Smithian world it is not at all clear that it works for a Schumpeterian world...
The upshot is what Keynes said eighty-four years ago:
"It is not true that individuals possess a prescriptive 'natural liberty' in their economic activities. There is no 'compact' conferring perpetual rights on those who Have or on those who Acquire. The world is not so governed from above that private and social interest always coincide. It is not so managed here below that in practice they coincide. It is not a correct deduction from the principles of economics that enlightened self-interest always operates in the public interest. Nor is it true that self-interest generally is enlightened; more often individuals acting separately to promote their own ends are too ignorant or too weak to attain even these. Experience does not show that individuals, when they make up a social unit, are always less clear-sighted than when they act separately. We cannot therefore settle on abstract grounds, but must handle on its merits in detail what Burke termed "one of the finest problems in legislation, namely, to determine what the State ought to take upon itself to direct by the public wisdom, and what it ought to leave, with as little interference as possible, to individual exertion"...
One way to understand Keynes's General Theory is that Say's Law is false in theory but that we can build the running code for limited, strategic interventions that will make Say's Law roughly true in practice. The modern Ametican liberal economist's view of libertarianism is much the same: libertarianism is false in theory, but it is very much worth figuring out a set of limited, strategic interventions that will make the libertarian promises roughly true in practice.
And let me stop there."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h48
Delfim Netto sobre juros e seca de crédito
Delfim Netto escreve hoje (06/01) no "Valor" um artigo com o título "A solução da crise". Na maior parte do texto, o ilustre professor faz mais uma de suas sínteses sobre o que acredita serem os princípios da política econômica "talvez quase ótima" (já que ele diz não podemos saber se tal política é de fato "ótima"). Sobre a solução da crise, ele é rápido e vai direto ao ponto: no centro do mundo, tal crise vai continuar enquanto o nível de capital dos bancos estiver baixo. Ok.
E no Brasil? O aperto mundial de crédito levou os bancos brasileiros a serem mais, digamos, prudentes, o que no fim das contas provoca um aumento de juros que talvez nos leve a um ciclo vicioso (parada brusca na economia, mais inadimplência, mais retração dos bancos etc). Delfim então parece dizer que a Selic perde efetividade, dado o nível agora ainda maior das taxas de juros na ponta, para o consumidor. De resto, o problema do custo do crédito para o consumidor (aqui e lá fora) não será reduzido enquanto os bancos estiverem "sentados sobre o próprio capital" (na expressão da Alan Blinder, ex-vice do Fed, citado num post de ontem deste blog, O "medo catatônico" dos bancos: EUA e Brasil). A taxa perseguida pelo BC (a Selic) serviria apenas para aumentar o custo de financiamento da dívida pública e reduzir o investimento público. Delfim não o diz explicitamente, mas parece pregar o corte rápido e forte da taxa Selic.
Assinante pode ler o texto na íntegra aqui.
Abaixo, trechos essenciais do artigo:
"O processo iniciado no exterior contém um elemento perverso porque atinge mesmo os sistemas financeiros mais hígidos (como é o caso brasileiro), através da redução do 'funding' com empréstimos internacionais e da redução das linhas de crédito do comércio externo. As instituições financeiras tentarão ajustar a sua 'alavancagem' aumentando o seu capital, as tarifas e suas taxas de juros. O paradoxo é que se tentarem ajustá-la através de uma rápida redução do crédito, racionando seus empréstimos, produzirão uma dura queda do consumo e do investimento privado que atingirá a economia real, deteriorando ainda mais a qualidade dos seus créditos.
"No curto prazo o racionamento do crédito promoverá um aumento da taxa de juros na ponta final, independentemente da taxa Selic que apenas continuará a aumentar os gastos públicos com juros que poderiam ser dirigidos ao investimento. O Banco Central pode e deve continuar a fazer o que está fazendo: dar liquidez e acomodar a alavancagem dentro dos critérios de Basiléia (que em outra situação poderiam ser discutidos). Mas é preciso entender que o problema só será resolvido satisfatoriamente com um aumento do capital do sistema financeiro.
"Até o final de 2008 ele tinha reconhecido um prejuízo efetivo e potencial no mundo da ordem de US$ 750 bilhões e aumentado o seu capital na mesma proporção, com pouco mais de 1/3 de recursos fornecidos pelos Tesouros... "
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h06
O mundo abaixo de zero: Brad Setser
Para quem se interessa, mais um artigo da série "o mundo abaixo de zero", sobre o acontecimento histórico, o ZIRP ("zero-interest-rate-policy"). Agora é a vez de Brad Setser, blogueiro economista de primeira: seu comentário sobre a decisão do Fed pode ser lido aqui.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h22
Como está na moda, Dani Rodrik, o ortodoxo heterodoxo professor de economia política da escola de governo de Harvard, faz um exercício elementar de aritmética macroeconômica para dar um palpite ponderado sobre o efeito do estímulo fiscal na atividade econômica. O exercício é mesmo muito rudimentar, mas levanta um debate interessante sobre o quanto pode se tornar atrativo, para governantes, recorrer a algum protecionismo como medida para ressuscitar a demanda doméstica. A quem interessar possa, segue o link para o texto do blog de Rodrik.
Os economistas Susan Woodward e Robert Hall (blog "Financial Crisis and Recession") mais ou menos detonam quem dá muita bola para estímulos fiscais (via aumento de gastos). Gregory Mankiw, professor de Harvard, ex-integrante do governo Bush e autor de um popular manual de introdução á macroeconomia, discute o texto deles, além de estudos da dupla Romer & Romer etc, em texto do seu blog.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h50
A vida num mundo abaixo de zero
O agora exótico mundo da política monetária americana anda cada vez mais estranho. A meta da taxa de juros de referência do Fed (a dos "Fed funds"), o BC americano, estava oficialmente em 1%. Na última semana, porém, a taxa efetiva estava abaixo da meta, o que vem ocorrendo faz meses _mas na semana que passou estava MUITO abaixo da meta. Flutuava em torno de 0,14% (é como se a Selic estivesse em torno de 2%, sendo a meta 13,75%, mal comparando).
Ontem, o Fed não apenas deu enorme talho na meta da taxa de referência, como criou uma esquisita banda próxima de zero (de 0 a 0,25%). Ou seja, a taxa "básica" efetiva deve cair para zero mesmo. O pobre blogueiro pede desculpas aos leitores (e eventual auxílio), mas ainda está a pensar sobre como vão ficar as operações de mercado aberto e no mercado monetário com taxas próximas de zero.
Para tornar o ambiente ainda mais esquisito, o IPCA deles (o CPI, índice de preços ao consumidor) veio muito abaixo de zero outra vez, em novembro. A taxa anual caiu de 3,8% para 1,1%. Como, a taxa "básica" não pode cair abaixo de zero, quanto maior a deflação, maior a taxa real de juros. Isto é, não apenas o instrumento básico da política monetária (a taxa de curto prazo) foi para o vinagre. A política monetária baseada apenas na meta da taxa de juros fica fora do controle do Fed se houver de fato deflação: o Fed não tem mais como baixar os juros e, de resto, os juros reais sobem. Obviamente eles não vão ficar parados vendo o caldo entornar. Mas vai ser interessante de ver o que eles vão ter de inventar para trabalhar nesse cenário marciano-japonês de juros zero e deflação.
Num para variar excelente artigo de hoje a respeito da política monetária em ambiente deflacionário e com taxas de juros zeradas, Martin Wolf (o colunista do "Financial Times") elenca as alternativas para o Fed e, estranhamente, está otimista em relação aos perigos da deflação. Para Wolf, o problema mesmo será a grande inflação, daqui a alguns anos.
A quem interessar possa, segue um trecho traduzido e a íntegra do original, que de fato vale a pena ler (15 minutos de uma bela aula de política monetária em ambientes exóticos). É grátis: "'Helicopter Ben' confronts the challenge of a lifetime"
"Então, o que os bancos centrais podem fazer [diante da deflação e juros zero]? Eles podem baixar as taxas de longo prazo comprando à vontade títulos de longo prazo, ou prometer que as taxas de curto prazo permanecerão baixas por um longo período. Eles podem emprestar diretamente para o setor privado. Na verdade, eles podem comprar qualquer ativo do setor privado, no preço e na quantidade que eles desejarem. Podem comprar ativos estrangeiros. E podem financiar o governo na escala em que eles julgarem necessário.
Como alternativa, as autoridades fiscais podem permitir um déficit do tamanho que desejarem e, então, emitir títulos de curto prazo que o banco central terá de comprar, a fim de manter as taxas de juros baixas. No horizonte de uma taxa de juros zero, as políticas monetária e fiscal se tornam uma coisa só. Acaba o direito exclusivo do banco central de executar a política monetária [grifo deste blogueiro]. Mas o inverso também é verdade: o banco central pode mandar dinheiro para qualquer cidadão."
Escrito por Vinicius Torres Freire às 21h37
Os clintonianos e a esquerda de Obama
Robert Rubin foi secretário do Tesouro de Bill Clinton (1995-99). Está no conselho do Citigroup e é um dos líderes dos economistas "clintonianos", vários deles cotados para assumir postos de chefia no governo de Barack Obama, segundo especulações da imprensa americana. Jared Bernstein foi vice-economista chefe do departamento do Trabalho quando Robert Reich era secretário do Trabalho, também no governo Clinton. Trabalha no Economic Policy Institute (fundado por Reich e Lester Thurow, entre outros), dedicado a pesquisas sobre trabalho, claro. É da "ala esquerda" dos democratas e foi conselheiro da campanha de Obama. Nos últimos meses da campanha, os "clintonianos" ganharam espaço junto ao agora presidente eleito. Num artigo publicado no "New York Times" ("No More False Economic Choices"), Rubin e Bernstein discutem convergências e discordâncias entre as alas "centrista" e de "esquerda" do Partido Democrata _a julgar pelo texto, as diferenças não parecem grandes.
Escrito por Vinicius Torres Freire às 22h32
Um Nobel critica a religião keynesiana
Edmund Phelps, Nobel de economia em 2006 e professor da Universidade Columbia, critica em termos quase leigos o culto acrítico das idéias de Keynes e as soluções da "prateleira keynesiana" para a crise atual. Dez ou quinze minutos de leitura, apenas. O artigo saiu no "Financial Times" de 4 de novembro ("Keynes had no cure for slumps").
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h53
Um homem de Obama e Milton Friedman
Lawrence Summers, 53, é supercotado para ser o secretário do Tesouro de Barack Obama, como se sabe (o cargo equivale mais ou menos ao de ministro da Fazenda). Summers foi secretário do Tesouro de Bill Clinton (julho de 1999 a janeiro de 2001) e era um dos conselheiros da campanha de Obama. Em sua ascensão no governo Clinton, foi meio apadrinhado por Robert Rubin, 70, ora no Conselho do Citigroup. Rubin, por motivos óbvios ("gato gordo de Wall Street), não parece ter chance de assumir o posto que também ocupou no governo Clinton (janeiro de 1995 a julho de 1999). De resto, Rubin se uniu a Alan Greenspan na campanha que derrubou tentativas de regulação do mercado financeiro.
O que pensa Summers? Coisa demais para caber num modesto blog. Mas, a título de introdução, vale ler um didático artigo que publicou em 2006 no "New York Times", um elogio a Milton Friedman, o decano moderno de quase todos os liberais ("The Great Liberator").
Summers conta que foi educado como "keynesiano" e começa assim o seu texto: "Se John Maynard Keynes foi o economista mais influente da primeira metade do século 20, Milton Friedman foi o economista mais influente da segunda metade. Não faz muito tempo, éramos todos keynesianos ("Sou um keynesiano", foi a frase famosa de Richard Nixon em 1971). Do mesmo modo, qualquer democrata [ie, adepto do Partido Democrata] honesto admitirá que agora somos todos friedmanianos."
Summers encerra o artigo apontando suas diferenças com Friedman. O decano do liberalismo teria cometido alguns erros econômicos, "deu muito pouco peso a questões de justiça social e era excessivamente cínico a respeito da possibilidade de a ação coletiva fazer as pessoas melhorarem de vida". Mas Summers diz concordar com Friedman no essencial (no que concordaria quase qualquer economista padrão): "a política monetária pode direcionar ["shape"] a economia mais do que a política fiscal; alta e prolongada inflação não leva à prosperidade e pode levar a padrões de vida mais baixos; autoridades econômicas não têm a capacidade de controlar ["fine-tune"] as flutuações da economia com precisão".
Depois da crise, em artigo no "Financial Times", de outubro passado ("The pendulum swings towards regulation"), Summers dizia, entre outras coisas, que "o pêndulo agora vai _e deveria ir_ na direção de mais regulação, de uma atuação maior do governo no sentido de salvar o sistema de mercado de seus excessos e inadequações".
Escrito por Vinicius Torres Freire às 17h33
A república dos bancos centrais
A quem interessar possa, Bradford DeLong escreve na "American Prospect" de outubro uma curtíssima e inteligente história política dos bancos centrais nos EUA e no Reino Unido: "A República do Banqueiro Central". Sim, parece chato, mas não é, não. DeLong é um economista da Universidade da Califórnia (Berkeley), ex-subsecretário assistente do Tesouro no governo Clinton, um tipo meio "slob" mas divertido, que chama McCain de desonesto para baixo e não tem papas na língua em geral (costuma desancar jornalistas com frequência em seu blog, em posts como "a espiral da morte" de tal ou qual jornal). O blog de DeLong: http://www.j-bradford-delong.net/movable_type/
Escrito por Vinicius Torres Freire às 18h38
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PERFIL
Vinicius Torres Freire é colunista da Folha, onde está desde 1991. Foi Secretário de Redação do jornal, editor de Dinheiro, editor de Opinião, correspondente em Paris, editor de Ciência e editor de Educação
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